Eu a vi sozinha à meia-noite e não consegui ir embora
O jantar na casa de Andrés terminou tarde e com vinho demais na cabeça. Ele me ofereceu o quarto de hóspedes antes mesmo que eu pedisse — sempre faz isso, desde que nos conhecemos — e eu aceitei como sempre. Fui para a cama antes da meia-noite, mas o sono não veio.
O colchão era duro. O travesseiro cheirava a roupa guardada. Lá fora, o barulho do bairro foi se apagando aos poucos até restar só o zumbido distante de algum caminhão na avenida. E eu ali, com os olhos abertos no teto, pensando em nada concreto e em coisa demais ao mesmo tempo.
Às onze e meia, desisti. Levantei em busca de água e caminhei pelo corredor no escuro, tateando a parede.
Então vi a luz da cozinha.
***
Pensei que tivessem deixado acesa. Ou que talvez Andrés também tivesse descido. Mas, quando me aproximei do batente, ouvi o som inconfundível do tambor da máquina de lavar girando, lento, pesado.
Era Camila.
Ela usava uma camiseta regata branca e um short de pijama xadrez. O cabelo estava preso num coque que devia ter se desfeito horas antes: várias mechas caíam dos lados do rosto e pela nuca, escuras contra a pele clara. Ela se agachava diante do tambor e colocava as peças uma a uma com um gesto que não pedia atenção — uma mão lá dentro, a peça, a seguinte, outra — o gesto de alguém que faz a mesma coisa há anos e já não precisa pensar.
Fiquei parado no batente.
Não era minha intenção ficar olhando para ela. Ou foi isso que eu disse a mim mesmo. Ia me anunciar, dizer “desculpa, eu vinha buscar água”, e pronto. Mas havia algo naquela imagem que não me deixava me mover e que eu também não sabia nomear ainda.
Era o silêncio. Não o da casa dormindo, mas o que ela carregava. O modo como existia naquele instante sem precisar ser nada para ninguém: sem ser a mãe que às sete da manhã prepararia as mochilas e faria o café da manhã, sem ser a anfitriã que naquela noite cozinhara para seis pessoas e servira a mesa e enchera os copos e perguntara se alguém queria mais, sem ser a mulher de Andrés, que já estava há um tempo dormindo na cama com aquele sono imediato que os homens têm quando não se perguntam se alguma coisa pode esperar até amanhã.
Camila não dormia. Camila estava colocando o uniforme do menino na máquina de lavar à meia-noite porque, se não fizesse, ninguém faria.
Observei-a fechar o tambor, levantar-se, alcançar o sabão em pó na prateleira de cima. Quando esticou o braço, a camiseta subiu e deixou à mostra a pele da lateral, a curva em que o quadril começava a se abrir. Não era uma imagem feita para provocar. Era só uma mulher alcançando uma coisa. Mas eu a olhei como se fosse, e não desviei os olhos quando o braço baixou, nem quando ela mediu o sabão com um gesto mecânico, nem quando fechou o compartimento com dois toques secos.
Também havia algo no modo como a camiseta ficava grande nela, como se fosse de Andrés. O tecido se movia a cada gesto que ela fazia. Fiquei olhando a curva das costas dela, o lugar em que o pescoço se juntava ao ombro, a forma como respirava sem perceber que alguém a observava.
Não me mexi.
***
Conheço Andrés desde os vinte anos. Moramos juntos por três anos, estivemos um ao lado do outro nos piores momentos de cada um, e quando ele se casou com Camila, fui eu quem levou as alianças. Tenho fotos dos três no celular: do casamento, de verões, daquelas jantas que se repetem a cada dois meses e sempre terminam igual, tarde demais e boas demais.
Eu também gosto dela. Com aquele carinho tranquilo que a gente sente pelas pessoas que fazem parte da vida das pessoas que a gente ama. Ou pelo menos era o que eu acreditava até aquela noite.
Não sei quando comecei a olhá-la de outro jeito. Não foi um momento específico que eu pudesse apontar. Foi algo que foi se acumulando devagar, sem eu procurar: a forma como escuta alguém quando está realmente interessada, inclinando levemente a cabeça como se assim pudesse entender melhor. O jeito como ri quando alguma coisa realmente a faz graça — não o sorriso de cortesia, mas o outro, o que vem antes de ela conseguir conter e alcança os olhos um instante antes de a expressão se formar por completo. O detalhe de que sempre recolhe os copos no fim da noite sem ninguém pedir, com aquela eficiência silenciosa de quem sabe que, se ela não fizer, ninguém faz.
Nenhuma dessas coisas era minha. Todas pertenciam a Andrés.
E Andrés dormia lá em cima sem saber de nada.
Pensei nele dormindo. Naquela maneira dele de apagar em menos de três minutos depois de desligar a luz, de não ouvir o choro das crianças à noite, de nunca ser o último a descer para conferir se a porta estava trancada. Não era um homem mau. Era só um homem que não sabia o que tinha.
Me perguntei desde quando eu a observava assim. Dali daquele vão escuro, sem que ela soubesse. E entendi que a resposta não era confortável. Eu podia ter me virado, voltado para o quarto com o colchão duro e ficado olhando o teto até o sono chegar. Ela nunca teria sabido que eu estivera ali. Eu poderia dizer a mim mesmo que não tinha acontecido nada, porque tecnicamente não teria acontecido nada. Um homem que se levanta para buscar água e vê a luz acesa e decide voltar para a cama é um homem sem história para contar.
Mas, em vez disso, encostei o ombro no batente da porta e fiquei.
***
O ciclo terminou. A máquina de lavar entrou na centrifugação com aquele ruído branco e constante que cobre tudo. Camila se endireitou por completo e se apoiou de costas na bancada, os braços cruzados e o olhar fixo em algum ponto à frente. Não em mim. Eu continuava no batente, na escuridão do corredor, sem que a luz da cozinha me alcançasse.
Foi o primeiro momento em que vi seu rosto de frente.
Ela tinha os olhos semicerrados, não de sono, mas daquela distância que se instala numa pessoa quando finalmente está sozinha e para de sustentar a expressão para alguém. Uma linha fina entre as sobrancelhas que não era de raiva. Era de peso acumulado. O tipo de cansaço que o sono não resolve por completo.
Soltou um suspiro. Um daqueles que vêm de muito tempo antes de sair.
Levou uma mão à nuca e massageou por alguns segundos, de olhos fechados. Depois deixou o braço cair e ficou quieta, com aquela imobilidade de quem finalmente pode parar e não sabe muito bem o que fazer com isso.
Foi então que dei um passo à frente.
Não sei o que esperava que acontecesse. Que ela se virasse, talvez. Que me mandasse ir embora. Que o som dos meus passos quebrasse tudo e voltasse a ser simplesmente um convidado com insônia procurando água à meia-noite. Teria sido o certo. O fácil.
O chão do corredor rangeu de leve sob meus pés descalços. O bastante para que, se quisesse, ela pudesse ouvir.
***
As mãos dela se enrijeceram sobre os próprios braços, só por um instante. Um gesto pequeno, contido. Ela tinha ouvido. Tinha que ter ouvido. E, mesmo assim, não se virou.
Entrei na cozinha. O piso de cerâmica estava frio. O barulho da centrifugação ainda tomava o ambiente, cobrindo o que não precisava de som para existir.
Parei a menos de um metro dela.
Podia ver as mechas soltas na nuca, o contorno dos ombros sob o tecido, a pele do braço que a luz amarela fazia parecer mais quente do que provavelmente era. Eu sabia que ela notara minha presença. Tinha que ter notado. E continuava de costas para mim, com os braços cruzados sobre o peito, olhando para frente.
Não a toquei.
Fiquei naquela distância, naquele espaço entre nós que era pequeno demais para ser acidente e grande demais, ainda, para ser outra coisa. Eu só estava ali, perto.
Há um tipo de atenção que o corpo percebe antes da mente. Não o som nem o calor, mas algo mais difícil de nomear, como a pressão que muda dentro de um cômodo quando alguém entra. Foi isso que aconteceu entre nós. Ela sentiu antes de eu dizer qualquer coisa.
A respiração dela mudou. Os ombros subiam e desciam de outro jeito: mais devagar, mais fundo. Os braços cruzados afrouxaram. As mãos caíram ao lado do corpo num gesto lento, quase imperceptível.
Os segundos passaram. A máquina centrifugava.
Ela ergueu a cabeça, devagar, sem se virar por completo. Como alguém que ouve alguma coisa e precisa calibrar de onde vem, sem querer quebrar o que existe ao olhar.
Inclinei-me para a frente. Devagar. Até minha boca ficar na altura do ouvido dela, a poucos centímetros do cabelo.
Parei ali por um momento. Sem falar ainda. Só estando, a uma distância que já não era neutra.
A máquina entrou na fase de repouso. O ruído branco desapareceu de repente. O silêncio que ficou era outro tipo de silêncio.
— Sabia que você não ia se virar — eu disse.
Falei baixo, sem pressa. Não como reprovação. Como a constatação de algo que nós dois já sabíamos fazia tempo e que nenhum dos dois tinha colocado em palavras ainda.
Camila demorou a responder. Nesse tempo cabiam muitas coisas: pedir que eu me afastasse, fingir que não tinha entendido, quebrar o que havia entre nós com uma frase simples e voltar a ser só a mulher do meu melhor amigo enquanto eu era o convidado que tinha se levantado para buscar água.
Ela não disse nenhuma dessas coisas.
— Eu sei — disse por fim, num sussurro tão baixo que quase não saiu.
E não se virou.
Eu também não me mexi.
Os dois sabíamos que aquele era o momento em que alguma coisa começava, e foi ela quem decidiu primeiro.
Ela se virou devagar, sem se afastar da borda da bancada, e me olhou de frente pela primeira vez naquela noite. Tinha as bochechas queimando e os lábios entreabertos, a respiração curta. Não disse nada. Olhou minha boca, olhou meus olhos, voltou a olhar minha boca. E esperou.
Eu a beijei. Levei uma mão à nuca dela, afundei os dedos nas mechas soltas e puxei sua cabeça para trás para meter a língua até o fundo. Ela soltou um gemido na minha boca, agudo, contido, como se estivesse esperando aquele gemido havia meses e agora não soubesse onde pôr. Mordi o lábio inferior dela até arrancar um suspiro. Lambi seu pescoço da clavícula até a orelha, sentindo o pulso bater contra minha língua.
— Andrés está dormindo lá em cima — sussurrei, apertando o quadril dela contra o meu para que sentisse o quanto eu já estava duro só de beijá-la.
— Eu sei — ela respondeu, ofegante, agarrando meu cabelo com as duas mãos —. Cala a boca e me fode logo.
Ergui-a pelos quadris e a sentei em cima da máquina de lavar, que tinha voltado a funcionar no enxágue e vibrava lenta debaixo dela. Abri suas pernas de um puxão e me enfiei entre elas. A regata tinha subido e eu vi a barriga, a sombra do umbigo, o começo dos seios. Arranquei a camiseta pela cabeça num único movimento. Ela não usava sutiã. Os seios eram brancos, redondos, com os mamilos escuros e já rijos. Agarrei um com a mão inteira e apertei até ela gemer; com a outra mão, puxei o short do pijama e o baixei pelas pernas junto com a calcinha de uma só vez.
Ela ficou nua em cima da máquina, com as pernas abertas e a boceta molhada brilhando entre as coxas. Ajoelhei-me no piso frio de cerâmica, pus as pernas dela sobre meus ombros e enfiei o rosto entre suas coxas. Passei a língua inteira do cu até o clitóris, devagar, sentindo-a tremer. Ela estava encharcada. Tinha gosto de sal e de algo mais doce por baixo. Chupei o clitóris entre os lábios, esfreguei-o com a ponta da língua, enfiei dois dedos de uma vez. Ela se dobrou para a frente e agarrou meu cabelo com as duas mãos, pressionando minha cara contra a boceta.
— Porra, porra, porra — ofegava baixinho, mordendo a própria mão para não gritar —. Não para, não para, não para.
Chupei mais forte. Curvei os dedos dentro dela procurando o ponto lá em cima, aquele que a fazia se contorcer. A boceta dela se fechava em volta dos meus dedos em espasmos cada vez mais rápidos. Senti as pernas dela tremerem sobre meus ombros. Ela gozou assim, abafando o grito na palma da própria mão, a boceta me encharcando o rosto e o queixo, as coxas se fechando em volta da minha cabeça enquanto a vibração da máquina de lavar atravessava seu corpo.
Levantei-me sem dar tempo para ela se recuperar. Puxei a calça do pijama até os joelhos e tirei meu pau para fora. Estava duro como pedra, com a cabeça já molhada. Ela olhou meu pau com os olhos semicerrados e passou a língua pelo lábio inferior, ainda ofegante.
— Mete — disse. — Mete logo, não aguento mais.
Agarrei-a pelos quadris e a arrastei até a borda da máquina. Encostei a ponta na boceta encharcada e empurrei até o fundo de uma só vez. Ela jogou a cabeça para trás e soltou um gemido longo, rouco, sem se lembrar mais de que Andrés dormia lá em cima. Estava quente por dentro, apertada, ainda com os espasmos do primeiro orgasmo. Agarrei sua bunda com as duas mãos e comecei a fodê-la contra a máquina, forte, quase a tirando toda e enfiando de novo até o fundo, uma vez e outra, até a borda do eletrodoméstico bater no armário a cada investida.
O tambor vibrava debaixo dela e levava a vibração para dentro. Eu via seus seios pulando a cada golpe. Agarrei um e levei o mamilo à boca, chupando, mordendo enquanto continuava a enfiar. Ela cravava as unhas nas minhas costas por cima da camiseta.
— Mais forte — ofegava no meu ouvido —. Me fode mais forte, filho da puta. Me fode como ele não me fode.
A cabeça ficou turva quando a ouvi dizer isso. Tirei-a da máquina nos braços, virei-a, dobrei-a sobre a bancada, com o peito esmagado contra o mármore frio e a bunda no ar. Abri suas nádegas com as duas mãos e enfiei o pau por trás de novo. Dali, entrava ainda mais fundo. Ela tinha as bochechas pressionadas contra a pedra, a boca aberta, o olhar perdido. Agarrei seu cabelo e puxei sua cabeça para trás para ver a cara dela enquanto eu a metia.
— Assim? — perguntei ao ouvido dela, ofegando também —. Assim você gosta, vadia? Era assim que você queria que eu te fodesse há quanto tempo?
— Sim — gemia ela —. Sim, sim, assim, não para, não para, me dá tudo.
Passei uma mão pela frente dela e procurei o clitóris com dois dedos enquanto continuava a a penetrá-la por trás. Esfreguei-o rápido, em círculos, sem parar de fodê-la. Soltei o cabelo dela e levei a outra mão à boca dela. Ela começou a apertar a boceta em volta do meu pau em ondas, cada vez mais rápidas. Estava gozando de novo. Tapei sua boca com mais força para abafar o grito e senti a mordida dos dentes contra a minha palma enquanto ela gozava com o corpo inteiro tremendo sobre a bancada, com a boceta esmagando meu pau em espasmos que quase me fizeram gozar ali mesmo.
Eu não aguentei muito mais. Senti na boceta dela, aquele fechamento final que espreme, e escapei. Tirei-me dela no último segundo, virei-a de frente de novo, sentei-a na beirada da bancada e gozei por cima, nos seios e na barriga, jatos longos e quentes que a foram marcando inteira enquanto eu segurava meu pau e o sacudia até a última gota. Ela olhou o próprio corpo, passou dois dedos por cima de um mamilo recolhendo o sêmen, levou-os à boca e me encarou nos olhos enquanto os chupava devagar.
Ficamos os dois ofegantes na cozinha. A máquina de lavar terminou a centrifugação e o silêncio voltou outra vez, diferente agora, carregado com o que tínhamos acabado de fazer.
Passei uma mão pelo rosto dela, afastei uma mecha suada que tinha grudado na têmpora. Ela fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu de novo, já não era a mulher que sustentava tudo. Era outra coisa. Era a mulher que um convidado com a cara de amigo tinha acabado de foder contra a máquina de lavar à meia-noite, e nós dois sabíamos que ela ia se lembrar disso mais do que de qualquer outra noite em anos.
Ela se limpou com um pano de prato. Vestiu o short. Pegou a camiseta do chão e a colocou sem me olhar. Passou uma mão pelo cabelo.
— Volta para o quarto — me disse, em voz baixa mas firme —. E não desce de novo para buscar água.
Não disse isso com reprovação. Disse como quem põe em palavras uma coisa que nós dois já sabíamos fazia tempo e que nenhum dos dois tinha colocado em palavras ainda.
Subi as escadas descalço. Andrés continuava dormindo. Entrei na cama do quarto de hóspedes com o gosto dela ainda na boca e o coração martelando nas têmporas, e, dessa vez, fiquei olhando o teto até amanhecer.