O que imaginávamos no décimo quarto andar
Compartilhávamos corredor, elevador e cafeteira, mas nunca uma palavra de verdade. Só o que cada um imaginava quando o outro virava as costas.
Compartilhávamos corredor, elevador e cafeteira, mas nunca uma palavra de verdade. Só o que cada um imaginava quando o outro virava as costas.
Naquela noite de bruxas ele não esperava companhia. Mas algo frio se materializou aos pés da cama e sussurrou seu nome como se o conhecesse de toda a morte.
Diante do espelho, com a luz baixa e a música suave, descobri que a melhor companhia daquela noite era a minha: minhas mãos, meu vibrador e uma vontade que não parava de crescer.
Levei anos para entender o que meu corpo me pedia. E, quando finalmente entendi, não consegui mais voltar atrás nem me contentar com pouco.
Apagar a luz teria sido o sensato. Mas naquela noite, no nono andar de um hotel vazio, a última coisa que eu queria era passar despercebida.
Ela disse rindo, quase como uma brincadeira: que gostava daquele nosso amigo. Nunca imaginei que nós três acabaríamos no mesmo quarto.
Veio posar como rainha do submundo. Disparei o flash repetidas vezes, profissionalmente, até ela abrir as pernas e eu entender que a sessão era outra coisa.
Três meses sozinha em Singapura a trabalho, um sábado livre e um massagista que não fez muitas perguntas. Foi assim que começou a tarde que eu nunca havia planejado viver.
A respiração dele ficou mais agitada do outro lado da parede. Tentei ignorar. Então ouvi meu nome na boca dele e tudo mudou.
Ela achava que estava sozinha. Ergueu o celular, enquadrou o corpo de baixo e esperou o temporizador. Eu não desviei os olhos nem por um segundo.
Meus pais não estavam. A tarde era longa e o desejo, insuportável. Quando o nome 'Valeria_sola' apareceu na lista, algo me disse que aquela tarde seria diferente.
Há manhãs em que o corpo vence a mente. Os lençóis úmidos, os quadris se movendo sozinhos, e então invento você: um desconhecido que me desmonta inteira.
Ele vinha fitando o canto escuro do quarto havia meses. A boneca errada que lhe entregaram era o mais perto de companhia que ele tivera em anos.
Quando o chamei para consertar a lareira, eu já sabia que alguma coisa ia acontecer. O calor no peito me dizia isso toda vez que os olhos dele paravam em mim.
Sentei no chão com a foto dela e umas velas. Quando abri os olhos, era ela: sua voz, seu corpo, seu camarim nos bastidores.