A fantasia que eu lhe confessei e que nunca poderei esquecer
Há confissões que só podem ser feitas na escuridão, quando a outra pessoa não consegue ver seu rosto. A minha guardei por quase um ano, escondida entre as páginas de um caderno que nem meu marido sabia que existia. A primeira vez que a disse em voz alta foi com a luz apagada, falando para o teto, fingindo que não me importava se ele me ouvia ou não.
Bruno não se mexeu durante um tempo. Pensei que tivesse adormecido. Depois senti a mão dele procurando a minha sob os lençóis e soube que tinha ouvido tudo.
— Você tem certeza?
Eu ainda não tinha certeza de nada. Só sabia que havia meses eu acordava encharcada, com a boceta latejando sob o pijama e as coxas pegajosas, sonhando a mesma coisa: dois homens e eu, quatro mãos amassando meus peitos e abrindo minhas pernas, duas rolas duras esperando a vez, a boca dele em algum ponto do quarto, o ar denso, a sensação de estar entregue a algo que eu não podia controlar. Não era uma fantasia limpa nem romântica. Era crua, suja, com porra e saliva e palavras feias ditas ao ouvido, e por isso me dava medo de dizer.
— Sim — murmurei —. Mas não sei se você está.
Bruno se virou e me olhou por um longo tempo na luz que entrava pela veneziana. Estávamos juntos havia oito anos. Eu tinha aprendido a ler cada microexpressão do rosto dele. Naquela noite havia uma que eu nunca tinha visto antes.
— Me dá uns dias.
***
Os dias viraram duas semanas. Não voltamos a tocar no assunto, mas algo tinha mudado na casa. Eu notava isso na forma como ele me olhava quando eu trocava de roupa, em como ficava em silêncio quando eu ria com os amigos dele, na tensão nova que aparecia quando Damián e Mateo vinham beber alguma coisa às sextas-feiras.
Eram os dois amigos mais antigos dele. Colegas da faculdade, aqueles tipos que entram na cozinha sem bater e abrem a geladeira como se morassem ali. Damián era o mais alto, calado, uma daquelas presenças densas que ocupam mais espaço do que deveriam. Mateo era o oposto: falante, riso fácil, um olhar que não escondia muito bem o que pensava quando me via, nem como os olhos dele desciam para meus peitos quando eu me inclinava para lhe servir uma cerveja.
Não fui eu quem os escolheu. Foi Bruno quem, numa noite, depois que eles foram embora, me perguntou:
— Se você tivesse que escolher, quem seriam?
Eu ri, nervosa, fugindo da resposta. Mas o silêncio foi tão eloquente quanto qualquer nome que eu pudesse ter dito.
***
Marcamos o encontro para um sábado de outubro. Bruno falou com eles numa quarta-feira. Nunca perguntei o que ele disse exatamente. Só sei que Damián mandou naquela mesma noite uma mensagem curta para o meu celular: “Estamos onde você quiser estar”. Mateo acrescentou, uma hora depois: “Sem pressão. Você decide quando e como”.
Passei os três dias seguintes num estado estranho, metade euforia, metade pânico. Comprei lençóis novos, ridiculamente brancos. Depilei a boceta com uma calma cirúrgica, deixando-a lisa, sem um pelo, e passei uma hora inteira diante do espelho me olhando de todos os ângulos, imaginando como eles me veriam. Escolhi um robe de seda que não era um robe de seda sexy, mas um robe qualquer, porque eu não queria me fantasiar de nada que não fosse eu mesma. Se fosse fazer aquilo, queria fazê-lo sendo exatamente a mulher que vivia naquela casa, não uma personagem.
Quando chegaram, a campainha tocou duas vezes, como sempre. Bruno abriu a porta. Eu estava sentada no sofá, descalça, com uma taça de vinho nas mãos para que não ficasse tão evidente como meus dedos tremiam.
— Oi — disse Damián, e se sentou na minha frente.
— Oi — disse Mateo, e se sentou ao meu lado, sem me tocar.
Bruno ficou no batente, observando nós três. E entendi, com uma clareza que me fez respirar fundo, que ele tinha decidido que naquela noite seria ele quem marcaria o ritmo de fora.
***
Não começou com um gesto brusco. Começou com uma conversa. Falamos um pouco de coisas bobas: do show a que tínhamos ido no verão, de uma viagem que nenhum dos três ainda tinha feito, de um livro que Damián tinha me recomendado meses antes e que eu tinha lido inteiro sem me atrever a comentar com ele. Mateo apoiou a mão no meu joelho no meio de uma frase e a deixou ali como se nada fosse, e eu deixei que ficasse. Aos poucos essa mão foi subindo, tateando por baixo da barra do robe, dedos ásperos deslizando pela parte interna da coxa até roçar minha virilha. Senti o calor quando ele tocou pela primeira vez a umidade entre minhas pernas, com a ponta de um dedo, apenas uma carícia, e tive de morder o lábio para não gemer no meio da sala.
— Você está encharcada — disse Mateo em voz baixa, quase no ouvido —. Caralho.
Damián me olhava do outro sofá sem piscar, e a braguilha dele marcava duro contra o tecido da calça.
Quando Damián se levantou e me estendeu a mão, não disse nada. Fui atrás dele até o quarto. Mateo veio atrás. Bruno fechou a porta e se sentou na poltrona do canto, a mesma em que lia nas manhãs de domingo.
— Olha só pra mim — disse Bruno do canto dele.
E obedeci.
Os olhos dele foram minha âncora durante tudo o que veio depois. Quando Damián me beijou pela primeira vez — devagar, quase educadamente, como pedindo permissão, e depois enfiando a língua até o fundo da minha boca enquanto apertava minha nuca com uma mão firme — mantive os olhos cravados nos de Bruno. Quando Mateo deslizou o robe dos meus ombros e o deixou cair no chão sem fazer barulho, me deixando nua entre os dois, com os peitos à mostra e os mamilos já duros como pedra, também não desviei o olhar. Quando as duas bocas começaram a me percorrer ao mesmo tempo, uma chupando meu pescoço e descendo até a clavícula, outra se fechando sobre um peito e puxando o mamilo com os dentes, foi Bruno quem me fez um sinal quase imperceptível com a cabeça para que eu respirasse.
Esse sinal, esse gesto pequeno e cúmplice, foi o que me destruiu. Não o calor de quatro mãos no meu corpo, não as bocas se alternando sobre meus peitos e meu pescoço, não o peso de Damián quando ele me empurrou suavemente sobre o colchão. Foi saber que o homem com quem eu dormia havia oito anos estava olhando tudo aquilo e, em vez de me odiar, estava cuidando de mim.
***
Caí de costas sobre os lençóis brancos e eles se moveram em cima de mim com uma coordenação que não tinham ensaiado. Mateo se posicionou de um lado e chupava um dos meus peitos com a boca aberta, dando lambidas longas ao redor do mamilo antes de sugar com força, enquanto com uma mão beliscava o outro. Damián se ajoelhou entre minhas pernas, as abriu me segurando por baixo dos joelhos e ficou um instante olhando minha boceta depilada, brilhando já da minha própria umidade.
— Que coisa linda — murmurou, e baixou a cabeça.
A língua dele foi direto ao meu clitóris, sem rodeios, sem prólogo. A primeira lambida arqueou minhas costas do colchão. Mateo aproveitou para meter meu mamilo inteiro na boca e morder com cuidado enquanto eu gemia alto pela primeira vez naquela noite. Damián estava comendo minha boceta como se esperasse por aquilo havia meses: a língua larga subindo da entrada até o clitóris, sugando os lábios, enfiando dois dedos em mim e curvando-os para cima enquanto continuava me lambendo sem parar.
— Olha pra mim — lembrou Bruno da poltrona, com a voz rouca.
Ergui a cabeça e ali estava ele, com as calças abertas e a rola dura para fora, segurando-a inteira com a mão direita, se masturbando devagar enquanto nos olhava. Ver meu marido se punhetando enquanto via o amigo dele me chupar a boceta e o outro devorar meus seios foi o que me fez gozar pela primeira vez. Foi um orgasmo brusco, sem aviso, que explodiu debaixo da boca de Damián e me sacudiu inteira. Escapou de mim um grito que eu não reconheci como meu, e Damián não parou: continuou lambendo enquanto eu tremia, prolongando aquilo até que precisei afastar a cabeça dele com as duas mãos porque já não aguentava mais.
Mateo riu baixinho no meu ouvido.
— Isso aqui mal começou, gostosa.
Os dois se levantaram e se despiram sem cerimônia, jogando a roupa no chão. Damián tinha uma rola longa e grossa, levemente curvada para cima, com a glande avermelhada e uma gota de líquido já aparecendo na ponta. Mateo tinha uma mais curta, porém mais grossa, tão grande que engoli em seco ao ver. Os dois se aproximaram da cama ao mesmo tempo, um de cada lado, e não foi preciso ninguém explicar nada.
Mateo subiu no colchão e me trouxe a rola até o rosto. Abri a boca e ele a meteu devagar, deixando primeiro a glande na minha língua e depois empurrando até o fundo. Comecei a chupá-la com fome, com as duas mãos, movendo a cabeça num ritmo que ele marcava puxando meu cabelo. Tinha gosto de sal, pele, homem novo. Enquanto eu chupava, Damián se colocou outra vez entre minhas pernas e esfregou a rola na minha boceta aberta, sem entrar, passando a glande para cima e para baixo sobre o clitóris.
— Enfia logo — implorei, soltando a rola de Mateo por um segundo —. Por favor, enfia.
Damián me olhou nos olhos, sorriu de leve e me enterrou de uma só vez até o fundo.
Gritei. A sensação de estar preenchida por um homem diferente do meu, com Bruno nos olhando do canto, me atravessou como uma descarga. Damián começou a me foder com um ritmo lento e profundo, me puxando quase inteira para fora e voltando a me meter até o fim, e eu abri a boca outra vez para engolir a de Mateo. Os dois me penetravam ao mesmo tempo, um na boca, outro na boceta, e eu era uma coisa aberta e cheia sobre a qual caíam as mãos de dois homens estranhos e os olhos do meu.
As trocas foram mudando. Damián saiu de mim e fez um gesto para Mateo, que retribuiu com um sorriso. Mateo se deitou de costas e eu subi em cima dele, enfiei sua rola grossa na minha boceta com as duas mãos, sentindo como ela me abria por dentro de um jeito diferente, mais largo, mais pesado. Comecei a cavalgar, apoiando as mãos no peito dele, enquanto Damián se pôs atrás de mim, de joelhos no colchão. Senti as mãos dele abrindo minhas nádegas e depois algo úmido — saliva, muita saliva — caindo entre elas.
— Posso? — ele perguntou ao meu ouvido.
— Pode — disse eu, sem pensar —. Devagar.
A rola de Damián empurrou contra o cu com paciência, me alargando centímetro por centímetro. Precisei me agarrar ao peito de Mateo, que tinha parado de se mover debaixo de mim. Quando a senti entrar inteira, fiquei quieta por alguns segundos, com os dois dentro, com a sensação impossível de estar duplamente cheia, respirando pela boca. Depois Mateo voltou a se mover por baixo, Damián acompanhou o ritmo de trás, e os dois me foderam ao mesmo tempo com uma coordenação que me fez perder a cabeça.
— Caralho, olha pra ela — ouvi Mateo ofegar —. Ela está tomando nós dois, porra.
— Ela está gozando de novo — disse Damián, com a voz partida —. Está gozando de novo.
E era verdade. Outro orgasmo, mais longo, mais fundo, me sacudiu de cima a baixo enquanto eles continuavam me socando. Gritei contra o ombro de Mateo, mordendo-o sem querer, enquanto Damián segurava minhas coxas com as duas mãos e não parava de me meter.
Bruno trocou de lugar duas vezes. Primeiro se levantou e veio até a beira da cama, ainda com a rola dura na mão. Depois se ajoelhou ao lado, já sem se masturbar, e afastou meu cabelo do rosto com uma ternura que contrastava com todo o resto. Ele não entrou. Não queria entrar. Queria me ver.
— Você está bem? — sussurrou em algum momento, quando os outros dois fizeram uma pausa para se olhar.
— Estou melhor do que bem — respondi, sem fôlego, com a boceta e o cu latejando cheios.
E era verdade.
Damián foi o primeiro a avisar. Saiu do meu cu, ficou de pé sobre o colchão segurando a rola e, com duas sacudidas, gozou sobre minhas nádegas e minhas costas, um jorro longo de porra quente que escorreu pelo meu lado. Mateo me tirou da boceta, me fez virar e eu abri a boca sem que ele pedisse. Ele gozou dentro, sobre minha língua, e uma parte escapou pelo canto do meu lábio. Engoli o que consegui e ele passou o polegar pelo meu queixo, me limpando, com um sorriso cansado.
— Caralho — disse, e se deixou cair ao meu lado.
***
O que veio depois eu não vou contar inteiro. Há coisas que prefiro guardar para mim. Mas digo isto: nunca tinha estado tão presente no meu próprio corpo como naquela noite. Cada centímetro de pele respondia com uma nitidez que eu não me lembrava de jamais ter sentido, nem mesmo com Bruno nos nossos melhores anos.
Damián era paciente. Tinha aquela concentração silenciosa que eu já tinha notado nas jantas, aquele jeito de não falar a menos que tivesse algo a dizer. Ele levou isso intacto para a cama. Cada movimento seu parecia estudado, não por frieza, mas por respeito: testava, esperava minha reação, decidia onde meter a língua ou os dedos ou a rola. Quando me perguntou se podia continuar, fez isso com a voz baixa e a testa encostada à minha têmpora.
— Sim — eu disse, e na minha voz havia algo que eu nunca tinha ouvido antes em mim.
Mateo era o outro lado. Riso contagiante até nos momentos impossíveis, mãos rápidas, aquela energia dele que enchia o quarto. Às vezes os três ríamos, e então as risadas sumiam e voltava a outra coisa, a densa, a que não tinha nome. Fizeram-me sentir, por um tempo muito longo, que o centro exato do quarto era eu.
***
O final não foi um final. Foi uma desaceleração. Damián se afastou primeiro, sentou-se na beirada do colchão com a coluna muito reta e respirou fundo várias vezes como se estivesse voltando de um lugar distante. Mateo se deixou cair ao meu lado, com um braço sobre os olhos, sorrindo sem olhar para ninguém.
Bruno me cobriu com o lençol sem que eu pedisse, escondendo a porra que ainda brilhava na minha barriga e nas coxas. Depois pegou minha mão, levou-a aos lábios e a beijou como se tivéssemos acabado de nos casar.
— Fica aí — disse ele, e foi para a cozinha.
Quando voltou, trouxe água para os quatro. Bebemos em silêncio por um longo tempo. Mateo foi o primeiro a falar.
— Isso não se repete — disse, e havia um sorriso na voz dele, mas também algo sério —. Ou se repete. Mas a decisão é de vocês. A gente fica onde vocês mandarem.
Damián assentiu.
— Vocês decidem.
Eles se vestiram sem pressa. Se despediram como os amigos se despedem: um abraço curto em Bruno, um beijo na minha bochecha. Damián parou na porta, me olhou uma última vez e disse, em voz baixa:
— Obrigado por confiar.
***
Quando eles foram embora, Bruno apagou as luzes e se deitou comigo. Não me perguntou como eu me sentia. Conhecia aquele meu rosto: o que eu faço quando estou processando algo que ainda não sei nomear.
Ficamos abraçados sem falar até começar a clarear pela veneziana. Eu chorei um pouco. Não de tristeza nem de arrependimento. Chorei porque tinha me sentido completamente vista por três pessoas ao mesmo tempo e porque, contra todas as expectativas, nenhum desses três olhares me fizera sentir menor.
— Você se arrepende? — perguntei por fim.
Bruno demorou a responder.
— Não. E você?
— Também não.
E eu soube, naquele momento, que aquela noite nos tinha aproximado mais do que qualquer aniversário.
***
Meses se passaram desde aquela noite. Não voltamos a repetir, pelo menos ainda não. Às vezes, quando Damián e Mateo vêm à casa às sextas-feiras, há um instante em que os quatro nos olhamos ao mesmo tempo e se faz um silêncio breve, como se uma corrente atravessasse o quarto. Depois continuamos com a cerveja e as histórias da faculdade, e ninguém diz nada.
O que mudou não foi o que aconteceu naquela noite. O que mudou foi o que entendi depois. Que eu tinha passado anos pensando que o desejo era algo que se pedia com vergonha, em sussurros, contando com que o outro me perdoasse. E que, na verdade, o desejo, quando é contado por inteiro, não precisa de perdão. Só precisa de alguém que escute sem desviar o rosto.
Bruno escutou. Bruno organizou. Bruno ficou olhando, não para me vigiar, mas para me acompanhar. Às vezes, quando acordo sozinha no meio da noite e o vejo dormindo, penso que aquela noite não foi uma traição nem uma infidelidade. Foi, quase sem querer, a confissão mais honesta que já fiz a ele.
E por isso a guardo. Não por medo. Por gratidão.