É assim que eu o acordo todas as manhãs antes do trabalho
Acordei antes do segundo despertador. Sabia que, se jogasse bem as minhas cartas, nós dois chegaríamos ao trabalho com um sorriso difícil de disfarçar.
Acordei antes do segundo despertador. Sabia que, se jogasse bem as minhas cartas, nós dois chegaríamos ao trabalho com um sorriso difícil de disfarçar.
Tomo a pílula, escolho bem e me deixo levar. O tesão não está no risco, mas em perder o controle com alguém que sabe exatamente o que quero.
Conheci-o recolhendo o correio. Uma semana depois eu estava de joelhos na sala dos medidores, me perguntando como perdi o controle tão rápido.
Reconheci o rosto dele no semáforo e soube que aquela semana de trabalho não terminaria como as outras. Só me faltava uma desculpa para bater na porta dele à noite.
Faltava uma hora para virem me buscar. Ajustei a saia preta diante do espelho e entendi que o preço da dívida seria pago por mim.
Entrei pensando que pararia a qualquer momento. Que diria basta, que aquilo não era para mim. Quinze minutos depois, eu gritava exatamente o contrário.
Abri a porta esperando cheiro de mofo e abandono. A casa cheirava a café recém-feito e a homem. E ele estava lá, servindo uma xícara como se fosse o dono.
Aquele pau que a tinha feito tremer no sábado pertencia ao homem que na segunda assinaria suas avaliações. E nenhum dos dois pensava em parar.
Passei doze meses carregando refletores e odiando minha vida. Nessa madrugada, ao lado da fonte, uma desconhecida pediu que eu a fotografasse como ninguém jamais ousou.
Nunca pensei que seria capaz de algo assim, mas o ultimato do banco estava sobre a mesa e só consegui imaginar uma saída que nenhum dos dois esqueceria.
Um carro freou ao meu lado e me perguntou o preço. Eu tinha trinta e sete anos, era advogada e, pela primeira vez, decidi não dizer não à loucura.
Estacionei ao lado do carro dela sem saber que minha tarde livre acabaria com ela subindo no meu, no canto mais escuro do estacionamento.
Desde a pista já buscávamos as mãos com discrição; o que não terminamos no carro seguimos no meu quarto, sem pressa e sem nada no corpo.
Ele me passou um papelzinho na mão ao recolher o prato. Li no quarto: era o número dele. E soube que aquela noite eu não ia ficar sozinha.
Encontrei a calcinha dela no chão do corredor, com um bilhete em cima. A partir dessa noite, os dois jogamos um jogo do qual nenhum dos dois queria sair.
Guardei isso por mais de uma década. Tudo começou por causa de um par de meias brancas e terminou num carro, às duas da manhã, com a última pessoa com quem eu devia me envolver.
Quando ela abriu a porta com aquele vestido curto e aquele sorriso carregado de álcool, soube que a noite não terminaria como ela havia planejado.
Cheguei ao hall sem saber se teria coragem de subir. Me chamo Esteban, tenho 48 anos e lá em cima me esperava um casal que eu só conhecia por mensagens.
Cruzei os braços para esconder o que o frio da sala tinha denunciado em mim. Então ele se sentou ao meu lado, sem pedir permissão, como se a poltrona fosse dele.
Eu estava distraída com o celular quando senti as mãos dele nas minhas costelas. Naquela noite, no quintal, não sobrou nada de inocente entre nós.