A consultora de imagem que me feminizou em silêncio
Entrei na terceira fileira com um café frio e meu ceticismo dobrado no caderno. Não sabia que cada frase dela iria reescrever quem eu era, até o último botão.
Entrei na terceira fileira com um café frio e meu ceticismo dobrado no caderno. Não sabia que cada frase dela iria reescrever quem eu era, até o último botão.
Quando ela abriu a porta com aquela lingerie preta e aquele sorriso frio, entendi que naquela noite não haveria conversa: só ordens, e eu estava disposto a obedecer cada uma.
Bastou um sussurro junto ao meu ouvido para que toda a minha vida de homem correto começasse a desabar sob o clique de saltos que ainda não eram meus.
Naquela sexta-feira, ele subiu no carro com uma mala e umas caixas que eu não entendi. Dentro não havia trabalho: estava o presente que, enfim, me deixaria ser quem sempre fui.
Na última noite antes de se tornar mortal, ela se aninhou entre suas duas mães divinas sabendo que, ao amanhecer, teria de enterrar tudo o que era sob camadas de tecido comum.
Eu usava lingerie sob a roupa havia semanas, mas naquela noite, sozinha em casa, decidi me tornar por completo a mulher que ele queria ver.
Quando ele se virou naquela loja de cidadezinha, pensei que fosse uma mulher. Usava jeans branco, unhas pintadas e um segredo que eu só descobriria quando ficássemos encalhados na estrada.
Quando me pediu o café de joelhos, eu soube que algo tinha mudado entre nós para sempre e que não havia mais volta.
Meu tio dirigia furioso, perdido pela enésima vez, e ela aproveitava cada buraco e cada solavanco para me enlouquecer sem ele notar nada.
A mãe dela nos viu brincando na cama e, em vez de gritar, sorriu pra mim. Naquela mesma noite entendi que naquela casa nada era inocente — e eu também não queria ser.
Quando entrei no banheiro, não imaginei que a mãe dela me esperava, nem que minha sobrinha apareceria na porta com um sorriso que mudaria tudo.
Andrés sempre foi o irmão forte, o que trazia comida e dormia com as namoradas. Até que uma noite de abstinência me procurou na escuridão.
Eu só ia pedir para ele baixar o volume do pornô. Nunca imaginei que essa discussão terminaria com nós dois na cama dele, sem nada nos separando.
Aceitei ajudá-las com o concurso da faculdade. Não imaginei que, diante daquele espelho, maquiado e com aquele vestido justo, deixaria de me reconhecer.
Era uma brincadeira: colocar em mim a gargantilha rosa em troca de uma pizza. Mas apertei o botão e deixei de ser eu. Outra pessoa passou a mover meu corpo por dentro.
Pratiquei diante do espelho durante semanas. Na noite em que coloquei o vestido na mochila, soube que não havia mais volta: daquela vez seria de verdade.
Eu vinha fantasiando há meses em ficar com uma garota trans. Nessa noite, no banco do carona, ela sussurrou no meu ouvido que tinha percebido como eu a olhava.
A mãe dela me chamou de sonhador, o pai me humilhou ao lado do carro. Quando tudo acabou, Helena desceu as escadas, pegou minha mão e me levou para o quarto.
Essa madrugada eu vesti a tanga vermelha, as meias arrastão e a peruca diante do espelho do hotel, e pela primeira vez não reconheci o garoto de sempre.
“Que bundinha linda”, disse atrás de mim. Não me virei de imediato. Aquela voz não podia ser a dela, não depois de quatro anos de silêncio.