A noite em que minha amiga me transformou em sua escrava
Bruna apertou a mão da sua melhor amiga enquanto o táxi avançava por ruas que ela não reconhecia. O calor daqueles dedos entrelaçados aos seus acalmava um pouco a inquietação que vinha crescendo no peito desde que saíram do apartamento. Foi ideia de Lena irem naquela noite ao Salão Escarlate, e Bruna tinha aceitado sem pensar muito, como aceitava quase tudo o que a companheira de quarto lhe propunha.
Ela nunca tinha estado em um lugar assim. Lena, por outro lado, parecia conhecer cada esquina do caminho, cada curva, como se o tivesse percorrido muitas vezes. Isso, mais do que tranquilizá-la, fazia seu coração disparar.
Em que é que eu estou me metendo?, pensou Bruna, e voltou a se agarrar à mão da amiga.
— Toma, isto é para você — disse Lena.
Bruna sentiu os dedos de Lena escaparem dos seus. Virou a cabeça e viu que a amiga segurava algo escuro nas mãos. Levou um segundo para entender que era um lenço de seda preta.
— Lena, você realmente acha que isso é uma boa ideia?
— Claro que sim. Agora olha para o outro lado.
O roçar do tecido foi suave quando ele se fechou sobre seus olhos. Bruna ficou muito imóvel enquanto a amiga amarrava o lenço atrás do seu cabelo castanho. Depois sentiu os dedos de Lena erguerem seu queixo com doçura, e outra vez aquela mão voltou a procurar a sua.
— Não falta nada. Já já chegamos.
No escuro da venda, Bruna apurou o ouvido. Escutou a respiração tranquila de Lena, o motor do táxi, uma música distante que se infiltrava de algum lugar.
— Deixa eu tirar esses brincos — sussurrou Lena, acariciando-lhe o cabelo—. Onde vamos, você não vai precisar deles.
Bruna obedeceu sem protestar. Sentiu quando lhe tiraram os brincos das orelhas, um gesto íntimo e estranhamente solene, como se estivessem tirando algo mais do que umas joias.
***
O táxi parou. A porta se abriu e uma golfada de ar fresco e úmido atingiu seu rosto junto com a música, agora muito mais próxima. Bruna se agarrou ao braço de Lena para se firmar e a seguiu, cega, para dentro.
Lá dentro, o som era denso, quase físico. Ombros desconhecidos esbarravam nos seus enquanto ela avançava. Tentou imaginar o lugar apenas pelo tato e pela audição: o calor dos corpos, o cheiro de perfume e suor, vozes rindo baixinho. Lena a segurava com firmeza, guiando-a, até que pararam.
Bruna ouviu a amiga dizer algo a um homem. Uma porta se abriu e elas entraram em um espaço muito mais tranquilo, onde a música ficava abafada.
— É melhor você tomar um destes — disse uma voz feminina que ela não conhecia.
Sentiu a cabeça ser inclinada para trás. A borda fria de um copinho tocou-lhe o lábio. Engoliu. A tequila queimou sua garganta e a fez tossir, e por trás da venda seus olhos se encheram de lágrimas.
— Mais? — ofereceu a voz.
Bruna negou com a cabeça. Uma mão pequena, provavelmente de Lena, acariciou suas costas por cima do suéter de lã. Seu coração batia cada vez mais forte.
O álcool ainda ardia quando sentiu os botões da blusa serem desabotoados. Outras mãos, maiores, separaram-lhe os braços do corpo e os prenderam, abertos. Bruna não conseguiu controlar a subida e a descida do peito quando percebeu o tecido deslizando para longe do corpo.
— Acho que você podia tomar mais um gole — disse a voz conhecida de Lena.
Dessa vez ela manteve a cabeça imóvel e abriu os lábios. A tequila voltou a arder, mas menos. A cabeça parecia pesada e leve ao mesmo tempo. Então uns dedos desataram o nó do lenço, e a luz entrou de repente.
***
Lena observava da beira da sala, fora do círculo de luz que caía do teto. Sua companheira de quarto estava esplêndida sob o foco: o sutiã de renda mal continha seus seios, o cabelo castanho caía sobre os ombros pálidos e os olhos verdes brilhavam, ainda atordoados, enquanto se acostumavam à claridade.
Lena deu um passo à frente, jogou para trás a longa cabeleira escura e falou.
— Bem-vinda ao Salão Escarlate.
Bruna ouviu, em algum lugar da penumbra, aplausos de admiração. Lena subiu na pequena plataforma onde a mantinham presa e roçou a bochecha dela com os lábios.
— Tem certeza de que quer continuar com isso? — sussurrou.
O hálito de Lena se misturou ao dela. Bruna sentiu um formigamento salgado na língua.
— Já estamos aqui, não estamos? — respondeu com um meio sorriso —. E foi você que me trouxe. Além disso, você já me despiu mais ou menos na frente de todo mundo, então me diz: por que não?
— Talvez você devesse beber mais uma vez. Não. Tenho uma ideia melhor.
Lena pegou a garrafa e encheu o copo até a metade. Então fez algo que Bruna não esperava: ela mesma bebeu a tequila. Antes que Bruna pudesse reagir, a amiga cobriu a boca dela com a sua e lhe passou o álcool com a língua.
— Surpresa? — murmurou Lena contra os lábios dela.
Os dedos de Lena procuraram o fecho do colar que Bruna trazia no pescoço.
— Você não deve usar joias, a menos que seja mandada. Entendeu?
Os pensamentos se atropelavam na cabeça dela. Primeiro, aquele beijo da melhor amiga, diferente de qualquer outro que já tivesse recebido. E agora, as mãos dela tirando o colar como se estivessem retirando uma permissão.
— E você será respeitosa em todos os momentos com sua Ama e com qualquer Amo. Ficou claro? — disse Lena, desta vez com a voz dura, e cravou as unhas em um mamilo por cima da renda.
As lágrimas saltaram dos olhos de Bruna, mas ela assentiu. Lena afrouxou a pressão e a soltou.
— De agora em diante, você é nossa escrava.
Deu-lhe um tapinha suave na bochecha e voltou a beijá-la.
***
Bruna puxou as fitas que mantinham seus braços abertos. O rosto de Lena havia mudado: o desejo marcava cada traço, e aqueles beijos, embora a tivessem desorientado, não lhe pareceram desagradáveis. A leve bofetada até tinha lhe agradado. Ela o olhou e assentiu, aceitando tudo o que a amiga quisesse fazer com ela.
O público que a observava da escuridão desapareceu na sua mente. Agora só existia Lena. Seus olhos permaneceram fixos nela enquanto sentia a saia ser desabotoada e cair no chão.
Lena recuou quando duas figuras vestidas de preto entraram na área iluminada. Eram dois homens. Ajoelharam-se aos pés de Bruna, tiraram seus sapatos e prenderam seus tornozelos com correias, abrindo bem as pernas dela.
— Tirem as meias e a roupa íntima — ordenou Lena—. Duvido que ela vá precisar disso esta noite.
O coração de Bruna disparou quando a amiga desapareceu na penumbra. Os homens terminaram de despi-la e a deixaram sozinha: acorrentada, de braços abertos, em uma sala cheia de desconhecidos, vestida apenas com um sutiã transparente.
Suspirou aliviada quando Lena reapareceu, e então ficou sem fôlego. A amiga havia trocado de roupa. Agora usava botas altas pretas e uma tanga da mesma cor. Na mão, segurava algo.
— Está vendo isto? — disse, agitando diante do nariz dela umas tiras de couro.
— Chama-se flogger — riu Lena, enquanto descia as alças do sutiã pelos ombros dela—. Você vai se acostumar com ele.
Terminou de tirar a peça e os seios libertos ficaram à mostra. Lena desceu da plataforma, mas ficou perto o bastante para alcançá-la. Girou as tiras no ar e as deixou cair sobre um mamilo.
Bruna inspirou com força. Uma segunda inspiração brusca lhe inflou o peito quando o couro bateu de novo, e ela gritou. Mas o primeiro susto logo se transformou em outra coisa, em um calor que subia pelo ventre cada vez que as pontas macias do flogger beijavam sua pele.
— Quer mais, escrava?
Bruna suava de pura excitação. Passou a língua pelos lábios quando as pancadas cessaram. A visão estava embaçada pelo álcool. Sacudiu a cabeça.
— Não, obrigada… Ama.
— Muito bem, escrava.
***
Lena se agachou diante dela e deixou o flogger de lado. Bruna sentiu uma espuma fria aplicada entre as coxas e, depois, o roçar delicado de uma lâmina. Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, tentando fugir do constrangimento de saber-se observada. Mas tinha de admitir: Lena sabia exatamente o que estava fazendo. Com movimentos cuidadosos, a amiga a depilou por completo e depois passou um creme para que a pele não irritasse.
Quando ergueu o olhar, os olhos verdes de Lena a prenderam. A amiga sorriu, baixou a cabeça outra vez, e o cabelo escuro escondeu o que veio depois. Bruna não precisou ver: a língua de Lena a percorreu, úmida e precisa, enquanto uns dedos brincavam mais embaixo. Ela jogou a cabeça para trás e gemeu.
Era estranho. Lena nunca a tinha beijado assim, nem nos lábios, e muito menos ali. Ficou tensa, mas o efeito do álcool a amoleceu de novo. Fechou os olhos e se deixou levar, gemendo cada vez mais alto, sentindo o prazer subir pelas pernas.
Pequenas gotas de suor brotaram na testa dela. As bochechas queimavam. Com os olhos fechados e a cabeça pendendo para trás, voltou a se tensionar. Reconheceu o que estava acontecendo: ia gozar. As coxas rígidas começaram a tremer, ela puxou as correntes, sacudiu o cabelo de um lado para o outro. O fogo lhe acendia as entranhas.
E então a boca de Lena se afastou.
Bruna abriu os olhos de súbito, frustrada, e ergueu a cabeça. Viu a amiga se afastar rumo à escuridão. Da penumbra surgiu um homem.
***
Ele era alto e tinha o corpo atlético, completamente nu. Bruna passou a língua pelos lábios sem querer. Entre as pernas, pendia uma ereção impossível de ignorar, apontando diretamente para ela.
Tentou recuar por instinto, mas uma mão lhe acariciou a coxa. Olhou para baixo e viu Lena guiando o homem, separando-lhe os lábios com os dedos para recebê-lo. Bruna prendeu a respiração ao sentir a penetração, lenta e firme.
O homem se inclinou para beijá-la e, para sua própria surpresa, ela fechou os olhos e lhe abriu a boca. Gemeu enquanto as mãos dele percorriam seus seios. Quando ele se afastou, Bruna quase protestou, mas lembrou a si mesma que uma escrava não devia parecer tão ansiosa. Ainda assim, acompanhou-o com o olhar enquanto ele se posicionava atrás dela.
Sentiu a ponta do sexo dele pressionar contra outro lugar, um muito mais estreito. Não vai entrar, pensou. Uma camada de suor cobria todo o seu corpo.
Jogou a cabeça para trás e gritou quando ele a penetrou por trás. A dor a atravessou, aguda, e o cabelo caiu sobre o rosto dela. Uns dedos lhe ergueram o queixo e Lena apareceu de novo. Desta vez, sentindo-se pela primeira vez de verdade como uma escrava, Bruna quis beijá-la.
Gemeu outra vez. Os dedos de Lena rodearam o clitóris inchado dela, e a dor começou a se fundir com o prazer até que ela já não soube distingui-los. Queria mais. Tinha se esquecido por completo das pessoas ao seu redor.
***
As luzes intermitentes da sala lhe revelaram quantos eram. Pelas silhuetas, Bruna percebeu que a maioria era de homens, embora também houvesse mulheres. Do outro lado do salão, um foco fixo iluminava uma cama grande cercada, em três lados, por espelhos do chão ao teto.
Lena passou um colar em volta do pescoço dela. Soltou um dos pulsos e o prendou a um anel na parte de trás do colar; logo fez o mesmo com o outro. De um anel frontal saía uma guia prateada com a qual a amiga começou a conduzi-la, obrigando-a a andar inclinada em uma postura humilhante.
Refletida nos espelhos, Bruna se viu: os cotovelos erguidos, um homem colado às suas costas, sua própria nudez exposta sob a luz. Baixou o olhar enquanto Lena puxava de leve a guia e a fazia descer da plataforma.
Enquanto avançavam entre os espectadores, notou que Lena conhecia vários deles, porque os cumprimentava com familiaridade. Alguém lhe deu um tapa numa nádega e Bruna arquejou, mas continuaram andando. Muitas mãos se estendiam para tocar seus seios na penumbra.
A luz ficou mais nítida perto da cama. No reflexo, Bruna viu uma marca vermelha na nádega, lembrança da palmada. Atrás dela, o homem continuava se movendo devagar.
Lena desenganchou a guia e a atirou de lado. Depois se deitou de costas na cama, ergueu os quadris e tirou a tanga, deixando à mostra uma estreita faixa de pelos que Bruna já tinha visto outras vezes, quando se trocavam na academia. Naquela noite, porém, tudo era diferente.
O homem a conduziu até a cabeceira. Os dedos de Lena mergulharam em seu sexo e a ergueram, até que Bruna ficou sentada sobre a amiga, com o rosto roçando sua virilha e os quadris erguidos, ainda ocupados pelo outro.
Mais figuras saíram da escuridão. Pelo canto do olho, Bruna viu uma mulher loira e alta, vestida de preto, se aproximar de um lado da cama. Os traços severos dela a fizeram tremer. Ela carregava uma chibata.
O couro assobiou e cruzou sua nádega com uma linha ardente. Bruna gritou, e a mão do homem empurrou sua cabeça para baixo, contra o sexo de Lena. A chibata caiu uma segunda vez; o corpo inteiro dela se contraiu. Movia a língua com desespero, brincando com a amiga, até sentir Lena se estremecer sob ela e, ao mesmo tempo, o homem gozar dentro dela.
***
Lena saiu de baixo e outro homem ocupou seu lugar. Bruna montou nele e se deixou cair até senti-lo dentro. Umas mãos a livraram dos pulsos presos ao colar e ela se inclinou para trás, se oferecendo. Os quadris bombeavam sozinhos enquanto mais corpos, mais mãos, mais vozes a cercavam. Todos observavam a nova escrava, inclusive a loira da chibata, que a olhava com um sorriso frio.
Mais tarde a levaram para outra sala, e ali a noite continuou entre novas mãos e novos jogos, até ela perder a conta do tempo.
— Eu já vou — disse Lena em algum momento, abaixando-se junto ao ouvido dela—. Amanhã eu trabalho, você sabe. Comporte-se.
Enfiou a língua na boca dela em um último beijo e foi embora. Poderia ter dito que estava doente, mas a verdade era que precisava descansar para o que viesse no dia seguinte.
***
Quando saiu, Bruna cobriu os olhos com uns óculos de sol. O táxi a levou de volta ao apartamento que dividia com Lena. No caminho, viu de vez em quando algum comerciante erguendo a porta de ferro, se preparando para um dia normal, alheio à noite que ela acabara de viver.
Ela estava com todas as roupas, menos o sutiã e a calcinha. Não voltaria a usá-los, pelo menos não como antes. Cada parte do seu corpo doía, e a dor, longe de incomodá-la, lhe lembrava o que tinha acontecido.
Apesar de tudo, outro dia começava a nascer. A nova escrava sorriu para si mesma enquanto o céu clareava sobre a cidade. Não podia esperar muito para voltar. Era, sem que ninguém dissesse, o primeiro amanhecer da sua nova vida.





