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Relatos Ardientes

O que aconteceu no vestiário errado da academia

Às vezes a academia desperta mais do que o corpo. Naquela segunda-feira, o impulso não veio do esforço, mas das mãos de um homem que eu mal conhecia. Ainda não sei se aquilo aconteceu de verdade ou se sonhei acordada debaixo da água quente.

***

Era a primeira segunda-feira das férias de verão e a academia ia ficando vazia aos poucos. Só de manhã ainda havia algum movimento, alguns instrutores colocando as próprias rotinas em dia e um punhado de fiéis que se recusavam a abandonar o hábito de se matar de treinar. O resto do mundo tinha se rendido à praia.

Para mim, aquele espaço nunca tinha sido confortável. Cruzar suas portas era sair da minha zona de conforto, enfrentar minhas inseguranças e a sensação de não me encaixar. Sempre achei que os olhares alheios me apontavam, como se todos percebessem que eu sobrava ali. E os excessos da primavera não tinham sido gentis com o meu reflexo: alguns quilos a mais, pequenos lembretes que acertavam minha autoestima em cheio.

Terminei de trabalhar às quatro e meia em ponto. Com tempo apertado, mal consegui beliscar alguma coisa no carro antes de chegar à única sessão de crossfit programada para aquela tarde. Mais do que um esforço físico, aquela aula conseguia me reconciliar comigo mesma, me provar que eu ainda podia tentar.

O estacionamento estava praticamente cheio, coisas de morar tão perto do litoral de Alicante. Tive que rodar esperando alguém sair, desesperador, até que finalmente encontrei uma vaga a uma distância razoável. Fiquei um momento dentro do carro, me refugiando no ar-condicionado, me hidratando com algo leve antes de encarar a rotina.

Era julho, um calor sufocante e úmido, daqueles que fazem você suar mesmo sem se mexer. Quem ia para a rua àquela hora? Ninguém em sã consciência, exceto quem ia para a piscina. A academia parecia estranhamente vazia. Não havia aulas de natação, nem crianças correndo pelos corredores, nem pais aplaudindo. Aquele silêncio era, no fundo, agradável.

Foi então, a caminho dos vestiários, que cruzei com ele pela primeira vez. Eu ia distraída, vasculhando na bolsa o pequeno cadeado em forma de coração que sempre se escondia em algum canto impossível. Fuçava com pressa, o olhar perdido entre minhas coisas, quando de repente… crac. Esbarrei em alguém.

Só consegui ver um homem com o celular na mão, colocando um fone e caminhando sem tirar os olhos da tela. Nenhum dos dois percebeu o outro até trombarmos de frente.

— Opa, me desculpe — consegui dizer, enquanto pegava a bolsa do chão.

Ele mal levantou a cabeça, murmurou algo ininteligível e seguiu seu caminho para as escadas da sala de musculação. Fiquei um segundo olhando para ele, com uma mistura de surpresa e irritação. E esse aí, quem será? Pelo menos podia ter pedido desculpas.

Nos vestiários, só restavam algumas mulheres mais velhas saindo da piscina. As risadas delas ecoavam no vazio da sala. Troquei de roupa sem pressa, ainda remoendo o esbarrão, sem saber que aquele acidente tão fortuito acabaria marcando o resto do meu verão.

Ao sair, cruzei com Nuria, que entrava correndo.

— Amiga, você tá em cima da hora — falei.

— Eu sei! Tô super atrasada — ofegou —. Guarda um lugar do seu lado pra mim.

Subi para o box e procurei um bom lugar: nem muito atrás, nem visível demais. Eu não gostava de o treinador me usar de exemplo, ele sempre parecia ter um radar para me escolher. Fui para o meu lugar de sempre, terceira fileira, canto direito, perto o bastante da porta para sair primeiro.

O clima era o de sempre. As senhoras de pouco mais de quarenta que riam de todas as piadas do instrutor, os caras musculosos com suas parceiras e suas poses ensaiadas, e depois o resto, os que não se encaixavam totalmente em grupo nenhum. Os invisíveis.

O burburinho diminuiu um pouco antes de alguém entrar. Os ventiladores zumbiam lá em cima e o ar cheirava a borracha e esforço. Foi então, naquele instante suspenso de expectativa, que a porta do box se abriu.

E lá estava ele.

Não era o treinador habitual, nem mesmo quem costumava substituí-lo, então sua presença despertou imediatamente a curiosidade de todos. Começou se apresentando — foi exatamente então que consegui dar um nome a ele, Damián — e explicou, com certo ar de mistério, que seria ele quem daria as aulas da tarde durante todo o verão. A notícia caiu como uma bomba. Para mim, acrescentava motivação e motivos para não faltar nem um só dia.

Damián impunha respeito. Era um homem maduro, com cerca de cinquenta anos. Seu porte atlético não era o mais chamativo da academia, mas sua altura, perto de um metro e noventa, fazia com que se destacasse dos outros. Tinha uma presença forte, quase intimidadora. Seu rosto, de traços marcados e olhar profundo, transmitia autoridade. Não era bonito no sentido clássico, mas havia algo nele, uma energia difícil de ignorar, que inspirava respeito e atração ao mesmo tempo.

As senhoras do grupo não gostaram nada da mudança.

— Eu gostava mais do Sergio — murmuravam entre si.

— Esse cara não me desperta nada — disse outra, rindo.

Eu, logo atrás, não acreditava na superficialidade delas.

Damián começou a aula com uma rotina exigente: cinco minutos de corrida leve, polichinelos, agachamentos e alongamentos dinâmicos. O ritmo era intenso e as reclamações não demoraram a aparecer.

— Vamos, não somos bonequinhos de areia! Mexam-se! — gritava enquanto repetia cada exercício com uma precisão quase hipnótica.

Eu não conseguia tirar os olhos dele. Havia algo magnético na forma como se movia, na tensão dos seus músculos, que prendia completamente a minha atenção.

Hugo, um colega, interrompeu meus pensamentos.

— Damián é demais. Adoro a energia dele. Depois da aula ele costuma treinar na sala de musculação; combinei com ele de levantar uns pesos.

A curiosidade me cutucou como uma faísca. A sala de musculação, aquele território alheio, quase proibido para mim… mas a ideia de topar com ele lá me remexia por dentro.

A aula continuou, cada vez mais intensa. O corpo ardia, as risadas se apagaram e as reclamações se misturavam às respirações curtas. Damián seguia à frente, incansável, empurrando a gente além do limite.

— Vamos! Se querem resultado, parem de posar e se mexam — rugiu.

Sua autoridade tinha gume, e sua presença, embora dura, era irresistível. O treino terminou com uma sequência arrasadora. Eu, encharcada de suor, ainda sentia sua voz ecoando nos ouvidos. Minhas pernas tremiam de esforço, mas havia algo mais naquele cansaço, uma agitação que eu não conseguia definir.

Nuria se despediu e me deixou sozinha com os últimos atrasados, que também não acabavam de abandonar o box. Damián recolhia o material com calma, como se nada do que tinha acontecido o afetasse. Ao terminar, passou perto, tão perto que senti seu cheiro, uma mistura de sabão, suor e algo indefinível, quente e limpo.

— Bom treino — disse, quase num sussurro, sem parar de verdade.

— Obrigada — respondi, tentando fazer a voz não tremer.

Ele assentiu, um leve sorriso, e saiu pela porta. Durante alguns segundos fiquei imóvel, o pulso ainda acelerado, surpresa com o quanto sua presença tinha me afetado.

***

Quando finalmente desci para o vestiário, o lugar estava quase vazio. O vapor enchia o ar e o cheiro de xampu e água quente envolvia o ambiente com uma calma que contrastava com a agitação de cima. Sentei no banco central e respirei fundo. Cada músculo ardia, como se ainda guardasse a energia do treino, e deixei que a lembrança daquele momento me invadisse: sua voz mandando, seu olhar firme, a intensidade em cada ordem.

Entrei no chuveiro e fiquei parada debaixo do jato, deixando o calor me envolver. Fechei os olhos e, sem procurar, sua imagem voltou. Sua voz grave. Suas mãos marcando o ritmo. A maneira como cada palavra dele parecia roçar a pele sem tocar.

O vapor embaçava as paredes e deixava o ar denso. A água escorria pela minha pele ainda ardendo, cada gota acendia algo que eu não queria apagar. Meus dedos então se animaram, percorreram meu sexo por trás, deslizando com urgência, fazendo uma leve pressão até alcançar o clitóris. A umidade se descontrolava, deixando a lubrificação necessária para escorregar entre os lábios.

Quando cheguei ao meu ponto mais sensível, eu já estava excitada. Sentia as pulsações vibrando na ponta dos dedos, batidas que se continham quando eu pressionava e depois se soltavam, me dando a chance de tremer. Uns suspiros escaparam dos meus lábios, uma sequência rítmica de respirações aceleradas e gemidinhos.

O silêncio me fez acreditar que eu estava sozinha, até que o leve som de uma porta se abrindo me obrigou a virar a cabeça. O vapor era tão espesso que eu mal distinguia uma silhueta, mas bastou um segundo para reconhecê-la.

Ele.

Damián se apoiou no batente da porta, sem pronunciar uma palavra. Apenas me olhava. Não havia surpresa no rosto dele, nem pressa. Meu coração disparou. Quis falar, mas a voz ficou suspensa entre a garganta e o peito.

— O que você está fazendo aqui? — consegui dizer por fim, com a voz fraca.

Ele sorriu de leve, com aquela calma que desarmava qualquer defesa.

— Não queria interromper — respondeu, num tom baixo e pausado —. Por favor, continue.

O tempo pareceu parar. Cada respiração pesava. E, no meio daquela confusão, só havia uma coisa clara: éramos ele e eu, sozinhos.

— Mas… — apenas suspirei.

— Continue — ordenou —. Ou quer que eu saia e deixe a porta aberta?

Com a mão trêmula, continuei me acariciando. Eu estava corada e incapaz de parar. Em pequenos círculos ritmados, meus dedos me torturavam, e era impossível conter a quantidade de fluidos que brotavam de mim. Então ouvi vozes de rapazes do lado de fora do chuveiro e entendi que o intruso não era ele, e sim eu. Eu tinha entrado no vestiário errado.

Não pode ser que eu esteja no vestiário dos homens. Entrei em pânico.

Damián deve ter lido isso nos meus olhos, porque, sem se alterar, encurtou a distância entre nós, me impregnando com o calor do corpo dele.

— Não se preocupe, não vou dizer nada — ele fez uma pausa antes de continuar —, mas não pare. Continue.

E, levando a mão sobre a minha, começou a marcar o próprio ritmo nela. Ele pressionava meus dedos indicando com quanta força eu devia me apertar, ao mesmo tempo em que os dele se introduziam dentro de mim, me deixando com o ar preso na garganta. O som da água sobre os azulejos preenchia o espaço.

Eu sentia uma vergonha profunda, quase humilhante, de suportar aquele olhar fixo sobre meu corpo. E, no entanto, havia algo naquela situação que me desorientava ainda mais: uma mistura de nervos, curiosidade e desejo difícil de definir. O tempo ficou difuso. As forças me faltavam e eu mal conseguia ficar em pé. Me apoiei nele, que segurava minhas nádegas enquanto minhas pernas abraçavam seus quadris.

Um gemido abafado escapou de mim ao senti-lo entrar em mim. Agora éramos um só. Ele entrava com decisão, atingindo uma e outra vez aquele ponto secreto, me obrigando a sucumbir a um desejo insaciável. Gritei com a voz quebrada, sem conseguir me conter.

— Por favor… para — implorei.

Ele me olhou, mas não diminuiu o ritmo, como se nada pudesse interrompê-lo.

— Eu te imploro — insisti.

Não adiantou implorar. Enquanto eu me debatia para conter a necessidade de gritar, todos os que ainda restavam na sala eram cúmplices sem saber do que me acontecia atrás daquela porta.

— Vamos… tenho certeza de que você pode fazer melhor — ele sussurrou no meu ouvido.

Já quase não me restava ar. Um nó na garganta, uma mistura de angústia e contenção. Tudo em mim pedia para se libertar.

— Hoje eu estou generoso — disse com a voz baixa e rouca.

Ele desapertou a calça e, encurtando a distância que nos separava, me penetrou de uma vez, até o fundo. Sua mão tapou minha boca com a intenção de quem quer calar alguém.

— Silêncio — insistiu com dureza —, ou quer que todos entrem para ver como eu te faço gritar? — ele zombava.

— Não… não, por favor — eu disse, apelando à empatia dele.

— Aqui sou eu quem dá a aula — ordenou, sem deixar dúvidas sobre seu domínio.

Ele não diminuía o ritmo enquanto falava. Seus dedos voltaram a torturar meu ponto mais sensível a cada golpe que ele desferia.

— Quer que eu faça você gozar? — perguntou, mordendo meu lábio.

— Sim — respondi na mesma hora, com a respiração entrecortada.

Mas aquela liberação não seria gratuita. Havia um preço, um que eu aceitei sem medir as consequências. Com três investidas fortes e certeiras, eu já estava gritando. Meu corpo se tensionou num orgasmo intenso que me consumia. Minhas mãos buscaram apoio em seus ombros, trêmulas, e chegou meu primeiro orgasmo.

Ele saiu de mim. Meu corpo ainda pedia mais, exigia mais da atenção dele, e eu não hesitei em buscá-lo, marcando o corpo dele com o meu, reivindicando suas mãos. Ele já não parecia tão calmo quanto no início. Uma urgência incipiente o dominava por completo.

Ele não pensou duas vezes. Num movimento calculado, me colocou contra os azulejos brancos daquele banheiro estreito. As palmas das mãos contra a frieza da parede, o corpo levemente inclinado, exatamente no ângulo que lhe dava acesso sem que eu perdesse o equilíbrio. Posicionando-se atrás de mim, apalpou minha bunda e, com naturalidade, se ocupou em lubrificar a área. Não demorou para eu sentir a ardência da dilatação forçada.

— Não… para — sussurrei, tremendo entre a incerteza e a necessidade.

Ele não respondeu, só um suave «shhh», enquanto se abria caminho justamente onde antes ninguém havia estado.

— Dói… — consegui dizer, quase sem voz.

— Relaxe — sussurrou, roçando meu rosto —. Deixe-se levar — acrescentou, se acomodando dentro de mim.

Quando ele percebeu que eu estava confortável com ele dentro de mim, começaram as investidas. A pancada do meu corpo contra a parede ecoava por todo o vestiário, que por acaso, exatamente naquele instante, tinha ficado mudo. Talvez não haja mais ninguém. Esse pensamento me deu liberdade para soltar um gemido que eu vinha abafando havia um bom tempo.

Já não doía. Eu só aproveitava a sensação de plenitude, de como meu corpo cedia diante dele. Foram várias as investidas que recebi antes de me quebrar por completo. Um grito rasgado e profundo saiu de mim ao gozar sem freio, me saciando até me partir. Por um lado meu corpo aproveitava aquele sexo sujo e duro; por outro, minha cabeça ainda me lembrava onde eu estava e quem ele era. Apertei os lábios contra os azulejos úmidos, que abafavam um pouco a vibração dos meus gritos. Ele também se rasgou num grito rouco e selvagem.

Ficamos quietos por alguns minutos, recuperando o fôlego perdido, até conseguirmos acalmar o ritmo das respirações. Quando tudo terminou, peguei a toalha e a enrolei no meu corpo suado e exausto.

— Vista-se e saia daqui olhando nos olhos de todo mundo com quem cruzar — acrescentou —. Que todos vejam que você acabou de gozar e está completamente satisfeita.

Me aliviou lembrar que, fazia tempo, ali não se ouviam mais do que nossas respirações. Isso me deu forças para sair sem olhar para ninguém e voltar para a segurança do vestiário feminino.

Mas quando terminei de abrir aquela porta frágil, eu não esperava encontrar o que encontrei. O vestiário estava lotado de homens semidespidos que, em silêncio, mantinham o olhar fixo na porta por onde eu sairia.

A vergonha me acertou em cheio. Olhei para trás antes de sair e vi ele ali, vaidoso e orgulhoso, encostado na parede, me encarando, desafiando-me a deixar a sala.

Não hesitei. Baixei os olhos para o chão, apertei com força a toalha que mal cobria meu corpo e saí correndo. Uma angústia crescente apertava meu peito até quase me deixar sem ar. No armário, minhas mãos tremiam tanto que eu não conseguia abrir o maldito cadeado. Quando finalmente consegui, amarrotei a toalha molhada e enfiei tudo dentro da bolsa sem ordem nem cuidado.

Corri até o banheiro mais próximo, me tranquei lá dentro, me vesti com movimentos desajeitados e frenéticos, como se o chão pudesse se abrir sob meus pés a qualquer momento. Passei a pulseira na catraca, quase tropeçando no próprio gesto, e saí andando sem olhar para trás até chegar ao estacionamento.

Já no carro, fechei a porta com força. Só então consegui respirar. O silêncio me envolveu, e pela primeira vez senti que estava a salvo, longe dos olhares, dos cochichos, dos julgamentos que talvez ninguém tivesse feito, mas que minha mente, implacável, insistia em imaginar.

Que diabos tinha acontecido lá dentro?

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