O contrato de submissão que não soubemos ler
Depois dessa "vitória", voltamos para o quarto de recuperação como quem retorna de uma batalha que mais ninguém jamais reconhecerá. Valentina caminhava colada ao meu lado, os passos lentos, mas firmes, a cabeça apoiada no meu ombro. Pelos corredores do complexo, cruzamos com a equipe técnica recolhendo cabos, desmontando refletores, anotando coisas em tablets sem nos olhar. Para eles, éramos o que já tínhamos sido a semana inteira: conteúdo.
O quarto era branco, iluminado demais, com uma cama médica no centro e quatro câmeras instaladas nos cantos do teto. A luz vermelha de cada lente piscava sem parar. Valentina se deitou com cuidado, fechando os olhos. A enfermeira chegou poucos minutos depois com seu kit de revisão.
O evento tinha durado quatro dias. Chamava-se The Contract: um espetáculo de submissão extrema para um público privado que pagava acesso a uma transmissão criptografada de qualquer canto do mundo. Quatro dias de restrição física permanente, exposição total diante de milhares de espectadores e ordens executadas em tempo real. As regras eram simples: submissão absoluta diante das câmeras, resistência demonstrável e capacidade de manter a compostura quando a dor e a humilhação se tornavam quase impossíveis de suportar. Os vencedores levavam o prêmio principal. Os perdedores também recebiam, mas bem menos.
Tínhamos assinado o contrato três semanas antes, em Buenos Aires, sentados à mesa da nossa cozinha com as contas empilhadas ao lado e os meninos dormindo. Holloway, o organizador, tinha viajado pessoalmente para nos apresentar a proposta: setenta e cinco mil dólares para participar. Não dissemos sim naquela noite. Dissemos sim duas semanas depois, quando o banco ligou pela quarta vez.
O contrato tinha quinhentas páginas.
Lemos umas vinte.
***
Holloway entrou no quarto de recuperação com aquele seu jeito de quem nunca precisou se apressar. Terno escuro, gravata de seda, um sorriso que não chegava de verdade aos olhos.
—Parabéns —disse, parando aos pés da cama—. Vocês foram, sem dúvida, o melhor desta edição.
—Obrigado —respondi, sem sair da cadeira ao lado de Valentina—. Quando a gente vai embora?
Ele inclinou levemente a cabeça, como se a pergunta o divertisse.
—Aí está o ponto. —Tirou uma cópia do contrato e abriu numa página marcada com marca-texto fluorescente amarelo—. Página quatrocentos e doze, cláusula 31.B: "Caso os participantes resultem vencedores do evento, o organizador se reserva o direito de estender o período contratual por até quarenta e cinco dias adicionais para fins de recuperação supervisionada e atividades promocionais". —Fechou o documento com calma—. É padrão. Vocês assinaram.
O silêncio durou três segundos. Depois eu me levantei.
—A gente ganhou. O trato era participar e receber. A gente vai embora.
—O trato —disse ele, sem se alterar— era o que diz o contrato. E o contrato diz que vocês ficam. —Fez uma pausa—. Mais duzentos mil dólares se completarem o período. Se não, os termos de descumprimento são complicados. Vocês já conhecem.
Valentina abriu os olhos. Olhou para mim. Eu olhei para o contrato que Holloway segurava e me lembrei das contas sobre a mesa da nossa cozinha. Voltei a sentar.
—Quando começa o período? —perguntei.
—Já começou —disse ele, e saiu do quarto.
***
As duas primeiras semanas passamos confinados naquele quarto branco, com as quatro câmeras nos encarando. Holloway chamava aquilo de "diário de recuperação": o mesmo público que tinha pago pelo evento agora pagava para acompanhar o processo em tempo real, vinte e quatro horas por dia. Nada de provas adicionais, nada de cenas novas; só nós dois existindo sob observação constante. Era mais difícil de suportar do que qualquer coisa que tivesse acontecido no palco.
Valentina tinha os ombros marcados por horas de restrição, linhas rosadas onde as cordas tinham trabalhado o tecido. Eu carregava as costas cobertas de vergões que iam do roxo ao amarelo, lembranças táteis de tudo o que tínhamos tolerado diante de milhares de desconhecidos. A enfermeira vinha duas vezes por dia: tratava, revisava, anotava em sua pasta e ia embora sem fazer perguntas.
Todas as noites dormíamos mal. Às vezes Valentina se sentava num salto na escuridão, me procurando com a mão. Eu a encontrava sempre.
—Tô aqui —eu dizia. E não havia nada mais a acrescentar.
A quarta noite foi diferente. Valentina se virou para mim na cama, com a luz vermelha das câmeras marcando a linha do maxilar, e sussurrou no meu ouvido:
—Se vão olhar a gente de qualquer jeito, quero sentir você dentro. Preciso de alguma coisa que não seja dor.
Eu a beijei devagar, de boca aberta, procurando a língua dela. Passei a mão por baixo da camiseta e acariciei os seios, os mamilos já duros contra a palma. Ela gemeu baixinho, mordendo o lábio para não fazer barulho, e procurou meu pau por cima da calça. Agarrou ele inteiro, medindo com os dedos, e senti ele endurecer contra a mão dela.
—Tá duríssimo —murmurou—. Quero botar na boca.
Ela deslizou para baixo sob o lençol, baixou minha calça até os joelhos e tirou meu pau para o ar. Agarrou pela base e enfiou na boca de uma vez, sem preliminares, até o fundo. Senti ela engolindo, a garganta se abrindo para me receber, a língua trabalhando a parte de baixo enquanto subia e descia a cabeça. Pousei a mão na nuca dela, guiando-a, e ela deixou que eu fodesse sua boca com movimentos lentos, a saliva escorrendo pelo canto e descendo pelo pescoço. Chupava com fome, como se precisasse provar algo real, minha carne quente contra o céu da boca, e cada vez que tirava meu pau para respirar me lambia a glande da ponta à base com lambidas longas.
—Olha pra mim —eu disse, e ela levantou os olhos sem tirar meu pau da boca. A luz vermelha da câmera brilhava na bochecha dela. Ela não estava nem aí. Os dois não estávamos nem aí naquela noite.
Ergui-a pelos ombros, deitei-a de barriga para cima e arranquei a calcinha de uma vez. Abri suas pernas e enfiei dois dedos no seu cuzinho, encontrando-a encharcada, a carne quente e escorregadia. Passei o polegar no clitóris em círculos lentos e ela arqueou as costas, mordendo o punho.
—Tá escorrendo —eu disse ao ouvido dela—. Toda molhada pra mim.
—Me come —ela arfou—. Me come forte, não me trata como se eu fosse quebrar.
Me ajeitei entre as pernas dela e cravei meu pau até o fundo de uma única investida. Ela soltou um gemido abafado, rouco, e cravou as unhas nas minhas costas cobertas de vergões. A dor e o prazer se misturaram na minha coluna como uma descarga elétrica. Comecei a fodê-la com estocadas profundas, quadril contra quadril, sentindo o buceta apertar em volta do meu pau toda vez que eu tocava o fundo. A cama médica rangeu. As câmeras filmavam. Nós nos comíamos pela boca como se o resto não existisse.
Virei-a e a pus de quatro. Agarrei suas ancas e a penetrei por trás de novo, vendo a bunda perfeita bater contra minha pelve a cada investida. Passei uma mão pela frente e encontrei o clitóris outra vez, esfregando-o enquanto a comia fundo. Ela gemia contra o travesseiro, empurrando a bunda para trás para me receber, buscando cada centímetro do pau.
—Assim, papi, assim, não para —gemia—. Vou gozar, vou gozar em cima de você.
Senti o cuzinho dela apertar de repente, o corpo inteiro se tensionar, e o orgasmo sacudiu suas pernas enquanto ela se derramava quente ao redor do meu pau. Aguentei mais duas estocadas e gozei dentro com um rosnado, me esvaziando até a última gota, sentindo o sêmen escorrer entre nossos corpos. Ficamos assim, ela ainda de quatro, eu apoiado nas costas dela, ofegantes.
—Tá me olhando? —falei depois para a lente mais próxima, sem me levantar, com o pau ainda dentro dela.
Não esperei resposta. Nos chats da transmissão, segundo nos contaram depois, alguém tinha escrito: O cara está quebrado por dentro. É o mais honesto que o programa deu em anos. Não soube o que fazer com aquilo.
***
A fisioterapia começou na segunda semana. Uma mulher de uns cinquenta anos, séria e eficiente, vinha toda manhã e trabalhava com Valentina: mobilidade dos ombros, respiração diafragmática, alongamento de quadris. As câmeras continuavam ligadas. O público seguia do outro lado das telas. Valentina ignorava aquilo com uma disciplina que eu admirava sem conseguir imitar.
—Como você faz? —perguntei uma tarde, quando a terapeuta já tinha ido embora.
—Faz o quê?
—Agir como se eles não estivessem olhando.
Ela deu de ombros, olhando as próprias mãos no colo.
—Não estou agindo —disse—. Eu imagino que estamos sozinhos. Sempre.
Beijei sua testa. Depois desci a boca para o pescoço, o decote, e ela riu baixinho, me empurrando sem vontade.
—Eles estão olhando.
—Você mesma disse que imagina que estamos sozinhos.
Ela levou minha mão ao seio, por cima da camiseta, e me deixou apertá-lo. Sentou-se a cavalo em mim na cama médica, ainda com a roupa esportiva da sessão, e começou a se mover devagar, esfregando o cuzinho no meu pau por cima do tecido. Levantei a camiseta dela e tirei o sutiã; os seios caíram pesados e ela se inclinou para me dar um mamilo na boca. Chupei até endurecer, depois o outro, mordiscando, puxando com os dentes até ouvi-la gemer.
Baixei a calcinha por um lado sem tirá-la completamente e abri minha calça. Montei nela só segurando meu pau e guiando, sentando de uma vez até a base. O gemido que ela soltou foi longo, rouco, satisfeito. Começou a cavalgar em mim devagar, apoiando as mãos no meu peito, subindo e descendo com todo o peso dos quadris. Eu segurava a bunda dela com as duas mãos, ajudando, marcando o ritmo, sentindo cada centímetro do cuzinho apertado deslizando sobre meu pau.
—Adoro como você me enfia —eu disse—. Você é uma puta linda em cima de mim.
—Fala de novo.
—Você é minha puta. Minha mulher e minha puta. Vem, goza em cima de mim.
Ela acelerou o ritmo até a cama vibrar e os mamilos baterem no meu rosto. Agarrei um com a boca e mordi de leve, e ela gozou gritando no meu ombro para abafar o barulho, o corpo inteiro tremendo, o cuzinho me espremendo até a última contração. Eu a ergui pelas ancas, a virei de bruços e a peguei por trás sem dar tempo para respirar, terminando de me esvaziar dentro com três estocadas fortes. As câmeras filmaram tudo.
***
As semanas três e quatro foram de transição. Nos deram mais liberdade dentro do complexo: podíamos andar pelos corredores, comer no refeitório comum, ver filmes numa sala sem internet. Uma existência que poderia ter sido quase normal se não fosse a consciência permanente de que tudo estava sendo registrado, arquivado, transmitido para algum servidor cuja localização não conhecíamos.
Uma noite, Valentina encontrou no refeitório uma participante de uma edição anterior: uma alemã chamada Ingrid, com quarenta e tantos anos, que tomava café sozinha num canto. Sentaram juntas por um tempo. Eu as observei de longe, sem ouvir, vendo Valentina assentir devagar enquanto a outra falava. Quando voltou à mesa, estava com os olhos um pouco vermelhos.
—O que ela te disse?
—Que passa —respondeu—. Que a gente aprende a guardar as coisas no lugar certo e seguir.
—Isso te ajuda?
—Ainda não. Mas me pareceu honesto.
Fiquei olhando o café que já não estava quente. O lugar certo, pensei. Não fazia ideia de onde ficava esse lugar, nem se um dia o encontraria.
Naquela noite, de volta ao quarto, Valentina entrou no chuveiro e me chamou de lá de dentro. Entrei. O vapor embaçava tudo, menos as câmeras. Ela estava apoiada nos azulejos, a água quente escorrendo pelos ombros marcados, e me olhou com a respiração acelerada.
—Vem. Hoje eu preciso que você me coma forte.
Agarrei-a pela nuca e a beijei, mordendo seu lábio. Virei-a de costas, apoiei suas mãos nos azulejos e abri suas pernas com um empurrãozinho. Coloquei a mão entre as nádegas dela e passei os dedos por tudo: buceta molhada, cu apertado, tudo meu. Enfiei dois dedos no seu cuzinho até o fundo e ela arqueou as costas, empurrando a bunda para trás.
—Puta —eu disse ao ouvido dela, mordendo seu ombro—. Você está tão molhada assim porque sabe que vão te ver.
—Estou tão molhada assim por sua causa. Me come.
Me ajeitei com meu pau e enfiei de uma vez, até as bolas. Ela soltou um grito e eu comecei a fodê-la contra a parede, cada investida fazendo-a bater os azulejos com as palmas. A água caía nas minhas costas, nos vergões ainda visíveis, e a ardência se misturava com o prazer toda vez que eu tocava o fundo. Agarrei seu cabelo molhado e puxei para trás, forçando-a a arquear o pescoço.
—Me diz que você é minha.
—Sou sua. Toda sua. Goza dentro.
Comi-a com mais força, respingando água entre os corpos, o som da minha pelve batendo na bunda dela enchendo o banheiro. Ela gozou primeiro, tremendo contra os azulejos, mordendo o braço para abafar o grito. Eu a segui um segundo depois, me esvaziando dentro com um rosnado, apoiando a testa na nuca molhada dela. Ficamos assim, respirando, até a água começar a esfriar.
***
As duas últimas semanas foram a turnê. Tiraram a gente do complexo e começamos uma rodada de aparições na mídia especializada: um podcast de comunidades BDSM com cem mil ouvintes, uma entrevista para uma revista de lifestyle alternativo em Berlim, uma mesa-redonda num fórum privado de Amsterdã em que o público pagou para nos ouvir falar da experiência durante duas horas. Em cada aparição, Holloway nos apresentava com aquele sorriso de quem negocia o alheio sem perder a compostura.
—Nossos vencedores —dizia—. Os melhores que já tivemos.
Valentina respondia às perguntas com mais graça do que eu. Eu respondia com mais honestidade do que provavelmente convinha. A pergunta invariável, em cada cenário, era sempre a mesma versão da mesma coisa: como é ter sobrevivido?
Em Amsterdã, diante de cem pessoas que nos observavam em silêncio, o mediador do fórum esperou a resposta com um sorriso paciente.
—Vocês fariam de novo?
Valentina me olhou. Eu olhei para ela.
—Não —disse eu.
—Não —disse ela ao mesmo tempo.
O público riu. Holloway, do lado do palco, assentiu satisfeito, como se honestidade também fosse um produto vendável.
Naquela noite, no hotel de Amsterdã, trancamos a porta pela primeira vez em semanas. Sem câmeras. Sem luzes vermelhas. Só a luminária da mesa de cabeceira e o barulho do canal lá fora. Valentina sentou na beira da cama e me olhou como se estivesse me vendo de novo.
—Vem. Sem ninguém olhando dessa vez.
Me ajoelhei entre as pernas dela e abri seus joelhos. Levantei o vestido até a cintura e afastei a calcinha para o lado. Enterrei a cara na buceta e passei a língua de baixo até o clitóris num lambida longa, saboreando-a. Ela se recostou, apoiando-se nos cotovelos, e agarrou minha cabeça com as duas mãos, me empurrando mais para dentro. Chupei devagar, circulando o clitóris com a ponta da língua, enfiando a língua dentro dela, o tempo que fosse preciso. Quando gozou na minha boca, fez isso em silêncio, de boca aberta e olhos fechados, apertando meu rosto com as coxas.
Empurrei-a sobre a cama, tirei o vestido pela cabeça e me despi. Fui para entre as pernas dela e a penetrei devagar dessa vez, olhando em seus olhos. Ela passou os braços pelo meu pescoço e as pernas pela minha cintura. Comemos assim, nos olhando, sem pressa, com a única urgência do alívio de estarmos sozinhos. Fui aumentando o ritmo até a cama do hotel bater na parede e ela ofegar na minha boca. Me arqueei e passei a mão entre os corpos, procurando o clitóris, esfregando-o enquanto continuava a comê-la. Ela gozou de novo, mais forte, tremendo inteira, e eu gozei dentro por costume e pela fome acumulada. Ficamos abraçados, suados, sem dizer nada por um longo tempo.
—Nenhuma câmera —sussurrou ela por fim.
—Nenhuma câmera —repeti.
No fim de tudo, o valor rondava os novecentos mil dólares: o prêmio do evento, a extensão, as aparições na mídia. Uma fortuna construída sobre seis semanas das quais eu preferia não falar em voz alta. Holloway se despediu da gente no aeroporto com um abraço que nenhum dos dois retribuiu de verdade.
—Vocês foram extraordinários —disse—. Se algum dia reconsiderarem...
—A gente não vai reconsiderar —cortou Valentina.
Ele sorriu, girou nos calcanhares e foi embora.
***
Pousamos em Ezeiza às sete da noite, com o sol se pondo laranja sobre a estrada. Meu sogro Rodrigo nos esperava no terminal com os três meninos na frente: Mateo corria na nossa direção antes de sairmos da ponte de embarque, Sofía carregava um cartaz de papelão com letras tortas, e Luca se agarrava à mão da avó com aquela seriedade que parecia incapaz de ser quebrada por qualquer emoção.
—Pai! Mãe! Vocês trouxeram coisas da Europa? Ganharam o concurso? —Mateo falava sem parar, pendurado no meu braço.
—Trouxemos —eu disse, erguendo-o—. Coisas de Praga, de Berlim, de Amsterdã.
Sofía, que já tinha oito anos e levava a própria dignidade a sério, esperou eu me abaixar para me dar seu abraço exato.
—Por que vocês demoraram tanto? —perguntou baixinho, só para mim.
—Foi um trabalho longo —eu disse—. Mas já acabou.
Valentina estava no chão com Luca no colo. O menino enfiava o rosto no pescoço dela e não dizia nada, e ela o abraçava de olhos fechados, respirando como se fosse a primeira vez em meses que podia respirar de verdade.
***
O jantar na casa dos meus sogros foi longo, barulhento e perfeito. Bifes à milanesa, salada, o arroz com milho que a Norma fazia desde sempre. Os meninos abriram os presentes no chão da sala —um robô de controle remoto para Mateo, uma boneca articulada para Sofía, um jogo de trens para Luca— e o volume subiu para um nível que doía um pouco, de tão bem que soava depois do silêncio daquelas semanas.
Às nove começaram as perguntas. Mateo acionou o robô e levantou a cabeça.
—O concurso era de perguntas e respostas? Na escola disseram que na Europa fazem dessas coisas.
—Mais ou menos —disse Valentina, sem piscar—. Mas com provas físicas também. Como uma competição esportiva.
—Como as Olimpíadas?
—Parecido.
Sofía, ajeitando o cabelo da boneca, falou sem erguer os olhos.
—Às vezes a mamãe chorava nas ligações.
Valentina ficou tensa por um segundo.
—Às vezes a gente sente tanta saudade que as lágrimas saem —disse—. Igual quando você vai para o acampamento e quer voltar para casa.
—Eu não choro no acampamento —disse Mateo, ofendido.
—Por isso você é muito corajoso —eu disse—. Me mostra como o robô funciona?
A conversa se desviou. Nossos pais nos olhavam de vez em quando com algo nos olhos que não era exatamente uma pergunta, mas a sombra de uma. Não disseram nada. Nós também não.
***
Quando a casa ficou em silêncio —os meninos dormindo, todos despedidos com os abraços de sempre—, Valentina e eu nos sentamos no sofá da sala. Não falamos por um tempo. A televisão estava desligada. Lá fora, o bairro respirava quieto.
As dívidas estavam pagas. Os meninos tinham o fundo para a universidade. O aluguel estava coberto por anos. Havia um alívio real em tudo isso, concreto, verificável. Mas também havia algo mais, algo que ainda não tinha nome: a lembrança de seis semanas sob quatro câmeras, de ter aparecido em veículos que nunca leríamos, de quinhentas páginas das quais tínhamos lido apenas vinte.
Guardamos os contratos numa caixa fechada, no fundo do armário do corredor. Não jogamos fora. Eram uma prova, suponho, de que tínhamos sobrevivido. De que não tínhamos assinado em vão.
—E se um dia perguntarem? —disse Valentina—. Os meninos, quando forem maiores.
—A gente dá um jeito de dizer alguma coisa.
—O quê?
—Ainda não sei. Mas alguma coisa.
Ela apoiou a cabeça no meu ombro. Eu passei o braço ao redor dela. Lá fora, o bairro seguia quieto. Os meninos dormiam. E nós, pela primeira vez em meses, podíamos deixar que o silêncio fosse só silêncio, sem câmeras olhando.
—Sobrevivemos —disse ela.
—Sobrevivemos —repeti.
E não tivemos que dizer mais nada.