O que eu fiz enquanto a melhor amiga dele nos observava
Cheguei ao apartamento de Rodrigo sem avisar, com a desculpa de sempre: tédio, uma garrafa de vinho tinto aberta pela metade em casa e nenhum plano concreto para uma terça-feira à noite. Morávamos no mesmo prédio havia dois anos, ele no quarto andar e eu no terceiro, e essa vizinhança cômoda tinha virado uma espécie de amizade: filmes sem terminar, petiscos compartilhados, conversas que se estendiam mais do que qualquer um dos dois tinha planejado quando começaram.
Ele abriu a porta de camiseta e com cara de quem não tinha feito nada o dia inteiro. Fez um gesto para que eu entrasse e apontou para o sofá com o queixo, sem dizer nada.
Havia alguém mais.
Uma garota de cabelo escuro e curto estava sentada com as pernas encolhidas sobre a almofada, segurando um copo entre as duas mãos. Ela me olhou de cima a baixo sem nenhuma expressão em particular. Não sorriu.
— Sofia, minha amiga da faculdade — disse Rodrigo da cozinha, arrumando os copos—. Sofia, esta é Valentina, minha vizinha do terceiro.
— Oi — eu disse.
— Oi — respondeu ela, com o mesmo entusiasmo com que se cumprimenta um técnico da TV a cabo.
Me acomodei na outra ponta do sofá. Rodrigo voltou com três copos, colocou alguma coisa na Netflix que nenhum dos três chegou a realmente assistir e a noite seguiu seu curso: conversa fragmentada, batatas fritas sobre a mesa de centro, as luzes baixas e a televisão funcionando mais como ruído de fundo do que como entretenimento de fato. O apartamento de Rodrigo era pequeno e acolhedor, com aquele tipo de bagunça confortável que se acumula quando alguém mora sozinho há anos.
Em vinte minutos eu já tinha deixado claro para mim mesma que Sofia não estava gostando da minha presença. Não era algo que ela dissesse em voz alta. Era o jeito como os olhos dela se moviam toda vez que Rodrigo e eu trocávamos alguma coisa, a maneira como ela participava da conversa só o suficiente para não ficar de fora, mas sem largar aquela expressão de avaliação constante. Como se estivesse medindo algo que eu não via e que também não me estavam dizendo.
Eu ainda não entendia por quê.
Quando ela se levantou para ir ao banheiro, aproveitei para perguntar diretamente a Rodrigo.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês?
Ele franziu a testa.
— Não, nada. Eu tentei com ela faz uns três anos. Ela disse não e ficamos como amigos. Ela tem namorado desde então.
Levantei uma sobrancelha.
— E mesmo assim ela me olha como se eu é que estivesse sobrando aqui?
Ele deu de ombros.
— A Sofia é assim. Não liga.
Mas o vinho já corria bem nas minhas veias e esse tipo de explicação me convence cada vez menos conforme a noite avança. Quando Sofia voltou do banheiro e se acomodou de novo na poltrona com a mesma expressão de jurada deliberando, alguma coisa em mim se acertou de vez. Isso me irritou. E a irritação, misturada com o calor do apartamento e com a música que Rodrigo tinha colocado ao fundo quando a Netflix ficou muda, foi se transformando em outra coisa.
***
Na segunda garrafa, nada tinha mudado. Sofia continuava com o cenho levemente franzido toda vez que Rodrigo e eu ríamos de alguma coisa, toda vez que a conversa tomava um rumo que incluía principalmente nós dois. Ela tinha esse tipo de olhar que parece avaliar, classificar, julgar o tempo todo, sem que a pessoa consiga identificar exatamente o critério.
Tomei uma decisão que não foi totalmente racional.
Se a minha presença a incomodava tanto, eu faria com que incomodasse de verdade.
Cheguei mais perto de Rodrigo no sofá. Só um pouco. O suficiente para nossos quadris se tocarem.
Rodrigo me olhou de lado sem dizer nada.
Comecei a passar a mão pelo peito dele, devagar, como se estivesse pensando em outra coisa. Senti a respiração dele mudar: mais lenta, mais controlada, daquele jeito que se faz quando se tenta não parecer que está percebendo algo que está percebendo perfeitamente.
Olhei para a poltrona.
Sofia não tinha desviado os olhos de nós. O cenho franzido de antes tinha suavizado um pouco, substituído por algo mais difícil de nomear. Ela não dizia nada. Não se mexia. Só olhava com uma atenção fixa e silenciosa que não tinha nada de casual.
Isso, em vez de me frear, acelerou meu pulso de um jeito que eu não tinha previsto. Continuei subindo a mão. Rodrigo prendeu a respiração. Notei como o corpo dele reagia sem margem para dúvidas, e aquilo me pareceu divertido e completamente tentador ao mesmo tempo.
***
Eu o beijei sem lhe dar aviso nenhum. Um beijo direto, na boca, sem rodeios nem preâmbulos. Rodrigo demorou exatamente um segundo para responder e, quando respondeu, foi com uma mão na minha bochecha e uma pressão que me disse claramente que ele já estava esperando havia um tempo que alguém tomasse aquela iniciativa.
Os beijos foram se intensificando sozinhos. Primeiro suaves, depois mais longos, com língua, com as mãos começando a se mover por lugares que iam muito além do apropriado diante de uma terceira pessoa. Rodrigo tinha os lábios quentes e tinha gosto de vinho tinto e de alguma coisa levemente doce que eu não consegui identificar.
— Ei — murmurou ele contra a minha boca.
— O quê? — sussurrei.
— Que a Sofia está ali...
— Eu sei.
Ele ficou quieto por um momento. Depois suas mãos continuaram se movendo.
Ele levantou minha camiseta. Tinha mãos grandes e frias, e esse contraste com o calor que eu já sentia na pele foi suficiente para me arrancar um som involuntário. Rodrigo desfez o fecho do meu sutiã por trás sem tirar os olhos do meu rosto, com a espécie de habilidade que denuncia os dedos de alguém que não precisa pensar no que faz. As mãos dele encontraram o que buscavam e levaram o tempo que quiseram, apertando e acariciando com firmeza, o polegar roçando meu mamilo até deixá-lo duro e sensível.
Soltei um som mais alto do que eu tinha planejado.
Olhei de canto para a poltrona.
Sofia continuava ali. Tinha deixado o copo sobre a mesa de centro. As bochechas dela tinham se acendido num vermelho que a pouca luz da sala não conseguia disfarçar. As pernas estavam cruzadas numa direção diferente da de antes, e as mãos apertadas sobre as coxas. Ela não parecia disposta a ir embora. Também não parecia disposta a dizer nada.
E aquilo — exatamente aquilo — me encharcou de um jeito que eu não tinha antecipado nem um pouco.
Em vez de afastar Rodrigo, passei a mão na nuca dele e o puxei mais para perto.
— Assim — murmurei, mais para ele do que para mim.
Rodrigo me beijou com mais fome, e eu cravei os dedos no cabelo dele, puxando só um pouco para obrigá-lo a ficar onde eu queria. Senti a ereção dele endurecendo contra a minha coxa através do tecido da calça, e a certeza de que Sofia estava vendo como o melhor amigo dela estava escapando do controle me provocou um estalo quente entre as pernas.
***
A boca de Rodrigo desceu para o meu pescoço. Ele parou no ponto em que a mandíbula se encontra com a garganta e levou o tempo que quis ali, mordiscando de leve, sem pressa. As mãos dele percorriam minhas costas, minhas laterais, seguindo o contorno de algo que claramente ele já vinha imaginando havia um bom tempo.
Os lábios dele desceram mais. Eu perdi o fio de qualquer pensamento que não fosse físico.
— Me fode — eu disse.
Falei baixo, quase sem perceber, mas no silêncio do apartamento soou perfeitamente.
Rodrigo levantou a cabeça e me olhou. Tinha os olhos escuros e uma expressão que era metade pergunta, metade decisão tomada de antemão.
— Aqui — acrescentei.
Ele não precisou que eu repetisse. Levantou-se, foi até o quarto e voltou em menos de trinta segundos. Tirou o resto da minha roupa de uma vez, me deitou no sofá e se posicionou entre as minhas pernas.
Olhei para a poltrona.
Sofia tinha se inclinado para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Ela já não fingia que não estava olhando. Os olhos dela iam de um a outro com uma atenção sustentada que não tinha nada de acidental.
Por um instante, justo antes de Rodrigo se mover, senti algo parecido com vergonha: estar completamente exposta diante de alguém que eu quase não conhecia, no sofá do melhor amigo dele, sem nada me cobrindo. Visto de fora, era uma situação absurda. Mas então Rodrigo afastou minhas pernas e eu parei de pensar em qualquer outra coisa.
Ele entrou devagar, aproveitando o quanto eu estava molhada. A primeira investida me arrancou um gemido que vibrou na garganta. Os quadris dele testaram o início, medindo o ritmo antes de decidir ir mais fundo. Cada estocada vinha com uma pressão crua, contundente, e eu sentia como ele me abria aos poucos, como me preenchia de um jeito que me fazia arquear as costas sem conseguir evitar.
— Mais — pedi, com a voz quebrada.
Rodrigo soltou um rosnado baixo e se inclinou sobre mim, segurando-me pela cintura enquanto me fodia com uma mistura de controle e fome que me deixou sem ar. O sofá rangia debaixo de nós. A ponta do pau dele roçava cada vez mais fundo, batendo bem onde o corpo se torna puro instinto.
Mas eu continuava olhando para Sofia.
E Sofia me olhava de volta.
Em algum ponto daquele olhar sustentado, com Rodrigo se movendo dentro de mim, com a música ao fundo e o som suave do tecido contra o couro do sofá, algo aconteceu entre nós duas que eu não sei bem como descrever. Não foi nada dito em voz alta. Foi mais uma espécie de reconhecimento mútuo, honesto e sem intermediários. Ela voltou a mudar a posição das pernas e apertou os lábios numa linha fina.
— Não para — eu disse a Rodrigo.
Ele não parou.
Agarrou minhas coxas com mais força, erguendo-me só um pouco para mudar o ângulo e se enfiar ainda mais. Cada golpe seco sacudia meu corpo inteiro. Senti o calor subir do ventre até a garganta, e a fricção começou a ficar insuportável da melhor maneira, daquela em que o prazer deixa de ser suave e vira uma necessidade física, quase dolorosa.
Rodrigo desceu uma mão entre nós dois e encontrou meu clitóris com dois dedos, esfregando em círculos desajeitados no começo e depois mais firmes, mais seguros. Eu me contorci debaixo dele, ofegando, com as coxas tremendo. A cena era obscena e exata: eu nua sobre o sofá, ele enterrado entre minhas pernas, Sofia quieta na poltrona, vendo tudo com uma cara que já não podia ser confundida com desinteresse.
— Olha para ela — disse Rodrigo de repente, com a voz rouca, sem parar de se mover.
Obedeci. Fixei os olhos em Sofia justamente quando ela engoliu em seco.
— Você gosta assim? — ele me perguntou, empurrando mais forte.
— Sim.
— Que ela veja?
— Sim.
A respiração dele ficou mais pesada. A mão na minha cintura se tencionou. Eu já estava perto demais para pensar com clareza, metida demais na cena para distinguir onde terminava o desejo e onde começava a provocação. Sofia não se levantou nem desviou o olhar. Só mordeu o lado de dentro da bochecha, vermelha até as orelhas, com o copo vazio entre as mãos como se fosse a única coisa que a mantinha no lugar.
***
O primeiro orgasmo veio mais rápido do que eu esperava, impulsionado por tudo o que vinha se acumulando desde o começo da noite: o vinho, a tensão, o incômodo convertido em excitação, o olhar de Sofia cravado em nós como se ela não pudesse fazer outra coisa. Fiquei tensa, soltei o ar num longo suspiro e me agarrei aos ombros de Rodrigo enquanto uma onda quente atravessava meu corpo inteiro. Arqueei as costas, tremendo, e senti como me contraí em torno dele com tanta força que Rodrigo soltou um gemido breve e rouco.
Ele continuou sem parar.
O segundo foi diferente, mais profundo, construído devagar de dentro para fora. Rodrigo tinha mudado o ângulo, procurando alguma coisa específica que encontrou sem que eu precisasse guiá-lo. Naquele momento eu já não olhava mais para Sofia. Tinha parado de pensar nela por completo. Só sentia: a fricção, a pressão, o peso dele sobre mim, o ritmo que ia ficando mais intenso sem que nenhum de nós dissesse nada.
Ele chupou meu pescoço, apertou minha bunda e continuou me fodendo com uma constância brutal, enterrando-se cada vez mais fundo até me fazer ver manchas de luz atrás das pálpebras. Levantei uma perna até a cintura dele, me abrindo mais para ele, e a mudança fez com que ele entrasse com uma pancada seca que me arrancou outro gemido, mais alto, mais descontrolado.
— Isso, porra — murmurou Rodrigo, com a voz quebrada pelo esforço e pelo prazer—. Assim.
O terceiro veio quando ele acelerou.
Rodrigo perdeu o ritmo controlado perto do fim. Começou a se mover com mais urgência e menos cálculo, até se enfiar o máximo que podia e ficar parado com um som grave que saiu do peito dele.
Silêncio.
Os dois respirando.
Ele saiu um pouco, passou a mão pelo rosto e ficou me olhando por um segundo, como se só agora se lembrasse de onde estava. Depois cerrou a mandíbula, se inclinou de novo e terminou com mais duas estocadas curtas, mais sujas, até o corpo dele se tencionar por completo e ele se esvaziar dentro da camisinha com um tremor que percorreu suas costas. Ficou imóvel sobre mim, respirando forte, com o pulso batendo no pescoço.
Eu ainda estava com o corpo em chamas, sensível, aberta e tremendo por dentro. Senti o calor da porra dele presa no látex, o peso final dele sobre mim e o latejar insistente entre as pernas, como se meu corpo não quisesse aceitar que já tinha terminado.
***
Rodrigo se jogou para o lado depois de um momento. Foi então que ele se lembrou de que Sofia ainda estava ali.
Sentei no sofá e a olhei. Ela continuava exatamente no mesmo lugar, com o copo vazio entre as mãos e uma expressão que eu não saberia resumir em uma única palavra. Rodrigo murmurou alguma coisa que soou como desculpa enquanto procurava a camiseta.
Sofia pigarreou.
— Não se preocupe — disse em voz baixa—. Foi até interessante ver vocês.
Levantei-me do sofá com a roupa na mão e fui direto para o banheiro. Olhei para o espelho enquanto a água da torneira corria. Tinha o cabelo desgrenhado, os lábios levemente inchados, uma marca vermelha no pescoço que ia durar pelo menos alguns dias. Me vesti devagar, sem pressa, pensando em nada em particular.
Quando saí, Sofia já estava colocando a jaqueta. Nos despedimos com a mesma frieza educada com que tínhamos nos cumprimentado no começo, como se os últimos quarenta minutos não tivessem acontecido de forma alguma. Rodrigo me acompanhou até a porta do apartamento com a camiseta vestida do avesso.
— Ei — disse ele.
— O quê?
— É que... não sei. Está tudo bem?
Eu sorri para ele.
— Tudo perfeitamente bem.
Desci as escadas até o meu andar e entrei no meu apartamento. Dormi sem dificuldade. Mas, antes de perder a consciência, a imagem de Sofia naquela poltrona voltou uma última vez: as bochechas coradas, os olhos muito abertos, o momento exato em que ela se inclinou para a frente para ver melhor.
Que eu tenha passado o resto da noite pensando nisso é algo que pertence só a mim.


