Pular para o conteúdo
Relatos Ardientes

O jantar com que dobrei a recepcionista

Eu a observava havia quase um mês, embora ela não soubesse. Toda terça e toda quinta eu entrava na clínica para minhas consultas e me demorava um segundo a mais diante da recepção, o tempo exato para que Mariana erguesse os olhos e me presenteasse com um daqueles sorrisos que distribui a todos os pacientes. Sou psicólogo. Meu ofício é ler o que as pessoas tentam esconder, e, desde alguns dias atrás, o que ela escondia gritava mais alto do que qualquer sorriso.

Uma mulher não muda de um dia para o outro sem motivo. Mariana tinha começado a errar as consultas, a olhar o celular a cada cinco minutos, a confirmar os pacientes com uma voz que já não tinha brilho. Seu cabelo vermelho-escuro, que antes usava solto sobre os ombros, agora estava preso num coque apertado, como se se arrumar fosse um luxo que ela já não podia se permitir. Eu conheço essa rigidez. É a de alguém que se sustenta de pé por pura tensão.

Nessa tarde eu a encontrei no pequeno parque em frente, sentada num banco, apertando um lenço entre as mãos. Não foi coincidência: eu a tinha seguido. Me aproximei com a calma de quem não tem pressa, perguntei se estava bem e vi o muro desabar com uma única pergunta gentil.

— Não sei — disse, sem me olhar—. Sinto que tudo caiu em cima de mim de uma hora para outra.

Deixei que ela falasse. É o que eu faço melhor. O parceiro dela tinha ido embora uma semana antes, sem gritos nem malas sendo jogadas pela janela. Um bilhete na mesa, uma mudança enquanto ela trabalhava, o acesso à conta conjunta cancelado. Ele pagava o aluguel de um apartamento que ela sozinha não conseguia bancar, e o primeiro dia do mês estava a dez dias de distância.

— Não tenho dinheiro guardado, não tenho plano, não tenho para onde ir — murmurou—. E amanhã também não sei como vou pagar a luz.

Assenti devagar, medindo cada palavra antes de soltá-la. Falei de soluções permanentes, não de remendos. Fiz ela ver que pedir dinheiro emprestado à amiga ou aos pais aposentados só adiava o problema por um mês.

— O problema não é o de amanhã, Mariana — eu disse—. É o de daqui a trinta dias. E o dos trinta seguintes.

Vi como alguma coisa se alinhava atrás dos olhos dela. Eu estava dando clareza a ela, e a clareza, quando se está se afogando, parece uma mão estendida. Já eram seis e meia.

— Você comeu alguma coisa hoje? — perguntei.

Ela negou com a cabeça.

— Moro aqui perto, três quadras. Vem, eu preparo alguma coisa para você e a gente conversa com calma sobre todas as suas opções. Você não devia tomar decisões de estômago vazio.

Ela hesitou. É claro que hesitou. Mas a solidão do apartamento dela lhe dava mais medo do que um desconhecido gentil, e isso eu já sabia antes de convidá-la.

***

Meu apartamento fica no décimo segundo andar. Um único quarto, cozinha integrada, janelões com vista para a cidade iluminada. É pequeno e está pago: nem um real de aluguel, nem uma dívida. Comprei justamente para não depender de ninguém, e naquela noite esse detalhe ia jogar a meu favor.

Mariana se sentou em um dos bancos altos do balcão, perto de onde eu cozinhava, com os cotovelos apoiados no mármore. Enquanto selava a carne e mexia o purê, deixei que ela falasse da família, da mãe com problemas no coração, da amiga Daniela que a achava apenas triste por causa de um término. Cada confissão era um tijolo que ela mesma me entregava para construir o que viria depois.

— Me sinto sozinha nisso — disse, brincando com um anel que ainda não tinha tirado—. Meu mundo girava em torno dele. Agora que ele foi embora, é como se tivesse levado junto a minha rede de segurança.

Sirvi o prato: carne suculenta, purê com um toque de manteiga, legumes. Enchi uma taça de vinho tinto. Vi-a provar a primeira garfada e fechar os olhos por um instante, como se o corpo lembrasse de repente que tinha fome.

— Está uma delícia — admitiu, e pela primeira vez sorriu de verdade—. Faz dias que eu não me sentia... cuidada.

Essa palavra. Cuidada. Eu a guardei. Era exatamente a fresta por onde eu pretendia entrar.

Falamos do plano dela. Entregar o apartamento, procurar um quarto perto da clínica, pedir horas extras, economizar. Aplaudi cada ideia, fiz com que ela sentisse que era ela quem decidia, que eu só estava organizando o caos que ela trazia por dentro. Sirvi a segunda taça antes que ela terminasse a primeira. Os ombros dela foram relaxando, o riso apareceu, as bochechas recuperaram a cor.

— Faz duas horas eu sentia que minha vida era um beco sem saída — disse, olhando as luzes da rua—. E agora tenho um plano. Não é mágico, mas é meu.

— Tenho algo mais para você — eu disse.

***

Primeiro foi outra taça, com a desculpa de não deixar a garrafa aberta. Depois, quando ela já estava relaxada e a meio caminho entre a gratidão e a confiança, pus cinco notas sobre o mármore.

— Quinhentos mil. Não é um empréstimo. São seus.

Mariana ficou petrificada, a taça no meio do caminho. Olhou para o dinheiro, olhou para mim, e desabou num choro diferente do do parque: como uma represa que enfim cede.

— Não posso aceitar isso — balbuciou, sem tirar os olhos das notas—. O senhor nem me conhece.

— Eu te conheço mais do que você imagina — respondi, e deixei o silêncio fazer o resto.

Então confessei que a vinha observando havia semanas na clínica. Que notei a mudança nela antes de qualquer outra pessoa. Que decidi intervir antes que o chefe dela percebesse os erros e colocasse em risco sua única fonte de renda. Vi como cada peça se encaixava na cabeça dela, como o desconhecido gentil se tornava alguém que a vinha olhando o tempo todo. Longe de assustá-la, isso a fez se sentir vista, importante, resgatada.

— Tenho uma proposta para você, Mariana — eu disse, servindo a última taça—. Vou ser direto.

Ela se inclinou para a frente, expectante. Já não estava curvada pela angústia. Confiava em mim, e a confiança, quando é cega, é a forma mais pura de entrega.

— Vem morar aqui. O apartamento é meu e está pago, eu assumo a comida e as contas. Todo o seu salário vai para poupar. Você vai embora quando quiser, no dia em que sentir que tem o suficiente para começar sozinha. Não vou te impedir. Estamos a três quadras da clínica. — Fiz uma pausa e olhei nos olhos dela—. E vou ser honesto: eu te observava porque me atrais. Seu cabelo vermelho, seus olhos. Não estou buscando um compromisso eterno, não é meu estilo. Mas, por um tempo, podemos nos dar um benefício mútuo.

O brilho da determinação se apagou. Ela deixou a taça com um movimento lento, mecânico, e a rigidez percorreu o corpo inteiro.

— Benefício mútuo? — repetiu, com a voz pequena—. Justo quando estou no pior momento da minha vida.

Ela se levantou, deu um passo para trás, pegou a bolsa. Me chamou de outra jaula com uma vista melhor. Disse que preferia o sofá da amiga a se vender por medo da pobreza. Caminhou até a porta com os olhos cheios de raiva.

— Antes de você ir — eu disse, sem me mover—, não é uma jaula, porque você pode ir embora quando quiser, inclusive agora. Você não dependeria de mim financeiramente: economizaria quase todo o seu salário. O sofá da Daniela? Três dias, quatro no máximo, antes de virar um incômodo. Jogar esse problema nos seus pais doentes? É sua decisão. E se lhe negarem as horas extras? E se o seu ex não responder? A vida te colocou numa situação difícil, sim, mas também numa oportunidade. Discutível, eu admito. Mas uma oportunidade. E, se decidir ir embora, leve os quinhentos mil de qualquer jeito. Isso é em troca de nada. Você pode nunca mais falar comigo.

Mariana parou com a mão na maçaneta. Os ombros subiam e desciam. Ficou de costas por um longo minuto, e eu não disse mais uma palavra: já tinha colocado cada medo sobre a mesa, e o medo trabalha melhor em silêncio.

Quando virou o rosto, sua expressão era de exaustão absoluta. Soltou a maçaneta. Deixou a bolsa cair no chão. Voltou devagar para o balcão, passou a mão naquele cabelo vermelho que eu havia mencionado e o afastou do rosto com um gesto de rendição.

— O senhor sabe exatamente quais fios tocar — disse em voz baixa—. Sabia o que dizer para me dar pavor de sair por aquela porta.

Tomou a taça e bebeu de um gole longo, buscando coragem ou anestesia.

— Tudo bem. Eu fico.

***

Não me aproximei de imediato. Deixei-a terminar o vinho, deixei-a assimilar o que acabara de dizer. Depois contornei o balcão e parei atrás dela. Afastei o cabelo do pescoço com dois dedos e posicionei a mão aberta sobre sua nuca. Não apertei. Só deixei ali, firme, para que ela sentisse o peso.

— A partir de agora — sussurrei ao ouvido dela—, aqui as decisões difíceis eu tomo. Você só precisa obedecer e economizar. Percebe como sua vida acabou de ficar simples?

Senti quando ela engoliu em seco, quando um arrepio desceu pela coluna. Ela não se afastou. Essa foi sua resposta: a quietude de quem decidiu se entregar.

Girei-a no banco até ficar de frente para mim. Ergui seu queixo com um dedo, obrigando-a a sustentar meu olhar enquanto eu desabotoava o primeiro botão da blusa. As mãos dela tremiam sobre as coxas, mas ela não as moveu para me impedir.

— Tire — ordenei.

Ela obedeceu, devagar, com os olhos vidrados. Cada botão era uma pequena capitulação. Quando a blusa caiu no chão e ela ficou de sutiã, passei o polegar no lábio inferior, aquele que ela passara a noite inteira mordendo, e ela o entreabriu por instinto.

— Isso — murmurei—. Assim tão fácil.

Levei-a até o quarto com uma mão na nuca, marcando o passo. Sentei-a na beirada da cama e fiquei de pé à sua frente, deixando que ela entendesse a geometria do que estava acontecendo: eu em cima, ela embaixo. Soltei o coque que nem chegou a se formar direito e o cabelo vermelho caiu sobre os ombros nus dela.

Pedi que ela desapertasse meu cinto. Seus dedos trêmulos demoraram, e eu não a apressei: a lentidão também fazia parte do castigo e do prazer. Quando finalmente me libertou, peguei-a pelos cabelos com suavidade firme e a puxei para mim. Não houve pressa. Fiz com que ela fosse no meu ritmo, marcando cada movimento, parando-a quando acelerava, premiando-a com um gemido rouco quando obedecia direito. Mariana fechou os olhos e se entregou à tarefa com uma concentração que só tem quem parou de lutar.

Ergui-a antes de terminar. Tirei o restante da roupa sem pedir permissão, porque já não era preciso pedir, e a empurrei de costas sobre a cama. Afastei-lhe os joelhos com a mão e me tomei um momento para olhar sua totalidade, vermelha de cabelo e de vergonha, respirando ofegante.

— Me olha — ordenei, e esperei que abrisse os olhos antes de entrar nela.

O primeiro impulso arrancou dela um gemido que tentou conter e não conseguiu. Sustive-a pelos punhos contra o colchão, marcando um ritmo lento, profundo, que a obrigava a sentir cada centímetro. Quando ela tentava se mexer para retomar o controle, eu parava completamente, até que ela mesma, com a voz quebrada, me pedia para continuar. E esse pedido, repetido, foi o que acabou de me excitar: não o corpo dela, mas sua rendição.

Fui levando-a à beira uma e outra vez, negando o fim até que ela o pedisse como quem pede clemência. Só então deixei que ela gozasse, sentindo-a se fechar ao meu redor, sentindo todo o medo e a tensão da semana escaparem do corpo dela numa única convulsão longa. Terminei depois, afundado nela, com seu cabelo vermelho enroscado nos meus dedos e a respiração dela batendo no meu pescoço.

***

Depois ela ficou muito quieta, deitada de costas, olhando o teto. Acariciei seu lado com a palma aberta, devagar, como quem acalma um animal que acaba de se deixar domar.

— Amanhã você vai à clínica, cumpre seu turno e começa a guardar cada centavo — eu disse—. E à sua amiga você diz que já resolveu.

— Foi isso que eu fiz? — perguntou, com um sorriso amargo cravado no teto—. Resolver?

— Foi exatamente isso que você fez — respondi.

Ela se virou para mim, apoiou a cabeça no meu peito e, pela primeira vez em uma semana, dormiu sem sonhar com contas. Eu fiquei acordado mais um pouco, olhando as luzes da cidade pela janela panorâmica, sabendo que ela iria embora no dia em que tivesse economizado o suficiente, exatamente como eu prometi. O que nenhum dos dois disse em voz alta é que esse dia, se eu não quisesse, talvez nunca chegasse.

Ver todos os contos de BDSM

Avalie este conto

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Entrar ou criar conta

Escolha como quer continuar.