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Relatos Ardientes

A viúva e a jovem que não foi embora do enterro

Durante os dias anteriores, uma quietude espessa havia pairado sobre o vilarejo. Os campos murmuravam ao vento, e as noites se enchiam do canto distante dos grilos. Marisol, viúva havia apenas uma semana, costurara à mão um lençol branco com linhas que tremiam entre seus dedos. Cada ponto era mais um nó em sua garganta. Enquanto isso, o choro de seu bebê recém-nascido preenchia a casa com uma vida que ainda buscava seu rumo.

A cerimônia foi realizada numa capela rústica, perdida naquele recanto onde o tempo parecia parar. As paredes de madeira, gastas pelos anos, rangiam a cada brisa que entrava pelas frestas e trazia consigo um cheiro de terra úmida. O chão de tábuas irregulares guardava as marcas de passos antigos. Sobre o altar, um vaso com flores silvestres — amarelas e brancas — inclinava suas pétalas já murchas.

A luz do entardecer entrava por uma janela embaçada e tecia sombras suaves sobre os bancos de carvalho. Ao lado do caixão, um esquife simples coberto pelo mesmo lençol costurado com esmero, estava Marisol. Sua figura se inclinava um pouco, como se carregasse nos ombros o peso inteiro de sua perda.

O vestido cinza-escuro, de tecido gasto, mas com certa graça, ajustava-se à sua cintura. Ali, as linhas de seu corpo haviam se arredondado com uma suavidade recente. Os cabelos negros caíam em mechas que escapavam de um coque desfeito, emoldurando um rosto de olhos profundos e melancólicos. Sob o tecido humilde, seus seios fartos pela amamentação subiam e desciam a cada respiração, atentos ao volume do bebê envolto numa manta cor de creme.

Perto da porta entreaberta, por onde se infiltrava um sussurro de ar, uma figura pequena permanecia imóvel, quase dissolvida na penumbra. Havia nela algo de frágil, como se seu espírito tivesse se recolhido sobre si mesmo. Os cabelos castanhos, opacos e desgrenhados, cobriam parte de seu rosto e velavam olhos grandes que denunciavam uma timidez extrema.

Vestia-se de escuro, com uma roupa grande demais para seu corpo. As mangas passavam dos pulsos, e a bainha roçava o chão, deixando à mostra sapatos velhos. Entre as mãos, segurava um buquê de violetas silvestres, as pétalas apertadas contra o peito, onde o tecido se esticava de leve e sugeria uma forma jovem ainda em flor.

***

A despedida, porém, não terminava na capela. O pequeno grupo de vizinhos saiu com Marisol e o caixão em direção a um campo aberto ao pé da igreja. O terreno era um manto de capim alto e selvagem, salpicado de cruzes de madeira inclinadas pelo tempo. O céu se tingia de um laranja suave, e o sol descia devagar, derramando uma luz dourada sobre as lápides improvisadas.

O padre da aldeia, um homem de rosto enrugado e voz trêmula, conduziu a despedida com um livro gasto entre as mãos. Murmurava palavras de consolo enquanto sua batina puída ondulava com a brisa. Os vizinhos, de cabeça baixa, deixavam cair punhados de terra sobre o esquife à medida que ele descia para a cova aberta à mão. O som seco ressoava no ar.

Marisol observava em silêncio, os dedos cravados na manta, uma lágrima escorrendo pela face. O bebê, inquieto de fome, soltou um choro suave que cortou o ar como um eco de sua própria dor. Com um gesto instintivo, ela ajeitou o vestido, afastou o tecido e aproximou o pequeno do peito.

A amamentação começou ali, ao ar livre, e a envolveu numa calma profunda. Enquanto o menino se aninhava contra ela e buscava avidamente o calor de sua pele, algo se afrouxou dentro de Marisol. Cada sucção parecia desfazer um pouco do nó que carregava cravado desde a morte do marido. Seus olhos úmidos se suavizaram, e sua respiração ficou mais lenta, como um longo suspiro que carregava todo o peso daqueles dias.

A vida continua pulsando dentro de mim, pensou, e o simples fato de sentir isso a manteve de pé.

Depois de um último murmúrio de despedida, os vizinhos se dispersaram devagar. Suas figuras desapareceram entre o capim, até que o campo ficou em silêncio. Aparentemente sozinha, Marisol continuou ajoelhada junto à sepultura recém-coberta, segurando o bebê contra o peito enquanto o amamentava.

Logo, vencido pelo sono, o pequeno relaxou a boca e se afastou de seu abrigo morno. O tecido do vestido deslizou por um instante, revelando a curva pálida de seu peito antes que ela, com um movimento maquinal, o cobrisse novamente com a manta. Foi então, naquela pausa, que ergueu os olhos e percorreu o horizonte.

Ali, quase fundida à penumbra do crepúsculo, continuava aquela figura pequena e trêmula. Imóvel entre o capim alto, com o buquê de violetas ainda apertado contra o peito. Ela não fora embora com os outros.

Marisol sentiu um leve estremecimento e se pôs de pé, sua silhueta recortada contra a última luz dourada. Deu um passo hesitante em direção àquela sombra. A jovem, ao notar sua aproximação, ergueu os olhos com timidez, e os olhos de ambas se encontraram pela primeira vez. Foi um encontro silencioso que pareceu fazer até o vento parar.

Dentro de Marisol, as emoções se revolveram: a perda que ainda queimava, o amor que segurava contra o peito e, agora, uma centelha de curiosidade que a impelia em direção àquela desconhecida. Seus olhos percorreram a figura diante dela e pararam por um instante na curva sutil que se adivinhava sob o vestido largo. Algo morno lhe subiu por dentro, um sentimento que não soube nomear, mas que lhe cortou o fôlego.

—Olá… —sussurrou, com uma voz que se perdeu na brisa enquanto balançava o bebê quase sem perceber—. Há tanta quietude aqui. Quem é você? O que a trouxe a este recanto tão solitário?

A jovem baixou os olhos por um momento e apertou as violetas nervosamente. Um rubor quase imperceptível tingiu-lhe as faces ao se lembrar, com uma vergonha tímida que a obrigou a desviar o olhar, do lampejo fugaz da pele de Marisol, ainda tão vivo em sua mente. Um calor inesperado subiu-lhe pelo pescoço, mistura de inocência e desconcerto.

Quando voltou a erguer os olhos, percorreu com curiosidade a figura de Marisol e demorou-se na suavidade de suas curvas e no calor que ela emanava. Havia nela um magnetismo que a inquietava e a atraía ao mesmo tempo, embora não entendesse por quê.

—Sou… alguém que ficou sem lar —respondeu num murmúrio quase inaudível, a voz tremendo como uma folha—. Vim porque a pessoa que cuidava de mim já não está aqui. E você? Por que está sozinha?

Marisol sentiu um nó na garganta. Sua própria dor ecoava nas palavras da jovem. O coração ferido se abriu um pouco, como uma flor que busca a luz depois da tempestade. Enquanto falava, seu olhar pousou nos lábios trêmulos da jovem e na maneira como o vestido se esticava sobre seu peito, despertando uma admiração misturada à piedade.

—Perdi alguém muito querido —disse após uma pausa, o tom tingido de melancolia, os olhos fixos nas mãos delicadas da jovem—. Este lugar guarda sua memória. Você tem um nome que queira compartilhar comigo?

A jovem ergueu os olhos devagar. Embora a timidez ainda a envolvesse, uma centelha de alívio se acendeu em seu olhar. Sua voz, ainda trêmula, encontrou um fio de força, e seus olhos se atreveram a percorrer a silhueta de Marisol: a plenitude de seu busto, a elegância de sua postura. Um contraste que a fazia se sentir pequena e, ao mesmo tempo, intrigada. Um arrepio desconhecido percorreu-lhe a pele enquanto sustentava o olhar da outra.

—Chamam-me Celeste —disse, baixando os olhos por um instante antes de acrescentar num sussurro—. Ele… aquele que enterramos hoje… era meu tio.

Um silêncio pousou entre as duas. Marisol sentiu o ar parar. Abriu um pouco mais os olhos, atravessada pela surpresa e por um estranho reconhecimento, enquanto seu olhar se desviava para a curva juvenil dos ombros de Celeste. Sua voz tremeu ao responder.

—Então… éramos mais próximas do que eu imaginava —murmurou, com uma melancolia subitamente atravessada por uma tênue esperança—. A noite se aproxima, e este campo parece tão vazio. Gostaria de caminhar comigo até minha casa? Você poderia descansar um pouco, se quiser.

Celeste sentiu um arrepio percorrer-lhe as costas e tornou a erguer os olhos para Marisol. A ideia de um abrigo a tentava, mas a incerteza a fazia hesitar. Seu olhar demorou-se na suavidade do pescoço da viúva, na maneira como a luz do crepúsculo acariciava suas curvas. O detalhe a fez corar ainda mais, misturando o medo a uma curiosidade que não chegava a compreender.

—Não sei… tenho medo de ser um peso —sussurrou, com a voz quase reduzida a um fio e as mãos tremendo—. Mas… se é isso que você quer, acho que poderia ir.

Marisol sorriu com doçura, um gesto que iluminou seu rosto e acendeu seus olhos com uma ternura que beirava a intimidade. Seu olhar se deteve na postura frágil de Celeste, na promessa de sua juventude, e um calor sutil cresceu em seu peito. Por enquanto, preferiu atribuí-lo apenas à compaixão.

—Você não seria peso nenhum —respondeu suavemente, dando mais um passo, a voz num murmúrio que acariciava o ar—. Venha. Deixemos que o caminho nos leve a um lugar mais quente.

Celeste assentiu devagar, e seus lábios se curvaram num sorriso tímido. O silêncio entre as duas se transformou em algo cálido, como um jardim que começa a brotar depois da tempestade. Puseram-se a caminhar pelo capim alto, o bebê adormecido contra o peito de Marisol e o buquê de violetas balançando na mão da jovem, enquanto seus olhares tornavam a se cruzar, carregados de uma curiosidade que prometia florescer com o tempo.

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Comentários(6)

DevoradoraDeContos

Que início!! Esse detalhe do buquê de violetas apertado contra o peito me fisgou completamente.

Mel_SP

tem segunda parte?? precisando urgente kkk

VioletaLeitora

Li duas vezes seguidas. Tem uma atmosfera que é rara de encontrar nesses contos, parece que você sente o calor e o silêncio em volta delas.

LeituraNaCama

Fui dar uma olhada antes de dormir e eram 2 da madrugada quando terminei. Nao me arrependo nada.

Bia_PE

A tensão toda construída antes de qualquer coisa... meu deus. Me lembrou de uma situação em velório de família, claro que sem o desfecho kkk

SorrisoTimido

amei demais!!

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