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Relatos Ardientes

O espelho a entregou na noite em que ela parou de fingir

Renata deixou as compras de fim de ano para o último momento, como sempre. O trabalho tinha engolido suas semanas e, enquanto percorria as lojas do centro em busca de presentes contra o relógio, sua cabeça estava em outra parte. Ela não pensava na família nem no jantar que a esperava. Pensava em Adrián.

Meses vinham sendo assim: olhares que duravam um segundo a mais, mensagens com duplo sentido, silêncios carregados que nenhum dos dois sabia como quebrar. Naquela noite, eles se veriam na festa de um grupo de amigos, e Renata havia decidido, sem contar a ninguém, que já estava cansada de contornar o limite.

Escolheu um vestido preto justo e um body de renda por baixo. Diante do espelho do seu quarto, se olhou sem pressa, girando o corpo, se reconhecendo. Esta noite, não. Ela não pensava voltar a fingir que não o desejava.

Uma mensagem de Adrián vibrou no seu telefone. Uma brincadeira boba, daquelas que parecem inocentes, mas não são. Renata sorriu e guardou o telefone sem responder. Que esperasse.

O jantar em família passou como uma formalidade. Renata cumpriu seu papel, brindou, distribuiu beijos e abraços, mas por dentro corria uma contagem regressiva que ninguém mais podia ouvir. Assim que pôde, despediu-se e saiu em direção à casa onde os amigos a esperavam.

A química com Adrián ficou evidente desde o primeiro instante. Bastou cruzar a porta, encontrá-lo no meio da gente e ver como o rosto dele se iluminava para saber que os dois pensavam a mesma coisa. Em algum momento da noite, entre taças e conversas, Renata tirou da bolsa uma fita vermelha e a colocou no decote, bem sobre o peito.

— E isso? — perguntou ele, com meio sorriso.

— Um presente — respondeu ela —. Ainda não sei para quem.

Foi o suficiente. A fita transformou o flerte num jogo consciente, compartilhado, com regras que nenhum dos dois precisava explicar. Dançaram perto, se roçaram como por acaso, se procuraram no meio da música. Quando o grupo começou a se dispersar, eles já tinham decidido, sem palavras, que seguiriam juntos.

***

O portal apareceu no fim da rua antes que nenhum dos dois estivesse preparado. Pararam em frente à porta, e Renata procurou as chaves na bolsa com mãos que já não disfarçavam o nervosismo. O silêncio ficou denso. Adrián não se afastou; ao contrário, virou-se completamente para ela e fechou o último centímetro de distância.

— Renata… — começou a dizer.

Não terminou a frase. Ela ergueu o olhar e o beijou.

Não foi um beijo tímido. Foi um choque, uma descarga acumulada durante meses. Adrián reagiu na hora, segurando o rosto dela com uma mão enquanto a outra se firmava nas costas dela e a colava ao seu corpo. O frio, a rua, o tempo: tudo desapareceu. Restou apenas aquele beijo que dizia o que eles não tinham se atrevido a verbalizar.

Separaram-se apenas o bastante para respirar, com as testas apoiadas uma na outra.

— Acho que não tem mais volta — sussurrou ela.

— Não quero que tenha — respondeu ele.

A porta estava a uma única volta de chave. E os dois sabiam disso.

***

Adrián fechou a porta e o silêncio caiu de golpe. Não havia mais amigos, nem música, só os dois na penumbra da sala, com a pouca luz que entrava pela janela. Renata estava diante dele, o cabelo cacheado desalinhado pela dança e pelo frio da rua, e isso a fazia parecer mais real, mais impossível de não tocar.

Ele tinha os ombros tensos, a boca seca, o coração acelerado. O calor que ela emanava chegava ao rosto dele antes mesmo de se aproximar. Renata também não estava melhor: respirava depressa, o peito subia e descia, e percebia o corpo de Adrián à beira do autocontrole. Isso a incendiava ainda mais. Sentia a umidade se acumulando contra a renda do body, e se deliciava ao vê-lo se segurando.

Adrián se aproximou devagar. Acariciou o pescoço dela, desceu os dedos até a borda do vestido e, com a luz da rua, descobriu uma pequena pinta sobre o peito esquerdo dela. Aquilo lhe pareceu o detalhe mais sexy que ele já tinha visto. Roçou o tecido e notou as pontas dos seios dela já endurecidas, marcando-se sob o decote.

— Você não faz ideia da vontade que eu estou de você — disse, com a voz rouca.

Renata não respondeu. Colou-se nele, sentiu o quanto ele estava duro e inclinou a cabeça para trás quando ele procurou o pescoço dela com a boca. Adrián a segurou pelos quadris, apertando-a contra o corpo, e quando voltaram a se beijar foi tudo menos suave: com língua, com fome, daqueles que deixam sem ar.

Ele a virou com um movimento lento e a puxou contra o próprio peito por trás. Renata sentiu o torso firme nas costas, o peso do corpo dele envolvendo-a sem esmagá-la. Quando Adrián afundou o rosto no pescoço dela, o contraste entre o ar frio que ainda conservava a pele e o calor da boca dele a fez estremecer. Os lábios subiram pelo ombro e foi ali que ele encontrou o zíper do vestido.

O som suave do fecho descendo foi como um disparo silencioso. Adrián acompanhou cada centímetro descoberto com beijos, como se quisesse memorizar a pele dela. O vestido se rendeu aos poucos, escorregou pelos quadris e caiu no chão.

Renata abriu os olhos e se olhou no espelho da entrada. Viu-se quase nua, exceto pelo body de renda, a pele acesa, o cabelo despenteado, os lábios entreabertos. Viu-se sustentada por ele, cercada pelos braços dele, desejada sem reservas.

— Olha pra nós… — sussurrou.

Adrián ergueu o olhar e se deparou com o próprio reflexo abraçando-a. Sentiu uma pancada seca no peito. Não havia volta atrás, e ele também não queria. Uma de suas mãos percorreu o corpo dela com uma lentidão que contrastava com a urgência; a outra a puxou ainda mais para perto, apagando qualquer espaço entre os dois.

Começaram a caminhar sem dizer nada, deixando um rastro de peças de roupa e beijos pelo corredor. O espelho ficou para trás, mas a imagem dos dois — fundidos, decididos — os acompanhou até o quarto.

***

No quarto o ar pesava mais, estava mais quente. Adrián a sentou na beira da cama e ficou de pé diante dela, encaixando-a entre as pernas. Renata o olhava de baixo, os olhos enevoados, soltando o ar em pequenas rajadas que batiam no abdômen dele. Ele estava tão tenso que sentia que ia se partir.

Inclinou-se e, com as mãos trêmulas de desejo, acariciou as coxas dela. Subiu devagar, sentindo a suavidade da pele, até os dedos tocarem a borda do body. Ao deslizar a mão por baixo, encontrou a prova de que ela passara a noite inteira desejando aquele momento tanto quanto ele: a renda estava encharcada.

— A noite toda com essa fita vermelha você me deixou louco — murmurou no ouvido dela.

Baixou a cabeça e, com os lábios, afastou o tecido para libertar os seios dela. Ficou alguns segundos olhando, fascinado, antes de envolver um deles com a mão e lamber o mamilo com uma lentidão desesperante. Renata arqueou as costas, oferecendo-se, enquanto as pernas se abriam de forma instintiva. Adrián se sentia poderoso ao vê-la estremecer sob sua boca, e ao mesmo tempo completamente rendido a essa pele.

Enquanto a língua brincava com o mamilo, a outra mão dele continuou descendo. Afastou a renda para o lado e a encontrou totalmente pronta: os lábios inchados, a umidade cobrindo tudo. Afundou os dedos com suavidade e Renata soltou um gemido rouco, cravando as unhas nos lençóis. Cada vez que ele roçava o clitóris dela com o polegar, uma descarga lhe corria até a ponta dos pés.

Ela estava tão excitada que os dedos dele deslizavam sem esforço, provocando um som úmido que, no silêncio do quarto, era enlouquecedor. Adrián ergueu o olhar e a viu: o cabelo espalhado no travesseiro, o peito subindo e descendo com violência. Naquele instante, Renata era puro desejo.

Quando ele encontrou o ritmo exato, aquele ponto que parecia conhecê-la melhor do que ela mesma, Renata deixou de se conter. Um gemido nasceu no ventre e subiu até a garganta. Ela abriu os olhos. E então se viu.

O espelho de corpo inteiro, encostado na parede do quarto, devolvia uma imagem que a atravessou: ela reclinada entre os lençóis, a pele ardendo, completamente viva. Mas o que terminou de incendiá-la foi o olhar de Adrián refletido junto ao dela, escuro, concentrado, faminto. Ver-se através dele a excitava mais do que qualquer carícia.

O clímax veio como uma onda impossível de deter. O corpo dela arqueou sozinho, agarrando-se aos lençóis enquanto uma sacudida lenta e profunda a percorria por dentro. Não foi explosivo; foi envolvente, como se todo o corpo dela derretesse ao mesmo tempo, deixando-a suspensa por segundos eternos.

Quando voltou a respirar com um pouco mais de calma, Adrián ainda estava ali, olhando para ela como se tivesse acabado de presenciar algo que não se repetiria. Renata estendeu a mão e tocou o pulso dele.

— Agora me deixa a sua vez — sussurrou, ainda trêmula—. Quero sentir você.

***

Ela o fez virar e, com um movimento decidido, se colocou sobre ele. Adrián soltou uma expiração profunda, quase rendida. Agora era ela quem o olhava de cima.

Renata se endireitou devagar, deixando a luz do abajur percorrer o corpo dela. Sabia exatamente como estava, e sobretudo como ele a olhava. Deslizou as mãos pelo próprio corpo, consciente do efeito que provocava, e se inclinou para a frente deixando o cabelo cair, roçando-o sem tocá-lo de fato.

Adrián trincou a mandíbula. As mãos dele buscaram agarrá-la, mas ela as deteve com um gesto suave.

— Agora não — murmurou —. Deixa comigo.

Ela o beijou com uma lentidão calculada, marcando o ritmo, aprofundando aos poucos até ele parar de tentar se conter. Ela gostava de como ele respondia ao domínio dela: de como o corpo dele se enrijecia, de como as mãos lhe tremiam de leve quando por fim ela permitia que ele a tocasse.

— Estamos esperando isso há tempo demais — disse ela, com a testa encostada na dele —. E eu não pretendo fazer isso devagar de novo.

Adrián sentiu um arrepio percorrer a coluna. Aquela ordem foi o que ele precisava para romper suas últimas defesas. As mãos dele subiram pelas coxas dela até se prenderem aos quadris com uma pressão firme. Sem quebrar o contato visual, ele a puxou para baixo.

O primeiro roçar cortou a respiração dos dois: o calor compartilhado, a umidade, os corpos se chocando. Então Renata, com uma determinação absoluta, desceu sobre ele. O momento em que se fundiram foi quase doloroso de tão intenso. Não foi uma entrada limpa, mas milímetro a milímetro, o corpo dela se alargando para recebê-lo, envolvendo-o num calor que obrigou Adrián a cerrar os dentes.

Ela começou a se mover com uma cadência perfeita e ele ficou hipnotizado, vendo-a de baixo. A luz desenhava o contorno do corpo dela enquanto subia e descia, os seios balançando diante dos olhos dele no ritmo dos quadris. Era uma visão que o deixava rendido: ela, dona do próprio prazer, movendo-se com uma segurança que o desarmava.

Os corpos se chocavam com um som úmido e surdo que preenchia o quarto. Renata jogou a cabeça para trás, o cabelo caindo como uma cascata, as mãos apoiadas no peito dele para manter o equilíbrio. Cada vez que descia, buscava o fundo, aquele ponto em que o prazer se tornava um rugido.

Então parou por um instante, respirando fundo. Procurou as mãos de Adrián e entrelaçou-as com as suas, guiando-as até a própria cintura. O gesto era claro: fica comigo aqui. Não havia pressa.

Daquela quietude tensa, os corpos começaram a falar sozinhos. Renata fechou os olhos e deixou a testa cair sobre a dele, sentindo a respiração de Adrián se desordenar no ritmo da sua. Cada contração, cada suspiro, era uma resposta mútua, uma linguagem sem palavras. Ele se abandonou por completo à sensação de estar contido, sustentado por ela, apertando as mãos dela não para dominá-la, mas para não a perder.

O clímax veio como uma sacudida compartilhada, profunda e total, uma descarga que os atravessou ao mesmo tempo e os deixou sem ar, agarrados um ao outro. Quando tudo passou, Renata se deixou cair sobre o peito dele. A respiração dela foi se acalmando e o batimento sob sua bochecha virou uma âncora tranquila. Ele acariciou as costas dela com uma ternura que contrastava com a intensidade de poucos segundos antes.

Não disseram nada. Não era preciso.

***

Renata se sentou na beira da cama e, desta vez, procurou Adrián com o olhar antes de procurar o espelho. Ele estava apoiado na parede, observando-a em silêncio. Quando seus olhos se cruzaram, não houve pudor nem urgência, apenas uma calma nova, como se alguma coisa tivesse se encaixado sem necessidade de palavras.

O espelho continuava ali, devolvendo a imagem dos dois. Já não era só o reflexo de Renata: agora mostrava os dois juntos, despenteados, reais, sem poses. Adrián também se viu diferente. Não como o homem que tinha entrado nervoso naquele apartamento, mas como alguém a quem haviam convidado a atravessar um limite íntimo. Naquele vidro, entendeu que não tinha sido um espectador do desejo dela, mas um cúmplice.

Renata seguiu a direção do olhar dele e sorriu ao vê-los refletidos. Aquele espelho tinha sido o fio invisível de toda a noite: o lugar onde ela se reconheceu, onde ele a viu se afirmar, e onde os dois entenderam que o que aconteceu não tinha sido só físico, mas uma forma de dizer sim sem falar.

Quase com ternura, ela pegou a fita vermelha da mesinha de cabeceira. Ergueu-a e Adrián entendeu na hora o que significava. Para ele, aquela fita já não era um enfeite nem um jogo provocante: era o gesto inicial, a porta aberta, o aviso silencioso de que Renata não se escondia. Ele nunca tinha recebido um presente tão honesto.

Ela deixou a fita ao lado do espelho, como quem fecha um círculo. Os dois entenderam, sem dizer, que algumas noites não são lembradas pelo que aconteceu na cama, mas pelo que se revelou diante do reflexo: quem foram, quem se permitiram ser e como, por algumas horas, encontraram exatamente onde queriam estar.

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