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Relatos Ardientes

De dia dou ordens, à noite sou Daniela

Meu nome é Adrián, tenho trinta e sete anos e sou sargento da polícia local em um povoado branco do interior, um daqueles lugares onde o calor achata as ruas ao meio-dia e tudo cheira a cal e a flor de laranjeira. De dia distribuo multas, faço boletins e mantenho a expressão séria que as pessoas esperam de um uniforme. Ninguém neste povoado sabe que, quando os postes se apagam, eu deixo de ser Adrián.

Começou quase por acaso. Uma apreensão de roupa contrabandeada deixou em minhas mãos, durante semanas, caixas de vestidos de seda e renda retidos no depósito. Numa noite, sozinho em casa, pendurei um por simples curiosidade. Experimentei. E algo dentro de mim, algo que há anos estava comprimido sob o cinto regulamentar, respirou pela primeira vez.

Aquela mulher no espelho tinha nome antes que eu o dissesse em voz alta. Daniela.

Meu casamento tinha ruído no inverno anterior. Lucía foi para a capital e levou com ela a ideia que eu tinha da minha própria vida. Durante meses arrastei aquele vazio como uma pedra no estômago. Mas Daniela não nasceu da tristeza. Daniela nasceu da descoberta de que, debaixo do homem que todos acreditavam conhecer, havia alguém que só queria ser livre.

***

Marina chegou depois, e com ela tudo virou fogo.

Conheci-a nos fundos de uma armarinho do povoado, comprando meias com a atrapalhação de quem nunca tinha feito aquilo à luz do dia. Ela me olhou sem julgar, com um meio sorriso que entendia tudo. Tinha a minha idade, os olhos escuros e aquela segurança das mulheres que já deixaram de pedir permissão.

— Essas não são o seu tamanho — disse, e me alcançou outras da prateleira—. Essas sim. Confie.

Aquela mesma noite ela veio à minha casa. E desde então veio quase todas.

Marina transformou meu quarto em oficina e altar. Sentava-se atrás de mim diante do toucador e me transformava com paciência de ourives: a base que uniformizava minha pele, o delineado que alongava o olhar, o vermelho que acendia a boca. Ajustava minhas meias subindo-as devagar pela coxa, e cada centímetro de seda era uma promessa.

— Quase pronto — murmurava contra meu pescoço—. Já está quase sendo ela.

Quando terminava, eu não me reconhecia. E isso, longe de me assustar, me libertava.

***

O sexo com Marina não se parecia com nada que eu tivesse conhecido sendo apenas Adrián.

Ela me empurrava contra a cama ainda vestida de Daniela, o vestido preto de renda erguido até a cintura, as meias intactas. Suas mãos percorriam meu peito, meus lados, desciam com uma lentidão calculada que me fazia tremer antes mesmo de me tocar. Sabia exatamente onde parar para que eu implorasse.

— Pede — dizia, mordendo meu lábio inferior—. Quero ouvir como ela pede.

E eu pedia. Com a voz quebrada, com uma urgência que eu não sabia que trazia dentro de mim.

Então ela se sentava sobre mim. Eu a sentia se fechar ao meu redor, apertada e úmida, e ela se movia com um controle que me enlouquecia: quadris firmes, ritmo próprio, sem pressa de me dar nada que não tivesse decidido me dar. Cravava as unhas nos meus ombros quando o prazer a sacudia, e jogava a cabeça para trás, e seu pescoço brilhava sob a única lâmpada acesa.

Outras vezes era ela quem se ajoelhava. Me tomava na boca devagar, olhando para mim de baixo com aqueles olhos escuros, e eu me agarrava à borda do colchão com a maquiagem começando a escorrer pelo esforço de não gozar antes da hora. Nos procurávamos até o amanhecer, a renda rasgada, os lençóis revirados, os dois exaustos e os dois querendo mais.

Quando tudo terminava, ficávamos em silêncio, minha cabeça sobre seu peito, a peruca castanha abandonada no travesseiro.

— Daniela cada vez fica mais tempo — disse numa dessas madrugadas, acariciando meu cabelo de verdade, o que estava por baixo—. Você percebeu?

Eu tinha percebido. Claro que eu tinha percebido.

***

No começo, Daniela saía só nos fins de semana. Depois, também durante a semana. Depois, quase toda noite assim que eu pendurava o uniforme no armário.

De dia eu continuava sendo o sargento de sempre. Assinava relatórios, mandava parar na estrada, falava com os vizinhos sobre o calor e a colheita. Mas por dentro eu contava as horas que faltavam para voltar para casa, fechar a persiana e deixar que o vermelho dos lábios e o peso dos saltos me devolvessem a mim mesmo. Comecei a sentir que o uniforme era o disfarce, e Daniela, a verdade.

Essa ideia me dava vertigem. Eu tinha construído toda a minha vida sobre a autoridade, sobre ser aquele que põe ordem. O que restava daquele homem se o que ele realmente desejava era vestir um vestido e se render?

— Você não precisa escolher entre os dois — disse Marina uma noite, lendo meu rosto como lia tudo em mim—. O problema não é Daniela. O problema é que você acha que ela está roubando alguma coisa de você. Ela não rouba nada. Ela devolve.

— E se um dia eu não souber voltar? — perguntei—. E se eu ficar sendo ela para sempre?

Marina se apoiou sobre um cotovelo e me olhou por um longo tempo.

— Então nesse dia você terá deixado de ter medo — disse—. E eu não consigo imaginar nada melhor.

***

O medo, no entanto, tinha nome e sobrenome.

Lucía me ligou numa terça-feira. Voltava ao povoado por alguns dias para resolver papéis do divórcio, e queria me ver. A voz dela tinha gosto de outra vida, daquela que eu tivera antes de descobrir o primeiro vestido. Desliguei com as mãos trêmulas.

Nessa noite não deixei Marina me maquiar.

— Não posso — eu disse, sentado na beira da cama, ainda com a camisa do trabalho—. Se Lucía descobrir, se alguém do povoado descobrir, eu perco tudo. O cargo, o respeito, o nome que me custou anos construir.

Marina se sentou ao meu lado. Não discutiu comigo. Pegou minha mão.

— O que te custou construir foi uma armadura — disse—. E armaduras pesam. Eu não estou pedindo para você sair amanhã à praça vestida de Daniela. Só estou pedindo que você não a mate por medo do que vai dizer gente que não gosta de você de verdade.

Vi-a ir embora naquela madrugada e, pela primeira vez em meses, dormi sozinho e vestido de Adrián. Acordei com um vazio diferente do do divórcio. Mais fundo. O vazio de ter me traído a mim mesmo.

***

Vi Lucía dois dias depois, na varanda de um bar da praça. Estava igual e, ao mesmo tempo, era uma desconhecida. Conversamos sobre os papéis, sobre a casa, sobre como dividir o que tinha sido dos dois. Num momento, ela ficou me olhando.

— Te acho diferente — disse—. Mais tranquilo. Como se você tivesse parado de brigar com alguma coisa.

Não soube responder. Limitei-me a sorrir. Por dentro, Daniela escutava, atenta, esperando sua vez.

Quando Lucía foi embora, dirigi até casa com uma clareza nova. Entendi que ela nunca tinha conhecido Daniela porque eu também não tinha me atrevido a conhecê-la por inteiro. E que continuar escondendo-a não me protegia de nada: só me condenava a viver pela metade.

***

Nessa noite liguei para Marina.

— Vem — eu disse—. E traz o vestido vermelho.

Ela chegou em vinte minutos. Não falou nada. Sentou-me diante do toucador e começou o ritual de sempre, mas desta vez eu não cerrava a mandíbula esperando o mundo acabar. Me deixei fazer. Senti a base se espalhar pela minha pele, o delineado abrir meu olhar, o vermelho acender minha boca. Quando ela colocou a peruca e subiu o zíper do vestido pelas minhas costas, olhei no espelho e a vi: inteira, sem medo, sem pedir perdão.

— Olá, Daniela — sussurrei.

— Olá — respondeu Marina por mim, me abraçando por trás—. Bem-vinda para casa.

Nessa noite ela fez amor comigo sem pressa, devagar, como quem sela um pacto. Beijou cada centímetro de pele que me custou tanto aceitar. Percorreu-me com a boca, com as mãos, com os olhos cravados nos meus, e quando enfim a senti se fechar sobre mim, o que explodiu não foi só prazer. Foi alívio. Um alívio enorme, líquido, que escorreu por dentro de mim como água depois de anos de seca.

Acabamos enroscadas, o vestido vermelho amassado sob nós, a maquiagem borrada e, pela primeira vez, as lágrimas não eram de angústia.

***

De dia continuo sendo o sargento. Continuo distribuindo multas, fazendo boletins, mantendo a cara séria. Ninguém no povoado mudou a ideia que tem de mim, e por enquanto isso me basta. Não preciso que o mundo inteiro conheça Daniela.

Mas parei de brigar com ela. Parei de acreditar que ela me rouba a vida, porque entendi que a vida que de verdade me tira o ar é a que eu vivo fingindo. À noite, quando os postes se apagam e Marina sobe o zíper das minhas costas, eu não me transformo em outra pessoa. Finalmente me torno quem sempre fui.

E toda vez que o vermelho me acende os lábios e os saltos mudam meu jeito de pisar, penso que Marina tinha razão desde o primeiro dia: Daniela não veio me tirar nada. Veio me devolver por inteiro.

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