Cheguei antes da hora e os encontrei em casa
A reunião foi cancelada no meio da manhã. Um problema com a documentação, disse o cliente por telefone, com aquela voz entediante de quem faz a gente perder tempo. Fiquei por um momento sentado no carro, em frente aos escritórios, sem saber o que fazer com as quatro horas livres que tinha pela frente. Decidi voltar para casa.
Não liguei. Também não mandei mensagem. Pensei em surpreender Valeria, talvez levá-la para almoçar em algum lugar tranquilo. Fazia semanas que não fazíamos isso, com o trabalho sugando todo o ar entre nós.
A porta da garagem estava entreaberta. Aquilo devia ter me parado. Valeria sempre a trancava quando estava sozinha. Subi a escada sem fazer barulho, pensando que talvez tivesse saído um instante para o jardim e esquecido de trancar.
O som chegou antes da imagem.
Pareí no corredor, a três metros da porta do nosso quarto. Entreaberta. A voz de Fernando, o marido de Claudia, nosso amigo dos últimos seis anos. E os sons que acompanhavam aquela voz não deixavam dúvidas: o batido úmido de carne contra carne, o ranger ritmado do estrado da cama e, acima de tudo, a respiração entrecortada da minha mulher soltando gemidos guturais cada vez que ele a enterrava.
Me aproximei sem pensar. Uma parte de mim ainda esperava estar enganado.
Não estava.
Valeria estava de quatro, com as mãos apoiadas na cabeceira da nossa cama, recebendo Fernando de joelhos atrás dela. O suor brilhava nas costas dela e escorria pela curva da coluna até sumir entre as nádegas abertas. Ela estava com a bunda empinada, oferecida, e de onde eu estava dava para ver perfeitamente como o pau de Fernando entrava e saía da buceta dela, grosso e brilhante, lambuzado do fluxo espesso da minha mulher. Cada estocada arrancava de Valeria um tremor nas coxas e fazia os seios balançarem sob o corpo, com os mamilos duros roçando o lençol. Os dedos dele agarravam os quadris dela com uma familiaridade que me deu náusea, os polegares cravados nas laterais do ânus da minha mulher, abrindo-a um pouco mais a cada investida. Ela com o rosto enterrado entre os braços, emitindo aquele gemido que eu conhecia bem, que eu achava ser só meu, agora transformado num ofego obsceno, longo, que lhe cortava a garganta toda vez que ele a arremetia até o fundo.
—Você é uma gata, Valeria —dizia Fernando entre ofegos, tirando-a quase inteira para enfiar de novo com força—. Já está na segunda e parece que ainda tem fome. Olha como essa boceta me engole, não quer me soltar.
—Não para —respondeu ela com a voz rouca, arqueando as costas para recebê-lo melhor—. Me toca e me aperta forte, assim. Enfia tudo, filho da puta, até as bolas.
Fernando se inclinou sobre ela, passou uma mão pela frente e agarrou um seio, apertando com crueldade enquanto continuava a foder por trás. Com a outra mão puxou o cabelo dela, obrigando-a a erguer o rosto. Valeria abriu a boca e dela saiu um gemido longo, animal.
—Por que não fizemos isso antes? —sussurrou ele perto do ouvido dela, sem parar de bombear—. Você teria o que merece sem precisar do inútil do seu marido. Me diz que você gosta mais do meu pau do que do dele. Diz.
Eu a ouvi gemer, se contorcer, empurrar a bunda contra ele. Vi Fernando descer uma mão até a junção dos corpos e esfregar o clitóris dela em círculos enquanto continuava a penetrá-la. Vi minha mulher tremer inteira, o corpo todo sacudido por um orgasmo, arranhando o lençol, mordendo o antebraço para não gritar.
O que aconteceu depois eu não esperava.
Valeria soltou a cabeceira, deixou-se cair para o lado e se virou de repente. O pau de Fernando saiu dela com um som úmido, escorrendo, ainda ereto e vermelho. Fernando ficou de joelhos, desconcertado, olhando para ela. O rosto dela estava contraído, não de vergonha, mas de algo mais parecido com fúria, com os seios agitados pela respiração e as coxas abertas, brilhando.
—Me comportar mal com você não te dá o direito de falar assim do Andrés —disse com uma frieza que cortava—. Ele é teu amigo. E é dez vezes o homem que você é.
—Mas você está aqui comigo. Com o meu pau dentro.
—Sim, e é o pior erro que eu cometi na vida. O Andrés não tem a menor ideia de como você é de verdade.
—Depois disso você vai voltar a me ligar, você vai ver. Depois de ter gozado assim com meu pau dentro, vai me ligar.
—Não vou voltar a te ligar nunca. O que acabou de acontecer aqui não vai se repetir. Na próxima vez que nos vermos, vai ser num jantar com todo mundo, e você vai se comportar como se nada tivesse acontecido. Agora eu preciso do banheiro.
Desci a escada com mais cuidado do que tinha usado para subir. Uma vez na rua, sentei no carro e esperei, olhando para a porta da garagem. Dez minutos depois, Fernando saiu a passos rápidos, fechando o casaco. Vi quando dobrou a esquina sem olhar para trás.
Esperei mais cinco minutos. Depois liguei para Valeria.
—Olá, meu amor —respondeu no segundo toque, com a voz calma, quase perfeita.
—Oi. Acabaram antes. Acho que chego em uns dez minutos.
—Perfeito. Te espero.
Estacionei a meia quadra e a observei através do para-brisa. Valeria saiu à porta com o cabelo molhado, recém-banhada, com a roupa que usava quando estava em casa. Ela me beijou quando entrei. Eu não a afastei.
—Que bom que você conseguiu voltar antes —disse—. Descansa um pouco.
—Espera. Você está com um cheiro estranho.
Ela deu um passo para trás. Só um.
—Deve ser o calor. Vou tomar banho agora mesmo.
—Antes me deixa passar. Estou cansado.
Subi para o quarto. As janelas estavam escancaradas. O edredom, amassado. Os travesseiros fora do lugar. O ar tinha aquele cheiro fechado e específico que não tem como confundir com outra coisa: suor, buceta molhada, sêmen. Eu estava tirando o casaco quando Valeria entrou.
—O mesmo cheiro que tem em você eu estou sentindo aqui —disse sem olhá-la—. Você dormiu um pouco?
—Sim, um momento.
—Dá para ver que você se mexeu bastante. —Peguei uma ponta do edredom e afastei a roupa de cama. Os lençóis estavam sem arrumar, com uma mancha escura e ainda úmida no centro—. Pelo menos podia ter arrumado a cama antes de eu chegar.
Enquanto ela ia para o banheiro, peguei um dos lençóis e o levei ao rosto. O cheiro era inconfundível: sêmen de outro homem misturado aos fluidos da minha mulher. Joguei-o de volta sobre a cama.
—Tira isso e leva para a lavanderia. Tudo. As fronhas também. E não coloca roupa nova porque o colchão e os travesseiros também vão ficar com esse cheiro.
Ela entrou com as mãos trêmulas e foi juntando tudo sem dizer uma palavra. Quando desci, já banhado e com roupa limpa, liguei para um freteiro da sala com o viva-voz ativado.
—Preciso retirar um colchão de casal com os travesseiros. Não sei para onde levar porque quero doá-lo.
—Se ele não tiver destino, eu fico com ele e não cobro a viagem.
—Perfeito. Já te mando o endereço.
Valeria apareceu na porta da sala. Estava pálida.
—Onde a gente vai dormir hoje à noite?
—Eu no quarto de hóspedes. Você escolhe: o sofá, o quarto de serviço ou um hotel. O que preferir. E, por favor, tome um banho direito. Com esse cheiro eu não conseguiria dormir nem na mesma casa.
—Você nunca falou comigo desse jeito.
—Para tudo existe uma primeira vez.
***
Passou uma semana inteira até eu comprar colchão e travesseiros novos. Nesse tempo, Valeria dormiu no quarto de serviço. De manhã, cada um ia trabalhar por conta própria. À noite, jantávamos em silêncio. Ela de cabeça baixa, eu olhando para o lado.
Dez dias depois, no jantar, ela quebrou o silêncio.
—Me dói viver assim. Parece que a qualquer momento você vai me pedir para ir embora.
—Não vou pedir para você ir embora.
—Por quê?
—Porque eu te amo.
Ela ficou em silêncio por um longo momento.
—Eu também te amo. Mas você nem sequer me deixa chegar perto.
—É que, quando você se aproxima, esse cheiro me vem. Eu sei que ele já não está mais lá, mas sinto do mesmo jeito. Os psicólogos chamam isso de memória sensorial. Uma sensação chama a outra, mesmo que a outra já não exista.
—Quando isso vai passar?
—Talvez quando eu entender de onde veio.
Ela emudeceu. Baixou os olhos para o prato. Eu voltei ao meu silêncio. Olhei de lado e vi que o queixo dela tremia. Afastei a compaixão. Ela tinha que decidir quando falar. Eu não ia forçar nada.
Assim se passaram mais dois meses.
***
Os jantares do grupo de amigos continuaram, uma vez por semana, em casas diferentes. Fernando continuava vindo com Claudia, como sempre. Numa tarde, enquanto nos servíamos de bebidas afastados do restante, ele se aproximou de mim.
—Andrés, faz um tempo que venho te achando estranho. Como se você estivesse me evitando.
—Não acho que esteja fazendo isso.
—Então por que você sente que tem algo?
O gesto que atravessou o rosto dele foi breve, mas claro. A lembrança daquela tarde ainda estava ali, enterrada, e a possibilidade de eu saber alguma coisa o deixava incomodado. Não lhe disse mais nada. Não tinha a menor intenção de tirar esse peso dele.
Na semana seguinte, nos reunimos na casa de Rodrigo e Silvia. Eu estava conversando com Claudia sobre algo sem importância quando ouvi a voz de Valeria subir de tom.
—Claudia, você sabe o que o seu marido acabou de fazer?
Todos nos viramos.
—Não, me conta.
—Ele passou a mão na minha coxa enquanto me dizia que a única coisa que faltava para a noite ser perfeita era levar para casa uma mulher como eu.
Fernando pigarreou.
—Foi uma brincadeira. Uma brincadeira de mau gosto, eu reconheço. Peço desculpas.
Claudia o olhava com uma expressão que eu conhecia bem: a de alguém que há muito tempo vem acumulando perguntas sem resposta.
—Andrés —disse Valeria, virando-se para mim—, o que você acha?
—Acho ótimo que Fernando tenha pedido desculpas —respondi—. E que estou muito orgulhoso da minha mulher por ter dito isso em voz alta. —Fiz uma pausa—. E que confio plenamente nela.
Disse as últimas palavras olhando para ela, direto nos olhos. Valeria abaixou a cabeça.
—Desculpem todos. Não estou me sentindo bem. Andrés, você me leva para casa?
***
Dirigi em silêncio. No meio do caminho, sem olhar, vi que ela passava o dorso da mão pela bochecha. Estendi o braço e peguei a mão dela. Foi o primeiro contato físico em quatro meses. Ela ficou imóvel por um segundo e depois envolveu minha mão com as duas, apoiou-a na bochecha molhada e a beijou.
Entramos em casa de mãos dadas.
Aquela noite, já na cama, eu a abracei. A cabeça dela ficou apoiada no vão do meu ombro. Ela ficou alguns minutos em silêncio e depois começou a chorar, primeiro baixinho, depois com soluços que sacudiam o peito. Beijei sua testa e esperei.
—Quero te contar —disse quando conseguiu falar—. Não posso continuar carregando isso sozinha.
—Estou ouvindo.
—Eu te traí. Uma única vez. No exato momento em que aconteceu, eu já sabia que tinha cometido o pior erro da minha vida. Prometi a mim mesma que não aconteceria de novo e cumpri essa promessa. Não te contei antes por medo de te perder, não por querer te enganar. Andrés, me perdoa. O que você decidir vai estar certo, mesmo que me doa.
Fiquei em silêncio por um momento.
—Vem —disse—. Vamos dormir. Que o corpo um do outro nos lembre que ainda estamos aqui.
***
Na manhã seguinte, quando ela voltou do banheiro, eu a envolvi por trás. Estava nua, ainda morna do banho, com a pele cheirando a sabonete. Minhas mãos começaram a se mover com calma, sem pressa, percorrendo seu ventre, subindo até abarcar os seios, pesando-os, beliscando os mamilos até senti-los endurecer entre meus dedos. Ela se apoiou em mim e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás sobre meu ombro. Desci uma mão pelo ventre liso até enfiar os dedos entre as coxas. Ela estava molhada, escorregadia, e soltou um gemido quando esfreguei o clitóris com o dedo do meio.
—Andrés —sussurrou—, por favor.
Empurrei-a devagar para a cama, dobrei-a pela cintura contra a beirada do colchão, com os pés ainda no chão. Abri-lhe as pernas com o joelho. Baixei a calça do pijama, peguei meu pau duro e o passei várias vezes pela fenda encharcada da minha mulher, molhando a cabeça no fluxo dela, provocando-a. Ela empurrou os quadris para trás, me procurando, e soltei um grunhido quando a ponta encontrou sua entrada. Entrei devagar, centímetro por centímetro, sentindo como sua boceta quente se abria para me receber e depois se fechava ao redor de mim como um punho.
—Sim —sussurrou apertando o travesseiro—. Como eu precisava disso. Como eu precisava te sentir.
Comecei a me mover devagar, com estocadas longas e fundas, saindo quase inteiro para voltar a entrar até o fundo. Apertei-lhe a cintura com uma mão e com a outra juntei o cabelo dela num punho, sem puxar, só segurando para ver a nuca, os ombros, as costas arqueadas. Cada investida arrancava dela um ofego, e eu sentia como ela empurrava para trás a cada vez, me encontrando no meio do caminho, me buscando mais fundo.
—Assim —disse eu ao ouvido dela, inclinando-me sobre suas costas—. Sente direito. Sou eu. É o seu marido que está te fodendo.
—É você —gemeu—. É você, meu amor, é você.
Segurei-a pelos ombros e a ergui, ainda dentro dela, até colocá-la de pé contra mim, as costas coladas ao meu peito. Passei um braço por cima dela, cruzando-lhe os seios, e com a outra mão voltei a buscar o clitóris. Continuei me movendo dentro dela, agora mais curto, mais fundo, enquanto esfregava o botão entre dois dedos. Ela jogou a cabeça para trás e procurou minha boca por cima do ombro. Nos beijamos com a língua, ofegando um na boca do outro, enquanto eu continuava a foder de pé por trás.
—Vou gozar —murmurou contra meus lábios—. Andrés, vou gozar.
—Goza. Goza para mim.
Eu a senti tremer inteira, apertar-me por dentro com uma contração longa que quase me arrastou junto. Segurei o peso dela porque as pernas falharam. Quando terminou, voltei a incliná-la para a frente contra a cama, cravei as mãos em seus quadris e dessa vez a fodi sem freio, com estocadas rápidas e secas que batiam contra as nádegas dela. Ela gemia por baixo, com os dedos agarrados ao lençol novo, empurrando a bunda para mim, me pedindo sem palavras que eu gozasse dentro.
—Dentro —murmurou—. Goza dentro de mim. Por favor.
Segurei o quanto pude e depois me deixei ir. Senti a pulsação subir do fundo, a porra quente saindo em jorros dentro dela, enquanto a segurava com as duas mãos e ela empurrava para trás para não perder uma gota sequer. Fiquei enterrado até o fundo por alguns segundos, com a testa apoiada nas costas dela, respirando.
Ficamos assim por um bom tempo, sem pressa, recuperando algo que havíamos deixado de fazer com atenção. Depois, em voz baixa, ela perguntou se podíamos mudar de posição, se ela podia ficar por cima, se podíamos fazer também do outro jeito.
—Prefiro que a gente espere um pouco —disse, saindo devagar, vendo meu sêmen escorrer pela coxa dela—. Quando o tempo tiver passado, fazemos de todas as formas que você quiser.
Ela ficou imóvel. Depois pegou o travesseiro e o apertou contra o rosto. Chorou por alguns segundos. Quando o soltou, os olhos dela me procuraram.
—Você nos viu.
Não era uma pergunta.
—Sim. Também vi você defendê-lo. Ouvi o que você disse. E acreditei quando você prometeu que não aconteceria de novo.
Ela ficou em silêncio por um longo momento.
—Alguma vez isso vai embora?
—Não sei. Mas podemos trabalhar para que isso vá embora para longe.
Ela me olhou com algo que fazia meses que eu não via em seu rosto. Não era exatamente alívio. Era algo mais parecido com voltar a estar no mesmo lugar depois de termos nos perdido separados.
—Me diga como —disse.
—Começamos hoje —respondi—. E vamos devagar.