O que eu ouvia do sobrinho que veio morar no meu apartamento
A cabeceira da cama batia na parede num ritmo constante, e eu, desperto no escuro, já não podia fingir que aquilo não me importava.
A cabeceira da cama batia na parede num ritmo constante, e eu, desperto no escuro, já não podia fingir que aquilo não me importava.
Há semanas eu fingia que não notava os olhares dele, as pernas abertas no sofá, os volumes que marcava de propósito. Nessa noite voltei cedo demais e parei de fingir.
Quando entrei no banheiro e encontrei as flores e aquele cartão, soube que aquele verão me marcaria para sempre, embora ainda não imaginasse como terminaria.
Saí de casa com a calcinha vermelha e o coração disparado: meu tio jamais me chamava em dia de folga, e eu já sabia qual era a verdadeira intenção.
Quando o apartamento ficava vazio, eu abria a gaveta da minha mãe e me transformava em outra. Naquela tarde, uma sombra na janela mudou tudo.
Eu vinha me preparando havia meses para Adrián, mas foi outro homem que me ensinou naquela noite o que significava se entregar de verdade.
Quando coloquei a mão no peito dele e não a tirei, soube que aquela tarde não terminaria como as outras. Ele tinha o dobro da minha idade e cheirava a cerveja gelada.
Quando a porta se abriu, eu ainda tinha a cueca dele apertada contra o rosto. Ele me olhou com um sorriso que não era de raiva, mas de algo muito pior.