O segredo que usei a manhã inteira
Vou contar uma coisa que nunca confessei a ninguém, nem mesmo a Lorena, que dorme todas as noites ao meu lado e acha que me conhece por inteiro. Escrevo isso quase como uma forma de tirar de dentro de mim, porque desde aquela manhã de março eu não consigo parar de pensar em repetir. E, sendo sincero, enquanto digito estas linhas ainda sinto o eco daquela sensação que mudou para sempre a minha ideia de prazer.
Nessa manhã, acordei antes dela, com o corpo aceso por um sonho que já nem lembro direito. Só ficou a urgência, aquela tensão física que te empurra a procurar a pessoa que está ao seu lado. Lorena estava de costas, ainda dormindo, com o lençol enroscado nos quadris. Aproximei-me devagar, sem pensar demais, me deixando levar pelo desejo que tinha me despertado.
Toquei nela de leve, e ela, meio adormecida, respondeu com um movimento preguiçoso do quadril que me disse tudo o que eu precisava saber. Não foram necessárias palavras. Estamos juntos há anos suficientes para nos entendermos em silêncio, para saber quando um gesto significa sim. Ela me procurou com a mão, me guiou, e o que começou como uma carícia sonolenta se transformou em algo muito mais intenso.
Foram alguns minutos lentos, sem pressa, daqueles em que o mundo lá fora ainda nem existe. O quarto continuava escuro, com aquela luz cinzenta do amanhecer filtrando pela persiana. Quando terminamos, os dois ficamos um tempo deitados, respirando forte, sem dizer nada, com aquele sorriso bobo de quem começa o dia da melhor forma possível.
— Tenho que encontrar a Marta para tomar um café — ela murmurou depois, se espreguiçando —. E você, o que vai fazer?
— Os de sempre — respondi —. A farmácia, o banco, comprar alguma coisa para o jantar.
Tomamos banho juntos, sem que aquilo virasse mais nada, e ela saiu arrumada e perfumada para o encontro. Eu fiquei sozinho em casa, ainda com o corpo desperto, com aquela energia que uma transa assim não apaga por completo, mas deixa crepitando sob a pele durante horas.
***
E foi então, enquanto decidia o que vestir, que a ideia me ocorreu. Não sei bem de onde veio. Já fazia um tempo que eu explorava o prazer anal na intimidade, algo que descobri quase por acaso e que se tornou um dos meus prazeres mais privados. Eu tinha uma pequena coleção guardada no fundo do armário, numa caixa que só eu abria.
O maior de todos, um de silicone preto que eu quase não usava porque custava a me acostumar, me encarava da caixa como um desafio. E se eu saísse com ele dentro de mim?, pensei. A ideia me pareceu absurda no começo. Depois, ridícula. E então, irresistível.
Se era prazeroso usá-lo durante o sexo, raciocinei, por que não seria andando, me movendo, vivendo uma manhã qualquer com esse segredo apertado dentro de mim? A simples ideia de cruzar com vizinhos, com caixas de supermercado, com desconhecidos na fila do banco, enquanto ninguém suspeitava de nada, me provocou um formigamento que reconheci na hora.
Não me dei tempo para me arrepender. Peguei o lubrificante, me preparei com cuidado, com a paciência que aquilo exige, e o introduzi devagar até ceder e ficar alojado por completo. Houve um instante de pressão, de incômodo, e depois uma sensação de plenitude densa, constante, que me arrancou um suspiro longo. Fiquei imóvel por um momento, me adaptando, sentindo meu corpo aceitá-lo.
Terminei de me vestir com um jeans largo e uma camisa por fora, ampla o suficiente para disfarçar qualquer coisa. Me olhei no espelho da entrada. Por fora eu era o mesmo homem de sempre, o vizinho do terceiro andar que cumprimenta todo mundo, o marido que vai fazer compras numa quinta-feira de manhã. Por dentro eu era outra pessoa completamente diferente.
***
Desci as escadas com um cuidado exagerado, agarrado ao corrimão, medindo cada degrau. No começo eu ia tenso, vigiando cada movimento, com dois medos brigando na minha cabeça: o de aquilo se deslocar e sair no meio da rua, ou, ao contrário, algum movimento brusco empurrá-lo ainda mais para dentro. Eu caminhava como se estivesse pisando em gelo, com passos curtos e controlados.
Mas, poucos metros depois, assim que atravessei o portão e o ar fresco da manhã bateu no meu rosto, esses medos começaram a se dissolver. E, em seu lugar, apareceu algo que eu não esperava com tanta intensidade: a cada passo que eu dava, aquela pressão interna roçava exatamente o ponto certo, aquela região que conheço tão bem, e me percorria uma onda de prazer surdo, contido, que me obrigava a disfarçar a respiração.
Era um prazer estranho, diferente de tudo. Não o do sexo urgente da manhã, mas um prazer lento, constante, que não buscava uma explosão e sim permanecia ali, latente, me acompanhando em cada movimento. Curiosamente, eu não tive uma ereção completa; ficava pela metade, num estado de excitação permanente que não chegava a transbordar. Era como caminhar na beira de alguma coisa, sem cair nunca de fato.
A primeira parada foi a padaria da esquina. Cumprimentei Rosa, a atendente de sempre, uma mulher mais velha que me conhece desde que me mudei para o bairro, e pedi meu pão de todo dia com a voz mais normal que consegui fingir. Ela sorriu, perguntou pela Lorena, e trocamos duas frases sobre o tempo. Eu assentia, respondia, completamente normal por fora, enquanto por dentro sentia aquela pressão deliciosa a cada gesto.
Se você soubesse, eu pensava olhando para ela. Se soubesse o que estou usando agora.
E aí estava o verdadeiro prazer, eu descobri. Não era só o físico. Era o segredo. Era estar no meio das pessoas, cercado por gente que me conhecia, que me tratava com aquela familiaridade de bairro, sem que ninguém desconfiasse do que eu escondia debaixo da roupa. Quanto mais cotidiana era a cena, mais o contraste me excitava.
***
Da padaria fui para o banco. A fila estava longa e tive de esperar em pé por um bom tempo, o que, na minha situação, virou um suplício delicioso. Toda vez que avançava um passo para andar na fila, a pressão interna se reacendia. Eu precisava controlar a expressão, manter a cara entediada e neutra de qualquer um que resolve assuntos numa quinta-feira de manhã, enquanto uma corrente de prazer subia pela minha coluna.
À minha frente havia uma mulher de uns quarenta anos, elegante, com um casaco claro e o cabelo preso. Atrás, dois aposentados comentavam o jogo de domingo. E eu no meio, segurando a respiração, fingindo olhar o celular, vivendo uma experiência íntima e intensa no lugar mais sem graça do mundo, sob a luz branca e fria de uma agência bancária.
Quando enfim chegou minha vez, fiz o que tinha de fazer no caixa, assinei um papel, dei bom-dia. Minha voz não tremeu nenhuma vez. Eu começava a dominar a situação, a desfrutá-la com uma calma que não tinha sentido ao sair de casa. O nervosismo inicial se transformara por completo numa espécie de euforia tranquila, secreta, que era só minha.
A farmácia foi parecida. Comprei o que precisava, troquei duas frases com o farmacêutico e voltei para a rua com aquela sensação de estar protagonizando uma história que ninguém mais podia ler. Cruzei com vizinhos, com uma mãe empurrando um carrinho, com um grupo de garotas saindo de uma cafeteria rindo. Em cada encontro, o mesmo formigamento, a mesma descarga silenciosa.
***
Decidi prolongar a caminhada além do necessário. Dei uma volta maior, entrei numa lojinha de bairro em que eu não tinha nada para comprar só pelo prazer de andar entre as prateleiras sentindo aquilo a cada passo. Peguei algumas coisas de que não precisava, paguei, conversei com a atendente. Cada minuto que passava aumentava minha ousadia e, ao mesmo tempo, um pouco de prudência que não chegava a ir embora.
Porque havia algo que eu não podia ignorar: aquela região não se lubrifica sozinha, e eu sabia que não era uma boa ideia forçar demais o tempo. A sensação continuava prazerosa, mas eu começava a notar que meu corpo pedia descanso, que eu estava levando o experimento ao limite do razoável. A excitação me empurrava para continuar; o bom senso me dizia que já tinha sido o suficiente para a primeira vez.
No total, passei uma hora e vinte minutos fora de casa, percorrendo meu bairro de sempre como se o visse pela primeira vez. Cada esquina conhecida, cada rosto familiar, cada gesto rotineiro tinha ganhado uma nova camada, uma vida dupla que só eu conhecia. Voltei para casa pelo caminho mais longo, saboreando os últimos metros, e subi as escadas com o mesmo cuidado com que tinha descido.
Já dentro, com a porta fechada atrás de mim, apoiei-me por um instante na parede e soltei o ar que parecia estar prendendo a manhã inteira. Tirei aquilo devagar, com cuidado, e fiquei sentado na beira da cama por um tempo, ainda tremendo um pouco, repassando cada momento, cada fila, cada cumprimento, cada olhar inocente que tinham me dirigido sem saber de nada.
***
Lorena chegou ao meio-dia com sacolas de compras e um monte de coisas para me contar sobre o café com a Marta. Eu a escutei, assenti, acompanhei a conversa com naturalidade e guardei meu segredo para mim. Não por vergonha, mas porque entendi que parte do que fazia tudo aquilo ser tão especial era justamente isso: ser meu, só meu, uma pequena ilha de prazer escondida dentro de uma manhã completamente comum.
Desde então, não paro de pensar em repetir. Queria encontrar uma forma de prolongar a experiência sem riscos, de deixá-la mais confortável, de conseguir andar por mais tempo com essa companhia secreta sem temer os incômodos. Talvez eu procure algo diferente, algo que me permita esquecer a prudência e me entregar por completo à sensação.
Enquanto isso, continuo sendo o vizinho que cumprimenta na padaria, o marido que faz as compras, o homem normal de um bairro normal. Mas agora, toda vez que saio para a rua, há uma parte de mim que se lembra daquela manhã de março e sorri por dentro, sabendo que o prazer mais intenso pode se esconder nos lugares mais cotidianos, à vista de todos, onde ninguém pensa em procurar.
E confesso que não será a última vez.





