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Relatos Ardientes

O senhor descobriu sua criada durante a tempestade

A casa senhorial parecia conter a respiração. No fim do século, o inverno naquela costa não era uma estação, mas um estado de espírito. A velha mansão dos Quiroga, imponente estrutura de madeira e nostalgia, erguia-se diante de um mar cinzento e áspero, submetida ao assédio constante do vento que gemia entre os beirais.

Dom Andrés de Quiroga, último rebento de uma linhagem decadente, era o único habitante daquele legado de salitre e silêncio. Todos haviam partido: os pais para a eternidade, a irmã para um convento, os criados para empregos mais promissores na cidade. Todos, exceto ela.

Lucía.

A criada.

Era mais uma sombra que uma mulher, um sussurro de saias engomadas e mãos úteis que deslizava pelos corredores para combater a decadência. Ele, mergulhado na melancolia de uns livros-caixa que só revelavam dívidas, mal levantava os olhos.

—Mais café, senhor?

Sua voz era baixa, límpida, um fio de prata na penumbra do escritório. Dom Andrés assentiu sem olhá-la. O aroma amargo encheu a xícara de porcelana fina, uma das últimas do conjunto completo. Observou as mãos dela, avermelhadas pelo trabalho, mas de dedos longos e nobres. Nunca lhe ocorrera pensar nas mãos de uma criada.

—O vento norte está se avolumando —murmurou, mais para si mesmo do que para ela—. Parece querer nos derrubar.

—Não conseguirá, senhor. A casa é forte.

Ele enfim ergueu o olhar. Lucía estava de pé, imóvel, com a cafeteira de prata entre as mãos. Seu avental era impecável, seu rosto, sereno. Mas em seus olhos ele acreditou ver algo que jamais notara: não a submissão vazia de uma criada, e sim uma calma profunda, uma resistência antiga como as rochas da praia.

—Você não tem medo, Lucía? De estar aqui sozinha, comigo, neste fim de mundo?

Ela esboçou um leve sorriso, quase triste.

—O medo é um luxo para quem não conhece o trabalho, senhor. Eu só conheço minhas tarefas.

Essas palavras o acompanharam o resto do dia. Enquanto revisava papéis inúteis, enquanto caminhava pela galeria fechada vendo a espuma branca se chocar contra os penhascos. O medo é um luxo. Era isso que ele sentia? Medo? Medo da ruína, da solidão, da irrelevância. Medo de ser o último Quiroga, aquele que deixou a maré levar o sobrenome.

***

A noite caiu como uma lápide. O vento se transformou num uivo feroz que sacudia as janelas e fazia ranger as vigas centenárias. Dom Andrés, incapaz de dormir, desceu à biblioteca em busca de um brandy que afugentasse os frios internos.

Encontrou-a ali.

Lucía não dormia. Estava de joelhos diante da grande lareira, atiçando as chamas com mão experiente. A luz do fogo dançava sobre seu rosto, dourava sua pele e aprofundava seus olhos. Não usava a touca; seu cabelo castanho, preso com simplicidade, deixava escapar alguns cachos rebeldes que brilhavam como fios de cobre.

—Senhor —disse, sobressaltada ao vê-lo—. Precisa de algo?

—A tempestade… não me deixa descansar.

—O fogo ajuda. E a companhia também, às vezes.

Ele se deixou cair em uma poltrona de couro gasto. Ela se ergueu e lhe serviu o brandy em silêncio. A tempestade rugia lá fora, mas dentro, o crepitar da lenha e o leve tinir da garrafa contra o cristal criavam uma intimidade frágil e nova.

—Há quanto tempo está com minha família, Lucía?

—Desde que eu tinha doze anos, senhor. Minha mãe serviu à sua antes de mim.

—E você nunca pensou em ir embora. Quando os outros partiram.

Ela o encarou diretamente. Pela primeira vez, Dom Andrés se sentiu nu sob aquele olhar tranquilo.

—E ir para onde? Esta casa é tudo o que conheço. É meu lar.

—Seu lar? —perguntou ele, com uma ponta de amargura—. Esta ruína...

—Não é uma ruína —retrucou ela com uma firmeza que o surpreendeu—. É um lugar que foi amado. E que pode voltar a sê-lo. As coisas importantes não se medem em moedas, senhor.

Nesse momento, um estrondo ensurdecedor, diferente do rugido do vento, ecoou no andar superior. Lucía se pôs de pé num salto.

—Foi uma janela. A do sótão do leste. O gonzo deve ter soltado.

—Vai ficar destruída! A água, o vento...

—Vou ver —disse ela, pegando uma lâmpada a querosene.

—Você não vai sozinha. É perigoso.

***

Ele a seguiu pelas escadas escuras, com o vento uivando agora dentro da própria casa. O sótão era um caos de caixas e móveis esquecidos. A janela, de fato, se desprendera, e um vendaval gelado e carregado de chuva entrava em torrentes, encharcando tudo.

Sem hesitar, Lucía remexeu em um baú velho e tirou um cobertor pesado de lã.

—Me ajude, senhor! —gritou por sobre o estrondo—. Temos que cobri-la!

Juntos lutaram contra a fúria dos elementos. Dom Andrés, um cavalheiro que não fazia esforço físico havia anos, debatia-se com a desajeitada ignorância de quem não conhece o próprio corpo. Lucía, ao contrário, era pura eficiência. Seus movimentos eram firmes, sua força, surpreendente. Entre os dois conseguiram pregar o cobertor à moldura com alguns pregos que ela tirou do avental, como se estivesse sempre preparada para o imprevisto.

Ofegantes, encharcados e frios, contemplaram seu trabalho temporário. O cobertor se enfunava com o vento, mas continha o ímpeto.

Dom Andrés voltou-se para ela. A lâmpada, pousada no chão, banhava os dois numa luz tênue. Gotas de água deslizavam pelo rosto de Lucía, pelo pescoço, desaparecendo sob o discreto colarinho do vestido. Ele viu o tecido fino encharcado colado aos ombros, aos braços dela. Viu a curva da cintura. Viu a determinação em seus olhos.

E, de repente, não viu mais a criada. Viu a mulher.

Viu a força que sustentava seu mundo, a firmeza que mantinha a decadência à distância. Viu a beleza austera e prática que estivera ali o tempo todo, invisível para ele até que a tempestade os encerrara naquele momento cru e primitivo.

—Lucía —murmurou, e sua voz soou rouca, estranha.

Ela o olhou, e em seus olhos não havia surpresa, mas uma compreensão profunda, como se sempre soubesse que esse momento chegaria. Como se tivesse estado esperando, não o senhor da mansão, mas o homem por trás do título.

—Senhor —respondeu, e nessa simples palavra houve um reconhecimento, um limiar cruzado.

***

O ar do sótão era gélido e cortante, carregado com o salitre do mar revolto. A lâmpada projetava sombras dançantes que exageravam cada movimento, cada olhar. Dom Andrés não conseguia desviar os olhos dela. O tecido fino do vestido, encharcado, aderindo a cada curva, revelava a firmeza de suas pernas, a cintura estreita e a redondeza dos quadris. Uma gota de água do mar descia por sua têmpora, sua bochecha, a linha da mandíbula, até se perder na base do pescoço.

Lucía não baixou os olhos. Inspirou fundo, e o movimento do peito dela, palpável sob o tecido úmido, foi como um clarão na penumbra.

—Você está gelada —disse ele, e sua voz era apenas um sussurro rouco que se perdia entre o uivo do vento—. Tremendo.

Antes que pudesse pensar, antes que o protocolo e a distância se interpusessem, suas mãos ergueram-se. Seus dedos de cavalheiro, acostumados à aspereza do papel e à suavidade do brandy, tocaram a pele dos braços dela. Estava fria como mármore, mas sob seu toque um fogo latente pareceu despertar. Um estremecimento percorreu Lucía, mas não de frio.

—Senhor... —sua voz falhou, súplica e advertência.

—Andrés —corrigiu-a, e o som do nome dele naquela intimidade proibida foi mais elétrico que qualquer trovão—. Me chame de Andrés.

Seu polegar, quase por vontade própria, começou a traçar círculos lentos e firmes sobre a pele dela, esfregando para gerar calor, mas com uma intenção que ia além do mero consolo. O atrito era áspero e doce ao mesmo tempo. Lucía fechou os olhos por um instante, e um suspiro trêmulo escapou de seus lábios, um som que se cravou nele no fundo do ventre.

—Não podemos... —murmurou ela, mas seu corpo inclinou-se ligeiramente para a frente, em direção ao calor que emanava dele.

—A tempestade não entende de deveres —respondeu ele, aproximando-se—. Só de desejos.

E então sua mão ousou mais. Deslizou do braço até a lateral do corpo dela, apalpando as costelas, sentindo o batimento furioso do coração através do vestido molhado. Lucía inspirou com força, e seus olhos se abriram, escuros, dilatados, devorando a pouca luz. Neles não havia recusa, apenas um conflito feroz e uma curiosidade abrasadora.

Ele baixou o olhar para os lábios entreabertos, levemente trêmulos. Não foi um beijo de dominação, mas de exploração. Uma aproximação lenta, dando a ela todo o tempo do mundo para rejeitá-lo, para virar o rosto, para se lembrar do seu lugar.

Mas ela não o fez.

Quando seus lábios se encontraram, foi como o choque do mar contra os penhascos. Frio e calor, sal e pele. Foi um beijo desajeitado no começo, carregado da urgência de anos de silêncio e olhares contidos. A barba dele roçou suavemente a pele impecável dela. O gosto de café e brandy se misturou ao gosto limpo, de água de chuva, dela.

Andrés enfiou uma mão no cabelo dela, desmanchando o coque simples. Uma cascata de cachos úmidos caiu sobre seus ombros, exalando um cheiro de sabão simples e tempestade. Ele gemeu contra a boca dela, e aquele som foi sua ruína.

Ele a empurrou com suavidade contra a moldura da janela selada, o corpo dela arqueando-se contra a madeira fria. O cobertor pregado atrás se enfunava a cada rajada, como um coração gigante pulsando. A boca dele tornou-se mais urgente, mais faminta. Já não explorava, reivindicava. Sua língua buscou a entrada dos lábios dela, e ela a concedeu com um gemido abafado que engoliu a tempestade.

As mãos dele já não se continham. Percorreram as costas dela, apalparam a curva firme das nádegas por cima do tecido encharcado e a puxaram com força contra si. Ela sentiu a prova dura do desejo dele pressionando-se contra o ventre, e um calor intenso e úmido, muito diferente do da água da chuva, floresceu no mais fundo de seu ser.

—Eu te desejei... —ele ofegou, rompendo o beijo, enterrando o rosto na curva do pescoço dela, mordiscando a pele salgada—. Sem nem saber... Eu te desejei todos os dias, em todo silêncio.

—Andrés... —gemeu ela, e desta vez o nome dele foi aceitação, um hino.

As próprias mãos dela, aquelas mãos úteis e nobres, ergueram-se pela primeira vez não para servir, mas para tomar. Agarraram-se às lapelas de sua casaca, amarrotando o tecido fino, e depois se enterraram em seu cabelo, puxando-o com uma necessidade que deixou os dois sem fôlego.

***

A respiração de Lucía era um fole quebrado, urgente. O frio que a dominava transformara-se em um fogo abrasador que lhe consumia as entranhas. Ela já não tremia de frio, mas de uma necessidade visceral que a fazia clamar por cada poro da pele.

—Você está gelada por fora —rosnou Andrés, e suas mãos grandes, agora ásperas, apoderaram-se do tecido grosseiro do vestido, amassando-o, puxando-o para cima—. Mas por dentro... por dentro você arde. Eu sinto.

Ela não ofereceu resistência. Ao contrário, um gemido gutural, um som que não sabia ser capaz de sair de sua garganta, respondeu-lhe. Os dedos dela se enredaram no cabelo dele, já não com a delicadeza de um instante antes, mas com desespero, puxando, exigindo.

—Vou rasgar esse maldito trapo —rosnou ele, e, com um movimento brusco e um estalo de tecido úmido, o vestido se abriu de lado, revelando a simples camisa de linho por baixo, colada à pele como uma segunda pele, transparente pela água, marcando as pontas escuras e eretas dos seios dela.

—Isso! —ofegou ela, selvagem, abandonada, arqueando as costas para se oferecer—. Rasgue!

Andrés praguejou entre os dentes, uma palavra baixa e suja que percorreu o corpo de Lucía com um arrepio de puro desejo. A boca dele se lançou sobre um dos seios dela através do tecido molhado, mordendo, sugando com uma fome feroz. A sensação do tecido áspero e da língua quente atravessando-a foi uma tortura exquisita. Ela gritou enquanto os quadris se empurravam contra o volume duro que ele pressionava contra sua coxa.

—Quero te sentir —ofegou ele, e os dedos se engancharam na barra das anáguas, puxando-as para baixo com força bruta—. Quero saber o quanto você está molhada por mim.

A linguagem crua, explícita, longe de ofendê-la, acendeu-a como isca. Era a verdade nua, sem ornamentos, o animal que ambos traziam dentro de si, libertado pela tempestade e pelo desespero.

—Faça isso! —provocou-o, contorcendo-se—. Vamos ver se é tão hábil com as mãos quanto com suas contas, Dom Andrés.

O desafio em sua voz, o uso irreverente de seu título, enlouqueceu-o. Com um rosnado, abriu-lhe as pernas e sua mão áspera mergulhou entre elas, encontrando o calor úmido e palpitante que buscava.

—Você está encharcada —exclamou com uma voz rouca de puro assombro—. Encharcada por mim.

Seus dedos não exploraram, invadiram. Um, depois dois, penetraram nela com uma força que a fez gemer e se agarrar aos ombros dele até arranhá-lo. Não havia delicadeza, apenas urgência e um conhecimento instintivo do que ela precisava: sentir-se preenchida, possuída.

—Isso, aí... aí! —gritava ela, abandonando toda compostura, movendo os quadris no ritmo dos dedos dele, que se curvavam dentro dela em busca daquele ponto que a fazia ver estrelas—. Mais forte!

Andrés a observava, embriagado pela visão de sua criada perdida no prazer, os lábios entreabertos, os olhos vidrados, o corpo entregue às mãos dele. Ele baixou a cabeça e mordeu o vão macio entre o pescoço e o ombro, marcando-a, enquanto os dedos aceleravam o ritmo com uma crueza que era a coisa mais excitante que ela já sentira na vida.

—É assim que a senhora da casa gosta? —sussurrou-lhe ao ouvido, a voz um pigarro rouco—. Que a tomem contra a janela do seu senhor?

—Sim! —uivou ela, e o orgasmo a atingiu como uma onda, brutal, convulsiva, fazendo o corpo dela estremecer e se contrair ao redor dos dedos dele—. Sim, Andrés!

Ele não lhe deu trégua. Enquanto ela ainda ofegava, recuperando-se do espasmo, desabotoou as calças com mãos desajeitadas. Seu membro, duro e pulsante, surgiu entre eles, e ele o guiou até a entrada úmida e quente dela.

—Olhe para mim —ordenou, segurando-lhe o queixo—. Veja quem está te tomando agora.

Os olhos de Lucía, escuros e úmidos de prazer, encontraram os dele. E então, com um impulso firme dos quadris, ele se enterrou nela por completo, rasgando o último resto de distância que os separava. O grito dos dois se fundiu ao rugido da tempestade. Ele, pela sensação do interior apertado e quente dela. Ela, pela plenitude de se sentir possuída até o tutano.

Começou a se mover com investidas longas e profundas que faziam ranger a madeira da moldura contra a qual ela estava prensada. Cada estocada era uma blasfêmia; cada gemido, uma oração profana. A linguagem reduziu-se a sons guturais, a ofegos, a nomes pronunciados como maldições.

—Você é minha, está me ouvindo? —rosnava ele, mordendo-lhe o ombro—. Minha.

—Sua! —gemeu ela, em êxtase, as unhas cravando-se nas costas dele—. Só sua! Mais forte!

O ritmo tornou-se frenético, animal. O som dos corpos se chocando, úmidos e quentes, impunha-se ao do vento. Ela era um torrente de sensações, cada nervo em brasa, cada investida levando-a mais perto da beira. Ele, suado, os músculos tensos, a olhava como quem encontra uma fonte depois de uma longa seca.

Quando o clímax os alcançou, foi como uma segunda explosão da tempestade, interna, cataclísmica. Ele rugiu sua liberação, esvaziando-se nela em espasmos violentos, enquanto ela gritava, mordendo o braço dele para não enlouquecer, o corpo convulsionando-se em uma onda interminável.

***

Ficaram juntos, ofegantes, suados, colados pelo esforço, apoiados contra a janela selada. A tempestade, aos poucos, começava a amainar. O uivo do vento ia se convertendo em um lamento distante.

No silêncio relativo, ouvia-se apenas o crepitar da lenha embaixo e o som áspero da respiração deles. O mundo com suas regras voltaria, inevitável. Mas algo mudara para sempre no sótão frio e escuro da velha mansão. O senhor e a criada se fundiram no calor de dois corpos que se precisavam, e nada jamais voltaria a ser igual.

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