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Relatos Ardientes

Quando meu marido propôs convidar um terceiro

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A primeira vez que meu marido me propôs algo assim, eu estava prestes a dormir.

Estávamos casados havia quatro anos, uma vida tranquila em um apartamento no centro, e eu achava que o conhecia bem. Achava que sabia quais eram os limites dele e os meus. Naquela noite, com a lâmpada acesa e o livro que nenhum de nós lia aberto sobre os lençóis, Rodrigo pigarreou.

—Amor —disse—, tem uma coisa que faz tempo que eu quero te perguntar.

Reconheci aquele tom. Era o mesmo que ele usava quando queria me pedir algo que sabia que eu não iria gostar. Deixei o livro de lado.

—O que foi?

Ele não me olhou de imediato. Quando o fez, os olhos tinham algo estranho, uma mistura de vergonha e alívio antecipado, como se já se sentisse melhor só por estar prestes a dizer.

—Eu gostaria de te ver com Martín.

Não soube responder por vários segundos. Martín era o amigo dele de toda a vida, padrinho do nosso casamento, alguém que vinha jantar em casa quase todos os domingos. Era atraente, sim. Alto, de ombros largos, com aquele jeito de se mover que denuncia quando um homem sabe ocupar espaço. Mais de uma vez eu me peguei olhando para ele por tempo demais e depois desviava os olhos discretamente.

—Você está falando sério? —perguntei.

—Completamente. —Rodrigo se sentou um pouco, apoiado no cotovelo—. Eu sei que você também não é indiferente a ele. Eu notei. E ele já me disse uma vez que te acha muito atraente.

Isso me surpreendeu mais do que a proposta em si.

—Você falou disso com ele?

—Ainda não. Só queria saber primeiro se você toparia.

Fiquei pensando. Havia algo na situação que deveria ter me parecido incômodo ou até ofensivo, mas não era assim. Era mais estranho do que isso. Era como se alguém estivesse dando nome em voz alta a algo que existia sem nome havia muito tempo.

—Preciso pensar —disse por fim.

—Claro —ele respondeu, e apagou a luz.

***

Levei duas semanas. Duas semanas voltando ao assunto enquanto cozinhava, enquanto esperava o metrô, enquanto o observava dormir de madrugada. No fim cheguei a uma conclusão simples: eu queria fazer aquilo. Não porque Rodrigo tivesse me pedido, mas porque, quando eu imaginava a cena, algo em mim se acendia de um jeito que eu não podia ignorar.

Eu lhe disse um domingo de manhã, com o café ainda na mão.

—Tudo bem. Eu vou fazer.

Rodrigo sorriu de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Não era um sorriso de vitória. Era algo mais delicado do que isso, quase agradecido.

Na mesma semana ele falou com Martín. Não sei exatamente o que disse, mas quando Martín me ligou no dia seguinte, a voz dele estava tranquila, sem afetação.

—Clara, você tem certeza de que quer isso?

—Sim —eu disse—. E você?

Ele riu baixinho.

—Há anos eu me faço essa mesma pergunta por motivos diferentes.

Combinamos que seria em um hotel fora do bairro onde morávamos. Essa foi minha decisão. Eu queria um lugar neutro, sem história nem contexto, onde tudo pudesse começar e terminar sem deixar vestígios nas paredes da nossa vida cotidiana. Rodrigo não colocou objeções.

***

O dia chegou numa sexta-feira. Eu me arrumei com cuidado, sem exagerar. Vesti um vestido que Rodrigo sempre dizia que caía bem em mim e sapatos que davam um ritmo diferente ao meu jeito de andar. Quando saímos de casa, eu sentia o estômago tenso de um jeito que não era exatamente nervosismo. Era algo mais parecido com a expectativa antes de uma viagem longa.

O hotel era discreto, daqueles com carpete escuro nos corredores e luz indireta nos quartos. Martín já estava lá em cima quando chegamos. Batemos à porta, ele abriu, e por um momento nós três nos olhamos como se ninguém soubesse quem deveria falar primeiro.

Foi Rodrigo quem quebrou o silêncio.

—Bem —disse, com um meio sorriso—. Aqui estamos.

Martín nos fez entrar. Tinha acabado de tomar banho; ainda cheirava a sabonete limpo. Cumprimentamo-nos normalmente, como em qualquer jantar de domingo, e essa familiaridade fez algo em mim relaxar. Não éramos estranhos. Éramos três pessoas que se conheciam bem e haviam decidido cruzar uma linha juntas.

Rodrigo se sentou na cadeira do canto. Não disse mais nada. Só ficou nos olhando.

Martín se aproximou devagar. Colocou uma mão na minha mandíbula, quase com delicadeza, e me beijou. Foi um beijo longo, sem pressa, úmido, daqueles que não pedem permissão com palavras porque já a estão pedindo com a boca. Eu correspondi me abrindo, deixando que ele sentisse minha língua, minha respiração, a pressão firme dos lábios dele. A outra mão dele deslizou até minha cintura e me puxou até que eu sentisse o calor duro do corpo dele contra o meu.

Rodrigo continuava ali, quieto, nos observando como se não quisesse perder uma única reação.

As mãos de Martín começaram a me percorrer com uma segurança que me arrancou um suspiro. Ele apertou meus ombros, desceu pelas costas e, ao chegar à curva do quadril, me tocou por cima do tecido do vestido com os dedos, como se estivesse memorizando meu corpo. Tinha mãos grandes, ásperas nas pontas dos dedos, e sabia usá-las com uma mistura de firmeza e paciência que me acendeu na hora. Ele abriu meu vestido devagar, botão por botão, enquanto me olhava a boca com uma concentração quase insolente.

—Você está linda —murmurou.

Não respondi. Limitei-me a deixar o vestido escorregar até o chão. Senti o ar na pele, o peso dos olhos dele sobre meus seios nus, o tremor do meu próprio corpo ao se perceber exposto. Martín engoliu em seco. Rodrigo respirou fundo da cadeira.

Depois foi Martín quem começou a se despir. Tirou a camisa com calma, como se apreciasse o espetáculo tanto quanto nós. Tinha o tronco largo, marcado, pelos escuros salpicando o peito e o abdômen. Soltou o cinto, abriu a calça e a deixou cair. Quando também tirou a cueca, vi o pau já endurecido, pesado, apontando para mim com a pele tensa e brilhante. Mordi o lábio ao ver; ele sorriu de leve, notando o efeito.

Deitei na cama. A luz era quente, quase alaranjada, e de onde eu estava podia ver Rodrigo em sua cadeira, com os braços cruzados e os olhos fixos em nós. Havia algo em seu rosto que eu não saberia nomear exatamente. Não era ciúme. Era pura atenção, como se estivesse vendo algo que vinha imaginando havia muito tempo.

Martín se acomodou ao meu lado e me beijou de novo, desta vez mais embaixo, no pescoço, no vão entre a clavícula e a borda dos seios. A língua dele roçou minha pele e me arrancou um arrepio. Ele abriu minhas pernas com o joelho, sem brusquidão, e os dedos foram direto às minhas coxas, apertando a carne com fome contida. Afastou minha calcinha com cuidado, devagar, como se quisesse saborear cada segundo da minha reação. O primeiro toque dos dedos dele no meu xocô me fez arquear as costas.

—Você está encharcada —disse, com uma voz baixa e suja que me atravessou por inteiro.

Rodrigo soltou uma expiração curta, quase um gemido, da cadeira.

Martín continuou me tocando, me abrindo com dois dedos, acariciando o clitóris com uma pressão exata que me fez fechar os olhos. Tinha a palma apoiada no meu quadril e, com a outra mão, me mantinha quieta, como se soubesse ler cada tensão do meu corpo. Ele chupou um mamilo enquanto os dedos continuavam trabalhando lá embaixo, entrando um pouco, saindo, voltando, até que eu comecei a me mover sozinha contra a mão dele, buscando mais. Minha respiração ficou irregular, e eu pedi sem pensar:

—Me chupa a buceta se quiser ver de perto.

Ele soltou uma risada baixa, rouca, e se afastou o bastante para se ajoelhar entre minhas pernas.

Vê-lo assim, tão perto, foi pior do que qualquer imagem que eu tivesse imaginado. O pau dele era grosso, escuro na ponta, com a cabeça úmida de pré-gozo. Ele abriu mais minhas pernas e passou a língua pela minha buceta primeiro, de cima a baixo, com uma lentidão obscena. Lambeu meus lábios, separando-os com a boca, e depois enfiou dois dedos de novo enquanto me devorava com a língua no clitóris. A mistura de calor, umidade e pressão me fez gemer alto.

—Isso, porra —eu disse, sem conseguir me conter—. Isso.

Rodrigo se mexeu na cadeira. Quando olhei, ele já estava de pé, se despindo com pressa contida, os olhos cravados em nós. Martín continuou me lambendo enquanto Rodrigo tirava a roupa, e eu vi a ereção do meu marido, dura e marcada, mais familiar do que a de Martín, mas igualmente poderosa. Aquilo me abriu ainda mais, como se meu corpo entendesse que não havia mais volta.

Martín se afastou só o suficiente para me olhar no rosto.

—Você quer que eu te foda? —perguntou, direto, sem rodeios.

—Sim —respondi, quase sem voz.

Então ele me virou um pouco na cama, me acomodou de barriga para cima e levou minhas pernas até os ombros. O pau dele roçou minha entrada, pressionou, e entrou em mim devagar, centímetro por centímetro, com uma clareza brutal. Senti cada trecho dele me abrindo, me preenchendo, me esticando até um ponto delicioso de dor suave. Agarrei os lençóis. Quando enfim ele estava inteiro dentro, ficou quieto por um segundo, respirando fundo, como se também precisasse se acostumar com a sensação.

Depois começou a se mover.

Primeiro devagar, empurrando só o necessário para fazer o pau sair e entrar num ritmo que me fazia tremer. Depois mais forte, mais fundo, com movimentos de quadril que faziam o colchão ranger. Eu sentia o atrito interno, a pressão contra o fundo, a fricção exata naquele ponto que me fazia perder a cabeça. Pedi que ele não parasse. Ele respondeu com uma mão no meu quadril e a outra segurando meu joelho, me abrindo mais para entrar melhor.

—Minha porra vai escorrer dentro de você, Clara —ele sussurrou—. Olha pra você. Olha como você engole o meu pau.

Isso me fez perder o controle por um momento. Gemeu, me contorci, e o prazer se acumulou no meu ventre com uma violência deliciosa. Senti o suor na nuca, o cabelo grudado no rosto, a boca seca e o corpo inteiro em chamas. Martín mudou o ritmo, alternando investidas longas com outras curtas e rápidas que me arrancavam ofegos quebrados.

Em algum momento ele me ergueu e me colocou sentada sobre ele. Fiquei por cima, com o pau dele fundo em mim e minhas mãos nos ombros dele. Comecei a me mover eu mesma, subindo e descendo o corpo sobre o dele, tomando o ritmo de que precisava. Martín me segurou pelas nádegas, marcando o vai e vem, enquanto eu o cavalgava com mais força, sentindo o impacto nas coxas, o choque úmido dos nossos corpos e o som obsceno da pele contra a pele.

Da cama, Rodrigo se aproximou. Pegou meu rosto com uma mão e me beijou com fome, com aquela familiaridade de quatro anos que nenhum hotel consegue apagar. A boca dele tinha gosto de desejo e de algo mais profundo, de posse compartilhada e ternura. Ele afastou meu cabelo da testa e disse no meu ouvido:

—Eu te amo.

Nesse contexto, com Martín me penetrando por baixo e Rodrigo me beijando como se quisesse marcar minha boca, aquelas palavras soaram completamente genuínas. Eu quis responder, mas o único som que saiu da minha garganta foi um gemido quando Martín mudou de posição, me tirou do colo dele e me virou com um puxão suave para me colocar de quatro na cama.

Rodrigo me segurou pela cintura enquanto Martín se posicionava atrás de mim. Senti a cabeça do pau dele na entrada, o atrito do meu próprio suor nos lençóis, a mão do meu marido acariciando minhas costas, subindo até meus seios para apertá-los com cuidado. Martín entrou de novo, agora por trás, fundo, golpeando com mais força, e eu enterrei o rosto no travesseiro para mordê-lo e não gritar alto demais. A sensação era brutal: o pau de Martín me abrindo outra vez, o corpo de Rodrigo colado nas minhas costas, a mão dele apertando minha bunda enquanto me ajudava a receber cada investida.

—Assim, sua vagabunda —murmurou Martín, sem parar—. Assim eu te quero. Bem aberta pra mim.

Rodrigo soltou uma risada quebrada, excitado de um jeito que quase se podia tocar no ar. Ele me fez erguer a cabeça e beijou minha nuca, depois o canto da boca, enquanto a mão dele continuava descendo até entre minhas pernas para tocar o clitóris com dois dedos, rápido, preciso, fazendo o prazer se multiplicar até ficar insuportável.

Não sei quanto tempo ficamos assim. Perdemos toda noção de relógio, de ordem, de quem estava por cima de quem ou de quem gemia mais alto. Só sei que, em um momento, Martín segurou meus quadris com as duas mãos e começou a me foder com uma violência controlada que me fazia tremer por inteira. Rodrigo me masturbava com os dedos enquanto me beijava o pescoço, e eu sentia que estava prestes a me partir ao meio de tanto prazer.

A primeira a chegar ao limite fui eu. Notei pelo tremor que começa lá embaixo, no ventre, e sobe pela coluna como uma descarga. Gozei com um gemido abafado, me molhando ao redor do pau de Martín, que não parou nem por um segundo. Meu corpo se contraiu uma e outra vez, e ele continuou entrando e saindo até que o orgasmo virou uma onda longa, quente, que me deixou sem ar.

Martín soltou um grunhido grave e apertou meu quadril com força.

—Vou gozar —disse, com a respiração quebrada.

—Goza —respondeu Rodrigo, ao lado do meu ouvido.

Martín deu mais algumas investidas, duras, profundas, e então ficou quieto dentro de mim enquanto uma gozada quente me enchia por dentro, intensa, espessa, com a pressão do pau dele ainda tremendo dentro da minha buceta. Senti o calor do sêmen transbordando, escorrendo, e o sacolejo do corpo dele contra o meu quando terminou de se esvaziar.

Rodrigo nos observava com a respiração agitada, o pau ainda duro, e aquela visão foi suficiente para que eu me virasse para ele, agarrasse o membro com a mão e o trouxesse até a minha boca.

—Agora é a sua vez —eu disse.

Os ombros dele relaxaram de puro alívio. Ele abriu minha boca com a ponta do pau, e eu comecei a chupá-lo devagar primeiro, depois com mais vontade, enfiando-o até onde consegui, lambendo a glande, passando a língua por baixo da cabeça e engolindo o gosto salgado da excitação dele. Rodrigo segurou meu cabelo, sem me machucar, marcando o ritmo das investidas do quadril contra a minha boca. Martín, ainda dentro de mim ou se retirando lentamente, beijou meu ombro e acariciou minhas costas com a palma aberta.

Rodrigo não demorou a perder o controle. As coxas dele tremeram, ele encheu minha boca com uma gozada grossa e quente, e eu engoli quase tudo, lambendo o que restou na ponta até deixá-lo limpo. Ele soltou um gemido escuro, mais baixo que os anteriores, e apoiou a testa na minha por um instante, como se precisasse se recompor.

Nessa noite repetimos mais duas vezes. Uma vez com Rodrigo dentro de mim enquanto Martín me beijava e me segurava as pernas; outra com Martín me chupando a buceta enquanto Rodrigo me tomava por trás, movendo-se devagar no começo e depois mais forte, até eu gozar de novo com um tremor longo que me deixou exausta. Não houve pressa, nem vergonha, nem pausas desnecessárias. Só corpos suados, respirações quebradas, a cama desfeita e o som obsceno de três pessoas se empurrando mutuamente em direção ao prazer.

Quando saímos do hotel de madrugada, o ar da rua estava frio e eu me sentia estranhamente leve, como depois de uma tempestade longa.

No táxi de volta para casa, Rodrigo pegou minha mão. Nenhum de nós falou. Não era preciso.

As semanas passaram. A vida voltou ao ritmo de sempre, ou quase. Os domingos com Martín eram iguais aos de antes, com a diferença de que agora havia algo compartilhado entre os três que não precisava ser nomeado em voz alta.

Quando minha menstruação não veio, tentei não pensar demais. Esperei. Esperei mais um pouco. E no fim fui ao médico.

A ginecologista me disse que tudo indicava seis semanas. Fiz as contas no táxi de volta, da mesma forma que qualquer pessoa na minha situação faria, e os números batiam perfeitamente com aquela noite no hotel.

Contei para Rodrigo naquela mesma tarde. Ele ficou em silêncio por um bom tempo, olhando fixamente para a janela.

—Você está bem? —perguntei.

—Estou muito bem —disse, virando-se para mim—. Estou muito feliz.

—Rodrigo...

—Eu já sei o que você vai dizer. —Ele pegou minhas mãos—. Esse filho é meu, Clara. Com sangue ou sem sangue, esse filho é meu.

Não sei quantas vezes eu o tinha visto chorar ao longo da nossa relação. Naquela tarde foram duas vezes em dez minutos.

***

Tivemos de contar para Martín. Ligamos para ele para jantar uma semana depois. Quando demos a notícia, ele se alegrou com uma honestidade que me foi difícil sustentar com os olhos.

—De quantas semanas você está? —perguntou.

Contamos. Ele calculou em silêncio. Vi quando chegou à mesma conclusão que eu havia chegado semanas antes.

—Pode ser meu filho? —perguntou diretamente a Rodrigo.

—É possível —respondeu Rodrigo, sem desviar o olhar.

Houve um silêncio longo. Martín assentiu devagar.

—Eu não quero saber —disse por fim—. O que eu quero é estar perto. Se vocês permitirem, quero estar perto de vocês durante a gravidez. Sem complicar nada. Só perto.

Nós nos olhamos, Rodrigo e eu.

—Claro que sim —eu disse.

***

O que veio depois, durante os meses de gravidez, foi algo que nenhum de nós saberia descrever se alguém nos perguntasse. Martín passou a ficar mais tempo em casa. Às vezes ficava para o jantar, às vezes dormia lá. Quando meu corpo pedia mais do que a razão recomendava, os dois estiveram sempre presentes, sempre cuidadosos, sempre atentos.

Houve noites em que nós três acabávamos na mesma cama e nenhum de nós dava nome ao que aquilo era. Não era um acordo formal nem um triângulo com regras escritas. Era simplesmente o que havíamos construído, da mesma forma como a maioria das coisas importantes é construída: sem um plano claro, respondendo ao que ia chegando.

Eu me apaixonei por Martín durante esses meses. Não no lugar de Rodrigo, mas ao lado dele, de um jeito diferente, porém igualmente real. Os dois me tratavam bem. Os dois estavam presentes. E eu, que sempre tinha acreditado que o amor era uma quantidade fixa a ser repartida entre mais pessoas, aprendi que não funciona assim.

Na noite em que a bolsa rompeu, os dois estavam em casa. Fomos para o hospital no mesmo carro, os três.

Nosso filho nasceu saudável, sem complicações, às quatro da manhã de uma terça-feira. Quando a enfermeira o colocou nos meus braços e eu ergui os olhos, vi os dois ao mesmo tempo, um de cada lado da maca. Os dois choravam. Os dois sorriam.

—Fazemos o exame de DNA? —perguntei quando recuperei o fôlego.

Eles se olharam.

—Eu não quero —disse Martín primeiro—. A verdade é que não me importa o resultado. Me importa ele. E vocês me importam.

—Nem eu —disse Rodrigo, e colocou uma mão no ombro de Martín de um jeito que eu nunca tinha visto antes.

***

Os três moramos juntos por quase dois anos. Quando Martín foi embora, foi por motivos relacionados ao trabalho dele e não a nós, e foi de forma amigável. Ele continua fazendo parte da nossa vida e da vida do nosso filho, que cresceu cercado de pessoas que o amam.

Um dia teremos de contar isso a ele. Quando esse momento chegar, não sei muito bem o que dizer. Mas sei que qualquer versão honesta dessa história é uma história de amor, embora não caiba em nenhuma das formas que esse conceito costuma tomar.

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