O que meu vizinho viu através da cortina aberta
Atravessei a sala para beber um copo d’água sem lembrar que as cortinas continuavam abertas. Do outro lado do vidro, os olhos dele já me haviam encontrado.
Atravessei a sala para beber um copo d’água sem lembrar que as cortinas continuavam abertas. Do outro lado do vidro, os olhos dele já me haviam encontrado.
Meu namorado roncava feito tronco no quarto do fundo quando ela se aproximou de mim. O sotaque sulista e aqueles olhos pretos me disseram tudo antes das mãos dela.
Me olhei no espelho com a peruca posta e o vestido translúcido, e soube que naquela noite eu ia deixar um estranho fazer comigo tudo o que eu vinha imaginando há semanas.
Eu tinha quarenta e quatro anos, duas filhas e um divórcio recente quando a garota da casa da frente me olhou de outro jeito e disse o que eu não ousava pensar.
A Carolina dizia que estava cansada dos homens. Mas quando baixei a calça ao lado da piscina dela, os olhos dela não saíram de mim nem por um instante.
Quando ele entrou no carro e me sorriu, eu soube que naquela noite não chegaríamos a lugar nenhum decente. Tinha de ser nosso, nem que fosse em um caminho de terra entre amendoeiras.
Eram seis da manhã e o bar estava vazio. Ele me serviu uma tequila, me olhou como vinha me olhando a noite toda e disse que não me deixaria ir embora tão cedo.
Naquela manhã, quando entreabri os olhos no colchão encostado na varanda, ela já estava lá, na dela, fumando, esperando que eu me virasse.
Lorena vinha flertando com minha mulher em cada encontro da academia havia anos. Naquela noite, com o clima aceso, a brincadeira deixou de ser brincadeira enquanto eu via tudo da poltrona.
Dirigia à noite transformada em outra mulher e ninguém sabia. Bastou um descuido numa parada para que ele descobrisse quem eu era de verdade.
O armário do senhorzinho guardava um uniforme preto com touca branca, e dom Aurelio lhe garantiu que, assim que o vestisse, deixaria de ser Marcial para sempre.
Subi suas caixas, preparei um café para ela e, antes de terminar, já sabia que essa vizinha ia mudar todas as minhas noites naquele prédio.
Estávamos em cima da cerejeira roubando fruta quando Hugo me confessou a obsessão que arrastava desde criança. Naquela mesma tarde, a mãe dele ainda não sabia o que vinha pela frente.
Eram onze e eu já não conseguia me concentrar. Abri o app sem esperança, mas trinta minutos depois eu caminhava até o prédio dele com uma caixa de camisinha no bolso.
Eu vinha fingindo há meses que homens já não me interessavam. Bastou uma voz no telefone e a promessa de um presente para eu cair de novo.
Eram duas da manhã, eu estava entediada e com tesão, e desci ao lobby do jogo sem esperar nada. Então vi o avatar dela se inclinar para o meu.
Começamos com stickers bobos no fim do turno. Depois veio o apelido. Depois a fantasia. Nessa noite ele me escreveu que a minha casa ficava mais perto e eu não soube dizer não.
Quando cheguei ao restaurante com meu vestido preto e meu conjunto de renda por baixo, eu já sabia que não sairia de lá sendo a esposa fiel que fingia ser.
Tinham se passado dois anos desde a primeira vez. Quando ele respondeu minha mensagem, eu soube que iria procurá-lo, mesmo com uma parte de mim dizendo que não.
Sou casada. Sou hétero. Era isso que eu era quando entrei no banheiro do shopping. O que eu era quinze minutos depois, já não tenho tanta certeza.