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Relatos Ardientes

Os amantes que escondemos no armário naquele verão

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A villa «Las Buganvillas» cheirava a mar, a madressilva e a culpa. Estava empoleirada sobre um penhasco na Costa de la Luz, com dois andares, quatro quartos e uma varanda da qual se via o Atlântico até onde a vista alcançava. Silvia e Marta, amigas desde os quinze anos, tinham convencido os maridos a alugá-la para um «fim de semana romântico». O que os maridos não sabiam era que o romance seria muito diferente do que imaginavam.

Silvia tinha quarenta e oito anos, quadris generosos, o cabelo escuro com alguns fios brancos que se recusava a tingir e a habilidade de mentir com um sorriso que desarmava até o mais desconfiado. Era casada com Roberto, representante comercial de maquinaria agrícola que colecionava chaveiros de feiras e acreditava que senso de humor consistia em contar a mesma piada de casamento toda vez que havia mais de três pessoas reunidas. Na cama, Roberto era pontual, breve e educado, três adjetivos que Silvia acabara associando a consultas ao dentista.

Marta, quarenta e seis, menorzinha e com uma desenvoltura desconcertante para sair de situações comprometedores, levava doze anos casada com Ernesto, mecânico aposentado antes do tempo que vivia para o atletismo de sofá: gritar nomes de jogadores enquanto via futebol com uma cerveja na mão. Ernesto apalpava seus peitos por cima da camisola duas vezes por mês, sempre aos sábados, sempre antes de dormir, sempre sem tirar a roupa dela.

Na sexta-feira à tarde os maridos foram para uma embarcação alugada em Tarifa. Prometeram voltar no domingo à noite. Assim que o carro alugado desapareceu pela estrada costeira, Silvia tirou o celular.

— Eles têm duas horas, no máximo — disse —. Andrés e Sergio chegam às sete.

— Perfeito — respondeu Marta, deslizando a aliança do dedo e guardando-a na gaveta da cozinha, entre o saca-rolhas e uns palitos —. Eu cuido para que Sergio entre pela porta dos fundos. Você cuida de Andrés pela varanda. E, se alguém ligar, somos duas senhoras respeitáveis tomando aperitivo.

— Eu estou há três semanas sem foder, Marta. Se Andrés não me partir ao meio esta noite, eu começo a gritar.

— Pra mim você vem contar. Da última vez que Ernesto me fez gozar foi durante a Copa do Mundo. E nem lembro qual.

Às seis e quarenta e cinco tocou a campainha da porta dos fundos.

Sergio tinha quarenta e um anos, ombros largos, a mandíbula como esculpida a golpes de cinzel e uma garrafa de espumante na mão. Marta o arrastou escada acima e fechou a porta do quarto principal por dentro. Antes que ele pudesse largar a garrafa na mesinha de cabeceira, ela já estava de joelhos, desabotoando o cinto com os dentes cerrados.

— Nem olá nem nada — rosnou Sergio.

— Olá depois — disse Marta, e puxou as calças e a cueca dele de uma vez.

O pau de Sergio saltou para fora, já meio duro, grosso e curvado para cima, e Marta o enfiou inteiro na boca sem lhe dar tempo de reagir. Sergio soltou um arquejo baixo, agarrou a cabeça dela com as duas mãos e começou a foder a boca dela devagar, vendo como os lábios pintados dela se esticavam em torno da rola. Marta chupava com os olhos fechados, salivando, empurrando a própria cabeça para engolir mais, até que a ponta tocou o fundo da garganta e ela sentiu aquele arrepio de ânsia que a excitava como poucas coisas. Recuou um instante, respirou fundo e voltou a descer até a raiz com um som molhado que fez Sergio estremecer de cima a baixo.

— Porra, porra, porra — murmurava ele —. Você vai me fazer gozar em três minutos.

Marta tirou o pau da boca com um ploc obsceno, um fio de saliva pendendo do lábio.

— Nem pense. Quero engolir tudo depois. Agora me fode.

Ela se levantou, tirou o vestido pela cabeça e ficou de calcinha, com os seios expostos, os mamilos já duros como pedras. Sergio arrancou a calcinha dela de um puxão — literalmente, ouviu-se o estalo do tecido — e a empurrou de bruços sobre a cama. Abriu as pernas dela com o joelho, agarrou os quadris e meteu de uma única investida, até o fundo. Marta gemeu contra o edredom, um gemido longo, agudo, de mulher que está precisando disso há tempo demais.

— Assim, assim, assim — ofegava ela —. Forte, caralho, forte.

Sergio começou a metê-la num ritmo constante, puxando o cabelo dela com uma mão e cravando os dedos no quadril com a outra. O colchão rangia, a cabeceira batia contra a parede, e Marta enterrava o rosto no travesseiro para não gritar quando sentia o pau de Sergio abrindo caminho até o mais fundo. Ela estava tão molhada que ele escorregava dentro com um som líquido e contínuo, e cada estocada fazia os seios dela quicarem contra os lençóis.

Cinco minutos depois, Silvia abriu a porta de correr da varanda. Andrés, quarenta e quatro anos, com entradas elegantes e mãos que sabiam exatamente como se usar, apareceu com uma caixa de doces e um sorriso torto. Silvia o empurrou para o quarto de hóspedes sem dizer uma palavra e o jogou sobre a cama.

— A caixa, no chão — ordenou ela —. As mãos, em mim.

Ela subiu nele de pernas abertas, ainda com o vestido de verão, e segurou o rosto dele com as duas mãos para beijá-lo de boca aberta, língua lá no fundo, mordendo o lábio inferior até arrancar um pequeno gemido. Andrés levantou o vestido dela de uma vez, acima dos quadris, e descobriu que ela não usava calcinha.

— Meu Deus, Silvia.

— Estou há quatro horas sem elas, te esperando. Toca.

Andrés enfiou a mão entre as pernas dela e encontrou a buceta encharcada, os lábios inchados, o clitóris pulsando sob a ponta do dedo. Silvia soltou um gemido gutural assim que ele começou a acariciá-la, e se remexeu sobre os dedos dele como se estivesse treinando aquele movimento há meses. Andrés enfiou dois dedos de uma vez e ela se agarrou à cabeceira da cama, os peitos balançando sob o vestido.

— Chupa primeiro — disse ela —. Preciso de uma língua agora ou morro.

Silvia rolou para ficar de costas e abriu as pernas. Andrés arrancou o vestido dela por completo, atirou-o no chão e afundou o rosto entre as coxas dela. Começou a lamber a buceta com avidez, a língua achatada subindo da entrada até o clitóris, chupando os lábios, enfiando a língua dentro. Silvia se agarrava ao cabelo dele, aos seios, beliscava os próprios mamilos, mordia o travesseiro. A língua de Andrés sabia exatamente onde pressionar, em quais círculos se mover, quando sugar o clitóris entre os lábios e quando dar toques rápidos com a ponta.

— Aí, aí, aí, não para — ofegava ela —. Vou gozar, não para, porra.

Ela gozou com um tremor longo, apertando a cabeça de Andrés contra sua buceta, as pernas fechadas em torno dos ombros dele. Quando finalmente o soltou, ele tinha o queixo e as bochechas encharcados dela, brilhando sob a luz do abajur, e um sorriso de satisfação que ia de orelha a orelha.

— Agora você — disse Silvia, ainda ofegante —. Mete logo.

Andrés se despiu em três segundos e subiu sobre ela. Tinha o pau duro, comprido, ligeiramente menos grosso que o de Sergio, mas com uma curvatura que Silvia conhecia bem. Enfiou devagar, milímetro por milímetro, saboreando a cara que ela fazia ao sentir entrar. Silvia cravou as unhas nas costas dele quando sentiu que ele chegava até o fundo.

— Me fode, Andrés. Sem piedade. Como naquela vez do hotel em Cádiz.

E Andrés começou a foder como ela pedira: sem piedade, apoiando-se nos braços, empurrando com toda a anca, chocando pélvis contra pélvis num ritmo que fazia a cama inteira se mexer em direção à parede.

Na hora seguinte, a villa se transformou numa sinfonia de respirações contidas, risadas abafadas e o rangido rítmico de dois colchões de qualidade duvidosa ao mesmo tempo. No quarto principal, Sergio havia colocado Marta de quatro e a estava metendo por trás, apertando os seios dela por baixo, mordendo-lhe o pescoço e a nuca, sussurrando sacanagens em seu ouvido.

— Que rabo, porra. Que rabo você tem. Vou gozar nos seus peitos quando você mandar.

— Na boca — ofegava Marta —. Quando terminar, na boca. Eu engulo tudo.

No quarto de hóspedes, Silvia e Andrés tinham chegado à parte mais interessante da noite — ela com as mãos apoiadas na cabeceira e ele mordendo o pescoço dela devagar, o pau enterrado até o fundo, dando estocadas lentas e profundas que arrancavam de Silvia gemidos abafados — quando a voz de Roberto trovejou da sala como se viesse do fundo do mar.

— Silvia! Já chegamos, amor!

Silvia ficou imóvel, com o pau de Andrés ainda dentro. Seus pulmões esqueceram de funcionar por três segundos completos.

— Meu Deus — sussurrou ela —. O motor quebrou. Vieram de táxi desde Tarifa.

— O quê? — disse Andrés, sentando de repente e saindo dela com um estalo molhado.

— Para o armário. Agora.

Andrés, nu, com o pau ainda duro e brilhando de xana de Silvia, e com as calças na mão, entrou no armário embutido do quarto de hóspedes com a dignidade razoável que uma situação dessas permite. Silvia amarrou às pressas o cinto de um robe de veludo bordô que encontrou pendurado atrás da porta, sentindo um fio de esperma e gozo escorrer pela coxa, e saiu para o corredor justamente quando Roberto subia os últimos degraus.

— Que surpresa! — cantarolou ela com uma voz que ainda não tinha praticado o suficiente —. Já voltaram? O que aconteceu com a pesca?

— Nem um peixe filho da puta. O barco ficou sem motor. Ernesto está tirando os coolers do carro. O que você estava fazendo?

— Nada... alongamentos. Aqueles para lombalgia que a fisio me passou. Você sabe como é.

Roberto olhou para ela de cima a baixo. Silvia tinha o cabelo desgrenhado, o rosto corado, o robe mal fechado e os seios balançando por baixo, sem sustentação.

— Você está suando.

— Os alongamentos são bem intensos. A doutora diz que tem que forçar a musculatura.

***

No quarto principal, a situação de Marta era consideravelmente pior. Sergio a tinha apoiada contra a parede, a levantado do chão, ela com as pernas em torno da cintura dele, e a estava fodendo sem camisinha com estocadas curtas e rápidas quando ouviram a voz de Ernesto lá de baixo:

— Marta! Desce para me ajudar com os coolers!

Marta empurrou Sergio em direção ao banheiro privativo com tanta energia que ele precisou se segurar no toalheiro para não cair, o pau ainda pingando dela, o sêmen a meio caminho de sair.

— Para o banheiro. Entra na banheira e não faz nenhum barulho.

— Na banheira? Marta, eu estava prestes a gozar.

— Pois aguenta. Debaixo das toalhas. Anda.

Sergio, completamente nu, com a rola duríssima apontando para o teto, deitou-se na banheira vazia enquanto Marta jogava as toalhas do toalheiro por cima dele. Depois, vestiu uma camiseta enorme de Ernesto que encontrou na cadeira, enxugou o interior das coxas com uma toalha de mão, passou os dedos no cabelo e desceu as escadas com um sorriso de primeira linha, sentindo a buceta continuar latejando a cada degrau.

— Oi, meu bem — disse —. Que susto vocês me deram. Como foi a pesca?

— Um desastre. Por que você está vermelha?

— Estava fazendo pilates no quarto.

— Você odeia pilates.

— Comecei a gostar. Tem muitos benefícios para as costas.

Ernesto abriu a boca, fechou, e não disse mais nada.

***

Os maridos deixaram os coolers na cozinha, serviram duas cervejas e se instalaram no sofá com cara de náufragos. Silvia e Marta se olharam da extremidade oposta da sala como duas atrizes prestes a improvisar a cena mais complicada da carreira.

— Temos que entretê-los — sussurrou Silvia.

— Quanto tempo precisamos?

— O bastante para tirá-los daqui sem que vejam a escada. E para que eu pare de notar que tenho meio litro de esperma entre as pernas.

— Sobe e se lava, pelo amor de Deus. Eu os distraio.

Silvia desceu à sala dois minutos depois, já de calcinha, e sentou-se entre os dois homens com um sorriso de apresentadora de concurso.

— Meninos, eu estava justamente para ligar para vocês. Minha irmã Pilar vem jantar hoje. Com o namorado novo. Em menos de uma hora.

Roberto arregalou os olhos.

— Pilar? A de Valência? Hoje à noite?

— Vocês já conhecem ela, espontânea como ninguém. E a prima da Marta também vem, com o marido. São mais quatro. Melhor pedir pizzas, não?

Marta, que acabara de descer, acrescentou com total convicção:

— Assim não precisamos cozinhar. Muito mais prático para todo mundo.

Os maridos se olharam. Ernesto coçou a cabeça. Roberto assentiu com a resignação de quem está casado há anos demais.

Enquanto isso, no armário do quarto de hóspedes, Andrés tentava não respirar forte demais e também não tentava não notar que o gosto de Silvia ainda escorria pelo queixo. O armário era antigo, de madeira, e rangia a cada movimento. Cada vez que mudava o peso de um pé para o outro, soava como alguém pisando numa tábua podre no fundo de um navio. Tinha o pau meio ereto, prensado contra as calças que segurava como escudo, e uma gota espessa ameaçava cair no piso de madeira.

No banheiro do quarto principal, Sergio estava deitado na banheira vazia sob um monte de toalhas felpudas, suando em silêncio, com a rola ainda dura, pulsando no ritmo do coração, e perguntando-se em que momento exato da vida tinha tomado as decisões que o levaram até ali. A cada minuto que passava, o pau se inchava um pouco mais contra a borda da toalha, e as bolas imploravam para que alguém terminasse o que Marta havia começado.

A cada dez minutos, Marta subia com a desculpa de «procurar o carregador do celular» e abria a porta do banheiro o suficiente para sussurrar:

— Fica quieto. Ernesto está lá embaixo.

E Sergio, debaixo das toalhas, respondia levantando o polegar e, na segunda vez, agarrando o pulso de Marta e levando sua mão ao pau por baixo da felpa. Marta fechou os olhos por um instante ao sentir a carne quente e dura na palma, apertou duas vezes, bem devagar, um carinho rápido de despedida provisória, e saiu do banheiro com a respiração descompassada.

— Depois — sussurrou.

— Depois — repetiu ele.

***

A primeira crise séria veio vinte minutos depois.

Roberto anunciou que queria tomar um banho antes de chegarem os convidados imaginários. Silvia o interceptou na escada com a velocidade de uma lateral no futebol.

— A água quente acabou. Tem um problema no aquecedor.

— Eu tomo banho frio, não me importo.

— Não, não. É que tem um técnico vindo agora mesmo. Eu liguei antes.

— Um técnico de caldeira às oito da noite?

— Serviço de emergência. Muito caro, mas não tinha opção.

Roberto a olhou com a expressão de um homem casado há tempo demais para acreditar cegamente em tudo que lhe contam, mas também há tempo demais para querer descobrir a verdade.

— Então eu lavo o rosto no banheiro do corredor e pronto — disse ele, dobrando à direita.

Silvia soltou o ar devagar e subiu correndo assim que ele desapareceu.

— Andrés. Temos que te mover. Roberto pode subir a qualquer momento e esse armário range.

— Para onde eu vou?

— Para o banheiro grande do quarto principal. Com Sergio.

— Com Sergio?

— É a única opção que temos. De cueca, anda.

Andrés cruzou o corredor de cueca e meia, com o pau ainda apertando o algodão, e entrou no banheiro do quarto principal com a cautela de alguém que sabe que sua dignidade já chegou ao limite por aquela noite. Lá dentro, Sergio levantou uma toalha e o encarou da banheira. Estava nu por completo, meio coberto, e era impossível não ver que ele o tinha duro como pedra.

— Olá — disse Sergio.

— Olá — respondeu Andrés, fechando a porta com cuidado.

Sergio olhou para a virilha de Andrés, depois para a própria, depois para o teto.

— Estamos os dois iguais, não é?

— Três semanas de espera — murmurou Andrés —. Fiquei no meio.

— Eu estava a segundos.

— Está com fome? Marta me passou meio sanduíche por baixo da porta.

— Que tipo de situação é essa?

— A que escolhemos — disse Sergio, com uma filosofia que naquele momento era exatamente a última coisa que Andrés queria ouvir.

Andrés sentou no chão, com as costas na parede, e tentou pensar em coisas anti-sexo. Contas do contador. Os pés da sogra. O discurso de Natal. Não funcionava: o pau continuava latejando como se tivesse vida própria e exigisse alguma coisa, qualquer coisa, uma buceta, uma mão, a própria. Olhou para Sergio. Sergio olhou para ele. Os dois entenderam e os dois desviaram o olhar ao mesmo tempo.

— Nem fodendo — disse Andrés.

— Nem fodendo — confirmou Sergio.

Ficaram em silêncio por um minuto longo. Então, Andrés enfiou a mão por dentro da cueca, segurou o pau e começou a se masturbar devagar, olhando para o azulejo do teto. Sergio fez o mesmo sob a toalha. Nenhum dos dois disse nada. Foi o pacto mais silencioso e mais digno da noite.

— Você pensa nela? — sussurrou Sergio depois de um tempo.

— Na minha. Cala a boca.

— Eu também.

Os dois gozam com dez segundos de diferença, mordendo o lábio, cada um na própria toalha, cada um pensando na mulher que estava lá embaixo mentindo para o marido.

***

A segunda crise chegou às nove e quinze.

Ernesto decidiu que queria vestir uma jaqueta para o jantar. A jaqueta estava, segundo ele se lembrava perfeitamente, no armário do quarto principal. Marta o viu se dirigir à escada e entrou em modo pânico silencioso.

— Amor — disse, ficando na frente dele —. A jaqueta azul está no carro. Vi antes, quando tirei o cooler.

— Não, eu a coloquei no armário hoje de manhã. Tenho certeza.

— Você está confundindo. Eu a coloquei na bolsa do porta-malas para não amassar na viagem.

— Por que você colocaria minha jaqueta no porta-malas sem me dizer nada?

— Porque sou uma esposa atenciosa.

Ernesto a olhou fixamente por três segundos. Marta sustentou o olhar sem piscar.

— Pois eu vou olhar — disse ele por fim.

— Eu te acompanho — respondeu ela, seguindo-o até a garagem.

Enquanto estavam lá embaixo, Silvia avisou os dois homens no banheiro.

— Vocês precisam sair antes que eles voltem. Tem uma janela no quarto de serviço que dá para o jardim lateral. Dá para descer pela lona do toldo.

— Quanto tem até o chão? — perguntou Andrés.

— Três metros. Talvez um pouco mais. Tem um arbusto de lavanda que amortece.

— Um arbusto de lavanda?

— É grande. Vocês se vestem primeiro, claro.

Silvia os encarou por um segundo. Andrés de cueca, Sergio com a toalha na cintura, os dois com o cabelo bagunçado e o cheiro inequívoco do que acabaram de fazer um ao outro. Veio-lhe uma risada nervosa, meio culpada, meio quente.

— Sério, meninos?

— Emergência sanitária — disse Sergio.

— É verdade o arbusto — acrescentou Andrés —. Eu te acompanho.

Os dois homens se olharam por um instante que poderia ter virado discussão, mas terminou com ambos pegando as camisas em silêncio. Silvia fechou a porta do banheiro e desceu para se certificar de que Marta ainda distraía Ernesto no porta-malas.

***

A terceira crise foi a definitiva e a mais próxima do desastre.

Quando Andrés e Sergio, já vestidos, cruzavam o corredor em direção ao quarto de serviço, Roberto subiu a escada com uma garrafa de vinho na mão e deu de cara com eles.

Houve um silêncio de aproximadamente dois segundos que pareceu durar um ano inteiro.

Silvia, que vinha atrás, reagiu antes que o cérebro terminasse de formular o plano.

— Roberto, são os técnicos da caldeira. Acabaram de terminar.

Roberto os olhou. Andrés estava com a camisa por fora da calça e os sapatos sem amarrar. Sergio tinha o cabelo achatado de um lado e uma marca de toalha na bochecha.

— Técnicos da caldeira.

— O serviço noturno. Eu já tinha te dito.

— Você disse que eles viriam. Não que já estavam aqui dentro.

Andrés, que na vida cotidiana dava aulas de teatro amador às terças à noite num centro cívico do bairro, improvisou com uma convicção admirável:

— Boa noite. Tudo resolvido. Um problema de pressão no circuito secundário. Sem maior importância.

— E por que saíram do banheiro do quarto principal? — perguntou Roberto sem se mover.

— Porque a caldeira é ligada a esse banheiro — disse Andrés sem hesitar um instante.

— Todas as caldeiras são ligadas a todos os banheiros — acrescentou Sergio, com a autoridade técnica de alguém que não sabe absolutamente nada sobre caldeiras, mas acredita em si mesmo com fé inabalável.

Roberto os observou mais um momento. Depois olhou para Silvia. Depois tornou a olhá-los. Algo em sua expressão sugeria que ele estava ligando pontos que preferia não ligar por completo.

— Bom — disse por fim —. Obrigado.

— De nada — disseram os dois ao mesmo tempo.

Ernesto, que acabara de subir atrás de Marta com a jaqueta azul efetivamente encontrada no porta-malas, os viu passar em direção à escada.

— Quem são esses?

— Os da caldeira — disse Marta.

— A essas horas?

— Serviço noturno. Eu já te explico.

— Por que aquele ali está com o cabelo molhado?

— Lavou as mãos — disse Silvia do corredor —. São muito limpinhos.

Ernesto assentiu com a lentidão de quem não está totalmente convencido, mas também não tem energia para continuar puxando o fio.

***

Andrés e Sergio desceram as escadas com a serenidade de duas pessoas que terminaram sua jornada de trabalho, atravessaram a sala com uma breve inclinação de cabeça aos maridos e saíram pela porta principal.

Assim que o carro arrancou pela entrada e as lanternas traseiras desapareceram na curva, Silvia e Marta se trancaram na cozinha, encostaram as costas na porta e levaram exatamente cinco segundos para começar a rir. Uma risada baixa, nervosa, contida, de quem acabou de salvar algo que não deveria ter arriscado em primeiro lugar.

— Foi por pouco — sussurrou Silvia quando recuperou o fôlego.

— Sergio não gozou — disse Marta —. Estava a ponto e eu o deixei na banheira. Ele me odeia.

— Andrés também não. Quer dizer. Andrés deu uma aliviada lá em cima, me disse por sinais. Dá até ternura.

— Eles bateram punheta no banheiro?

— Os dois. Juntos. Sem se olhar.

Marta tampou a boca com as duas mãos para não berrar de rir. Silvia se apoiou no balcão da cozinha, quase chorando.

— Da próxima vez a gente se organiza melhor — disse Marta quando conseguiu respirar.

— Da próxima vez não vai ter próxima vez.

— Isso você disse no verão passado em Alicante.

Silvia serviu duas taças com o que restara do espumante, as únicas que tinham sobrevivido intactas à noite, e brindaram em silêncio diante da janela da cozinha que dava para o jardim escuro. Ela ainda estava com a calcinha molhada de gozo de ida e volta, e sentia, a cada movimento, como se grudasse nos lábios dela como um lembrete quente.

Da sala vinha o som inconfundível da televisão. Roberto e Ernesto tinham encontrado um jogo de futebol e já não existia mais nada no mundo para eles.

— Pelos armários bem ventilados — disse Marta.

— Pelos técnicos de caldeira que sabem improvisar — acrescentou Silvia.

As taças se tocaram sem fazer barulho. Lá fora, o Atlântico seguia onde sempre estivera, indiferente e imenso, e a lavanda do jardim cheirava mais forte depois que alguém tinha caído em cima dela.

Elas riram outra vez, devagar, com essa mistura particular de alívio e adrenalina que fica depois de uma mentira bem sustentada quando finalmente se pode soltá-la. E, no celular de Silvia, escondido no bolso do robe, já vibrava uma mensagem de Andrés que dizia, em três palavras: «Quando de novo?».

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