O que vi pela fresta do quarto dos meus pais
Eu só queria dormir, mas a fresta da porta deixava passar a luz, e a risada baixa da minha mãe me travou antes de chegar ao meu quarto.
Eu só queria dormir, mas a fresta da porta deixava passar a luz, e a risada baixa da minha mãe me travou antes de chegar ao meu quarto.
Achávamos que estávamos sozinhos na enseada escondida, até eu notar que aqueles três não tiravam os olhos de nós. E isso nem incomodava a gente.
Ninguém ao meu redor desconfia, mas o dia inteiro eu obedeço ordens que só existem na minha cabeça… e cada vez desejo mais que se tornem reais.
Fiquei sozinha com ele fingindo um mal-estar que não tinha. Eu sabia o que aconteceria assim que minha irmã passasse pela porteira e me deixasse a sós com o marido dela.
A campainha tocou justamente quando ela terminava de estender a roupa. Eu me escondi no quarto e a vi sair para atender sem nada, só com anabelas e um sorriso.
A porta da sala ficou entreaberta e, sem querer, virei testemunha de algo que não devia ver nem ouvir, mas do qual já não consegui me afastar.
Há meses a gente flertava pelo chat interno. Quando propus fechar o escritório num sábado, não achei que você viria. Você veio, tremendo, mas veio.
Quando descobri o vizinho espiando por cima do muro, não me cobri. Baixei o sutiã no chuveiro do quintal e deixei que ele visse tudo.
Naquela noite desci para pegar um copo d'água e nunca cheguei à cozinha. O que vi nas sombras do canto me deixou imóvel por uma hora inteira.
Desci ao banheiro às três da manhã e ouvi a risada da minha tia atrás da cortina. Meu pai apareceu atrás de mim com o mesmo sorriso cúmplice.
Sua camiseta branca encharcada de suor, os mamilos marcando o tecido, e a pergunta lançada entre dois copos de vinho: é verdade o que dizem sobre você e Lucía?
Estávamos separados há seis anos, mas aquele baby doll na vitrine me levou de volta a uma manhã qualquer e a um vídeo que eu tinha esquecido numa pasta perdida do computador.
A primeira vez que encontrei a embalagem no lixo, pensei que tinha me enganado. Na quarta vez, já sabia exatamente o que estava acontecendo naquele quarto.
Assim que se viu no espelho com o vestido, soube que naquela tarde não conseguiria andar tranquila nem cinco metros sem ser seguida.
Eu ia à loja do engraxate para lustrar os sapatos e ler quadrinhos. Nenhum dos dois imaginava o que ele acabaria guardando no bolso da camisa, nem até onde chegaríamos.
Subi ao hotel com um conjunto de renda vermelha sob o vestido que ele ainda não tinha visto. Levávamos sete meses esperando aquele momento.
Não foi a primeira vez que pensei em cruzar aquele corredor, mas foi a primeira em que meus pés se moveram antes da cabeça. A casa toda dormia e eu não.
Ela já dançava há vinte minutos com um desconhecido na pista. Quando ele propôs subir ao banheiro do andar de cima, ela aceitou sem imaginar o que viria.
Entrei naquele bar do calçadão procurando frutos do mar e acabei fechando quinze dias com uma desconhecida. Três anos depois, ainda não contei isso a ninguém.
Não precisava tocá-la. Só estar ali, a meio metro das costas dela, respirando o mesmo ar. E confirmar, mais uma vez, que ela não ia se virar.