Minha vizinha não sabia que eu estava olhando para ela
No primeiro fim de semana no apartamento novo, Marcos entendeu que tinha escolhido bem o andar. Não pela amplitude dos cômodos nem pela luz que entrava de manhã, mas pela vista. Da varanda da sala de jantar, com as persianas meio abaixadas e o corpo recostado na cadeira, ele podia ver as janelas do prédio em frente com uma nitidez que não esperava.
Era um prédio antigo, desses que já não se constroem mais. Tetos de quatro metros, janelas de duas folhas com molduras de madeira pintadas de branco, ornamentos de gesso na fachada. O tipo de construção em que o interior de cada apartamento ficava exposto a quem soubesse olhar, porque seus donos haviam crescido em outra época e não tinham aprendido a se cobrir.
Havia três tardes que ele olhava sem ver nada interessante. Um homem de meia-idade lendo o jornal. Um casal mais velho comendo diante da televisão. Uma sala vazia com uma planta enorme junto à janela e ninguém para regá-la.
Mas naquela tarde de sábado, algo mudou.
Foi no quarto andar, segunda janela da direita. Uma luz amarela, suave, diferente das outras. E lá dentro, a silhueta de uma mulher.
Ela tinha uns trinta anos, talvez um pouco mais, e um corpo que não pedia desculpas por nada. Quadris largos, pernas firmes, uma cintura que marcava a transição entre uma coisa e outra. Usava os cabelos castanho-escuros soltos, cacheados, caindo sobre os ombros. Quando se mexia, os cachos pulavam.
Marcos semicerrrou os olhos. Longe demais para ver detalhes. Foi buscar dentro de casa os binóculos que comprara para a viagem de trekking que nunca fez. Encontrou-os na caixa no fundo do guarda-roupa, ainda com as instruções dentro.
De volta à varanda, baixou as persianas até deixar apenas uma fresta. Do lado de fora, não havia como distingui-lo. Do lado de dentro, ele via tudo.
A mulher estava sentada na beirada da cama, com um livro aberto sobre as pernas. Fumava algo que Marcos reconheceu pelo ritmo pausado com que soltava a fumaça: não era um cigarro. Segurava-o entre dois dedos com uma calma que só se aprende com o tempo e, de vez em quando, fechava os olhos por um segundo, como se a música que tocava em algum lugar do quarto lhe chegasse com atraso.
Ela vestia um sutiã bege, de tecido macio, e uma tanga preta. Nada mais.
Marcos ajustou o foco dos binóculos.
Os mamilos marcavam o tecido do sutiã com uma precisão que cortava a respiração, grossos, inchados, empurrando a renda como se quisessem sair. A pele era escura, quente, e o abajur de pé à sua esquerda banhava-a de um amarelo que a fazia parecer uma pintura. Marcos se perguntou como seria o cheiro daquele quarto. Tabaco doce, tecido morno, perfume antigo e, por baixo de tudo, o cheiro de buceta molhada que ele já começava a imaginar.
Ela deixou o livro virado para baixo sobre a cama, como quem perde o fio da leitura e não tem pressa de recuperá-lo. Levantou-se e ficou parada por um momento. Marcos prendeu a respiração. Mas ela não estava olhando para ele: olhava o espelho de corpo inteiro pendurado na parede lateral, bem diante da cama.
O que aconteceu em seguida não foi calculado. Ou, pelo menos, não parecia ser.
Aproximou-se do espelho devagar, como se estivesse reencontrando alguém que não via havia muito tempo. Parou a menos de um metro e olhou para si de frente. Primeiro o rosto, depois os ombros, depois o corpo inteiro. Com uma mão, percorreu o lado esquerdo, do quadril até a cintura, sem pressa, com a palma aberta. Os dedos subiram até a teta, apertaram-na por cima do sutiã, e o polegar esfregou o mamilo até deixá-lo ainda mais duro contra o tecido.
Marcos parou de respirar.
Ela se contemplava com uma seriedade que não tinha nada de narcisismo e tudo de reconhecimento. Não era uma pose. Era o gesto de alguém que se olha porque quer se enxergar, porque às vezes o próprio corpo exige atenção. Roçou a borda do sutiã com os dedos. Fez isso devagar, explorando o contorno daquilo que o tecido mal conseguia conter. Depois enfiou a mão por dentro e tirou uma teta para fora, deixando-a pendurada, livre e pesada, com o mamilo escuro apontado para o espelho. Lambeu os dedos e voltou a esfregá-lo, úmido, brilhando sob a luz amarela.
Então soltou a fumaça em direção ao espelho.
Marcos jamais tinha visto algo assim: a fumaça viajando até o reflexo, dissolvendo-se no vidro, como se ela tentasse se fundir à própria imagem. Repetiu o gesto mais uma vez. Depois passou a ponta da língua pela superfície fria do espelho, de baixo para cima, muito devagar, com os olhos semicerrados. A língua era longa, vermelha, e deixava um rastro úmido que evaporava imediatamente. Levou uma mão até a tanga e apertou a buceta por cima do tecido, um movimento breve, como uma promessa feita a si mesma.
Meu Deus, pensou Marcos.
Ele estava ficando duro sem ter planejado. Uma dureza ainda sem urgência, limpa, sustentada pela tensão de olhar sem ser visto, de testemunhar algo que não era destinado a ele. Sentia o pau empurrando contra o tecido da calça, procurando espaço.
A mulher pegou o celular sobre o criado-mudo. Enquadrou o corpo na tela e começou a fotografar-se. Não com a urgência ansiosa de quem documenta, mas com a paciência de quem cria. Movia-se entre poses: de frente, de lado, de costas, inclinada diante do espelho. Exibia os quadris com autoridade. Tornava visíveis a textura da pele, as dobras naturais, a curva da bunda. Não escondia nada. Em uma das poses, baixou a tanga até a metade das coxas, abriu as pernas diante do espelho e fotografou o reflexo da buceta aberta, os lábios grossos brilhando de umidade, um fio de corrimento espesso entre eles.
Marcos estava com a mandíbula cerrada. Apertou o pau por cima da calça, comprido, duro, marcado contra o tecido.
Deixou o celular sobre a cama e foi até a gaveta do criado-mudo. Tirou um vibrador comprido, preto fosco, grosso, com a ponta arredondada. Segurou-o na mão por um momento, como se avaliasse alguma coisa, e depois se deitou sobre o edredom.
Colocou os fones de ouvido.
Marcos observou-a acomodar-se: a cabeça apoiada no travesseiro, os joelhos ligeiramente elevados, a respiração visível no movimento do peito. Ela fechou os olhos. Durante quase um minuto, nada aconteceu além do movimento quase imperceptível do peito subindo e descendo. Marcos olhava sem se mexer, com os binóculos colados ao rosto, sem piscar.
Depois a mão dela começou a se mover.
Primeiro sobre o tecido da tanga, em círculos lentos. A pressão variava. Às vezes ela parava por um segundo, como se calibrasse alguma coisa, e então retomava com mais intenção. O tornozelo esquerdo se retesou. Um músculo na parte interna da coxa se marcou de leve sob a pele. Ela afastou o tecido, e Marcos viu, mesmo àquela distância, a mancha escura de umidade que havia encharcado a tanga. Enfiou dois dedos na buceta devagar, até os nós dos dedos, e tirou-os brilhando de corrimento. Levou-os à boca e chupou-os um por um, fechando os olhos, como se provasse o que o próprio corpo estava produzindo.
Marcos ajustou a posição na cadeira sem afastar os binóculos.
Ela levou o vibrador aos lábios. Passou-o devagar, fechando a boca em torno dele, empurrando-o até o fundo da garganta como se estivesse mamando um cara. A bochecha afundava cada vez que ela sugava. Tirou e enfiou, tirou e enfiou, e os fios de saliva que ficaram quando o retirou brilharam por um momento antes de se romperem no queixo. Depois levou-o para baixo, afastou completamente o tecido da tanga até arrancá-la pelas pernas e ficou com a buceta inteiramente descoberta, os lábios inchados, escuros, brilhando de umidade. Abriu-se com dois dedos da mão livre e encostou a ponta do vibrador no clitóris.
O primeiro contato fez com que arqueasse levemente as costas.
Não era encenação. Era o movimento involuntário de um corpo reagindo a algo que realmente o afetava: a curva mínima da coluna, os dedos dos pés apontando para baixo, o lábio inferior preso entre os dentes. A ponta do vibrador girava sobre o clitóris inchado, e os quadris subiam sozinhos para encontrá-la.
Marcos abriu o zíper da calça e tirou o pau para fora.
Estava duro de um jeito que não lembrava havia muito tempo, a carne quente, a cabeça já molhada pelo líquido que começara a liberar. A situação tinha algo que nenhum vídeo poderia reproduzir: a imperfeição do ângulo, a distância que obrigava a completar com a imaginação aquilo que os binóculos não conseguiam mostrar, a certeza absoluta de que ela não sabia que ele existia. Começou a se masturbar devagar, segurando o pau com a mão inteira, subindo e descendo a pele no mesmo ritmo em que ela movia o vibrador.
Ela mudou o ângulo. Encostou o vibrador na entrada da buceta e empurrou para dentro, lentamente, deixando que ela engolisse centímetro a centímetro todo o comprimento preto. Quando o enfiou até o fundo, ficou imóvel por um momento, de boca aberta, e depois começou a se foder sozinha, tirando e enfiando o aparelho com uma precisão que Marcos conseguia ler em cada músculo do braço. A mão livre agarrou a teta descoberta e beliscou o mamilo com força.
***A mulher acelerou.
O vibrador entrava e saía da buceta num ritmo crescente, e sua respiração, embora inaudível àquela distância, era legível no corpo: o pescoço levemente arqueado, os dedos da mão livre apertando o edredom depois de soltarem a teta, os quadris começando a acompanhar o ritmo, empurrando-se contra o aparelho. A cada poucos segundos, ela mordia o lábio inferior. Soltava-o. Voltava a mordê-lo. Marcos podia imaginar os gemidos que os fones não deixavam escapar, sufocados na garganta, engasgados. Tirou o vibrador por um momento, levou-o à boca, chupou o próprio corrimento com a língua larga e voltou a enfiá-lo até o fundo.
Marcos se masturbava devagar, contendo-se.
Queria que durasse. Queria continuar olhando. Havia algo no fato de ser invisível que transformava a cena em algo mais intenso do que qualquer coisa buscada deliberadamente. Não era voyeurismo de catálogo, era a vida real de alguém vazando sem querer para o outro lado, e ele a capturando sem permissão. Um fio de líquido pré-seminal escorria por seus dedos; ele o usava como lubrificante e continuava movendo a mão no ritmo do vibrador do outro lado do pátio.
Ela mudou de posição. Ficou de quatro sobre a cama, de lado para o espelho, para poder olhar-se enquanto continuava. Com uma mão, abriu a nádega, deixando expostos os dois buracos, e com a outra voltou a enfiar o vibrador na buceta por trás. Fodia a si mesma com estocadas curtas e rápidas, enquanto observava o reflexo das tetas balançando sob o peito. Chupou um dedo e apoiou-o no cu, pressionando em círculos até Marcos ver, mesmo com os binóculos no limite, como ela o enfiava até o nó do dedo.
O pau de Marcos pulsava em sua mão. Cerrou os dentes para não gozar ainda.
Ela estava se dando pelos dois lados. O vibrador na buceta, o dedo no cu, a boca aberta contra o travesseiro. Os cachos castanhos grudavam na testa por causa do suor. Marcos via as costas dela se retesarem a cada estocada, via a bunda sacudir sempre que empurrava o vibrador até o fundo. Acelerou a mão sobre o próprio pau sem conseguir evitar.
O corpo dela se retesou.
Foi algo visível, embora sutil: as pernas se fechando levemente para dentro, os ombros se elevando da cama apenas um centímetro, a boca se abrindo sem emitir um som perceptível. Marcos viu a buceta se apertar ao redor do vibrador, viu um breve jato de corrimento espesso escorrer pela parte interna da coxa. Durou alguns segundos que Marcos contou sem perceber.
Depois ela ficou imóvel.
Os músculos relaxaram um a um. A mão que segurava o vibrador afrouxou, e ela o deixou cair sobre o edredom, brilhante, encharcado. O peito subiu uma vez, devagar, e desceu ainda mais devagar. Aquele suspiro que Marcos mais imaginou do que ouviu. Ela tirou o dedo do cu, olhou para ele por um segundo sob a luz do abajur e apoiou-o sobre o travesseiro.
Ele ainda não tinha gozado.
Estava com o pau duro entre os dedos, o olhar fixo na silhueta que se recompunha do outro lado do pátio interno. Ela virou-se de lado, de frente para o espelho, com o vibrador ainda à mão. Olhou para si por um momento, e algo em sua expressão — que Marcos mal distinguia com os binóculos no limite do foco — parecia satisfeito. Passou dois dedos pela buceta aberta, levou-os à boca e chupou-os devagar até deixá-los limpos.
Ele gozou em silêncio contra a persiana.
Jatos quentes e grossos atingiram o plástico com um ruído abafado. Continuou se masturbando até a última gota, apertando a cabeça inchada, sentindo cada pulsação descarregar sêmen contra a persiana entreaberta. Não foi um orgasmo espetacular. Foi mais parecido com um ponto final: a resolução inevitável de uma tensão que durara demais, empilhada camada sobre camada desde o momento em que ela ficara de pé diante do espelho pela primeira vez.
***Marcos fechou as persianas. Limpou-se com a primeira coisa que encontrou, um pano de prato que ficara pendurado no encosto de uma cadeira, sujo de sêmen ainda morno. Permaneceu sentado na penumbra da sala de jantar por vários minutos, sem pensar em nada específico, com o pau ainda para fora, mole, brilhando com os próprios restos.
Depois foi à cozinha preparar um café.
Da janela da cozinha, não se via o mesmo ângulo. Apenas a lateral do prédio em frente, uma parede cega com uma mancha de umidade no canto superior.
Ela não sabia que ele existia. Ele também jamais saberia como ela se chamava, que música ouvia com aqueles fones, que livro estava lendo antes de tudo começar. Não saberia nenhuma dessas coisas porque a distância tinha suas próprias regras: era possível olhar ou aproximar-se, mas não fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Naquela noite, enquanto tentava dormir, voltou à imagem dela de pé diante do espelho, a fumaça viajando até o reflexo, a língua percorrendo o vidro frio, a teta para fora do sutiã, o vibrador preto entrando e saindo da buceta encharcada. Bateu uma punheta mais uma vez antes de dormir, deitado de costas no escuro, e gozou sobre a própria barriga pensando na bunda dela aberta diante do espelho.
Não soube como chamar o que havia acontecido. Não se importou muito.
No dia seguinte, quando se levantou para preparar o café da manhã, a primeira coisa que fez foi espiar a varanda. A janela do quarto andar estava fechada. As persianas, abaixadas.
Marcos preparou o café, sentou-se na cadeira e esperou.