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Relatos Ardientes

O que fiz com meus tênis no último banco do ônibus

Vou contar uma coisa rapidinha, de quando eu ainda estava descobrindo esse meu lado, essa estranha fraqueza que tenho por tênis. Não vou entediar vocês com todo o contexto nem com o caminho que me levou até ali. Vou direto ao ponto. Ou deveria dizer: direto aos tênis.

Eu estava de férias no litoral, numa cidadezinha de praia para onde íamos todos os anos com o mesmo grupo de sempre. Naquela tarde, tínhamos passado o dia inteiro na areia, entre o mar, as cervejas geladas e as barracas de frutos do mar à beira da praia. Quando começou a anoitecer, alguém alugou uma daquelas vans pequenas para nos levar de volta ao hotel, longe da orla, de volta à civilização.

Estávamos todos acabados. Bronzeados, meio bêbados, com aquela preguiça pegajosa que um dia inteiro de sol e sal deixa na pele. Um por um, foram adormecendo encostados na janela, no ombro da pessoa ao lado, em qualquer coisa. Eu tinha me sentado no último banco, lá atrás, sozinha, com uma cerveja morna ainda na mão e os olhos bem abertos.

Eu passara o dia inteiro pensando nele. Num amigo colorido que, naquela época, me deixava louca, um dos poucos que não apenas tolerava meu fetiche, mas também embarcava nele, que entrava na brincadeira comigo em vez de me olhar estranho. Pensar nele tinha me deixado excitada desde a manhã, em fogo baixo, sem que ninguém percebesse.

A estrada estava escura. A única luz era a da lua, que entrava em rajadas por entre as árvores e varria o interior da van com lampejos prateados a cada dois segundos. E, numa dessas, olhando para os meus pés esticados no banco, eu disse a mim mesma uma única coisa.

E por que não?

Eu estava usando muito pouca roupa. Uma camiseta larga, a parte de baixo do biquíni e uma canga amarrada no quadril, que tinha afrouxado durante a viagem. Nos pés, meias pretas até a metade da panturrilha, dobradas na altura do tornozelo, e por cima delas, os tênis. Meus tênis enormes.

Naquela época, eu ainda estava experimentando, descobrindo quais modelos me excitavam mais, quais me faziam sentir aquela corrente na nuca. Aqueles eram de cor creme, um par pelo qual me apaixonei assim que os calcei. Eram quase um número maiores que o meu, porque era o único par que restava naquela cor, mas eram tão confortáveis que nem hesitei. Eu os adorava. Ainda os tenho, embora hoje quase só os tire do armário para isso, para dar rédea solta ao meu fetiche.

Adoro como eles ficam. Como fazem minhas pernas finas parecerem ainda mais magras, o contraste entre o volume pesado do tênis e meus tornozelos delicados, as meias emboladas justamente ali, naquela dobra. De frente, diante de um espelho, acho o conjunto inteiro lindo. Mas o que realmente me excita, o que me derrete, é como eles ficam vistos do ângulo em que eu os observo. De cima, com as pernas esticadas, aquela perspectiva exata que só eu tenho.

É difícil explicar isso a alguém que não sente. As pessoas acham que um fetiche é um capricho, algo que se escolhe. Não é assim. É mais como um interruptor que um dia descobri ligado e que nunca mais soube desligar. E os tênis grandes, pesados, quase masculinos nos meus pés de menina, eram o modelo que melhor o acionava. Quanto mais exagerados, quanto mais deslocados pareciam em mim, mais me excitavam.

Naquela tarde, durante o dia inteiro na praia, eu os tinha usado por um tempo antes de trocar pelas sandálias, e toda vez que baixava os olhos e os via afundando na areia sentia aquela cócega no baixo-ventre. Desde então, eu vinha flertando com a ideia, remoendo-a, dizendo a mim mesma que não, que estava louca, que havia gente demais. E agora, no escuro da van, todas aquelas pessoas estavam dormindo.

E naquela noite eu tinha tudo. O jogo de luz e sombra da lua. O álcool correndo quente por dentro de mim. O risco de qualquer um acordar, de alguém na frente virar a cabeça e desconfiar de alguma coisa. A lembrança daquele garoto enfiada na minha cabeça. E a visão, aquela visão perfeita das minhas pernas terminando naqueles tênis ridiculamente grandes.

Não pensei muito mais. Subi uma perna para o banco, devagar, prendendo a respiração. Puxei os cadarços grossos até afrouxá-los, sem desamarrá-los completamente, apenas o suficiente para que o tênis ficasse frouxo, aberto, pronto. E comecei a me acariciar.

***

Era delicioso me tocar assim, no escuro, a poucos centímetros de pessoas que dormiam sem saber de nada. Baixei a parte de baixo do biquíni apenas o necessário e enfiei a mão entre as pernas, devagar, brincando comigo mesma com as pontas dos dedos. Eu já estava molhada antes mesmo de começar.

Peguei a garrafa de cerveja e encostei o vidro frio em mim. O contraste me arrancou um arrepio que precisei engolir para não fazer barulho. O frio do vidro, o calor do meu próprio corpo e os dedos indo e vindo no meio. Mordi o lábio para não deixar escapar nada.

Enquanto me tocava, não parava de olhar para as minhas pernas. Eu projetava imagens na cabeça, cenas com ele, coisas que tínhamos feito e outras que ainda não, e misturava tudo ao que tinha diante dos olhos. Minhas pernas. Meus pés dentro daqueles tênis enormes. As meias dobradas. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo, até eu deixar de distinguir a fantasia do que estava acontecendo de verdade.

Eu acariciava os seios por cima da camiseta, a barriga, a parte interna das coxas, e sempre voltava ao mesmo ponto, ao clitóris, fazendo um círculo lento que me subia pelas costas. A certa altura, eu estava tão molhada que tive medo de deixar marcas no tecido do banco. Coloquei uma toalha dobrada debaixo de mim, sem parar de me mexer, e continuei.

Devo ter passado meia hora assim. De repente, alguém se mexia no banco e eu ficava imóvel, com a mão parada, o coração golpeando minhas costelas. Os segundos passavam. Ninguém se virava. Na frente, alguém ria dormindo, outra pessoa murmurava alguma coisa, mas ninguém olhava para trás. E eu recomeçava, ainda mais devagar, prolongando cada carícia, deixando a tensão se acumular até se tornar insuportável.

Que não acordem. Que não acordem agora.

***

Quando finalmente gozei, precisei cerrar os dentes e os olhos para não gemer. Foi um orgasmo longo, surdo, daqueles que percorrem o corpo inteiro e que você não pode soltar porque há gente respirando a um metro de distância. Fiquei tremendo por um momento, com a testa encostada no encosto da frente, recuperando o fôlego.

Mas ainda não tinha terminado. Eu tinha um objetivo, uma daquelas coisas pequenas e muito minhas que me obcecam. Deslizei até a beirada do banco e me inclinei de modo que tudo escorresse pela minha perna, para baixo, devagar. Eu queria que chegasse até a meia. Gosto disso por razões que contarei a vocês outro dia, uma mania que aprendi com um ex de quem já falei.

Não foi fácil. Deu trabalho e exigiu um pouco mais de estímulo, feroz e silencioso, para que o gotejamento continuasse descendo. Mas consegui. O fio percorreu minha perna centímetro a centímetro até encharcar o tecido preto da meia, justamente ali, no tornozelo dobrado.

Então dobrei as pernas até os calcanhares quase encostarem nas nádegas, espremi com os dedos o pouco que restava na meia e espalhei pela sola larga e grossa do tênis. Peguei também o último restinho com os dedos e praticamente envernizei com ele a base daqueles tênis enormes, espalhando devagar, como quem assina alguma coisa.

Adoro fazer isso. Porque depois, na rua, em qualquer lugar, numa fila do supermercado ou esperando o ônibus, penso nas pessoas que me veem passar. Alguma delas pensará: “olha só aquela magrela esquisita com aqueles tênis enormes e ridículos”. Mas nenhuma, jamais, imaginaria que, se aqueles tênis falassem, contariam mil histórias. Que as solas que pisam na calçada guardam meus líquidos, minhas noites, meus segredos. Que são, sem que ninguém saiba, o objeto mais sexual que tenho.

Essa é a parte que mais me excita em tudo, mais até do que o orgasmo. A ideia de carregar um segredo à vista de todos. De atravessar a recepção do hotel no dia seguinte, fresca, sorridente, usando os mesmos tênis, cumprimentando as mesmas pessoas que tinham dormido a um metro de mim enquanto eu me desfazia em silêncio. Ninguém saberia. Ninguém jamais saberia. E eu saberia para sempre.

***

Já relaxada, com o corpo solto e a respiração de volta ao normal, ajeitei o biquíni, escondi a toalha e terminei de uma só vez o que restava da cerveja morna. Apoiei a cabeça na janela e me deixei embalar pelo chacoalhar da estrada, com um sorriso idiota que a escuridão escondia.

Fechei os olhos e cochilei pelo resto do caminho, com as pernas esticadas e meus tênis enormes brilhando de leve sob a lua, guardando o segredo por mim. Chegamos ao hotel sem nenhuma novidade digna de nota.

Pelo menos, nenhuma que eles soubessem.

Beijinhos para todos.

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