A noite em que aprendi a me render por completo
Saí com o grupo de sempre naquela noite. Jantar no centro, drinks em um bar que fechava tarde, o barulho habitual de conversas que se sobrepõem e risadas que duram mais do que o necessário. O último que eu me lembrava com clareza era de ter pedido minha segunda bebida, de ter notado um sabor levemente metálico que atribuí ao gelo e, depois, nada. Uma espécie de névoa espessa que apagava tudo o que veio em seguida.
Acordei sem saber quanto tempo tinha passado. A cabeça pesava e a boca tinha um gosto seco que não era ressaca normal. Levei alguns segundos para entender por que eu não conseguia abaixar os braços.
Eu os tinha estendidos para cima. Os pulsos, presos com couro grosso a uma barra de metal que pendia do teto. Puxei com força. Não cedeu nada.
Foi então que tentei me cobrir e terminei de entender o que estava acontecendo. Eu não tinha nada no corpo. Nenhuma peça. Os pés também não estavam livres: uma barra horizontal no chão os mantinha separados a uma distância que me impedia de cruzá-los ou juntar os joelhos. Eu estava completamente aberta, com a boceta exposta, os peitos caindo pelo peso dos braços esticados, e a sensação gelada de saber que qualquer um que entrasse naquele quarto me veria inteira sem que eu pudesse fazer nada.
O choque veio em ondas. Primeiro a confusão, depois o frio, depois o medo. Um medo concreto e sólido, não o pânico difuso de um pesadelo, mas a certeza de que a situação era real e de que alguém a havia preparado com antecedência.
Então eu o vi.
Rodrigo estava sentado numa cadeira no fundo do quarto, com os cotovelos apoiados nos joelhos e uma expressão de paciência absoluta. Como se estivesse ali havia muito tempo, esperando. Eu o conhecia havia anos, sempre nos mesmos grupos, sempre em uma ponta da mesa que ninguém buscava deliberadamente. Era o tipo de cara que a gente nunca chega a conhecer de verdade porque nunca faz nada que obrigue a prestar atenção nele. Eu o tinha ignorado sistematicamente por muito tempo, até que um dia, havia mais de um ano, ele me deixara isso claro diante de todo mundo com mais aspereza do que o necessário. Naquele momento eu não tinha pensado muito nisso. Agora eu estava pensando.
— Até que enfim — disse ele sem se mexer da cadeira.
Alguma coisa dentro de mim acendeu.
— O que você fez comigo? Solta-me agora mesmo ou eu juro que acabo com você!
Minha voz soou mais firme do que eu me sentia por dentro. Rodrigo se levantou sem pressa e começou a andar ao redor de mim, me olhando com uma calma que me irritou mais do que qualquer outra coisa que ele pudesse ter feito. Seus olhos percorreram sem pudor meus peitos, meu ventre, o triângulo de pelos do púbis, as coxas abertas pela barra, como se estivesse catalogando cada centímetro de pele.
— Hoje você vai aprender uma coisa — disse.
— Filho da puta! Solta-me!
Ele desapareceu atrás de mim. Quando se aproximou o suficiente, baixei a cabeça e cravei os dentes no antebraço dele. Não foi uma mordida limpa porque as amarras limitavam meu alcance, mas foi o suficiente para deixar marca. Rodrigo recuou e olhou para o braço com uma expressão que não era de dor, e sim de algo parecido com satisfação.
— Interessante — murmurou.
— Se você chegar mais perto de mim de novo eu arranco sua mão.
— Não acho que eu vá chegar tão facilmente. Tenho algo com mais alcance do que os seus dentes.
Foi então que vi o chicote. Não era enorme, mas também não era pequeno. Ele o segurava com naturalidade, como se não fosse a primeira vez que o usava.
— Você não vai se atrever — eu disse.
— Esperei muito tempo por este momento — respondeu ele—. Tenho todo o tempo que for preciso.
***
O primeiro golpe veio sem aviso. Um estalo seco no ar e depois o impacto nos glúteos. A dor foi imediata e brutal, muito pior do que eu teria imaginado. Gritei. Rodrigo não disse nada e o segundo golpe veio antes que eu me recuperasse do primeiro.
— Para! Para já! Você enlouqueceu!
— Quando você estiver pronta.
Outro golpe. O couro contra a pele fazia um som que demorou para eu parar de ouvir em looping. A dor não ia embora entre um golpe e outro; ela se acumulava, e as áreas que já tinham recebido impacto ardiam com uma intensidade que crescia sem teto visível. Tentei jogar o corpo para frente para proteger a parte de trás, mas isso só deixava minhas costas mais expostas.
Os golpes continuaram. Perdi a conta depois do décimo ou décimo primeiro. A bunda e a parte de cima das coxas ardiam com uma intensidade que já não encontrava referência em nenhuma experiência anterior. Comecei a perceber que minha capacidade de manter a raiva intacta se fragmentava, que havia cada vez menos espaço mental para planejar como eu faria ele pagar por tudo aquilo quando me soltasse, e mais espaço simplesmente ocupado pela dor e pela pergunta de quando ele pararia.
Rodrigo voltou a se aproximar. Desta vez não tentei mordê-lo. Senti as mãos dele envolverem brevemente meus quadris e depois se afastarem.
— Ainda tem esse olhar — disse ele.
— Que olhar?
— O de quem acha que está acima de tudo isso.
Outro golpe.
— Vou arrancar esse olhar de você na porrada, se for preciso.
***
O ponto em que comecei a ceder não foi um instante concreto, mas algo gradual. O corpo tem um limite que a vontade não consegue sustentar indefinidamente, e quando o chicote começou a atingir a parte interna das coxas, perto dos joelhos, senti que alguma coisa dentro de mim começava a dobrar sem que eu estivesse escolhendo isso.
— Rodrigo — eu disse, com a voz muito menos firme do que antes—. Não sei quanto mais aguento.
— Eu sei — respondeu ele. E continuou.
Os golpes ficaram mais lentos, como se ele quisesse que cada um tivesse tempo de assentar antes do próximo. Notei que algumas lágrimas escorriam pelo meu rosto e me perguntei desde quando estavam ali.
— Pede desculpa — disse ele.
O orgulho que ainda me restava tentou resistir. Aguentou mais três golpes. Só três.
— Me desculpa — eu disse em voz baixa.
— Mais alto.
Outro golpe nos glúteos.
— Rodrigo. Desculpa por te morder. Me perdoa.
Os golpes pararam. Ele se aproximou por trás e passou a mão sobre meus glúteos castigados. O contato na pele em carne viva me fez tremer de uma maneira que não tinha nada a ver com desejo. A mão dele desceu pelo vinco entre as nádegas, demorou um segundo no ânus e seguiu mais abaixo, roçando com dois dedos os lábios da boceta de cima a baixo, sem insistir, só conferindo.
— Você está molhada — disse ele, com a voz completamente neutra—. Puta.
— Não é verdade.
Ele enfiou o dedo. Um único dedo, até o fundo, e o tirou devagar. Quando o ergueu diante dos meus olhos, vi o brilho úmido que o recobria.
— Não é verdade?
Não respondi. Não conseguia. A humilhação de saber que minha boceta estava respondendo à agressão queimou mais do que qualquer golpe anterior.
— Esse é o primeiro passo — disse ele.
— Primeiro passo?
— Ainda tem mais.
***
Os golpes voltaram às costas. A dor naquela região era diferente: mais aguda, mais imediata. Cada impacto me fazia arquear o tronco para a frente, o que deixava a parte de trás ainda mais exposta para o golpe seguinte. Era um ciclo do qual não havia como sair só com o corpo. Cada vez que eu arqueava, os peitos se sacudiam para a frente, os mamilos já duros pelo frio e por aquilo que eu não queria chamar pelo nome.
— O que mais você quer? — perguntei entre arfadas.
— Que você se humilhe de verdade. Até o máximo.
— O que isso quer dizer?
— Você vai entender.
Os golpes continuaram e eu comecei a entender. Havia uma lógica no que ele pedia, uma escalada que eu conseguia ver claramente de onde estava. Se pedir desculpas tinha sido o primeiro passo, o que vinha depois era mais exposição, mais renúncia ao controle que eu achava ter.
— Me toca — eu disse por fim.
O chicote parou.
— Onde?
Não respondi de imediato. Rodrigo esperou sem dizer nada.
— Os peitos — eu disse enfim—. Por favor, toca os meus peitos.
Ele se aproximou pela frente. As mãos dele foram direto para onde eu tinha pedido. Agarrou um peito com cada mão, sem nenhuma delicadeza, apertando a carne até ela transbordar entre os dedos. Começou a espremer com um ritmo pausado, subindo até capturar os mamilos e torcê-los entre o polegar e o indicador. A primeira volta me arrancou um suspiro ofegante. A segunda, um grito curto. A terceira me fez fechar os olhos e perceber como a ardência dos mamilos se conectava, por um fio invisível, diretamente à boceta.
Ele desceu a boca até o meu peito direito e chupou o mamilo até enfiá-lo inteiro na boca, mordendo-o justo antes de soltar. Depois fez o mesmo no esquerdo, desta vez com mais língua, dando voltas ao redor da ponta até escapar de mim um gemido que eu não consegui engolir.
— Isso — disse ele, afastando-se—. É esse som que eu quero.
— Cala a boca.
Ele beliscou os dois mamilos ao mesmo tempo e os puxou para fora. Eu arqueei o máximo que as cordas permitiam, e ele manteve a pressão por alguns segundos a mais do que o necessário.
Quando se afastou, achei que tinha acabado.
Não tinha acabado.
— Você está avançando — disse ele—. Mas ainda não é suficiente.
Os golpes voltaram aos glúteos e às coxas, alternando num ritmo que parecia calculado para impedir que eu me adaptasse a qualquer padrão.
***
O corpo tem uma inteligência própria quando a dor alcança certo limiar. A mente começa a buscar saídas que antes descartaria sem pensar. Eu sabia o que ele queria que eu pedisse. Sabia havia algum tempo. O que me custava era cruzar aquela linha.
— Rodrigo.
— Diz.
— Toca em mim. Lá embaixo. Por favor.
— Seja mais específica.
Fechei os olhos por um momento.
— Toca a minha boceta. Os lábios, o clitóris. Por favor, eu quero que você faça isso.
Ele se posicionou atrás de mim. A mão esquerda deslizou entre minhas coxas e os dedos alcançaram os lábios com facilidade, dada a posição das minhas pernas. Ele os abriu devagar com dois dedos, como quem inspeciona algo que lhe pertence, e eu senti o ar do quarto entrar diretamente na vagina exposta. Me deu vergonha o som úmido que os dedos fizeram ao me separar.
A mão direita contornou minha cintura até alcançar a frente. O dedo médio encontrou o clitóris na primeira tentativa e começou a se mover em círculos pequenos, com uma precisão que me incomodou justamente porque funcionava, porque meu corpo respondia de um jeito que eu não havia autorizado e que me custava ignorar. Enquanto isso, dois dedos da outra mão se enfiaram na boceta até o fundo e começaram a me foder devagar, entrando e saindo com um barulho de chapinhar cada vez mais audível.
— Você está encharcada — disse ele perto do meu ouvido—. Dá para ouvir da porta.
— Cala a boca.
— Me diga que você gosta.
— Não.
Ele acelerou os círculos no clitóris. Enfiou um terceiro dedo. Meus quadris se moveram sozinhos meio giro contra a mão dele, buscando mais, e assim que percebeu, ele parou em seco. Retirou os dedos. Fiquei pendurada nas cordas com a boceta latejando, vazia, com a humilhação extra de ter sido eu a me mexer.
Fiquei o mais imóvel que pude. Não era fácil.
Ele se afastou depois de alguns minutos.
E os golpes voltaram.
— Não! Já pedi o que você queria!
— Você ainda não chegou ao máximo.
— O que mais você quer de mim?
— Você já sabe.
***
Eu sabia. Claro que sabia. Só havia uma coisa que pudesse ser mais humilhante do que tudo o que veio antes, e era pedir exatamente isso com todas as palavras.
Os golpes caíram durante outro trecho que não sei quanto durou. Quando a dor nas coxas e nos glúteos superou qualquer resistência que ainda me restasse, eu disse. Disse devagar, com todas as palavras, porque naquele ponto não fazia sentido economizar.
— Rodrigo, por favor. Me fode. Enfia em mim por trás. Sei que vai doer e eu aceito. Eu mereço por ter me comportado com você do jeito que me comportei.
Enquanto dizia isso, levei o corpo para a frente o máximo que as amarras permitiam, empinando a bunda para trás, oferecendo o que eu estava pedindo que ele tomasse. Não conseguia acreditar que estava fazendo aquilo. Mas fiz.
Esperei.
— Repete — disse Rodrigo—. Com as palavras exatas. Sem deixar nada de fora.
Engoli em seco.
— Me fode, Rodrigo. Enfia a porra toda no meu cu. Me arrebenta, se quiser. Quero sentir seu pau dentro de mim. Quero que você me use até gozar. Por favor.
Houve um silêncio curto. Depois ouvi o som de um cinto sendo aberto e o farfalhar da roupa caindo no chão.
As mãos dele pousaram firmes nos meus quadris. Senti a ponta do pau se apoiar primeiro nos lábios da boceta, escorregando de cima a baixo, encharcando-se de tudo o que eu vinha negando na última meia hora. Depois subiu mais, até o ânus. Pressionou devagar, com a cabeça da glande bem na entrada, e eu me contraí por instinto.
— Relaxa — disse ele—. Foi você quem pediu.
Ele me enfiou primeiro um dedo no cu, molhado com os meus próprios fluidos, até a junta. Depois dois. Abriu em tesoura, me alargando, e eu cerrei os dentes porque a sensação era exatamente a que eu tinha temido, uma ardência surda que subia pela coluna. Tirou os dedos e voltou a apoiar o pau.
A penetração começou devagar no início, com a resistência inevitável dado tudo o que tinha acontecido naquela noite. A glande entrou primeiro, forçando o anel, e eu emiti um som que não era gemido nem grito, mas algo mais primitivo, sem nome claro. Quando ele entrou, parou um instante para me deixar respirar e depois começou a se afundar centímetro por centímetro, até eu sentir os quadris dele colados às minhas nádegas ardidas e uma sensação de estar completamente cheia que apagou por um momento o resto do meu corpo.
Ele começou a se mover. Saídas longas até quase sair inteiro, investidas de uma vez até o fundo. As mãos dele agarradas aos meus quadris, os dedos cravando na pele onde antes o chicote tinha batido. Cada investida me fazia jogar o corpo para a frente, pendurada pelos pulsos, com os peitos balançando no ritmo que ele marcava. No começo doía. Depois continuava doendo, mas por baixo da dor começou a subir outra coisa, uma pressão surda na boca do estômago que crescia a cada choque dos quadris dele contra os meus.
A mão esquerda soltou meu quadril e desceu para a boceta. Encontrou o clitóris de novo, com a mesma precisão de antes, e começou a esfregá-lo enquanto continuava me fodendo pelo cu. Eu já não consegui fingir. Comecei a ofegar sem controle, com a boca aberta, um fio de saliva pendendo do lábio inferior. Minha boceta se apertava no vazio contra os dedos dele e meu cu se abria ao redor do pau dele, e as duas coisas eram a mesma coisa.
— Fala — ele arfou perto da minha nuca—. Me diz o que você é.
— Sou sua puta — eu disse, e já não me custou esforço nenhum—. Sou sua puta, Rodrigo. Sua puta. Continua.
Eu gozei antes dele. Foi um orgasmo longo, trêmulo, que subiu pelas minhas coxas e me fez fechar as pernas o quanto a barra permitia, apertando o pau dele dentro do cu com espasmos que eu não conseguia controlar. Gritei algo que nem sequer era uma palavra. Ele continuou me golpeando durante todo o meu orgasmo, sem mudar o ritmo, alongando-o até eu achar que nunca iria acabar.
Quando ele gozou, foi dentro. Senti as puxadas do pau dele soltando a porra no fundo do meu cu, as mãos apertando meus quadris com toda a força, um rosnado baixo colado à minha nuca. Ele ficou dentro por alguns segundos, respirando pesado, com o peito contra minhas costas suadas.
Quando terminou, saiu devagar. Senti o sêmen escorrer pela parte interna da coxa. Fiquei pendurada nas barras com as pernas tremendo, a boceta pulsando, o cu aberto e pingando. Ele se afastou e eu ouvi quando fechou o zíper da calça.
— Obrigada — eu disse baixinho. Quase sem querer.
Não sei se disse porque senti isso ou porque era o que correspondia dizer naquele momento, ou porque o corpo às vezes produz palavras sem consultar a mente. Provavelmente foi uma combinação das três coisas, e essa ambiguidade era a parte mais difícil de processar de toda aquela noite: não a situação em si, mas a incapacidade de saber exatamente o que eu tinha sentido enquanto aquilo acontecia.