Pular para o conteúdo
Relatos Ardientes

O cantor cristão me esperava sem a cruz

Conheci Damián numa entrega de prêmios onde nenhum dos dois queria estar.

Eu cantava reguetón, ele louvava ao Senhor. Nossos palcos eram mundos opostos e a imprensa jamais imaginaria que pudéssemos nos cruzar. Mas naquela noite, no corredor dos fundos do teatro, os dois buscávamos a mesma coisa: um cigarro e um tempo sem que ninguém nos pedisse fotos.

Ele me ofereceu fogo sem dizer uma palavra. Tinha as mãos compridas, os dedos finos de quem aprende a tocar violão antes de aprender a falar. Quando ergueu o olhar do isqueiro, vi nos seus olhos algo que reconheci na hora. A mesma coisa que eu vinha escondendo havia anos atrás dos letreiros luminosos e das modelos que eu exibía pelos tapetes vermelhos.

— Eu já te ouvi — disse, e a voz saiu rouca, como se ele estivesse sem usá-la fazia um tempo —. Não gosto do que você canta, mas gosto da sua voz.

— E eu não gosto do seu Deus — respondi, porque me incomodava ele me olhar daquele jeito —. Mas a forma como você canta, isso eu gosto.

Ele sorriu pela primeira vez. Um sorriso pequeno, quase envergonhado. E eu soube, sem que ele precisasse dizer mais nada, que eu estava prestes a me meter numa confusão da qual não saberia sair.

***

Começamos a nos ver em hotéis fora da cidade. Ele reservava em nome do empresário; eu entrava pela porta de serviço, com o capuz enfiado na cabeça. Nas primeiras vezes não acontecia nada. A gente ficava conversando até o amanhecer, sentado no chão com uma garrafa de vinho entre nós, contando coisas que nunca tínhamos contado a ninguém.

Damián me falou da infância num vilarejo onde o pai dele era pastor. De como, já adulto, um colega de coral o beijou na sacristia e ele chorou uma semana inteira sem entender se era culpa ou gratidão. De como tinha aprendido a domar a voz para que ela não tremesse quando cantava sobre o amor entre um homem e uma mulher.

Eu falei dos anos que passei inventando namoradas. Da modelo brasileira que cobrava para aparecer comigo nos vídeos. Do medo que eu tinha de minha própria família parar de falar comigo se descobrisse.

— É por isso que me custa — ele me disse uma noite, com a cabeça apoiada no meu ombro —. Porque quando estou com você, eu paro de mentir. E eu estou mentindo há tempo demais para saber o que fazer com a verdade.

A primeira vez que o beijei foi ali, depois dessa frase. Me inclinei sem pensar e rocei meus lábios nos dele, devagar, como se estivesse lhe fazendo uma pergunta. Ele respondeu abrindo a boca e agarrando minha nuca com uma mão que tremia um pouco.

Nessa noite ainda não transamos. Ficamos nos beijando até amanhecer, e quando fui embora levei o gosto da boca dele grudado na garganta como uma promessa.

***

O que veio depois não parecia com nada que eu já tivesse vivido.

Damián me ensinou a esperar. A deixar o desejo subir camada por camada antes de soltar. Passávamos horas nos despindo, parando em cada botão, cada zíper, cada centímetro de pele que aparecia. Ele lambia meu pescoço como se estivesse rezando, com a mesma paciência com que pronunciava cada sílaba das músicas dele.

A primeira vez que ele me comeu foi num quarto com vista para o porto. Era uma noite sem lua — depois entendi por que ele só me chamava em noites assim — e a única luz vinha das luzes vermelhas e verdes dos barcos ao longe. Ele me empurrou na cama e ficou de joelhos entre minhas pernas, me olhando como se quisesse me decorar por inteiro.

— Passei vinte e oito anos me segurando — ele disse. A voz dele estava quebrada —. Se eu te pedir perdão antecipadamente por tudo que vou fazer com você, você me dá?

— Cala a boca — respondi —. Cala a boca e faz.

Ele baixou minha calça com os dentes. Arrancou minha cueca num puxão e ficou olhando meu pau já duro, apoiado no ventre, como se fosse o primeiro que via de perto. Depois abaixou o rosto e me lambeu da parte de dentro do joelho até a virilha com uma lentidão doentia, parando para respirar contra a pele, me deixando sentir o bafo quente antes de cada nova passada. Ele lambeu meus ovos um por um, os colocou na boca, chupou devagar até eu senti-los pulsar. Eu agarrava os lençóis com as mãos e os primeiros gemidos já escapavam de mim.

Quando enfim levou meu pau à boca, não chupou de imediato. Enfiou inteiro até o fundo da garganta e ficou ali, quieto, sentindo-o pulsar contra o céu da boca. O corpo dele tremeu. Ele tremeu, não eu. Depois começou a se mover com a mesma cadência com que cantava: longa, sustentada, quase litúrgica. Subia a língua pelo corpo do pau, demorava na ponta, afundava a cabeça outra vez até a base. A saliva escorria pelo queixo e encharcava meus ovos e os lençóis. Ele me olhava de baixo, com os olhos brilhando, curtindo a maneira como meu rosto se contraía.

— Vou gozar — eu disse, cerrando os dentes.

Ele arrancou o pau da boca de uma vez e apertou a base com dois dedos, cortando meu orgasmo seco. Me olhou e sorriu.

— Ainda não.

Voltou a me chupar. Me levou à beira outra vez, e outra, e outra. Três vezes me deixou prestes a explodir e três vezes me cortou. Eu implorava baixinho, com a voz rachada, palavras que eu nem reconhecia. Na quarta ele ficou imóvel, com a boca cheia, e me olhou para eu dar permissão. Empurrei a cabeça dele para baixo e gozei com um grito dentro da garganta dele. Senti cada jato bater no fundo e ele engolindo sem soltar, chupando a última gota como se estivesse sendo pago para isso.

Quando me soltou, tinha os lábios inchados e uma linha branca no canto da boca. Subiu pelo meu corpo, me beijou a boca e me fez provar de mim mesmo na língua dele. Eu ainda tremia, e já estava ficando duro de novo.

— Vira de costas — ele me disse no ouvido.

Obedeci. Ele abriu minhas nádegas com as duas mãos e enfiou o rosto ali, entre as bandas, sem aviso. Me lambeu o cu com a mesma devoção com que vinha fazendo tudo até então: devagar, em círculos, com pressão, a língua entrando aos poucos. Eu me agarrava ao travesseiro e empurrava a bunda contra a boca dele, sem vergonha nenhuma agora. Ele enfiou um dedo, depois dois, curvando-os, procurando o ponto que me fazia gemer sem controle. Quando encontrou, ficou pressionando ali enquanto me chupava os ovos por trás, e senti meus olhos se virarem para dentro.

— Mete — pedi —. Damián, por favor, mete logo.

Ele se ajeitou de joelhos atrás de mim. Cuspiu no próprio pau, espalhou com a mão e foi apoiando a cabeça dele contra meu cu aberto. Empurrou a ponta e parou. Empurrou um pouco mais. Eu estava tão molhado da saliva dele e tão aberto pelos dedos que ele entrou quase inteiro na primeira investida. Um gemido longo me escapou, entre a dor e algo muito maior.

Ele se afundou em mim como quem entra num templo no qual nunca foi bem-vindo. Ficou imóvel por um instante, respirando contra minha nuca, com o pau inteiro dentro. Depois começou a me comer. No começo devagar, tirando até a ponta e voltando até o fundo, com uma precisão de canto gregoriano. Eu cravei os dedos nos antebraços dele e mordi o ombro para não gritar. A cada investida eu sentia o choque dos ovos dele contra os meus, o suor caindo do peito dele para as minhas costas, a voz rouca murmurando coisas no meu ouvido.

— Assim — ofegava —. Assim, aguenta assim, ainda não goza.

Ele me pegou pelas ancas e levantou minha bunda, e começou a me comer mais forte, mais rápido, com golpes secos que faziam a cama ranger. Ficou em pé aos pés do colchão, me puxou até a beirada, abriu minhas pernas e enfiou de novo de pé, me olhando nos olhos, afundando inteiro até eu ver a veia do pescoço pulsar. Ele cuspiu na minha boca. Eu engoli. Ele cuspiu de novo. Eu lambi a saliva dos lábios dele.

— Goza dentro — pedi —. Goza dentro de mim.

Ele acelerou. Vi o rosto dele se desmontar, aquela cara de menino de coral transando como um animal. Ele apertou meu pau com a mão e me masturbou no ritmo das investidas dele. Gozamos quase juntos. Senti o jato quente me enchendo por dentro ao mesmo tempo em que eu me esvaziava entre os dedos dele, salpicando os dois no ventre. Ele ficou dentro por um bom tempo, sem tirar, tremendo, deixando cair as últimas gotas.

Quando enfim saiu, eu me virei e o abracei. Ele chorou um pouco. Enxuguei as lágrimas que ele mesmo tinha deixado no meu pescoço com a língua, e ele riu baixinho.

— Eu devia me confessar — disse.

— Você devia se casar comigo — eu disse, e os dois rimos, mas nenhum dos dois riu de verdade.

***

A história da lua cheia eu só entendi bem depois. No começo, achei que era uma excentricidade dele, uma superstição boba aprendida da avó. Ele cancelava os shows ao ar livre nas noites em que o calendário marcava lua cheia. Se precisava cantar, fazia isso em teatros fechados, sem janelas, sem terraços. Nunca dormia comigo nessas noites. Dizia que precisava ficar sozinho, que era coisa de oração, que eu não perguntasse.

Eu não perguntava. Nessa relação havia muitas coisas que não se perguntavam.

Foi Sergio Méndez quem começou a perguntar.

Sergio escrevia para uma revista que vivia de expor misérias. Tinha me entrevistado de forma hostil dois anos antes e, desde então, eu o evitava. Mas um dia ele apareceu na porta do meu estúdio de gravação com um sorriso que eu não gostei nem um pouco.

— Tenho umas fotos — disse —. De você e do cantor cristão. No elevador do hotel Pórtico, há três semanas. Só para deixar claro: estão bem guardadas comigo.

Senti o sangue fugir para os pés. Não respondi. Esperei.

— Quero falar com os dois — continuou —. Hoje à noite. No apartamento dele. Imagino que você saiba o endereço.

***

Damián abriu a porta com o rosto desfeito. Sergio já estava sentado no sofá, com o gravador ligado sobre a mesa de vidro e uma pasta ao lado.

— Senhores — começou, num tom de comédia barata —. Não quero destruir a vida de vocês. Quero ser amigo de vocês. Amigos cobram.

Ele pediu uma quantia absurda. Damián escutou sem se mexer, com as mãos cruzadas no colo, os olhos fixos num ponto do chão. Eu abri a boca para discutir e ele me interrompeu com um gesto.

— Preciso pensar — disse —. Me dá dez minutos. Sergio, você quer beber alguma coisa?

Sergio sorriu, satisfeito. Pediu uísque. Damián foi até a cozinha servir. Quando voltou, entregou o copo a ele e caminhou devagar até a janela da sala. O céu estava limpo e a lua estava alta, redonda, perfeitamente branca.

Antes que eu pudesse entender o que ele fazia, ele puxou as cortinas de uma vez.

A luz caiu sobre ele como um tapa.

O que aconteceu depois eu não sei contar inteiro. Sei que o corpo de Damián mudou de forma sem que parecesse doer. Sei que a roupa dele se rasgou porque não havia mais homem por baixo. Sei que o som que saiu dele não foi um uivo, mas uma pergunta. E sei que Sergio gritou uma única vez antes de o animal estar em cima dele.

Eu não me mexi. Fiquei parado no sofá, com as mãos sobre os joelhos, vendo a criatura que era meu amante despedaçar o homem que tinha vindo nos destruir. Quando tudo terminou, a sala cheirava a sangue e a algo mais antigo, um cheiro de floresta que não deveria estar num apartamento na cidade.

O lobo me olhou. Tinha os olhos de Damián.

Me aproximei devagar. Pousei a mão no dorso dele, onde o pelo era mais escuro. Falei baixinho, disse que eu estava ali, que ele não precisava ter medo, que ia ficar tudo bem. Ele inclinou a cabeça, encostou o focinho no meu peito e ficou assim, respirando contra mim, até a lua terminar de cruzar o céu e ele começar a se transformar de volta.

Quando voltou a ser homem, estava nu, manchado de coisas que não quero nomear, chorando como uma criança. Eu o abracei sem dizer nada. Levei-o para o banho. Lavei-o. Deitei-o na cama e me deitei com ele e cantei baixinho, numa língua que não era a dele e que ele não entendia, até ele dormir.

***

Limpa-mos juntos. Não foi fácil. Também não foi tão difícil quanto deveria ter sido.

Ninguém procurou Sergio. Ele morava sozinho, não tinha família próxima, e os poucos colegas que perguntaram por ele se contentaram com a teoria de que ele tinha ido para o Brasil atrás de uma matéria. Quebramos o gravador dele. Queimamos as fotos. A pasta também.

Damián e eu continuamos nos vendo. As noites sem lua, principalmente. Às vezes, nas noites de lua cheia, eu o acompanho até o refúgio que ele tem na floresta, a duas horas da cidade. Deixo-o trancado numa cabana com a porta reforçada. Sento do lado de fora com uma garrafa térmica de café e espero amanhecer.

Não tenho medo dele. Sei que ele nunca me faria mal. E mesmo que fizesse — mesmo que, numa noite qualquer, a coisa que vive dentro dele me escolhesse em vez de um estranho com gravador — eu já não conseguiria ir embora. Tenho demais dele dentro de mim. E ele tem demais de mim dentro dele.

Às vezes, quando ele canta na televisão, vejo a voz dele baixar perto do final de uma música e sei que aquele detalhe, aquele leve descer da última nota, é para mim. É o nosso segredo dentro de outro segredo, escondido à vista de todos. E para mim, que aprendi a viver de mentiras, essa pequena verdade basta para eu nunca mais mentir para mim mesmo.

Ver todos os contos de Gay

Avalie este conto

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Entrar ou criar conta

Escolha como quer continuar.