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Relatos Ardientes

O que Renata descobriu quando parou de decidir

Há um momento em Renata que quase ninguém sabe ler, mas eu aprendi a procurá-lo desde a primeira noite em que a vi. É só um segundo, uma fissura minúscula na compostura dela. Ela está falando, rindo, comandando a conversa como comanda todo o resto da vida, e de repente algo se apaga atrás dos olhos. O bar deixa de existir para ela. Ela fica imóvel por uma fração de segundo, como se escutasse uma pergunta que ninguém fez em voz alta.

Nessa noite eu estava sentado diante dela, numa mesa no fundo, e vi isso pela primeira vez.

Renata é daquelas que entram num lugar e reorganizam o ar. Advogada, na casa dos trinta e poucos, um jeito de cruzar as pernas que é uma declaração de princípios. Acostumada a homens que falam com ela para impressioná-la e a se entediar com todos antes do segundo gole. Eu não tentei impressioná-la. Essa foi, acho, a primeira coisa que a desarmou.

— Não vai me perguntar com o que eu trabalho? — disse, meio brincando, girando a taça entre os dedos.

— Não me interessa com o que você trabalha — respondi. — Me interessa o que te tira o sono. E o que deixa sua calcinha molhada quando ninguém te vê.

Lá estava ela. A fissura. Esse segundo de distração em que o mundo exterior se apagou e algo mais fundo assumiu o controle. Uma faísca de curiosidade, uma fome muda por algo que ela não sabia nomear, mas que pulsava sob a pele dela havia anos, entre as pernas, na boca, na nuca.

Gosto desse instante porque é aí, nesse silêncio, que uma mulher começa a entender que existem níveis de prazer e de presença que só se alcançam quando outra pessoa abre o caminho, quando outra boca decide onde e quando.

***

Não liguei no dia seguinte. Liguei três dias depois, quando calculei que ela já tinha decidido que eu não ligaria.

— Achei que você não tivesse meu número — disse ela.

— Eu tinha desde o primeiro minuto. Decidi quando usá-lo.

Houve uma pausa do outro lado da linha. Uma respiração. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo no corpo dela, porque tinha visto na mesa do bar: aquela pequena rendição diante de alguém que não lhe pedia permissão para mandar. Sabia que, naquele exato momento, os mamilos dela estavam endurecendo sob a roupa, que ela tinha apertado as coxas sem perceber.

— Isso deveria me irritar — admitiu.

— Mas não irrita. Está te deixando molhada.

Ela soltou o ar de repente, um gemido mínimo disfarçado de risada nervosa.

— Não — disse, depois de um silêncio que disse tudo —. Não me irrita.

Marcamos no meu apartamento na sexta-feira. Não num restaurante, não num bar neutro onde ela pudesse escapar no meio do jantar com uma desculpa. No meu território. Eu disse isso a ela sem enfeite e esperei para ver se protestava. Não protestou. E essa ausência de protesto foi a primeira obediência dela, embora nenhum dos dois ainda a chamasse pelo nome.

***

Ela chegou às nove com um vestido preto e o queixo um pouco mais erguido do que o necessário. Toda a postura dela era um aviso: não pense que me tem. Adorei. O que mais gosto numa mulher segura é o momento exato em que a segurança vira curiosidade, e a curiosidade, entrega. E a entrega, buceta aberta e boca pronta.

Servi uma taça de vinho e não coloquei na mão dela. Deixei sobre a mesa, ao alcance, e a observei até que ela a pegasse. Um gesto mínimo. Mas nós dois entendemos o que significava.

— Você sempre faz isso? — perguntou.

— Isso o quê?

— Transformar tudo em teste.

— Não é um teste — disse, sentando diante dela. — É uma pergunta. E a única que importa esta noite é se você quer parar de decidir por um tempo. Se quer deixar outra pessoa te foder como se fode uma mulher que há anos está cansada de mandar.

Renata baixou o olhar para a taça. Vi o peito dela subir e descer um pouco mais rápido. Vi o pulso batendo no pescoço, aquele ponto logo abaixo da mandíbula onde a pele fica transparente. Vi os mamilos marcando o vestido preto, dois pontos duros pedindo boca.

— Não estou tentando submeter a sua vontade — continuei, mais baixo. — Estou tentando despertá-la. Quero que você descubra quantas vezes pode gozar numa noite quando para de controlar tudo. Há uma diferença, e você vai entender antes do amanhecer.

— E se eu não quiser? — disse, mas a voz dela já não tinha lâmina.

— Então você termina o vinho, vai embora e amanhã esquece tudo isso. A porta está ali. Ninguém vai te prender.

Era verdade, e ela sabia. É a única forma de isso funcionar: a entrega não é arrancada, é oferecida. Uma mulher não cruza o limiar porque é empurrada. Cruza porque, por puro desejo, decide explorar os próprios limites sob o olhar de alguém que sabe mantê-la ali, com a pica dura e a paciência intacta.

Renata não se levantou. Ficou. E, ficando, escolheu.

***

— Vem aqui — disse.

Não me mexi da cadeira. Obriguei-a a percorrer a distância, a tomar a decisão a cada passo. Ela se levantou devagar, largou a taça e caminhou até ficar diante de mim. De pé. Me olhando de cima, ainda agarrada àquele último grama de controle.

Peguei a mão dela e a virei, estudando os dedos longos, as unhas cuidadas, o anel fino no indicador.

— Você vai fazer exatamente o que eu mandar — disse, sem elevar a voz. — Nem mais, nem menos. Vai chupar quando eu mandar chupar, vai abrir as pernas quando eu mandar abrir, e vai gozar quando eu decidir que você vai gozar. E quando quiser parar, diz “basta”, e tudo para. Essa palavra é sua. É a única coisa que você vai controlar esta noite. Entendeu?

— Entendi — murmurou.

— Diz inteiro.

Ela engoliu em seco. Houve uma breve luta no rosto dela, o orgulho brigando contra algo mais antigo e mais forte.

— Vou fazer o que você mandar — disse.

E no instante em que essas palavras saíram da boca dela, algo mudou no quarto. A temperatura, a gravidade, não sei. Renata deixou de ser a espectadora da própria vida para virar a protagonista de um jogo em que eu colocava as regras e ela ia descobrir as próprias verdades na base de dedos, língua e pau.

***

— Vira de costas — disse.

Ela obedeceu. De costas para mim, a nuca exposta porque estava com o cabelo preso. Fiquei de pé atrás dela, sem tocá-la ainda. Queria que ela sentisse o peso da minha presença antes de eu encostar sequer. Que o corpo dela saísse na frente da mente.

Aproximei a boca do ouvido dela sem tocar.

— Não se mexe.

Senti-a estremecer. A respiração dela ficou curta, audível. Passaram dez segundos, quinze, uma eternidade em que o único que existia entre nós era o ar carregado e a certeza compartilhada do que vinha a seguir.

E então apoiei a mão na nuca dela.

Não para pressionar. Meus dedos não queriam empurrá-la para lugar nenhum. Queriam ancorá-la no presente, lembrá-la de quem mandava naquele espaço. Uma firmeza que não admitia dúvidas e que, paradoxalmente, a fazia se sentir absurdamente segura. Eu soube porque o corpo dela, em vez de se tensionar, relaxou. Ela soltou o ar que vinha prendendo desde a porta.

— Isso — sussurrei. — É isso que você estava procurando sem saber.

Deslizei a mão pela coluna dela, devagar, vértebra por vértebra, até a cintura. Senti o calor da pele através do tecido. Renata deixou a cabeça cair para a frente, oferecendo a nuca, cedendo aquele último centímetro de resistência. Desci mais a mão, agarrei uma nádega inteira por cima do vestido, apertei até que um suspiro escapasse dela.

— Tira o vestido — disse no ouvido dela. — Devagar. Quero ver você decidir isso.

***

Ela procurou o zíper na lateral. Os dedos tremiam um pouco, não de medo, mas daquela tensão deliciosa que se acumula quando você se obriga a ir devagar. O zíper desceu com um som mínimo. O vestido afrouxou nos ombros e ela o deixou cair até os pés, ficando de lingerie preta, de costas para mim, sem coragem de se virar. Sutiã de renda, calcinha fininha, uma faixa escura no meio denunciando o quanto já estava molhada.

— Me olha — ordenei.

Ela se virou. E ali estava a mulher inteira: a advogada que reorganizava o ar dos bares, agora descalça no assoalho da minha sala, quase nua, com o queixo finalmente baixo e os olhos brilhando com algo que não era submissão pura. Era desejo destilado. Era o alívio de não precisar decidir. Os seios dela subiam e desciam depressa dentro do sutiã, os mamilos marcando a renda.

— Vem — disse, e dessa vez puxei-a para mim.

Beijei-a com calma, segurando o rosto dela com uma mão e a nuca com a outra. Renata derreteu contra o meu corpo e, pela primeira vez na noite, parou de brigar consigo mesma. Mordi o lábio inferior dela, devagar, e a senti gemer baixinho contra a minha boca. Enfiei a mão por baixo do sutiã e agarrei um seio direto, a carne quente enchendo minha palma. Belisquei o mamilo entre o polegar e o indicador, apertei, girei, e ela arqueou as costas contra mim.

— Mãos para trás — murmurei sobre os lábios dela. — Não me toca até eu mandar.

Ela obedeceu. Cruzou os pulsos nas costas e ficou assim, exposta, esperando. Desabotoei o sutiã com uma mão e o deixei cair no chão. Os seios ficaram livres, redondos, com os mamilos escuros e duros apontando para o teto. Desci a boca e abocanhei um inteiro, chupando com força, e Renata soltou um gemido que veio do fundo do ventre.

— Deus — ofegou. — Deus, não para.

Chupei mais forte. Mordi. Passei para o outro mamilo e fiz o mesmo, enquanto a mão livre descia pelo ventre, contornava o quadril e se enfiava por dentro da calcinha. Encontrei-a encharcada. Os dedos afundaram na buceta sem nenhum esforço, escorregando na umidade, e ela deixou a cabeça cair para trás, a boca aberta.

— Olha como você está — disse, sem parar de mexer os dedos dentro dela. — Pingando. E eu nem comecei.

— Por favor — disse ela.

— Ainda não.

Tirei os dedos de repente, brilhando e grudentos, e levei-os à boca.

— Chupa — ordenei.

Ela abriu os lábios e tomou meus dedos inteiros. Limpou-os com a língua sem tirar os olhos dos meus, e senti a pica batendo contra a calça. O rosto de Renata naquele momento — as maçãs do rosto coradas, os lábios se fechando ao redor dos meus dedos encharcados do próprio sumo dela — é uma imagem que ficou gravada em mim para sempre.

— De joelhos — disse.

Ela desceu devagar, sem parar de me olhar, a pele do peito marcada de vermelho pela excitação. Ajoelhou-se entre as minhas pernas e esperou. Abri meu zíper sem pressa, tirei a pica e encostei-a nos lábios fechados dela.

— Abre.

Ela abriu. E a engoliu de uma vez, até o fundo, sem engasgar, sem fingir pudor. Renata chupava como chupava todo o resto na vida: com fome, concentração, uma técnica que denunciava anos de curiosidade reprimida. Tirei-a da boca dela e a lambi inteira, da base à ponta, e voltei a enfiá-la até sentir o fundo da garganta dela.

— Assim — disse, segurando o cabelo dela, marcando o ritmo. — Exatamente assim.

Fodi a boca dela por vários minutos, olhando-a chorar um pouco, respirando pelo nariz, a saliva escorrendo do queixo. Quando senti que ela estava perto demais, a afastei puxando o cabelo. Ela ficou ofegando de joelhos, a boca aberta e vermelha.

— No sofá. De quatro.

Ela engatinhou até o sofá. Subiu e ficou de joelhos sobre as almofadas, com as nádegas erguidas e a calcinha entranhada no meio. Aproximei-me por trás, arranquei a calcinha de um puxão e abri as pernas dela com o joelho. A buceta estava brilhando, inchada, os lábios abertos e pulsando.

Passei a língua inteira, de baixo para cima, e Renata gritou. Um grito de verdade, sem filtro, um grito de mulher que estava há tempo demais sem ser comida direito. Enterrei a língua dentro dela, mexi, subi até o clitóris e fiquei ali, chupando, enquanto enfiava dois dedos e procurava aquele ponto por dentro que a fazia se contorcer.

— Vou gozar — ofegou. — Vou gozar, vou gozar, por favor deixa eu gozar.

— Goza — disse contra a buceta dela.

E ela gozou. Senti as paredes se fechando ao redor dos meus dedos, os quadris empurrando contra meu rosto, um gemido longo e rouco saindo das entranhas dela. Continuei chupando o clitóris enquanto ela gozava, sem piedade, até que começou a tremer inteira e a me implorar para parar.

Não parei. Virei-a de costas, deitei-a no sofá, abri as pernas dela e me enfiei entre elas. A pica entrou até o fundo num único impulso, e Renata soltou outro gemido, dessa vez mais agudo, com os olhos virando para cima.

— Diz — exigi, movendo-me devagar, cavando fundo. — Me diz o que você é esta noite.

— Sua — ofegou. — Eu sou sua.

— Outra vez.

— Sua, porra, eu sou sua, me fode, não para.

Fodi-a sem misericórdia. Ergui as pernas dela até os ombros e meti a pica até o fundo, uma e outra vez, até o sofá ranger e o som de carne batendo em carne encher a sala. Renata se agarrava às almofadas, os seios quicando a cada investida, a boca aberta soltando gemidos e palavrões que ela jamais tinha dito num tribunal.

— De novo — ordenei. — Goza de novo.

— Não consigo.

— Consegue.

Desci a mão até o clitóris e comecei a esfregá-lo rápido, sem parar de empurrar, e em vinte segundos senti-a explodir pela segunda vez. A buceta dela apertou tão forte que quase me arrastou junto.

Tirei-me de dentro dela. Virei-a. Coloquei-a de novo de joelhos contra o encosto e a penetrei por trás. Deste ângulo entrava mais fundo, e Renata abaixou o rosto contra o couro, oferecendo o cu, ronronando como uma gata.

— Mais — pediu. — Mais forte.

Dei mais forte. Segurei-a pela cintura com as duas mãos e a fodi sem controle, olhando o corpo inteiro dela se mover a cada golpe. Passei um polegar molhado no próprio fluido dela pelo cu, apertando a entrada de trás, sem chegar a enfiar, só testando, e ela gemeu mais agudo.

— Por favor — ofegou outra vez, sem nem saber pedir o quê.

Enterrei-me nela mais quinze, vinte vezes, até sentir que não aguentava mais. Saí de repente, virei-a, deitei-a de costas, ajoelhei-me sobre o peito dela e mirei o rosto.

— Abre a boca. Mostra a língua.

Ela obedeceu. Masturbei-me duas vezes sobre ela e gozei em cima, jatos grossos caindo na língua dela, nos lábios, no queixo, nos seios. Renata fechou os olhos e recebeu cada golpe com um sorriso novo no rosto, um sorriso que eu nunca tinha visto na advogada da mesa do bar.

Quando terminei, ela passou dois dedos pela bochecha, recolheu o sêmen e levou à boca. Engoliu olhando para mim.

— Boa menina — disse.

E duas lágrimas escaparam dela, de puro alívio.

***

A noite ainda não tinha terminado. Levantei-a do sofá, carreguei-a nos braços até a cama, e lá continuei fodendo-a mais duas vezes — uma devagar, de barriga para cima, olhando nos olhos dela enquanto ela gozava em sussurros; e outra no fim, com ela cavalgando em mim, agarrada ao meu pescoço, movendo os quadris no ritmo que eu marcava com as mãos na bunda dela. Perdi a conta de quantas vezes ela gozou naquela noite. Acho que ela também.

O que posso dizer é como terminou.

Muito depois, os dois na escuridão, ela com a cabeça no meu peito e minha mão ainda na nuca dela por hábito, Renata falou com uma voz que eu não tinha escutado a noite inteira. Pequena. Honesta.

— Faz anos que eu me sentia cansada de mandar em tudo — disse. — No trabalho, com a família, com meus parceiros. Eu não sabia que era possível descansar disso. Não sabia que podiam me foder assim.

— Agora sabe.

— E se eu quiser voltar?

Sorri no escuro. Passei o polegar pela nuca dela, naquele ponto que já era nosso.

— Essa sempre vai ser a sua decisão — disse. — Eu só guio quem decide, por conta própria, atravessar o limiar.

Renata ficou quieta por um longo tempo. Depois se acomodou mais perto, com aquela entrega serena de quem já não tem nada a defender, e entendi que ela não iria embora. Não naquela noite, e provavelmente não por muito tempo.

Porque há uma verdade que quase ninguém conta sobre o desejo: a liberdade mais profunda às vezes consiste justamente em encontrar alguém diante de quem valha a pena se render. E em abrir as pernas sem pedir permissão a si mesma.

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