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Relatos Ardientes

Subi ao palco para me despir e ele me esperava

O espelho do camarim devolvia a imagem de uma mulher que Marina mal reconhecia. Seus dedos, trêmulos apesar da decisão firme que a havia arrastado até ali, delineavam com cuidado o contorno dos olhos. Um traço preto, intenso, em busca de uma profundidade que ela nunca antes se permitira. Sua rotina se resumia a um pouco de máscara e, nos dias bons, um brilho discreto. A mulher do espelho, no entanto, parecia outra: uma desconhecida prestes a se lançar em algo sem volta.

O babydoll preto pendia de um cabide barato como se gritasse no ar empoeirado do quarto. Era justo, de um tecido translúcido que ela jamais teria coragem de vestir em sua vida normal. Tinha comprado pela internet, num impulso de madrugada, navegando por páginas que sempre evitara. Agora a peça a encarava do cabide, acusando em silêncio sua própria ousadia, enquanto ela tirava a aliança e a guardava no fundo da bolsa.

Uma batida na porta a sobressaltou. Uma voz jovem, com certa impaciência, chamou do corredor.

— Marina, pronta? Já é quase a sua vez.

Um arrepio desceu-lhe pelas costas. Pronta. Como alguém podia estar pronta para algo assim? O coração lhe golpeava o peito como um tambor surdo que ecoava nos ouvidos. A vergonha a invadia em ondas, um rubor quente que subia pelo pescoço até as bochechas. A fantasia, que na solidão da sua cabeça tinha um ar de ousadia libertadora, agora que estava prestes a se tornar real parecia um poço escuro.

Ao abrir a porta, o burburinho dos bastidores a atingiu como uma onda. Música alta, risadas estridentes, o roçar de tecidos brilhantes. E depois, os olhares. As outras garotas, bem mais jovens, com corpos esculpidos e minúsculas peças cravejadas de pedraria, a observaram com uma mistura de curiosidade e um desdém mal disfarçado. Seus olhos perfeitamente maquiados a percorriam de cima a baixo, detendo-se talvez tempo demais nas pequenas marcas que o tempo lhe deixara na pele.

Duas delas, de pernas intermináveis, cochichavam trocando olhares que Marina interpretou como deboche. Tentou esboçar um sorriso, mas só conseguiu uma careta nervosa. Sentiu sua segurança desmoronar um pouco mais. Queria desaparecer, fundir-se à parede suja do corredor, voltar correndo para a previsibilidade da sua casa.

O que fazia ali? Em que momento isso lhe parecera uma boa ideia? A fantasia que durante tanto tempo dançara em sua mente agora parecia distante, quase irreal, eclipsada pela realidade crua daquele corredor cheio de mulheres que pareciam esculpidas à mão.

Respirou fundo, tentando acalmar o tremor. Ajustou a alça do babydoll e sentiu a seda deslizar sobre a pele. Era agora ou nunca. Tinha de fazer aquilo. Por ela, por essa parte de si que passava anos pedindo para se soltar, ainda que fosse por apenas alguns minutos, da rotina e da insegurança. Com um último olhar para o espelho, onde a desconhecida de olhos intensos lhe devolvia um olhar desafiador, caminhou em direção à luz tênue que se filtrava por uma cortina no fim do corredor.

***

A cortina se abriu com um sussurro suave e a expôs a um mar de refletores que a cegaram no mesmo instante. Ela não distinguia rostos, apenas uma massa escura e murmurante do outro lado do palco. Mas sentia os olhares, pesados, cravados em cada centímetro da sua pele. Era como estar sob um microscópio gigante, com cada imperfeição ampliada pela intensidade da luz.

Risadas, o tilintar dos copos, vozes masculinas, algumas graves e roucas, outras mais jovens e excitadas. Conseguiu ouvir pedaços soltos, comentários que a fizeram encolher por dentro. «Olha aquela…», «Não está mal para a idade…». Cada palavra caía sobre ela como um golpe que reafirmava sua insegurança.

Um grupo de rapazes numa mesa perto da frente elevava a voz acima do murmúrio, soltando assobios. Marina sentiu a humilhação percorrê-la inteira. O que pensariam dela as pessoas que a conheciam? Seus filhos, suas amigas. A ideia a paralisou por um segundo e a fez vacilar sobre os saltos.

A música começou, um ritmo lento e sensual que parecia exigir movimentos fluidos e seguros. Mas os de Marina eram desajeitados, rígidos. Ela se sentia como uma marionete cujos fios se emaranhavam. As mãos não sabiam onde se colocar, os pés tropeçavam no ar. As meias pretas, que na sua fantasia eram puro erotismo, agora lhe pareciam escorregadias e perigosas. Tinha medo de cair e passar ridículo diante de todos aqueles olhos anônimos.

Tentou mexer os quadris no compasso, mas o gesto saiu forçado. Sentia-se exposta, nua por dentro antes de estar por fora. A vergonha era um nó apertado no estômago, uma pressão que dificultava sua respiração. Como vou mostrar este corpo que tanto me envergonha?, pensou, procurando na escuridão um apoio que não encontrava.

Pensou em parar, em descer do palco e nunca mais voltar. Mas então uma faísca de rebeldia se acendeu dentro dela. Chegara até ali. Não podia desistir. Tinha de tentar, mesmo que fosse só por aquela mulher no espelho que ousara sonhar.

***

Pouco a pouco, quase sem perceber, algo cedeu dentro dela. Talvez fosse o ritmo insistente da música, uma melodia que entrava sob a pele como uma carícia. Ou talvez fosse a própria vergonha que, no auge, começou a se diluir de forma paradoxal, abrindo espaço para uma estranha sensação de libertação. Era como se, ao se expor daquela maneira, não lhe restasse mais nada a esconder.

Seus movimentos tornaram-se menos tensos, mais soltos. As mãos começaram a explorar o próprio corpo com uma timidez que logo se transformou em curiosidade. Deslizavam pelas coxas cobertas de seda, acariciavam os quadris com um balançar incipiente. A música a envolvia, a guiava, e ela respondia.

Semicerrava os olhos, ainda velados pelo brilho dos refletores. Começou a sentir a sensualidade da seda preta contra a pele, o roce suave das meias esfregando nas coxas. Um calor nascente subiu desde o ventre, um despertar de sensações que julgava adormecidas.

E então o viu. Ou, melhor dizendo, o sentiu. Na penumbra, ao fundo à esquerda, uma figura solitária permanecia sentada, imóvel, com o brilho âmbar de um copo entre as mãos. Ela não distinguia o rosto dele, apenas uma silhueta na sombra. Mas uma fisgada no peito, uma conexão que ela não sabia explicar, a chamava na direção dele.

A ideia, longe de paralisá-la, acendeu algo ousado. Seus movimentos se tornaram mais decididos. As mãos agora exploravam o corpo com uma familiaridade nova, acariciando as laterais, detendo-se por um instante nos seios, sentindo o atrito do tecido contra os mamilos. Os quadris começaram a desenhar círculos lentos, uma linguagem silenciosa dirigida àquela figura na escuridão.

Seus dedos desceram até a bainha do babydoll. O tecido subiu, revelando centímetro a centímetro a pele das coxas, a renda preta da meia que mordia a carne. Um murmúrio percorreu a sala. Os comentários grosseiros de antes haviam silenciado, substituídos por uma expectativa que quase se podia tocar. Marina já não ouvia vozes soltas, apenas um zumbido excitado que parecia brotar da escuridão.

Brincou com a barra da peça, fingindo subir mais, parando justo antes de mostrar demais. Era um jogo de sedução, uma promessa tácita do que viria. Sua respiração se acelerou e ela sentiu um calor úmido entre as pernas. A vergonha inicial havia se transformado em uma excitação intensa, uma sensação de poder que a deixava tonta.

Agora se movia com uma confiança que jamais conhecera. Cada giro, cada ondulação dos quadris era uma declaração de desejo. Sentia-se observada, desejada e, pela primeira vez em muito tempo, desejável.

***

Com um gesto lento e deliberado, levou as mãos aos ombros. Os dedos dançaram sobre a pele, acariciaram a clavícula e encontraram as finas alças. Demorou-se nelas, criando uma antecipação palpável. Girou levemente de costas para o público, sem perder de vista a sombra daquele homem, e baixou as alças. A seda escorregou por suas costas, descobrindo a pele enquanto os quadris continuavam no ritmo, deixando o tecido cair centímetro a centímetro.

O babydoll caiu no chão com uma carícia muda. A luz capturou a renda preta da sua tanga, ressaltando a curva das nádegas a cada movimento. Permaneceu de costas por mais um instante, deixando a imaginação do público agir. Depois, com uma lentidão exasperante, voltou a se virar. Cruzou os antebraços sobre os seios, ocultando-os, gerando uma tensão que se sentia no ar. A luz brincava entre seus dedos, insinuando o formato dos seios, a sombra dos mamilos endurecidos.

A expectativa era quase física. Marina sentia os olhares cravados em seus braços, a impaciência no silêncio denso do local. Tinha consciência do poder que seu corpo irradiava. Por fim, com um movimento calculado, baixou os braços. Os seios ficaram expostos, oferecidos ao olhar ávido da sala. Não eram os das jovens que circulavam pelos bastidores. Não precisavam ser. Tinham a maciez de uma mulher, a marca sutil de uma vida vivida e, sob a luz quente do palco, irradiavam uma sensualidade crua e verdadeira.

Um suspiro percorreu a sala, mais forte desta vez. Um arrepio de prazer atravessou seu corpo. A vergonha havia desaparecido por completo, substituída por uma onda de liberdade. Pela primeira vez em anos, sentia-se dona do próprio corpo.

As mãos desceram até o ventre, acariciaram-no e pararam justamente acima da renda da tanga. Hesitou por um instante, sentindo o calor úmido se espalhar pela vulva, uma fisgada de desejo que a fez suspirar. Os olhos se cravaram de novo na figura do fundo e uma corrente elétrica pareceu uni-los.

Virou-se outra vez, dando as costas ao público, consciente de que a espera agora era maior. Abriu ligeiramente as pernas e inclinou o corpo para a frente. Com um movimento suave, mas firme, os dedos deslizavam pelas coxas e o tecido fino os seguia até cair no chão. Marina ficou imóvel por um segundo, as costas arqueadas, completamente entregue aos olhares anônimos. Depois se endireitou, voltando-se para o público, nua sob o foco vermelho, sem tentar se cobrir.

A música terminou, deixando um silêncio espesso. Por um instante, a dúvida a assaltou de novo. Tinha sido um erro? Ela havia passado ridículo? Aqueles segundos lhe pareceram uma eternidade. Mas então, da escuridão, um murmúrio cresceu até se tornar um rugido. Aplausos, vivas, assobios entusiasmados encheram o ar. Um sorriso, desta vez genuíno, iluminou-lhe o rosto.

***

Com as luzes se apagando, ela pegou o babydoll do chão e o vestiu às pressas, ainda nervosa, com o coração disparado. Ao atravessar os bastidores, topou com as garotas que antes a haviam olhado com desdém. Desta vez sustentou os olhos delas e lhes lançou um pequeno sorriso carregado de uma segurança recém-descoberta. Talvez elas tivessem um corpo mais jovem e liso, mas o que Marina havia mostrado no palco era algo que não se podia comprar nem imitar.

Ao entrar no camarim, o corpo inteiro tremia de excitação contida. Sentia um formigamento por toda parte, uma necessidade urgente de aliviar a tensão. Justamente quando seus dedos se dirigiam instintivamente à vulva, uma batida suave na porta a deteve.

Ficou paralisada, com o pulso ainda acelerado pela descarga de adrenalina. Sabia quem era. Pressentira desde o momento em que seus olhos se fixaram naquela silhueta ao fundo da sala.

A porta se abriu devagar, revelando a figura daquele homem. A luz tênue do corredor desenhava sua silhueta. À medida que ele entrava, Marina reconheceu o contorno da mandíbula, o brilho escuro dos olhos. Era ele. Claro que era ele. Eles haviam planejado aquilo durante semanas, rindo na cama, sem acreditar de verdade que teriam coragem.

— Achei que você fosse desistir — murmurou o marido, fechando a porta atrás de si.

— Eu também — admitiu ela, e riu, uma risada nervosa que lhe morreu na garganta quando ele se aproximou.

Sem dizer mais nada, ele pousou as mãos em seus quadris com uma familiaridade cúmplice que contrastava com a natureza pública do que acabara de acontecer. Ergueu-a sem esforço e a sentou sobre a mesa do toucador. As meias pretas escorregaram quando ela abriu as pernas, revelando o brilho úmido de sua boceta. Sentiu a rigidez da ereção dele contra o ventre e um arrepio de expectativa a percorreu inteira.

Ele se inclinou, o hálito quente contra seu ouvido.

— A sala inteira estava olhando para você — disse em voz baixa —. E você era minha.

Marina fechou os olhos e se entregou por completo. As mãos dele buscaram seu corpo com uma urgência contida, subiram pelo ventre e pararam justamente onde ela mais precisava. O primeiro toque foi uma tortura deliciosa. Ela se remexeu, procurando mais pressão. Ele entendeu a súplica silenciosa, abriu o cinto e a fivela tilintou ao cair no chão do pequeno camarim.

Sentiu o contato úmido e quente na entrada da sua vagina e um gemido abafado lhe escapou. Era a mesma excitação do palco, mas amplificada, mais direta, mais íntima. A penetração foi profunda, enchendo-a por completo, arrancando-lhe um suspiro que tremeu na garganta. Fazia tempo que não se sentia possuída de um jeito tão cru.

Seus suspiros se misturaram aos dele, que a penetrava com força e ritmo, preenchendo o vazio que a excitação pública deixara pela metade. Cada investida lhe arqueava as costas. O cheiro de suor, o calor dos dois corpos, tudo se somava a uma atmosfera selvagem. Marina se agarrou aos ombros dele, mordeu-lhe a pele, mexeu os quadris no compasso, buscando mais profundidade. A liberdade que sentira ao se despir, o poder de tantos olhares sobre ela, transformavam-se agora nessa conexão física, nessa posse silenciosa entre as paredes do camarim.

O ritmo se acelerou, mais urgente. Sentiu as contrações começarem a tomar conta do corpo, levando-a ao limite. A respiração se tornava entrecortada, os gemidos, mais desesperados. A fantasia havia se feito carne, e a realidade superava qualquer imagem que ela pudesse ter inventado.

O corpo dela se tencionou como o prelúdio de uma tempestade. Um grito rouco lhe escapou exatamente quando uma onda de prazer ardente a inundou. Convulsionou-se, os músculos se contraindo e se soltando em espasmos, agarrada com força aos ombros dele. Ele continuou se movendo, as investidas agora mais pausadas e profundas, até que, com um rosnado baixo, se deixou ir, enterrado até o fim dentro dela.

Ficaram unidos por alguns instantes, as respirações agitadas enchendo o quarto. Ele a sustentou enquanto as últimas ondas de prazer se dissolviam. Marina abriu os olhos, sentindo uma languidez morna se espalhar pelos membros. Por fim, ele se afastou um pouco, com o olhar fixo no dela.

— Vai fazer outro número algum dia? — perguntou, a voz grave e rouca.

Ela sorriu, lânguida e satisfeita.

— Não. Mas talvez no sábado eu possa praticar uns passos… mais privativos.

— No sábado temos almoço com meus pais — ele sussurrou em seu ouvido, o hálito ainda quente.

Marina o encarou, e um sorriso maroto lhe desenhou os lábios.

— Eu sei. Já falei com a sua mãe para as crianças dormirem lá.

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