A deusa andrógina que se disfarçou de mortal
O Santuário de Azabache respirava como uma criatura viva. Sob suas cúpulas de cristal negro, uma luz perpétua de âmbar e carmim se filtrava sobre pisos incrustados de gemas que um dia haviam sido fluido e agora brilhavam como estrelas aprisionadas. As trepadeiras carnudas que escalavam as colunas sussurravam numa língua que não era língua, só desejo feito som. No ar flutuava jasmim estelar e um almíscar quente, e cada partícula parecia uma carícia elétrica sobre a pele nua de quem habitava aquele lugar.
Naquela tarde, porém, uma tensão diferente saturava o santuário. Não era o êxtase de sempre, mas algo mais denso e triste. Iris, a Brasa Estelar, partiria no dia seguinte, e o templo inteiro sabia disso.
Iris era a própria encarnação do desejo cósmico. Sua mera presença bastava para incendiar os corpos ao redor; por onde ela andava, os demais tremiam sem saber por quê. Sua pele nacarada irradiava um fulgor dourado, seus olhos eram duas nebulosas verdes e seu cabelo, uma cascata de cachos que desciam até os joelhos, parecia mover-se por vontade própria. Seu corpo não obedecia a uma única forma: era ao mesmo tempo feminino e masculino, um altar onde coexistiam seios fartos, quadris largos e um sexo duplo que a definia tanto quanto seu olhar.
Suas mães a haviam criado naquele plano desde o início dos tempos. Damaris, de pele escura como ébano polido, era autoridade e orgulho; seus olhos cinzentos queimavam mesmo quando ela guardava silêncio. Nira, ao contrário, tinha a palidez da lua e a ternura por costume, e chorava com facilidade por tudo o que amava. As duas a haviam moldado, ensinado e adorado, e as duas iam perdê-la.
—O universo te chama — disse Damaris naquela tarde, e sua voz soou como um trovão contido—. Eu entendo. Mas meu peito se despedaça do mesmo jeito.
—Ela vai voltar — murmurou Nira, embora as lágrimas já molhassem suas faces—. Ela tem que voltar.
Iris não respondeu. Aproximou-se do altar principal e deixou que o silêncio dissesse o que ela não podia. Se eu falar, eu fico, pensou, e se eu ficar, traio aquilo para o que nasci.
***
A noite anterior à sua partida não foi de orgias nem de grandes ritos. Foi de intimidade. Uma luz tênue e âmbar banhava as câmaras do santuário e suavizava cada contorno, como se o próprio templo respeitasse a dor da despedida.
Na câmara privada de Damaris e Nira esperava um leito de obsidiana coberto de sedas luminosas. Os três corpos, limpos após o rito de purificação, brilhavam com uma aura suave. Não havia vestígios de excessos, apenas pele nua e a calma frágil de quem sabe que o tempo está acabando. A luxúria continuava ali, como sempre, mas naquela noite estava temperada pela ternura.
Damaris se deitou no centro, seu corpo imponente formando uma inclinação quente. Nira se aninhou de um lado, e Iris deslizou para o outro, buscando a segurança que nenhum outro canto do universo poderia lhe oferecer. Era a última vez que se sentiria tão pequena, tão cuidada, tão dela.
Com um suspiro que era ao mesmo tempo consolo e ferida, Iris se apertou contra o ventre de Damaris. Antes de se acomodar, com um gesto íntimo e habitual, ela se livrou da peça de obsidiana que a havia acompanhado o dia inteiro. A pressão cedeu e um pequeno suspiro escapou de seus lábios, meio alívio, meio nostalgia.
O desejo que latejava em seu ventre, amplificado pela proximidade de suas mães, pedia saída. Iris se acomodou entre as duas e deixou que suas mãos fizessem o que tantas vezes haviam feito. Uma demorou-se em círculos lentos sobre si mesma; a outra envolveu seu sexo erguido e o percorreu sem pressa, da base à ponta. Suas coxas se apertaram contra os quadris de Damaris, e seu corpo roçava o de Nira a cada movimento.
Então se inclinou para Damaris e tomou em sua boca aquilo que sua mãe lhe oferecia, lambendo devagar, misturando o sabor alheio à doçura do próprio prazer crescente. Ao mesmo tempo, Nira se pressionava contra ela por trás, sem invadi-la por completo, apenas presente, uma promessa quente de intimidade maior. O atrito bastava. Era tudo o que Iris precisava naquela noite.
Sua respiração acelerou. Os gemidos escaparam baixos, entremeados aos suspiros de suas mães, que sentiam a onda de excitação da filha como se fosse própria. O ritmo de suas mãos cresceu, seus quadris se ergueram em pequenos arcos, e o sabor em sua boca e o calor às suas costas a empurraram para o limite.
Com um grito suave que reverberou no ar quente da câmara, Iris se arqueou. O orgasmo a atravessou como uma corrente, profundo e total. Seu corpo se contraiu, liberou, tremeu. E, naquele instante, cada ser adormecido ou desperto no santuário, num raio imenso ao redor, foi arrastado ao próprio clímax simultâneo: a prova irrefutável do que Iris era, mesmo em seu momento mais privado.
Quando o tremor se acalmou, ela se deslizou de novo entre suas mães, exausta e plena. Damaris acariciou seu cabelo com um suspiro de amor que não precisava de palavras. Nira a sustentou por trás, uma presença reconfortante na escuridão da despedida iminente. Assim, embalada entre as duas, Iris adormeceu, seus corpos entrelaçados formando o último ninho de calma antes do que viria.
***
O amanhecer chegou ao Plano do Desejo como uma luz difusa de ouros pálidos e pratas iridescentes. O santuário cheirava a mel estelar e à fragrância profunda da quietude. O chão, coberto de fluidos cristalizados de incontáveis noites, brilhava como um tapete de galáxias em miniatura. Os hedonistas jaziam espalhados, dormindo, seus corpos entrelaçados sob aquela película luminosa.
Iris se encolheu contra Damaris até o último instante possível. Depois se levantou devagar, o corpo ainda vibrando com a ressaca prazenteira da noite. A pele brilhava, os mamilos sensíveis ao menor toque do ar, tudo nela convidando ao contato mesmo enquanto se preparava para escondê-lo. A maquiagem, milagrosamente intacta, resplandecia com uma intensidade renovada, como se sua essência se recusasse a se apagar.
Damaris e Nira se aproximaram para o ritual final: a preparação para o mundo exterior. Haviam confeccionado, com a ajuda dos hedonistas mais habilidosos, um traje pensado para disfarçar sua natureza, para ocultar a deusa sob a aparência de uma mortal qualquer.
Antes de começar, Iris se concedeu um último momento de prazer desenfreado. Suas mãos percorreram seu próprio corpo, demorando-se onde mais precisava, levando-a até um clímax privado e contido, uma rajada de energia que a acalmou e, ao mesmo tempo, reafirmou quem era antes de domesticar sua forma. Que o mundo não saiba o que eu sou, pensou, até eu decidir mostrar.
Depois passou a se ocultar. Começou por uma calcinha de algodão grossa, de corte alto e elástico, que abraçava bem seus quadris. Dentro colocou absorventes de fibras celestiais, capazes de absorver sem limite qualquer vestígio de sua fluidez constante, moldados para se adaptar à sua anatomia dupla e criar apenas um volume discreto que se confundiria com a dobra natural do tecido. Sobre os mamilos acomodou pequenos discos de algodão que absorveriam qualquer fio de néctar, selando o segredo de sua divindade.
Escolheu depois a peça do dia: um pequeno objeto de silicone, de forma cônica e suave, de cor discreta, que inseriu com cuidado. A pressão familiar voltou, e com ela uma calma íntima. Seria sua âncora no mundo exterior, uma lembrança constante de sua natureza e uma forma sutil de aliviar o desejo que nunca a abandonava por completo.
Sobre a calcinha vieram umas calças largas de denim escuro, de corte reto e cintura alta, cujo tecido grosso ocultava qualquer contorno e caía em pregas naturais sobre suas coxas. Os bolsos fundos guardavam um frasco de lubrificante celestial e um lenço de algodão para os momentos em que a urgência a obrigasse a se procurar às escondidas.
Uma camiseta de algodão cinza-escuro, de corte amplo e mangas longas, lhe cobria até a metade das coxas. O tecido opaco disfarçava o volume dos seios e a sensibilidade dos mamilos, e sua folga permitiria que ela deslizasse uma mão por baixo sem que ninguém notasse, durante uma caminhada ou no meio de uma conversa. Por cima, uma jaqueta leve com capuz cobriu o fulgor de sua pele e prendeu seus cachos dourados num coque baixo. Um cinto de couro preto, um colar de obsidiana com um pequeno cristal incrustado e um par de botas de cano baixo completaram o disfarce. O colar vibrava levemente, ajudando-a a manter o desejo sob controle; o cabelo, impregnado de essência, ainda exalava um aroma que faria tremer qualquer humano que se aproximasse demais.
—Você está pronta — disse Damaris, e pela primeira vez em éons sua voz tremeu.
Iris olhou para as próprias mãos enluvadas em tecido comum, o corpo soterrado sob camadas pensadas para mentir. Tão diferente. Tão igual por dentro.
***
Com o disfarce completo, chegou a hora da despedida. Os olhos de Iris, um turbilhão de emoções, encontraram os de suas mães, cheios de um amor que transcendia qualquer distância.
—Eu vou voltar — prometeu, e a voz saiu firme embora uma lágrima luminosa deslizasse por sua face e caísse no chão transformada em pérola—. Quando o universo tiver conhecido o que sou, quando o desejo tiver florescido em cada canto apagado, voltarei para o vosso abraço. Para meu berço. Para casa.
Nira se aproximou e tomou o rosto dela entre as mãos, sem conseguir falar. Damaris apenas assentiu, porque sabia que qualquer palavra a quebraria. Iris as abraçou às duas ao mesmo tempo, enterrando o rosto entre elas, memorizando o calor delas para os séculos que passaria longe.
Depois se virou. Caminhou com determinação rumo à fenda de obsidiana por onde, éons atrás, Damaris havia entrado naquele plano. Sob a roupa mortal, sentia cada absorvente, cada pressão, cada pequena âncora que a mantinha contida, e entendeu que aquele seria seu novo estado: o desejo sempre latente, sempre escondido, sempre seu.
Os hedonistas a observaram passar, os corpos tensos pela ressonância da perda. Alguns suspiraram, outros gemeram baixo, um coro silencioso de tristeza misturada com antecipação. No limiar, Iris parou por um instante. Não olhou para trás. Se o fizesse, ficaria.
Ela atravessou a fenda e a luz âmbar ficou selada atrás de si. Do outro lado, esperava o mundo cinzento dos mortais, um mundo que ainda não sabia que entre seu povo caminhava agora uma deusa de dois corpos, disfarçada de moça comum, com um universo inteiro de prazer guardado sob o tecido e a firme intenção, algum dia, de deixá-lo arder.





