A mulher em que minha esposa me transformou para sempre
Já se passaram meses desde aquela noite no salão de Madame Lutecia, e ainda tenho dificuldade para apontar o instante exato em que deixei de ser eu. Não houve um golpe nem uma decisão consciente. Foi uma descida lenta, uma maré que subiu enquanto eu dormia até me cobrir por completo. Esteban não existe mais. Agora sou Estela, e escrevo isto não como uma confissão arrependida, mas como o registro de uma mulher que aprendeu a desejar o que jamais acreditou ser possível.
O que começou como uma saída noturna inocente se tornou o estopim da minha metamorfose. Carla, minha esposa — agora minha ama e minha companheira nesta vida retorcida —, guia-me com uma mistura de amor possessivo e dominação tão sutil que quase não parece uma ordem. A hipnose não terminou naquela noite. Madame Lutecia nos visita a cada poucas semanas para «reforçar», como ela diz, as sugestões que se infiltraram no meu subconsciente sem que eu percebesse, até ser tarde demais.
Minha rotina diária é um tecido de submissão e prazer constante. Acordo todas as manhãs em nossa cama enorme, envolta numa camisola de seda rosa que roça minha pele sensível demais. Essa sensibilidade não é casual: são os hormônios que Carla me administra disfarçados de suplementos para a vitalidade. Meu corpo realmente mudou. Meus peitos cresceram com os tratamentos e, depois, com um par de cirurgias nas quais colocaram em mim as maiores próteses que o médico se atreveu a recomendar. Meus quadris se alargaram. Minha voz se afinou com prática e com exercícios vocais que Madame gravou para eu repetir todas as noites. Entre as pernas já quase não resta nada: o que foi meu pau reduziu-se a uma coisinha mole, enjaulada a maior parte do dia, e atrás tenho uma bunda que Carla se encarregou de treinar mês após mês até deixá-la aberta, elástica, sempre pronta para o que ela tiver vontade de enfiar em mim.
Olho para mim no espelho do banheiro enquanto me maquio — lábios vermelhos, olhos esfumados, exatamente como nos sonhos que depois compreendi serem lembranças reais — e sinto uma onda de excitação subir pelas costas. Não há volta. Minha mente foi reescrita para desejar essa feminilidade, e o pior, ou o melhor, é que já não quero recuperar o que perdi.
O dia começa com serviço. Preparo o café da manhã vestida de empregadinha francesa sobre lingerie preta e meias de náilon que não tiro nem para dormir. Carla desce à cozinha com o cabelo ainda úmido, beija meu pescoço e sussurra duas palavras que se tornaram o centro do meu mundo.
— Boa menina.
Boa menina. Essas duas palavras me derretem mais que qualquer carícia. Meu corpo responde antes da minha cabeça, como um cachorro que reconhece a voz da dona.
Às vezes ela me recompensa ali mesmo. Empurra-me contra a bancada fria, levanta minha saia de empregada de uma só vez e abaixa minha calcinha até os joelhos. Escuto o clique do cinto do arnês, o ruído úmido do lubrificante frio escorrendo entre minhas nádegas, e depois a pressão grossa do seu pau de silicone forçando minha bunda de uma só investida. Ela crava as unhas nos meus quadris e me fode contra os azulejos, sem piedade, enquanto mordo o antebraço para não gritar. Com a outra mão, agarra meu cabelo e puxa minha cabeça para trás.
— Diga a eles que você é minha — ela geme no meu ouvido —. Diga em voz alta, puta.
— Sou sua, ama, sou sua puta, sou sua mulherzinha — repito, com a voz quebrada, enquanto cada estocada me abre mais, enquanto a jaula entre minhas pernas se aperta e baba contra a bancada. Ela não para até eu gozar sem me tocar, um jato espesso e humilhante que cai no chão da cozinha e que depois me faz lamber, de joelhos, ainda com o arnês dentro da bunda.
Trabalho de casa como assistente virtual, mas minhas pausas não são descansos: são lembretes. Carla controla de seu escritório um pequeno dispositivo que carrego dentro de mim, um plugue vibratório que ela introduziu quando me levantei e que não me deixa tirar até a noite. Cada vibração no meio da manhã me obriga a morder o lábio diante da tela para não gritar, a apertar as coxas, a sentir como meu coño imaginário se contrai, algo que já sinto como meu. Se alguma vez tento resistir — um eco fugaz do homem que fui —, basta uma frase de Madame, uma daquelas que ela plantou em mim, para me devolver à obediência úmida e trêmula, com a bunda palpitando e a boca aberta à espera de ordens.
***
As tardes são para socializar. Carla me introduziu num círculo fechado: suas amigas e as travestis do salão, que agora são minhas irmãs nesta vida nova. Reunimo-nos em casas particulares ou no salão de Madame Lutecia, onde as sessões em grupo aprofundam aquilo que cada uma de nós é. Aprendi a me mover com graça sobre saltos altos, a cruzar as pernas, a inclinar a cabeça quando falam comigo, a flertar com homens que Carla convida, primeiro como brincadeira e depois como costume.
Lembro-me da minha primeira saída pública com uma clareza que me envergonha e me excita ao mesmo tempo. Vestido justo, maquiagem perfeita, caminhando pelo centro da cidade de braço dado com Carla. Os homens me olhavam e, onde antes eu teria sentido pânico, sentia um arrepio de desejo que alguém plantara em mim sem pedir permissão.
Naquela noite, de volta para casa, Carla compartilhou comigo um amante. Um homem de costas largas e mãos enormes que me esperava na sala quando entramos, sentado na poltrona, com a braguilha já aberta e um pau gordo, grosso, cheio de veias, saindo por cima do cinto. Carla não me deu tempo para nada. Empurrou-me pelos ombros até eu me ajoelhar entre as pernas do sujeito e sussurrou:
— Chupe. Devagar. Mostre como aprendeu.
Agarrei o pau dele com as duas mãos, senti-o pulsar sob meus dedos e depois coloquei-o na boca até onde consegui. Ele gemeu, segurando meu cabelo, e começou a marcar o ritmo, fodendo minha boca sem cuidado, enquanto eu deixava fios grossos de saliva caírem sobre meus peitos novos. Carla sentou-se na poltrona à frente, abriu o roupão, separou as pernas e começou a acariciar o coño com dois dedos, olhando para mim e ditando em voz baixa.
— Mais fundo. Tire e chupe as bolas dele. Isso. Agora de novo, até a garganta, como ensinei.
Obedeci a cada palavra. Quando o homem me levantou, virou-me contra a mesinha e enfiou aquele pau enorme na minha bunda com um único empurrão, gritei tão alto que Carla riu. Ele me cravou até o fundo, com as mãos apertando minha cintura estreita, enquanto eu me apoiava no mármore, com os peitos pendendo e se esmagando contra o frio. Cada estocada arrancava de mim um gemido agudo, feminino, que eu já não reconhecia como vindo de mim.
— Peça — disse Carla, sem levantar a voz, mordendo o lábio —. Peça para ele não parar.
— Não pare, por favor, não pare, me foda, me arrebente, faça o que quiser comigo — supliquei, com uma voz que já não reconhecia como minha —. Sou a puta da minha mulher, sou a puta de vocês, me foda mais forte.
Ele gozou dentro de mim. Senti os jatos quentes me enchendo, senti quando saiu e como um fio espesso escorreu pela parte de trás das minhas coxas. Carla se levantou, abriu minhas nádegas com as duas mãos para ver de perto como seu amante me deixara e depois me obrigou a me ajoelhar e chupar o pau dele até deixá-lo limpo. Fiz isso olhando para ela, com os olhos marejados pelo rímel borrado e a boca cheia. Ela sorria.
Com o tempo, minha vida se expandiu para além das paredes de casa. Carla me matriculou em aulas de etiqueta feminina dirigidas pela própria Madame, onde aprendo a me ajoelhar com elegância, a usar a boca para dar prazer, a manter certo dispositivo de controle como símbolo do que sou agora. Os hormônios suavizaram meus traços até me tornarem irreconhecível nas fotos antigas. Carla guardou todas; diz que gosta de comparar o homem tenso de então com a mulher relaxada de hoje.
***
Os fins de semana são outra coisa. Festas no salão onde, para minha surpresa, sou o centro das atenções. As amigas de Carla me usam com seus arneses, as travestis me ensinam truques de feminilidade enquanto me fodem, e os homens que Madame seleciona se juntam um após o outro, enchendo-me de um jeito que nenhum brinquedo consegue igualar. Tudo acontece sob o balanço lento do pingente de Madame Lutecia, aquele pêndulo dourado que, assim que começa a oscilar, apaga a parte de mim que ainda pergunta e deixa acesa apenas a que sente.
Carla nunca se afasta nessas noites. Às vezes filma de um canto, para nossas lembranças, diz ela. Outras vezes se junta no final, afastando quem quer que seja para me reivindicar como sua diante de todos.
— Ela é minha — anuncia, com um sorriso que não admite réplica —. Sempre foi.
Houve um sábado de que me lembro com especial nitidez, porque foi a noite em que entendi o quanto havia mudado. Madame convidara três homens e duas das minhas irmãs do salão. O pêndulo mal começou a se mover e eu já estava de joelhos sobre o tapete, oferecendo-me sem que ninguém mandasse. Tiraram meu vestido de uma só vez e me deixaram apenas com as meias de náilon, os saltos e a coleira de couro que Carla afivela em mim antes de cada festa.
Uma das travestis, a mais alta, ficou diante de mim e tirou da tanga um pau comprido, muito escuro, semiduro, aproximando-o dos meus lábios sem dizer nada. Abri a boca sem resistir. Ela enfiou-o inteiro de uma só vez, até eu sentir suas bolas contra o queixo e o nariz esmagado contra seu púbis depilado. Fodeu minha boca sem pressa, enquanto outra irmã se ajoelhava atrás de mim, abria minhas nádegas com as duas mãos e começava a comer minha bunda, a língua entrando o máximo que podia, umedecendo-me, preparando-me.
Um dos convidados se aproximou por trás. Senti o cheiro de sua colônia e o peso do pau apoiando-se entre minhas nádegas molhadas. Ele riu baixinho e enfiou-o de uma só estocada. Gritei ao redor do pau que tinha na boca, um gemido abafado que fez Carla rir da poltrona. Começaram a me foder dos dois lados, marcando um ritmo cruzado, enterrando-se os dois ao mesmo tempo, retirando-se os dois ao mesmo tempo. Eu babava sobre meus peitos, com o rímel borrado, com a jaula do pau escorrendo sobre o tapete sem sequer conseguir ficar completamente duro, porque já não consigo, e era justamente esse descontrole que mais me excitava.
Carla marcava o ritmo com dois dedos no ar, como uma regente de orquestra.
— Mais rápido, mais fundo — ordenava —. Goze dentro. Os três. Que a boca e a bunda dela fiquem cheias.
E foi assim. O primeiro gozou na minha garganta e me obrigou a engolir até a última gota, apertando minha mandíbula com a mão até eu sorrir para ele de boca aberta e língua suja de leite. O segundo encheu minha bunda com um grunhido, empurrando até o fundo, e, quando tirou, fez-me abrir as nádegas para que todos vissem como seu sêmen escorria, como eu ficava aberta, vulgar, exposta. Depois veio o terceiro e, em seguida, as duas travestis, que se revezaram com seus arneses grossos enquanto Carla acariciava o clitóris e falava comigo.
— Olhe para você, princesa, olhe. Você é uma puta linda. Minha puta linda.
Não sentia vergonha, nem medo, nem o antigo nojo que Esteban teria sentido. Sentia orgulho. Orgulho de ser desejada, de ser útil, de pertencer, de ter a bunda cheia de sêmen, a boca machucada e os peitos vermelhos de tanto serem apertados.
Quando tudo terminou e os convidados foram embora, Carla levou-me ao quarto dos fundos, sentou-me em seu colo como uma menina e limpou minha maquiagem borrada com um algodão úmido. Não disse nada durante um longo tempo. Apenas me segurava, e eu ouvia as batidas do seu coração contra minha bochecha. Aquele silêncio valia mais que todo o prazer da noite.
Mas seria mentira reduzir tudo isso ao corpo. Existe um laço emocional que me sustenta quando minha cabeça falha. Carla me ama com uma intensidade que não conheci nos anos em que fomos um casamento comum. Depois de cada sessão, cuida de mim com uma ternura desarmante: banhos quentes nos quais ela mesma me lava entre as pernas com uma esponja macia, tirando com dois dedos delicados o que ficou dentro de mim, massagens lentas nas costas, palavras de afirmação que também são sugestões, embora eu já não me importe em distinguir uma coisa da outra.
— Você é perfeita assim, Estela — diz ao meu ouvido, com os dedos ainda úmidos deslizando pela minha cintura —. Você é minha princesa, minha puta, minha mulher. Tudo ao mesmo tempo.
E eu acredito nela com cada célula do corpo novo que me deram.
A rejeição que senti no começo foi apagada com a paciência de uma relojoeira. Agora a feminização é minha identidade, não um disfarce que visto. Comecei a sair sozinha: percorro butiques de lingerie onde as vendedoras me tratam como qualquer outra cliente, escolho rendas pensando em que cor Carla gostará de me ver esta noite e, às vezes, vou a encontros que ela mesma marca com outras travestis do círculo, que me orientam naquilo que chamam, com carinho, de minha evolução.
***
De vez em quando, um lampejo de dúvida me atravessa. Quem era Esteban? O que queria, o que temia, por que resistia tanto? A pergunta dura apenas um instante. Uma ligação para Madame Lutecia e uma sessão a distância, com sua voz entrando pelos fones enquanto acaricio meus peitos e enfio dois dedos na bunda obedecendo às suas ordens, dissolvem a rachadura antes que ela se abra por completo. Quando termino, de boca aberta e corpo trêmulo, volto a respirar tranquila, volto a ser quem sou agora.
Ontem à noite, enquanto Carla escovava meu cabelo diante do espelho, perguntei se alguma vez sentira culpa pelo que fez comigo. Ela ficou calada por um momento, as mãos imóveis sobre meus ombros.
— Dei a você o que já queria e não tinha coragem de pedir — respondeu enfim —. Isso é culpa ou é um presente?
Não soube responder. Ou talvez soubesse, e a resposta me deu prazer demais para ser dita em voz alta. Inclinei-me para trás, apoiei a cabeça contra seu ventre e deixei que continuasse escovando.
Minha vida depois da transformação é um êxtase que não se apaga, uma descida que chegou ao fundo e descobriu que o fundo era quente. Carla e eu compartilhamos tudo: amantes, segredos, sessões, o pêndulo dourado de Madame. Nada me resta do homem que fui, e não sinto falta dele. Sou de Carla, inteiramente, e pela primeira vez na vida sei exatamente quem sou quando me olho no espelho, com os lábios vermelhos, os peitos grandes e a bunda ainda palpitando da noite anterior.
Sou Estela. Sou dela. E sou, para sempre, sua princesa.