O metrô despertou algo que eu achava enterrado
Fazia uma eternidade que um homem não a tocava. Bastaram dois desconhecidos e um vagão lotado para que seu corpo a traísse sem pedir permissão.
Fazia uma eternidade que um homem não a tocava. Bastaram dois desconhecidos e um vagão lotado para que seu corpo a traísse sem pedir permissão.
Eu a vi ao embarcar e soube que não dormiria. O que não imaginei foi espioná-la das sombras entre os vagões enquanto outro homem a tomava contra a janela.
Comecei a dançar só para entreter meu marido, mas o olhar nervoso do rapaz do beliche da frente deixou claro que aquela noite não terminaria em dança.
Eu trabalhava enquanto a cidade dormia trancada, e o único momento meu era aquele vagão vazio. Até que ele deixou de me pedir o passe e começou a me pedir outra coisa.
Subi no último vagão pensando que faria uma viagem tranquila. Nunca imaginei que a mulher do vestido verde me convidaria a assistir ao que seu parceiro faria com ela.
Eu só ia tomar uma cerveja com ela enquanto esperava o casal com quem ela tinha combinado. Nunca tinha pisado num clube assim, e a curiosidade venceu.
Ela cruzou as pernas, me olhou por cima do livro e eu soube que aquela mulher estava há anos sem pedir permissão para nada. A hora morta do metrô virou outra coisa.
Eu te disse que a viagem começava às quatro da madrugada. O que não contei é que metade do prazer estaria em quem nos visse pelo caminho.
Procurava carne jovem na plataforma, e os três garotos da mochila de praia não suspeitavam que a presa era ela que os caçava.
Senti a mão dela subir pela minha coxa no meio da multidão do metrô e, embora eu não pudesse me mexer um centímetro, não quis que ela parasse.
Sempre o evitei por ser calado e estranho. Até que um empurrão no metrô me fez descobrir o que ele escondia sob aquela roupa enorme, e eu nunca mais consegui pensar em outra coisa.
Subiu ao vagão depois da meia-noite, sentou-se à minha frente e começou a me contar coisas que ninguém deveria confessar a um desconhecido na escuridão.
O vagão estava vazio naquela hora da madrugada. Quando aquele homem sentou quase à minha frente e começou a me olhar sem disfarçar, eu soube que a viagem não seria como as outras.
Senti o corpo grande dele se apertando contra minhas costas a cada freada, e quando ele sussurrou «a gente desce na próxima» eu soube que não conseguiria dizer não.
A agarrada ao corrimão do vagão, eu só podia olhá-lo de canto e imaginar tudo o que nunca aconteceria entre nós.
Sentei entre um homem mais velho e um rapaz que era de comer. Então o trem freou de repente, as luzes se apagaram e uma mão procurou a minha.
Quando o trem foi embora sem mim, achei que a noite estava perdida. Então o vi do outro lado da plataforma, imóvel, me olhando como se me esperasse desde sempre.
Ela mandou eu esperá-la no compartimento, nua e com a régua no colo. Eu sabia que ela viria; o que eu não sabia era quanto demoraria para me fazer sofrer.
Sei que deveria sentir vergonha, mas, naquela hora, apertada contra corpos que não conheço, deixo de fingir que o roçar é um acidente.
Eu levava trinta anos fechando projetos para a empresa. Na minha viagem de despedida, não imaginei que quem viajasse ao meu lado ia me despedir de outro jeito.