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Relatos Ardientes

As correntes que ele soldou sobre a minha pele

Vera tinha vinte e sete anos, mas carregava metade da vida fascinada pelo peso do metal sobre a pele. Tudo tinha começado na infância, brincando com os brincos da mãe, ouvindo aquele tilintar quase inaudível que a fazia parar toda vez que o escutava. Na vida adulta, descobriu que aquele som não a havia abandonado. Ao contrário: tinha se transformado em fome.

No começo, foram apenas argolas simples nas orelhas. Depois, ela abriu novos furos nos lóbulos, um após o outro, até pendurar neles correntinhas finas que lhe roçavam o pescoço ao andar. A coceira constante a mantinha num estado estranho, uma atenção desperta que ela não sabia nomear e que também não queria perder.

Uma tarde, navegando sem rumo, encontrou a fotografia de uma mulher com uma pequena argola atravessando o clitóris, e uma corrente descendo dali como um convite. Vera fechou o notebook. Abriu de novo. Fechou outra vez. Naquela noite quase não dormiu, e na manhã seguinte já havia decidido.

O estúdio se chamava Marca, e cheirava a desinfetante e couro. Atrás do balcão havia um homem de mãos grandes e olhar tranquilo.

— Você sabe o que quer? — perguntou ele.

— Eu sei exatamente — respondeu Vera, e se surpreendeu com a firmeza da própria voz.

***

A agulha doeu menos do que ela temia e mais do que confessaria depois. Quando a perfuração cicatrizou, Adrián — assim ele se chamava — colocou nela uma corrente de quarenta centímetros que pendia entre suas coxas. Vera saiu para a rua sem calcinha, com uma saia que mal escondia o segredo que a acompanhava a cada passo.

O metal balançava, puxava um pouco, lembrava que estava ali. Antes de chegar à esquina, já estava encharcada. Nunca me senti tão desperta, pensou.

Voltou semanas mais tarde, não por incômodo, mas para conversar. Tinha ideias, muitas, e precisava de alguém que as entendesse sem julgá-la. Adrián a escutou com uma atenção que a desmontou. Descobriu-se que ele compartilhava da mesma fascinação, que passara anos procurando alguém disposta a seguir por esse caminho sem frear na primeira curva.

— Vou fazer isso de graça — disse ele. — Tudo. Em troca de uma única coisa.

— Qual?

— Que você me deixe te mostrar. Eu organizo encontros privados, gente que aprecia essa arte. Quero que seja você quem a esteja usando.

Vera não pensou duas vezes. Pediu demissão do emprego no escritório naquela mesma semana — os piercings já começavam a ficar visíveis — e foi trabalhar como assistente no estúdio. Trocou uma mesa cinza por um mundo de agulhas, tinta e desejo.

***

Adrián foi metódico. Começou pelos lábios, os internos e os externos, até que entre as pernas de Vera pendia uma pequena constelação de argolas e correntinhas. Ela deixou de usar calças. Só saias curtas, sob as quais o metal ficava livre e a obrigava a caminhar sempre na beira, sempre acesa.

Depois vieram os mamilos. Depois de semanas vendo o trabalho de Adrián sobre outros corpos, Vera quis o mesmo para o seu. Ele não se limitou a um aro: contornou cada aréola com seis pequenas argolas dispostas de modo que só aparecia a curva superior de cada uma, o resto afundado suavemente na carne. O efeito era hipnótico, e a sensação, uma corrente baixa e permanente que nunca terminava de se apagar.

Quando tudo cicatrizou, Adrián estendeu uma corrente entre os dois mamilos, e com as argolas das aréolas armou uma espécie de sutiã de elos que cruzava suas costas e ombros. Acrescentou outra corrente que descia dos mamilos até a argola do clitóris, calculada de propósito um pouco curta, para manter uma tensão constante que a deixava no limite o dia inteiro.

— Demais? — perguntou ele, observando-a no espelho.

— Nunca é demais — murmurou ela.

***

Uma noite, Adrián disse que queria levá-la a um encontro especial e que tinha algo diferente pensado para ela. Não quis adiantar nada. Pediu que confiasse, e Vera confiava nele de um jeito que a assustava um pouco.

Os preparativos levariam tempo, então ele propôs que ela se mudasse para a casa dele. Nessa altura, já estavam enredados um no outro de uma forma que ia além do metal, e Vera aceitou quase com alívio. Dormir toda noite ao lado das mãos que a transformavam parecia o lugar exato onde ela devia estar.

Adrián começou pelas sobrancelhas. Colocou uma fileira de pequenas barras verticais sobre cada arco, finas e brilhantes. Vera ficou fascinada com a forma como elas mudavam seu rosto, e ainda mais com os olhares de espanto das pessoas quando saía à rua. Gostava daquele fio de desconforto alheio, daquela sensação de ser uma obra que caminhava.

O passo seguinte foi mais trabalhoso. Sobre as maçãs do rosto ele dispôs uma segunda fileira, cada peça alinhada com precisão milimétrica em relação às das sobrancelhas. Levou quase uma semana para terminar, trabalhando com a paciência de um relojoeiro, parando para beijar-lhe a têmpora cada vez que ela cerrava a mandíbula.

Quando tudo cicatrizou, Adrián colocou uma argola em cada canto da boca. Tinha comprado um equipamento de solda em miniatura e, com ele, fechou cada aro sem costura visível, polindo-os depois até parecerem crescer da pele dela. Repetiu o processo com todos os demais, selando-a peça por peça, até que já não houvesse fechos, só metal contínuo.

Vera retribuiu o gesto. Uma noite, com a mesma calma, soldou a argola que ele usava no sexo e a do escroto, unindo as duas com um pedaço curto de corrente bem polida. Adrián gemeu sob suas mãos, e ela entendeu pela primeira vez o prazer de estar do outro lado da agulha, de ser quem decide.

***

Na manhã do encontro, Adrián confessou que precisava que ela dormisse para terminar o projeto. Queria surpreendê-la e, além disso, alguns passos seriam desconfortáveis. Vera o beijou demoradamente, tomou o comprimido que ele lhe ofereceu e se entregou ao sono com um sorriso.

Acordou horas depois com um beijo lento que a trouxe de volta sem pressa. Ao abrir os olhos, o mundo parecia diferente, dividido em faixas de luz e metal. Enquanto dormia, Adrián tinha estendido finíssimas correntinhas de prata das peças de suas bochechas até cada uma das outras argolas do corpo dela: algumas chegavam aos mamilos, outras desciam até os lábios entre as coxas.

Ele as medira com um cuidado obsessivo. Em pé, cada corrente mantinha uma tensão mínima, suficiente para incendiá-la só por respirar. Qualquer movimento se propagava por todo o corpo como uma carícia interminável.

— Você gostou? — sussurrou ele em seu ouvido.

Vera não conseguiu falar. Apenas assentiu, devagar, sentindo a buceta se molhar com o menor gesto.

Para arrematar, Adrián acrescentara uma argola grande que repousava bem à frente de seus lábios, sustentada por correntes que saíam do nariz e dos cantos da boca. Dessa argola central descia uma corrente mais longa, reta, até se perder entre suas pernas e se ligar à argola do clitóris. Ela estava unida da cabeça aos pés, e a ideia lhe pareceu a coisa mais excitante que já imaginara na vida.

Saiu de casa com uma capa de veludo preto sobre os ombros e sapatos de salto agulha. Nada mais. Por baixo, era tudo metal e desejo.

***

No encontro, foram o centro de tudo. As pessoas se aproximavam para olhar, perguntar, tocar com permissão o trabalho impossível que Adrián havia assinado sobre ela. Vera caminhava entre os olhares sentindo-se como uma rainha estranha, cada passo uma sinfonia baixa de elos, cada cabeça que se virava em sua direção uma onda de calor no ventre.

— São eles — ouvia sussurrar —. Olha pra eles.

Adrián não se afastava de seu lado. Apresentava-a com orgulho, uma mão sempre na base de suas costas, bem sobre as correntes que cruzavam seu corpo. Toda vez que essa mão apertava de leve, todo o conjunto puxava ao mesmo tempo, e Vera precisava morder o lábio para não gemer na frente de todos.

Voltaram de madrugada, bêbados de atenção e de vontade. Ele quis retirar as barrinhas que cobriam seus olhos, mas ela o deteve.

— Deixa — pediu. — Ainda não.

Ela gostava daquele véu de metal, da forma como o mundo se tornava embaçado e ela precisava confiar nas mãos dele para se mover. Naquela noite fizeram amor durante horas, e cada vez que os corpos se moviam, todas as correntes cantavam ao mesmo tempo. Vera nunca se sentira tão completa, tão sua e tão dele ao mesmo tempo.

***

Os dias passaram e as barrinhas deixaram de ser novidade para virar parte dela. Aprendeu a se virar com a visão cortada e descobriu que essa pequena perda a incendiava de um jeito inesperado. Adrián também se acostumara; ele, confessou, gostava de ser os olhos dela.

Semanas depois, ele falou de outro encontro, um maior, e perguntou se ela o deixaria ir ainda mais longe. Vera mal demorou a responder. A simples pergunta já a deixava molhada.

— Faz — disse. — O que você quiser.

Adrián reforçou a argola diante da boca dela, cercando-a de pequenas argolas até desenhar um círculo perfeito sobre os lábios. Depois veio a peça central de seu plano, a mais ambiciosa: uma longa corrente de aço, fina e bem polida, que ela teve de engolir lentamente, dia após dia, até senti-la percorrê-la por dentro de uma ponta à outra. Quando a outra extremidade apareceu, ele ajustou a tensão durante uma semana inteira e, por fim, soldou as duas pontas numa única peça contínua.

Vera agora vivia num estado permanente de excitação, sentindo o metal se mover apenas com cada respiração, com cada passo, mantendo-a no limite sem trégua. Algumas noites ela achava que ia perder a cabeça, e em outras agradecia por nunca ter sido tão dona do próprio prazer.

Na véspera da festa, Adrián trocou as barrinhas dos olhos por outras mais grossas e longas. Junto com as quatro argolas pesadas que já pendiam de cada orelha, a imagem era impossível de ignorar. Vera se olhou no espelho, turva e resplandecente, e reconheceu naquele reflexo a mulher em que sempre quisera se tornar.

Fez sua entrada envolta na capa de veludo, sobre os saltos agulha. A sala inteira silenciou por um instante e depois explodiu num aplauso longo, quente, quase reverente. Adrián a olhava da primeira fila com os olhos brilhando, e Vera soube que aquilo não era um fim, mas apenas mais um limiar.

A festa se estendeu até o amanhecer. E enquanto o metal cantava sobre sua pele e as mãos dele a guiavam entre as pessoas, Vera pensou que ainda havia corpo, ainda havia noites, e que Adrián continuaria a adorná-la enquanto o desejo pulsasse nos dois.

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