Voltamos de Osaka com um segredo tatuado na pele
Quando saímos do estúdio, nos arrastaram de volta para a enfermaria como se fôssemos troféus cobertos de suor. Lucía pendia dos meus braços sem forças, as coxas tremendo e as costas sulcadas pelas marcas das cordas e dos açoitamentos que tinham preenchido as últimas três horas diante das câmeras. O casal contra o qual tínhamos competido — uma ruiva e o marido dela, dominantes profissionais vindos de Berlim — já havia sido retirado em silêncio. A única vencedora visível era ela, e a única evidência da sua vitória era o corpo que eu carregava contra o peito.
O corredor do estúdio ainda vibrava com o rumor do público e o guincho das máquinas. Quando entramos na sala branca, iluminada por fluorescentes que piscavam como olhos acusadores, o silêncio caiu como um golpe de marreta.
—Sebastián... ganhamos —murmurou Lucía contra o meu pescoço—. Mas eu não sinto as pernas.
A enfermeira se aproximou com seu carrinho de sempre: seringas, panos frios, pomadas cicatrizantes, um creme espesso com cheiro de eucalipto. Começou a cuidar do estrago com a eficiência de uma técnica acostumada ao espetáculo. As marcas nas nádegas de Lucía estavam inchadas como sulcos arroxeados; a pele do clitóris ainda pulsava sob o gelo. Ela lhe aplicou um sedativo leve e a deixou descansar de bruços, ofegante, enquanto o monitor marcava batimentos lentos.
Então entrou Hayashi, com o terno impecável e aquele sorriso que já me dava náusea crônica. Parou ao pé da maca, cruzou as mãos como um médico benevolente e soltou a bomba com uma calma irritante.
—Parabéns de novo, Sebastián, Lucía. Vocês foram as estrelas do programa. Mas o contrato se estende por mais quarenta e cinco dias. É padrão para os vencedores: recuperação e promoção. Página 492 do documento que assinaram.
Senti o sangue gelar.
—Ganhamos. Vamos embora agora.
—Vocês assinaram. Aqui isso é legal. Se aguentarem numa boa, duzentos mil dólares a mais no fim. Se não... bom, vocês sabem.
A raiva subiu pela minha garganta, mas vi Lucía se mexer sobre o lençol, ainda sob o efeito da voz sedada, e desabei na cadeira. Não havia saída. Mais uma vez o contrato nos tinha preso como ratos numa armadilha que nós mesmos tínhamos fechado.
***
As quatro semanas seguintes foram um purgatório gravado para o deleite de milhões. Transformaram a enfermaria em um set de realidade crua. Câmeras em cada canto, no teto, nos tripés, no banheiro. Lentes minúsculas que não piscavam nem à noite. Transmitiam ao vivo, sem pausa, um “diário íntimo dos campeões” que Hayashi promovia como “o lado humano do programa”. Era voyeurismo puro disfarçado de empatia.
Lucía passou as primeiras noites meio sedada, com soro e ansiolíticos. Toda vez que tentava ir ao banheiro, mancando, as câmeras a seguiam. Quando se despia para entrar na banheira, os chats ao vivo explodiam com comentários obscenos em seis idiomas. Olha como a pele dela ainda treme, escreviam. Olha as marcas. Olha a tatuagem.
A tatuagem era a assinatura final do programa: um código de barras preto gravado no púbis de cada vencedora, bem acima do monte de Vênus, como selo de propriedade da emissora. A pele ainda estava inchada ao redor das linhas, e toda vez que se sentava sentia a ardência da lembrança.
—Até quando vão ficar olhando a gente? —me perguntou uma madrugada, enquanto eu a abraçava por trás na maca dupla.
—Até cansarem. Ou até a gente aprender a não dar nada para eles.
Aprendemos a nos mover sem nos esconder. A cuidar dos ferimentos sem chorar diante das lentes. A sussurrar no ouvido um do outro o que não queríamos que escutassem. Eu passava o creme pelas costas dela, marca por marca, enquanto os comentaristas diziam que parecíamos dois presos apaixonados. Ela se virava e me beijava sem pedir permissão à câmera. Era o nosso pequeno ato de domínio sobre a única coisa que ainda era nossa.
***
As últimas duas semanas foram puro marketing. Nos tiraram da enfermaria — Lucía ainda mancando, vestida com roupas largas que mal disfarçavam as marcas — e nos levaram de programa em programa. Éramos os “pioneiros latinos”, os convidados estrela dos talk shows noturnos.
—Lucía, conte para a gente: como é ser a vencedora? Mostre as medalhas de honra!
Ela levantava a barra da blusa só o necessário para revelar os hematomas amarelados nas coxas, as cicatrizes rosadas na lateral, o código de barras impresso para sempre. O público arfava e aplaudia como se estivesse vendo uma santa exibir as feridas.
—É doloroso —murmurava ela, com a voz quebrada—, mas, por nós, pelo que conseguimos, valeu a pena.
Eu passava o braço pelas costas dela e acrescentava a frase ensaiada:
—Sobrevivemos por amor.
Era um show. As perguntas estavam escritas. As câmeras faziam closes da tatuagem, das coxas, do pescoço, enquanto Hayashi aparecia na tela por videoconferência e piscava. “Nossos pioneiros. O programa vem pesado para a América Latina.” Toda vez que repetia essa frase, Lucía apertava minha mão até me deixar a marca das unhas na palma.
No fim da turnê, tiraram uma foto oficial para o “salão da fama” do estúdio: Lucía de pé em um cenário branco, as pernas levemente abertas, o flash capturando o código de barras no púbis ainda inchado. Penduraram a imagem entre molduras douradas de outras vencedoras, mulheres de várias nacionalidades, todas com o mesmo sorriso forçado e a mesma marca exata.
—Bem-vinda ao clube —disse Hayashi a ela.
Ela não respondeu. Apenas levou a mão ao púbis, devagar, como se quisesse se certificar de que a cicatriz ainda estava ali.
***
O cheque chegou na última semana. Cerca de um milhão de dólares no total: o prêmio do torneio, a extensão, os bônus de audiência, os pagamentos pelas entrevistas. Hayashi esfregava as mãos na limusine que nos levou ao aeroporto.
—Vocês fizeram uma fortuna. E nós também, graças a vocês. Voltem quando quiserem. América Latina... o programa chega logo, hein?
O piscar de olho dele me gelou o sangue. Embarcamos tremendo, com o cheque na bolsa de Lucía como um peso morto. Aterrissamos em casa com o sol se pondo, como se o mundo não tivesse mudado. Mas tudo tinha mudado.
***
No apartamento, nos esperavam como heróis quebrados. Meus sogros e meus pais tinham reunido as crianças na sala, com balões e uma faixa torta que dizia “Bem-vindos, campeões!”. Bruno, Camila e Mateo correram até nós gritando, os rostinhos iluminados por uma emoção pura, alheios ao abismo que acabávamos de atravessar.
—Mamãe! Papai! Trouxeram presentes!
Tínhamos carregado as malas com brinquedos — robôs gigantes para Bruno, uma casa de bonecas para Camila, um trem elétrico para Mateo —, comprados com o dinheiro sujo, mas desesperados para apagar as sombras. Lucía se ajoelhou com esforço e os abraçou aos três ao mesmo tempo, mordendo os lábios para não chorar enquanto o púbis ardia sob a saia.
—Sim, meus amores. Ganhamos. Foi uma aventura longa. Olhem estes brinquedos.
Minha sogra me deu um tapinha nas costas e sussurrou:
—O dinheiro... não há mais dívidas. Tudo pago.
Mas no olhar dela eu vi a pergunta que ninguém fazia em voz alta. O que aconteceu lá?
O jantar foi um turbilhão de conversas superficiais. Arroz, milanesas, pão caseiro. Tudo tinha gosto de lar. Mas as crianças não paravam de perguntar.
—Pai, no Japão existem robôs de verdade? Por que não podemos ver o programa na TV?
—É para adultos, campeão. Coisa de gente grande. Como um concurso de perguntas que dura muito tempo.
—Mãe, por que você chorava nas ligações? —perguntou Camila, com os olhos enormes—. Te fizeram coceguinhas que coçam?
Lucía se enrijeceu. A mão que segurava o garfo começou a tremer. Ela beijou a testa da menina com um sorriso que era mais careta do que outra coisa.
—Às vezes os jogos duram demais, meu amor. Mas já passou. Agora estamos em casa.
Mateo, o mais calado, ergueu a cabeça do trem elétrico.
—Mãe, o jogo dói?
Ela engoliu em seco. Eu desviei a conversa para as luzes do trem, para as velocidades, para os túneis que podiam ser montados na sala de jantar. Inventei cavalos mágicos galopando entre arranha-céus, palhaços distribuindo ouro, fogos de artifício sobre o mar. Cada pergunta era uma faca: inocente, mas afiada.
***
Quando a casa ficou em silêncio, com as crianças dormindo e o eco das risadas desaparecendo, desabamos no sofá. Os problemas econômicos estavam resolvidos. As dívidas pagas, a poupança para a universidade das crianças, uma folga que nos permitia respirar pela primeira vez em anos. Mas o alívio era um véu fino sobre um poço negro.
—Valeu a pena? —ela me sussurrou na escuridão do quarto, com a cabeça apoiada no meu peito.
Beijei a cicatriz que ela tinha sobre a sobrancelha, uma marca que aparecera na primeira noite, antes de qualquer câmera, quando ainda achávamos que o contrato era só um papel qualquer.
—Por eles, sim. Mas eu juro que nunca mais.
Ela ergueu a blusa até deixar o púbis à mostra. O código de barras ainda estava ali, negro contra a pele ainda rosada. Passei o dedo devagar sobre as linhas, uma a uma, como se pudesse apagá-las com a ponta do dedo. Ela se estremeceu, mas não afastou minha mão. Abaixei a cabeça e encostei os lábios na tatuagem, chupando devagar a pele quente, passando a língua por cada faixa preta como se pudesse lambê-las até sumirem. Lucía soltou um gemido rouco, apertando meu cabelo com os dedos.
—Sebastián... devagar.
—A noite toda, se você quiser.
Arranquei a blusa pela cabeça dela e desabotoei o sutiã com os dentes, mordendo a pele entre os seios. As mamas caíram livres, ainda marcadas pelas cordas do estúdio, os mamilos escuros e eriçados como se tivessem esperado esse momento durante todo o voo. Chupei um por um, primeiro de leve, depois com fome, sugando o mamilo inteiro até a aréola, mordiscando-o só o bastante para arrancar dela um suspiro que ressoou no peito contra a minha boca. Ela enfiou as unhas na minha nuca e arqueou as costas, querendo mais.
—Mais forte —sussurrou—. Chupa mais forte. Minhas de novo.
Arrastei a saia pelas ancas e a tirei sem parar de chupar os seios. Por baixo ela não tinha nada. A buceta já brilhava na penumbra, inchada, molhada, com os pelos púbicos curtos emoldurando a tatuagem como uma assinatura que agora era minha outra vez. Abri as pernas dela com as duas mãos e passei a língua inteira pela vulva, de baixo para cima, demorando no clitóris com a ponta. Lucía deu um sobressalto, soltou um gemido agudo, e as ancas saltaram contra o meu rosto.
—Ai, meu amor, assim... assim, chupa, chupa devagar...
Fiquei ali, entre as coxas dela, comendo sua buceta como se fosse a única coisa que eu tinha comido em anos. Lambi os lábios internos um por um, chupei-os entre os meus, enfiei a língua fundo e a movi em círculos. Ela tremia, ofegava, puxava meu cabelo pedindo mais. Levantei as pernas dela sobre meus ombros e enfiei a boca no clitóris, chupando sem piedade enquanto metia dois dedos na buceta, procurando aquele ponto macio por dentro que a fazia se contorcer. Lucía gritou, apertando uma mão contra a boca por causa das crianças, a outra cravada no meu cabelo.
—Vou gozar, vou gozar... não para, Sebastián, pelo amor de Deus, não para...
Não parei. Chupei o clitóris com a boca inteira, com a língua, com os lábios, enquanto os dedos entravam e saíam da buceta ensopada. Senti as paredes dela se fechando ao redor dos meus dedos, todo o corpo se enrijecendo como uma corda prestes a arrebentar. Ela gozou com um grito abafado, as ancas se levantando da cama, a buceta pulsando contra a minha boca, escorrendo líquido quente que desceu pelas suas nádegas e me molhou o queixo. Continuei lambendo devagar enquanto ela baixava, até que se retorceu pelo excesso e afastou minha cabeça com um suspiro ofegante.
—Vem cá. Vem. Quero chupar seu pau.
Ajoelhei-me sobre ela, apoiando as mãos no encosto da cama, e aproximei o pau dos seus lábios. Estava duro desde que eu tinha arrancado a blusa dela, latejando, com a cabeça já molhada. Lucía o segurou com as duas mãos, olhou por um segundo como se fosse um objeto sagrado e o meteu inteiro na boca. Senti a garganta quente fechando ao redor da glande, a língua me envolvendo, e tive que cerrar os dentes para não gozar ali mesmo. Ela me chupou devagar primeiro, subindo e descendo a boca por toda a rola, sugando as bolas entre lambidas, cuspindo saliva no tronco e me masturbando enquanto me olhava nos olhos.
—Me olha —pedi, com a voz partida—. Me olha enquanto você chupa.
Ela cravou os olhos nos meus e acelerou. Os sons úmidos da sua boca encheram o quarto, aqueles barulhos obscenos que nunca tínhamos feito no estúdio porque sempre havia um microfone por perto. Agora eram para nós. Só para nós. Agarrei sua nuca com as duas mãos e comecei a foder contra sua boca, devagar, me enfiando até o fundo. Ela deixou, com os olhos cheios de lágrimas, mas sem se afastar, engolindo saliva ao redor do meu pau enquanto eu fodava sua garganta.
—Me come —ofegou quando tirei meu pau da boca dela, com um fio de saliva pendendo do queixo—. Me come agora, Sebastián. Quero sentir você dentro. Meu. Só meu.
Empurrei-a contra o colchão e abri suas pernas de par em par. Passei a ponta do pau pela buceta ensopada, de cima a baixo, roçando o clitóris até ela arquear as costas e me xingar entre os dentes. Então empurrei. Entrei devagar, afundando na buceta quente centímetro por centímetro, sentindo como ela me apertava, como se ajustava a mim depois de tantas semanas tendo-a tão perto e, ainda assim, longe. Lucía gemeu comprido, mordendo o lábio para não gritar, e enfiou os calcanhares nas minhas costas para que eu a penetrasse até o fundo.
—Toda... toda inteira —sussurrou—. Me come como se fosse a primeira vez.
Comecei a me mover, metendo nela devagar no início, com investidas longas que arrancavam dela um gemido cada vez que eu tocava o fundo da buceta. Ela me abraçou com as pernas e as mãos, cravando as unhas nas minhas costas, colando a boca no meu pescoço e mordendo ali onde nenhuma câmera podia ver. Agarrei as nádegas dela com as duas mãos, apertei até deixar marcas novas sobre as velhas, e acelerei. O som molhado da buceta contra a minha virilha, as pancadas secas do quadril contra o colchão, os suspiros abafados dela contra o meu ombro... tudo era nosso. Tudo. Pela primeira vez em cinquenta e tantos dias.
—Me vira —pedi—. Quero ver sua bunda.
Saí dela e a virei de bruços. Ergui suas ancas e abri suas nádegas com os polegares, expondo a buceta inchada e o buraco do cu que ainda tinha marcas vermelhas. Passei a língua pelos dois, primeiro o ânus, depois a buceta, enquanto ela gemia contra o travesseiro e arqueava as costas pedindo mais. Voltei a enfiar o pau na buceta por trás, de uma só estocada, segurando as ancas dela com as duas mãos. Fodi com força, com vontade, arrancando gemidos que ela tinha que abafar mordendo o travesseiro.
—Assim —ofegava ela—, assim, mais forte, Sebastián, me fode mais forte, tira de mim tudo o que fizeram...
Agarrando seu cabelo, puxei a cabeça dela para trás para poder sussurrar no ouvido enquanto continuava metendo.
—Você é minha. Só minha. Ninguém vai tocar em você de novo.
—Sua —repetiu ela, com a voz quebrada—. Sua, sua, sua. Goza dentro. Quero sentir você dentro.
Passei uma mão por baixo e encontrei o clitóris com dois dedos. Esfreguei-o no ritmo das investidas, rápido, insistente, enquanto continuava a foder por trás. Lucía gozou de novo quase na mesma hora, a buceta apertando meu pau em ondas, tremendo inteira contra mim, e esse tremor me arrastou também. Afundei até o fundo e gozei dentro dela, com um gemido longo colado à sua nuca, sentindo o sêmen sair pelas bordas da buceta e descer pela coxa enquanto ela ainda se sacudia debaixo de mim.
Ficamos parados por um longo tempo, com meu pau ainda dentro, respirando forte. Depois me deixei cair para o lado e a puxei contra o meu peito. O rosto dela estava ensopado, não sei se de suor ou de lágrimas. Acariciei suas costas devagar, marcando com o dedo cada cicatriz como se fossem versos de um mesmo poema.
Fizemos amor assim, sem pressa, sem ordens e sem público, três vezes naquela noite. Pela primeira vez em cinquenta e tantos dias, minha mão subindo pela coxa dela não era uma ordem de Hayashi nem um roteiro de câmera. Era minha. E a resposta dela, aquele som abafado contra o meu pescoço, também era dela. Aprendemos outra vez a nos tocar sem permissão de ninguém, e descobrimos que, depois do abismo, o desejo ainda estava ali — diferente, mais quieto, mais fundo.
***
Guardamos as cópias de todos os programas numa caixa preta dentro do armário do corredor, junto com as malas vazias. Não tivemos coragem de jogar fora. Eram uma lembrança crua, uma prova tangível caso um dia precisássemos de justiça ou, simplesmente, para não esquecer que sobrevivemos.
O medo nos rondava todas as noites. E se o programa fosse ao ar algum dia em algum canal latino, com nossos nomes reais, e as crianças vissem? E se Hayashi cumprisse a promessa e desembarcasse com câmeras novas na nossa cidade? O peso maior era saber que um dia teríamos de contar a verdade a eles, quando fossem maiores, quando perguntassem pelas ligações estranhas ou pelas cicatrizes que eu escondia até em casa.
Mas naquela noite, abraçados na cama, com o cheiro de lar nos envolvendo de verdade pela primeira vez, decidimos não pensar no amanhã. Eu acariciei o cabelo dela até que dormisse. Ela, já sonhando, murmurou alguma coisa que eu não entendi. Lá fora começava a chover, e a casa parecia respirar por nós.
As sombras sempre voltam. Mas, desta vez, ainda não.