A noite em que entrei no quarto de Marcos
Esta é uma confissão que nunca contei a ninguém. Faz seis anos e ainda me lembro dela com essa mistura de vergonha e desejo que nunca chega a se resolver em nenhum dos dois sentidos.
Eu tinha vinte anos naquele verão. Morávamos na casa dos meus pais, Marcos e eu, porque nenhum dos dois tinha conseguido se independizar ainda. Ele tinha vinte e três, trabalhava numa empresa de logística, voltava para casa com o corpo cansado e poucas palavras. Eu terminava o segundo ano de comunicação audiovisual e passava os dias trancada diante do notebook, com a cabeça cheia de projetos que nunca terminavam de verdade.
Éramos irmãos normais. Brigávamos pelo banheiro, pelo controle da TV, por quem deixava os pratos sem lavar. A gente se queria daquela forma desordenada e prática que os irmãos têm quando já não restam vestígios de infância entre os dois.
Mas naquele verão algo mudou.
Não saberia dizer exatamente quando começou. Talvez tenha sido em junho, quando a onda de calor se instalou e Marcos começou a andar pela casa só de calça de tecido fino, tão fina que o volume do pau dele marcava cada vez que ele se mexia, e eu não conseguia parar de olhar de canto de olho. Talvez tenha sido antes, durante os jantares que dividíamos quando nossos pais tinham ido para a vila, e a conversa se alongava mais do que o necessário, e havia silêncios que antes não existiam entre nós. Silêncios diferentes dos de quando éramos crianças. Mais carregados.
O certo é que, em agosto, depois de semanas de uma tensão que nenhum dos dois nomeava, chegou aquela noite.
***
Eram duas da manhã e eu não conseguia dormir.
Eu estava havia uma hora rolando na cama, com o calor colado à pele, ouvindo o ruído do ventilador que mexia o ar quente de um lado para o outro sem conseguir aliviar nada. Lá fora, os grilos teciam sua música sem parar. Dentro, o som da minha própria respiração e os pensamentos que não me deixavam quieta. Eu estava com a boceta úmida fazia um tempo, a mão entre as coxas, e por mais que eu me tocasse não bastava.
Eu pensava em Marcos.
Pensava em como, naquela tarde, ele tinha me olhado quando saí do banho enrolada na toalha, e em como eu tinha demorado um segundo a mais para entrar no meu quarto. Pensava na forma como a mão dele tinha roçado a minha enquanto ele me passava o saleiro no jantar, e em como nenhum dos dois tinha mencionado aquilo depois. Pensava na quantidade de vezes em que eu o tinha pego olhando as costas dele quando ele não me via, e também mais embaixo, a curva da bunda sob a calça fina, o volume entre as pernas quando ele se sentava com os joelhos abertos.
Eu me levantei.
O chão de madeira estava fresco sob meus pés. Vesti a camiseta que estava na cadeira — a mais curta que encontrei, sem pensar muito nisso, ou pensando exatamente nisso — e saí para o corredor sem calcinha. O ar quente roçou a parte interna das minhas coxas e eu senti o quanto estava molhada, como a umidade se agarrava aos lábios da minha boceta a cada passo.
A porta do quarto dele estava entreaberta. Uma fresta de escuridão e, dentro, o som rítmico de alguém dormindo.
Fiquei parada em frente àquela porta por mais tempo do que gostaria de admitir. Eu tinha plena consciência do que estava prestes a fazer. Não era sonâmbula, não estava confusa, não tinha me perdido a caminho do banheiro. Eu sabia exatamente para onde ia e por quê.
Empurrei a porta devagar.
O quarto cheirava a ele. A sabonete e ao aroma neutro dos lençóis limpos, e a alguma coisa mais difícil de definir, esse cheiro próprio que as pessoas têm e que a gente aprende sem perceber. Eu o conhecia desde sempre e, ainda assim, naquela noite me afetou de um jeito completamente diferente.
Marcos dormia de barriga para cima, com um braço sobre a testa. O lençol cobria até a cintura. A janela deixava entrar uma faixa de luz amarelada do poste da rua, suficiente para ver os contornos do peito dele, a linha da mandíbula, os lábios ligeiramente entreabertos. Debaixo do lençol, adivinhei o volume, o formato do pau duro contra a barriga, e tudo em mim se apertou só de ver aquilo.
Me aproximei sem fazer barulho.
Sentei na beira da cama, bem devagar, calculando cada movimento para não acordar o colchão. Meu coração batia na garganta. Eu sentia o calor que o corpo dele irradiava daquela distância mínima, e havia algo nesse calor que me pareceu irresistível.
Estendi a mão.
A apoiei no braço dele. Só isso. Um contato mínimo, como se eu quisesse comprovar que era real, que aquilo estava mesmo acontecendo. A pele dele estava quente e firme sob meus dedos. Ele não se afastou. A respiração mudou quase nada, um pequeno ajuste que só notei porque eu estava atenta a cada sinal.
Continuei.
Percorri devagar a parte interna do antebraço com a ponta dos dedos, subi até o cotovelo, depois até o ombro. Parei ali por um instante, ouvindo. Ele virou a cabeça na minha direção. Ainda sem abrir os olhos, mas com aquele movimento que já não era mais o de alguém que continuava dormindo.
—Sara — disse, com a voz rouca de sono.
Não era uma pergunta. Não era um aviso. Era só o meu nome, dito de uma forma que podia significar muitas coisas ao mesmo tempo.
—Eu sei que você está acordado — eu disse.
Silêncio.
—Faz um tempo — admitiu.
Não me mexi. Não me afastei. Ele também não. O tempo ficou suspenso naquele intervalo entre o que estávamos fazendo e o que podíamos dizer a respeito.
—O que você está fazendo aqui? — perguntou, embora eu ache que ele já soubesse.
—Não conseguia dormir.
—Eu também não.
Ele me olhou então. Não sei o que esperava encontrar no rosto dele — reprovação, talvez, ou confusão —, mas o que vi foi algo mais parecido com rendição. Como se ele estivesse resistindo havia tanto tempo que já não lhe restassem forças para continuar.
A mão dele procurou a minha sobre os lençóis. Encontrou. Segurou.
E algo que eu vinha apertando no peito há semanas se soltou de uma vez.
***
O que aconteceu depois não foi o que eu esperava. Ou era, mas não daquele jeito.
Deitei ao lado dele sem soltar a mão. O meu corpo inteiro tremia, embora não estivesse frio. Ele virou para mim e me olhou durante um segundo que se alongou além do normal, como se estivesse se dando tempo para recuar.
Não recuou.
A boca dele encontrou a minha de forma direta, sem hesitação. Não foi um beijo tímido nem suave: foi o beijo de alguém que esperou demais e já não tem mais paciência. Eu senti isso na pressão, na forma como a mão dele foi para a minha nuca para me puxar mais perto, em como a língua dele entrou na minha boca e procurou a minha com fome real.
Eu respondi na mesma moeda. Mordi o lábio de baixo dele e o ouvi gemer baixo, um som gutural que atravessou meu corpo inteiro e desceu direto para a boceta.
Havia algo estranho em beijá-lo. Estranho e completamente natural ao mesmo tempo, como se existissem duas camadas de realidade sobrepostas: a que dizia que aquilo não devia estar acontecendo, e a que sentia que era exatamente o que eu queria havia meses. A segunda venceu.
As mãos dele percorreram meus lados por cima da camiseta, aprendendo uma geografia que conhecia de longe, mas nunca assim, com aquela atenção concentrada. Ele foi levantando minha camiseta sem pressa, centímetro a centímetro, e eu ergui os braços sem dizer nada. Quando o tecido passou por cima da minha cabeça e eu fiquei completamente nua na frente dele, prendi o ar.
Fiquei imóvel enquanto ele olhava. A luz do poste era suficiente para ele me ver, e eu sabia disso. Havia algo naquele olhar — sério, sem pressa — que me fazia querer que ele continuasse. Meus mamilos estavam tão duros que doíam, e ele percebeu.
—Porra, Sara — sussurrou. — Você está linda.
—Vem — eu disse.
E isso foi suficiente.
Os lábios dele seguiram o caminho que as mãos tinham traçado. O pescoço, a clavícula, o espaço entre os meus seios. Quando a boca dele se fechou em torno de um dos meus mamilos, chupando devagar, arqueei as costas contra o colchão e soltei um gemido que não consegui conter. Ele o mordeu com suavidade, lambeu, foi para o outro e repetiu o mesmo tratamento, enquanto a mão dele descia pela minha barriga até me encontrar entre as pernas.
—Você está encharcada — murmurou contra meu peito.
—Estou assim faz horas — confessei.
Os dedos dele afastaram os lábios da minha boceta e encontraram o clitóris sem hesitar, com uma precisão que me surpreendeu. Ele começou a girá-lo devagar, quase sem roçar, enquanto continuava chupando meus peitos. Eu abri mais as pernas sem pensar, me oferecendo, e ele aproveitou para enfiar dois dedos dentro de mim de uma vez. Gritei contra o travesseiro.
—Shh — disse ele, sorrindo contra minha pele —. Vai acordar os vizinhos.
—Não me importo.
Ele bombeou os dedos com uma lentidão calculada, entrando e saindo, fazendo um movimento de gancho no ponto exato. Eu movia o quadril contra a mão dele, buscando mais, com toda a vergonha esquecida. Quando senti que estava prestes a gozar, ele percebeu e tirou os dedos.
—Ainda não — disse.
Ele lambeu os dedos na minha frente, me olhando nos olhos, saboreando-me como se eu fosse a melhor coisa que ele tinha provado na vida. Eu quase gozei só com aquilo.
Então ele desceu pelo meu corpo. Beijou minha barriga, meus quadris, a parte interna das coxas. Quando a boca dele pousou pela primeira vez sobre a minha boceta, um gemido rouco me escapou, e isso o fez apertar ainda mais as minhas coxas. Ele começou a chupar meu clitóris com os lábios, alternando com a língua, entrando e saindo de mim, me comendo como se passasse meses fantasiando com aquilo. Provavelmente tinha mesmo.
—Marcos — eu arfei —, porra, Marcos...
Afundei as mãos no cabelo dele e apertei o rosto dele contra mim, sem nenhum pudor. Ele gemeu contra a minha boceta e essa vibração me fez gozar de repente, com o corpo inteiro tremendo contra a boca dele. Nem tentei me calar. Gozei gritando o nome dele, e ele não se afastou até eu parar de me estremecer.
Quando subiu, a boca dele brilhava de mim. Ele me beijou e me fez provar meu próprio gosto misturado ao dele. Passei a mão entre nossos corpos e agarrei o pau dele por cima da cueca. Era grosso, duro, e estava tão molhado por cima que o algodão tinha grudado na ponta.
—Tira — ordenei.
Ele puxou a cueca para baixo de uma vez e o pau dele saltou livre, duro contra a barriga. Nunca tinha visto um pau assim de perto no meu irmão, e por um instante fiquei olhando, processando o absurdo da situação e o quanto eu queria aquilo dentro de mim.
Desci pelo corpo dele. Contornei a base com a mão e o enfiei na boca sem avisar, o máximo que consegui, até a ponta tocar minha garganta. Marcos soltou um palavrão entre os dentes e enfiou os dedos no meu cabelo.
—Caralho, Sara...
Eu o tirei devagar, lambendo a ponta, e voltei a engoli-lo. Chupei o pau dele com toda a prática que eu tinha, as bochechas ocas, girando a língua, sugando a ponta quando ele saía. Vi o rosto dele: a mandíbula travada, os olhos fechados, o peito subindo e descendo. Ele adorava, e eu adorava dar aquilo a ele.
—Para — disse depois de um tempo, puxando meu cabelo com cuidado —. Para ou eu gozo na sua boca agora mesmo.
—Talvez seja isso que eu quero.
—Outra vez. Agora eu quero te foder.
Ele me puxou para cima e me deitou de costas. Se colocou entre minhas pernas e me olhou por um segundo longo, com o pau apoiado na minha boceta, escorregando pela umidade sem entrar ainda.
Quando finalmente nos unimos, prendi a respiração por um instante. Ele me penetrou devagar, empurrando centímetro por centímetro, me deixando sentir tudo. Era grosso e me abria inteira. Quando entrou por completo, ficou imóvel, com a testa encostada na minha.
—Você está bem? — perguntou, com a boca no meu pescoço.
—Sim — respondi. E era verdade.
—Tem certeza?
—Marcos. — O nome dele na minha boca soou estranho e familiar ao mesmo tempo —. Para.
—Parar?
—Parar de perguntar. Me fode logo.
Algo se afrouxou no rosto dele. Um meio sorriso que fez meu coração dar um salto.
—Certo — disse.
E não perguntou mais.
Ele começou a se mover. Saídas longas, entradas profundas, um ritmo que me preenchia inteira a cada vez. A cama rangia um pouco e nenhum dos dois fez nada para disfarçar. Cravei os calcanhares na bunda dele para ele me meter mais fundo e ele rosnou contra meu pescoço.
—Assim, irmãzinha, assim — ele arfou, e essa palavra, dita naquele contexto, fez minha boceta se apertar em torno do pau dele com tanta força que escapou uma maldição da boca dele.
—Fala de novo — pedi.
—Que eu te foda, irmãzinha?
—Isso.
—Toma. Toma o pau do seu irmão.
Ele empurrou mais forte, mais fundo, e eu arqueei debaixo dele sem nenhum controle. Ele era paciente de um jeito que me surpreendeu até ali, no meio de tudo. Não havia urgência idiota nos movimentos dele, mas uma espécie de deliberação, como se quisesse que cada estocada fosse sentida como algo completo em si mesmo. Aprendi mais naquela noite sobre o meu próprio corpo do que nos dois anos anteriores com o garoto com quem eu tinha ficado.
Em algum momento ele me virou e me colocou de bruços, com a bunda erguida. Voltou a me penetrar por trás, segurando minhas ancas, e a sensação foi completamente diferente. Ele tocava lugares que antes não tinha tocado. Passou uma mão por baixo até encontrar o clitóris e começou a me esfregá-lo enquanto me fodia, e essa combinação me levou ao segundo orgasmo em poucos minutos.
—Vou gozar — avisei, apertando o lençol com os punhos —, vou gozar de novo...
—Goza no meu pau — disse ele, apertando o ritmo —. Goza comigo dentro.
E eu gozei. Com o rosto esmagado contra o travesseiro para abafar o grito, com o corpo inteiro convulsionado, com a boceta mordendo o pau do meu irmão em ondas.
Ele aguentou um pouco mais. Me virou outra vez, queria me olhar no rosto. Colocou uma perna minha sobre o ombro e voltou a entrar, agora mais fundo do que nunca. Em certo momento ele me olhou nos olhos sem dizer nada. Só isso. E havia algo naquele silêncio, naquele olhar sustentado enquanto ele me enfiava até o fundo, que foi mais íntimo do que qualquer outra coisa que tinha acontecido naquela noite.
—Vou gozar — sussurrou.
—Não dentro.
Ele saiu a tempo. Agarrou o pau com a mão e gozou sobre minha barriga, jatos grossos e quentes que chegaram até entre os meus seios. Escapei um suspiro ao vê-lo, o rosto descomposto de prazer, o sêmen brilhando sobre minha pele à luz do poste. Ele desabou ao meu lado, respirando forte, com a mão ainda apertada na minha anca.
Um tempo depois, ele me limpou com a camiseta dele, devagar, com um cuidado quase terno.
***
Quando tudo terminou, fiquei um tempo na cama dele sem dizer nada. Ele também não falou. Havia algo confortável naquele silêncio, algo sem pressão, que me surpreendeu. Pensei que seria estranho, incômodo, que um dos dois ia querer sair correndo. Não foi assim.
A mão dele estava sobre o meu braço. Suave, sem apertar.
—Você devia voltar para o seu quarto — disse por fim. Não como uma ordem. Como um fato prático, oferecido com cuidado.
—Eu sei.
Mas não me mexi de imediato. Fiquei mais um pouco, ouvindo a respiração dele voltar àquele ritmo lento, olhando o teto no escuro, com o cheiro dele e de sexo ainda grudado na pele.
Quando me levantei, o corredor continuava igual ao de antes. Tranquilo, alheio, com a mesma luz fraca do piloto da tomada que estava ali havia a minha vida inteira. Voltei para o meu quarto e me enfiei na cama sem acender nenhuma luz. Senti o sêmen que tinha escorrido descer pela parte interna da coxa e não fiz nada para me limpar.
Não dormi.
Passei o resto da noite olhando o teto e pensando no que tinha acontecido, no que aquilo significava, no que íamos fazer com isso. Não encontrei respostas, mas também não encontrei arrependimento, e isso me pareceu a coisa mais estranha de todas.
No dia seguinte, Marcos já estava na cozinha quando desci. Estava fazendo café. Ele me olhou quando entrei, um olhar direto, sem fuga.
—Bom dia — disse.
—Bom dia — respondi.
Ele me passou uma xícara. Tomamos em pé, junto à janela, olhando o jardim seco, sem falar. E naquele silêncio também não havia desconforto. Era reconhecimento. A certeza compartilhada de que os dois sabíamos o que tinha acontecido e que nenhum dos dois ia fingir que não.
Não aconteceu de novo. Eu não teria sabido como voltar a atravessar aquela porta, e acho que ele também não. Mas o que aconteceu naquela noite também não desapareceu. Ficou ali, guardado, como algo que existiu em seus próprios termos e não precisa de mais explicação do que essa.
Faz seis anos. Marcos mora em outra cidade com a namorada. Eu tenho meu próprio apartamento, minha própria vida. Nos vemos no Natal e falamos de coisas completamente normais.
E nenhum dos dois menciona aquilo.
Mas há momentos, às vezes, em que ele me olha de um certo jeito. E eu sei que nós dois nos lembramos exatamente da mesma forma.