Pular para o conteúdo
Relatos Ardientes

A noite em que entrei naquela suíte e não fui mais a mesma

Cheguei ao apartamento já passava da meia-noite, com os saltos na mão e o estômago revirado em nós. Coloquei as chaves sobre o móvel do hall com cuidado, sem fazer barulho. Sebastián dormia. Eu podia ouvir sua respiração tranquila desde o corredor, aquele som constante que já me salvou de mim mesma mais vezes do que consigo contar desde que o pai dele foi embora.

A carta do banco estava sobre a mesa da cozinha, onde a tinha deixado naquela manhã. Como se deixá-la à vista me ajudasse a aceitá-la. «Execução hipotecária iminente. Prazo improrrogável de trinta dias. Sem possibilidade de prorrogação adicional.» Trinta dias para perder o único apartamento que Sebastián havia chamado de lar nos seus onze anos de vida. A cama onde aprendeu a pegar no sono sozinho. A janela de onde me chama quando chego tarde do trabalho.

Sentei no chão da cozinha, as costas encostadas nos armários e os joelhos colados ao peito. O frio do mármore atravessou meu vestido preto. Era o justo, o que eu visto quando preciso parecer mais segura do que me sinto. Naquela tarde eu tinha tido reunião com o senhor Vargas, diretor da agência onde eu tinha a hipoteca contratada havia oito anos. Cinquenta e poucos anos, casado, com aquele hábito de deixar o olhar um segundo a mais no decote quando achava que ninguém percebia.

A reunião tinha sido formal. Documentos, vocabulário técnico, inadimplências contratuais. Mas no fim, quando todos saíram e ele fechou a porta, a formalidade desapareceu.

—Valentina — ele havia dito, com aquela voz grave que usava quando queria parecer razoável —. Há formas de resolver isso fora do protocolo habitual. Um jantar privado. Meu hotel. Esta semana. Podemos falar de uma solução personalizada.

Ele não disse mais nada. Não precisava.

Eu sabia desde a primeira vez que o vi me olhando assim. Demorei oito anos para aceitar que sabia.

Fiquei ali, no chão da cozinha, olhando a carta do banco por um bom tempo. Depois olhei para o corredor. Depois voltei para a carta. Fiz o cálculo que qualquer mãe faria no meu lugar: o apartamento contra uma única noite. A vida do meu filho contra a minha por algumas horas. Contra abrir as pernas para um desconhecido com aliança de casado e deixar que ele me fodesse até assinar os papéis.

Não fui honesta comigo mesma sobre o que esse cálculo dizia sobre mim. Essa honestidade veio depois.

***

Passei quase uma hora olhando o teto da sala antes de pegar o telefone.

Não me iludi. Eu sabia exatamente o que estava discando quando procurei o número dele na tela. E quando ele atendeu no segundo toque, com aquela calma de homem acostumado a que as coisas aconteçam conforme seus planos, fui direta:

—Senhor Vargas. Aceito o convite. Hoje à noite.

Não houve surpresa na voz dele. Só satisfação.

***

O elevador do hotel subia devagar. Olhei meu reflexo no espelho da cabine: o vestido preto, o cabelo preso num rabo de cavalo impecável, o batom vermelho que eu tinha passado no carro achando que me daria coragem. Não deu. Só me fez sentir que eu estava interpretando um papel que outra pessoa havia escrito.

Ele me esperava encostado no batente da porta da suíte, terno azul-marinho, camisa aberta no primeiro botão. Olhou-me de cima a baixo com uma lentidão que não tentou disfarçar.

—Você está deslumbrante — disse, abrindo-se um pouco para me deixar entrar.

Não respondi. Entrei.

A suíte era grande e cara e cheirava a madeira escura e a algo mais antigo. Janelões do chão ao teto com a cidade ao fundo, um sofá de couro claro, champanhe no gelo sobre a mesa. Uma cama larga com a luz acesa ao fundo, como se alguém tivesse preparado o cenário com antecedência.

—Champanhe? — perguntou.

—Não. — Sentei no sofá e o encarei nos olhos —. Quero que fique claro desde o início: prorrogação de seis meses no pagamento. A penhora suspensa indefinidamente. Em troca desta noite. Só esta noite.

Vargas sorriu. Era o sorriso de alguém que já venceu.

—Amanhã de manhã você terá os documentos assinados.

Fiquei de pé. Virei-me. Desci o zíper do vestido.

***

Não vou mentir sobre o que aconteceu naquela suíte.

Eu tinha me preparado mentalmente para me desligar. Para estar presente no corpo e ausente em todo o resto. Tinha lido sobre isso em algum lugar: que a mente pode se separar do que o corpo está vivendo se a pessoa se propuser isso com frieza suficiente. Pensei que conseguiria.

Não consegui.

O vestido caiu no chão e fiquei de pé na frente dele em roupa íntima preta, sutiã e calcinha combinando, meias até metade da coxa. Ele continuava sentado na beira da cama, me olhando como quem avalia uma compra. Passou a língua pelos lábios sem o menor disfarce.

—Vem aqui — disse —. Devagar.

Fui até ele. Ele pôs as mãos nos meus quadris e me virou de costas, entre seus joelhos abertos. Senti sua boca na base da minha coluna, subindo devagar, e seus dedos desabotoando meu sutiã com a prática de um homem que já fez aquilo muitas vezes. As alças caíram pelos meus braços. Ele pegou meus seios por trás, um em cada mão, pesando-os, e beliscou meus mamilos até endurecerem entre seus dedos.

—Faz tempo que não te tocam, não é? — murmurou contra minha orelha.

Não respondi. Não precisava. Meus mamilos estavam respondendo por mim.

Ele me virou de novo e me empurrou de leve para trás, até que eu ficasse de pé diante dele com os joelhos contra os dele. Desceu minha calcinha com os dois polegares, devagar, e quando a peça chegou aos meus tornozelos me fez sair dela. Agora eu estava nua, salvo pelas meias. Ele seguia completamente vestido e essa diferença me doeu mais do que eu quis admitir.

—Abre as pernas — disse.

Abri. Não sei por quê, mas abri.

Quando Vargas se ajoelhou diante de mim na beira da cama, eu olhava para o teto com os braços ao lado do corpo, pronta para esperar. Mas quando sua língua roçou minha boceta, meu corpo tomou decisões sem me consultar. Um arrepio percorreu minha coluna de baixo para cima. Meus quadris se moveram em direção a ele, quase nada, quase imperceptivelmente, mas se moveram.

Não. Isso não. Você não pode gostar disso.

Mas já era tarde demais para esse tipo de instrução.

Fazia dois anos que ninguém me tocava. Dois anos de noites sozinha, de acordar às três da manhã com um calor no corpo que eu abafava com trabalho, com contas, com Sebastián, com qualquer obrigação que me mantivesse ocupada e longe de mim mesma. Meu corpo não sabia nada sobre dívidas nem transações. Só sabia que alguém estava lhe dando atenção pela primeira vez em muito tempo, e isso foi suficiente para que ele traísse tudo o que eu havia decidido.

A língua de Vargas foi metódica, paciente, como se ele tivesse tempo. Separou meus lábios com os polegares, me deixando bem aberta, e começou a me lamber a boceta de baixo para cima, com a língua inteira e lisa. Encontrou o clitóris e o sugou devagar, puxando-o com os lábios, soltando-o, girando com a ponta da língua. Cerrei os dentes para não fazer barulho. A umidade foi traiçoeira, escorregadia e inevitável, e escorria por dentro das minhas coxas enquanto ele continuava me comendo sem pressa.

Senti um dedo me penetrar. Depois dois. Ele os curvou para dentro, buscando um ponto que eu quase não lembrava que existia, e quando o encontrou empurrou devagar com a polpa do dedo enquanto chupava meu clitóris no mesmo ritmo. Meus quadris empurraram em direção à boca dele sem que eu pudesse impedir. Um gemido escapou pelo meu nariz.

—Isso — disse ele, afastando a boca só o suficiente para falar —. Para de fingir que não gosta.

Voltou a descer. Agora a língua se movia mais rápido, mais apertada, insistente contra meu clitóris inchado, enquanto os dedos entravam e saíam de mim com um som úmido e obsceno que se ouvia por toda a suíte. Quando ele levantou a cabeça e me olhou, com o queixo brilhando de mim, eu desviei o olhar para o teto. Mas meus quadris continuavam se movendo sozinhos contra a mão dele.

—Ainda não — disse, tirando os dedos —. Você vai gozar com meu pau dentro.

Então ele se ergueu, se despiu sem pressa. Terno nas costas da cadeira, camisa dobrada. Quando baixou a cueca, vi o que ele tinha e mordi o lábio sem querer. O pau era duro, grosso, curvado para cima. Um homem de cinquenta e poucos que tinha se cuidado. Ele o segurou com a mão e o passou pela palma algumas vezes, me olhando nua na cama dele.

—Fica de joelhos — disse —. Antes de eu te foder quero que você chupe.

E eu, que tinha planejado ficar quieta e esperar que acabasse, desci da cama para o chão. Ajoelhei-me no tapete entre suas pernas. Peguei-o com uma mão, senti-o quente e duro, a pele tensa, e o enfiei na boca sem pensar. Comecei a chupá-lo devagar, apertando os lábios no corpo, sugando a ponta cada vez que o tirava. Ele pôs a mão na minha nuca, sem forçar, só marcando o ritmo, e foi me empurrando mais fundo até tocar minha garganta, obrigando-me a respirar pelo nariz para não engasgar.

—Isso — murmurou —. Tudo.

Fechei os olhos e continuei. Chupei seu pau com as duas mãos, uma na base e outra nos testículos, e fui o engolindo até o fundo cada vez que ele empurrava os quadris. Um fio de saliva escorria pelo meu queixo. Eu podia sentir a umidade entre minhas coxas aumentando sozinha, como se meu próprio corpo se preparasse para o que sabia que vinha.

Ele me afastou antes de gozar. Pegou meu cabelo com suavidade, me fez levantar e me empurrou para trás na cama.

Subiu em cima de mim. Abriu minhas pernas com o joelho. Segurou o pau e o passou de cima a baixo pela minha boceta aberta, se molhando em mim, esfregando a cabeça no meu clitóris até escapar de mim um gemido que eu não consegui conter.

—Diz — falou —. Pede.

Eu apertei os olhos. Não disse nada.

—Pede, Valentina.

—Enfia — sussurrei, com os dentes cerrados e o rosto virado para o travesseiro, me odiando por dizer aquilo, mas dizendo do mesmo jeito —. Enfia logo.

E ele enfiou.

Quando entrou em mim, mordi o lábio com força. O alargamento foi intenso, quase doloroso no começo. Fazia tanto tempo. Minhas paredes internas o apertaram sem que eu mandasse, e ele percebeu e empurrou mais fundo, mais devagar, afundando-o centímetro por centímetro, medindo minha reação com uma experiência que me irritou e me desmontou ao mesmo tempo. Quando o teve inteiro dentro, ficou imóvel por um segundo, apoiado nos cotovelos sobre mim, olhando meu rosto.

—Você está ensopada — disse, com um sorriso breve —. Tanta negociação e você está ensopada.

Começou a me foder devagar. Saídas longas, entradas até o fundo, um ritmo que buscava me fazer sentir cada centímetro. Eu, que tinha planejado ficar quieta e esperar que acabasse, comecei a me mover com ele sem conseguir evitar. Os quadris subiam ao encontro dele. Minhas mãos encontraram os lençóis e os apertaram. Um calor subia do meu ventre, constante e irresistível, surdo e antigo.

Ele agarrou um seio, se abaixou e chupou meu mamilo, e acelerou o ritmo. A cama começou a ranger sob nós. Cada investida me arrancava um suspiro que eu já não conseguia conter. Senti ele me morder o pescoço, subir até a orelha, sussurrar no meu ouvido enquanto enfiava mais fundo.

—Olhe para mim da próxima vez que me disser que não gostou.

Ele me virou. Me colocou de lado, depois de bruços, depois ergueu meus quadris até eu ficar de joelhos com o rosto contra o travesseiro e a bunda empinada. Enfiou o pau de novo por trás, com um impulso, e dessa vez soltou um rosnado que me fez apertar as coxas em volta das dele. Ele me agarrou pelos quadris com as duas mãos, com força, dedos afundados na carne, e começou a me foder de verdade. Rápido, seco, chocando-se contra minha bunda com um barulho de pele contra pele que encheu o quarto.

—Era assim que eu tinha que ter te fodido oito anos atrás — disse entre os dentes —. Desde a primeira vez que você entrou no meu escritório.

Me humilhei ao notar que isso, exatamente isso, me aproximou do fim.

Gozei. Tinha decidido que não. Gozei mesmo assim.

Foi um orgasmo longo, tenso, que subiu da boceta até a nuca e me sacudiu inteira. Apertei o travesseiro com os dentes para não gritar. Minhas paredes se fecharam sobre ele, tremendo, e ele percebeu e empurrou mais forte, mais profundo, arrancando contração após contração até minhas pernas começarem a tremer e eu ter que apoiar o peso na cara para não desabar.

Um gemido abafado escapou contra o travesseiro, traidor. Ele continuou, acelerou, e terminou pouco depois com um rosnado satisfeito de homem que consegue o que paga. Saiu de mim no último segundo e senti o jato quente do sêmen caindo na parte baixa das minhas costas e na bunda, me marcando como se precisasse me marcar ainda mais.

Ele ficou um momento ajoelhado atrás de mim, respirando forte. Depois se levantou sem dizer nada, foi ao banheiro, voltou com uma toalha e a jogou sobre meu quadril.

—Se limpa.

Eu me limpei. Com uma mão que não me parecia minha.

Ele se vestiu. Tirou os papéis da pasta.

—Assina aqui.

Assinei. Ainda nua, ainda com as pernas abertas, ainda com a umidade dele e minha escorrendo por dentro das coxas.

—Volte quando precisar de mais prorrogações — disse.

Não respondi. Peguei a bolsa e saí sem olhar para trás.

***

O banho do hotel foi longo e inútil.

A água quente não apagou nada, como eu já sabia que não apagaria. Só organizou os fatos: eu tinha ido por decisão própria, tinha negociado, tinha assinado. O apartamento de Sebastián continuava sendo dele. E meu corpo tinha respondido de uma forma que eu não autorizei e que eu não sabia classificar.

No táxi de volta, com os joelhos juntos e o olhar nas luzes da cidade, tentei catalogar o que sentia. Vergonha, sim. Alívio, também. E por baixo dessas duas coisas, algo mais pequeno e mais escuro que eu preferia ainda não nomear. Uma pulsação quente entre as pernas que se recusava a apagar.

Cheguei em casa. Abri a porta do quarto de Sebastián. Olhei-o dormir com o ursinho que eu lhe havia dado quando ele tinha quatro anos ainda preso debaixo do braço. «Por você», disse a mim mesma em silêncio. «Tudo isso é por você.»

Era verdade. Mas não era toda a verdade.

***

Os dias que seguiram foram estranhos de um jeito que eu não esperava.

Nada havia mudado por fora. Eu levava Sebastián à escola. Respondia e-mails. Cozinhava. Sorria quando era hora de sorrir. Mas algo dentro de mim havia despertado e não queria voltar a dormir, e eu notava isso em coisas pequenas: nas roupas que eu escolhia de manhã sem pensar, mais justas que antes; na forma como eu olhava os homens na rua de um jeito diferente, mais lento; no calor que subia às minhas bochechas quando eu lembrava, sem querer lembrar, do momento exato em que meus quadris se moveram sozinhos.

Na terceira noite eu me toquei.

Me recostei na escuridão do meu quarto, levantei a camisola e coloquei a mão entre as pernas quase sem decidir, como se a mão conhecesse o caminho de antes e o resto de mim tivesse se rendido sem apresentar luta. Estava molhada. Mais do que eu esperava. Passei dois dedos entre os lábios, de cima a baixo, e os levei à boca sem pensar. Tinham meu gosto. Voltei a descer a mão e comecei a esfregar o clitóris devagar, em círculos, e quase de imediato a lembrança veio sem ser convidada: o quarto do hotel, a pressão dele sobre mim, o alongamento do pau me abrindo, o barulho do corpo dele batendo contra minha bunda, a voz no meu ouvido.

Isso não é gostar. É só o corpo descarregando tensão acumulada.

Mas enfiando dois dedos e comecei a me foder com a mão no mesmo ritmo com que ele tinha me fodido. Arqueei as costas na cama, mordendo o travesseiro, com os calcanhares cravados no colchão. Gozei pensando nisso, no sêmen dele escorrendo pelas minhas costas, na palavra «ensopada» dita ao meu ouvido. E enquanto meu corpo tremia e eu mordia o travesseiro para não acordar meu filho, soube que estava mentindo para mim mesma.

***

A noite seguinte eu já não menti.

Me despi devagar diante do espelho do armário. Olhei para mim de verdade, algo que eu não fazia havia anos: o corpo de uma mulher de trinta e oito anos que tinha tido um filho e passado dois anos ignorando que tinha um corpo. Os seios ainda firmes, os mamilos escuros e já duros só de me olhar. A cintura estreita. Os quadris largos. Os pelos pubianos aparados curtos. Uma mulher que não sabia o que estava perdendo até alguém lhe lembrar da pior maneira possível.

Deitei no centro da cama. Abri as pernas sem vergonha, com os joelhos caindo para os lados, oferecida a ninguém além de mim mesma. Umedeci os dedos com a língua e os levei à boceta. Com a esquerda, separei os lábios; com a direita, comecei a brincar com o clitóris. Não fingi que era outra coisa. Não fingi que não me lembrava dele. Pelo contrário: deixei que ele entrasse na minha cabeça sem resistir, a voz, as mãos, o pau duro.

Enfiei três dedos e os curvei buscando o mesmo ponto que ele tinha encontrado em mim. Com a outra mão subi, segurei um seio, belisquei o mamilo com força, puxando, e soltei um gemido baixo que escapou do meu peito. Comecei a me foder com os dedos, entrando e saindo, com o polegar pressionado no clitóris, enquanto mordia o lábio e arqueava as costas contra o colchão.

O orgasmo veio longo e profundo e diferente de todos os que eu me lembrava. Sacudiu meus quadris, me fez fechar as coxas em torno da minha própria mão, arrancou de mim um som rouco que eu não reconheci como meu. Minhas pernas tremeram. Os dedos ficaram escorrendo quando finalmente os tirei. Levei-os à boca um por um e os chupei sem pressa, provando-me, sem nenhum pudor.

Fiquei quieta por um bom tempo depois, sentindo as contrações diminuírem lentamente, a umidade morna entre as coxas, a respiração voltando ao normal aos poucos.

Dessa vez eu não senti culpa.

Só senti que algo em mim tinha voltado a acender.

***

Isso foi há seis meses.

Não voltei a ver o senhor Vargas. Não precisei. Os papéis foram assinados, o banco cumpriu sua parte, e eu consegui um trabalho melhor remunerado antes que a prorrogação acabasse. Não tive que negociar nada daquele jeito de novo.

Mas o que despertou naquela noite no vigésimo oitavo andar do hotel não voltou a dormir.

Comecei a sair. A aceitar convites que antes eu recusava com desculpas que nós duas partes sabíamos que eram mentira. A deixar homens me convidarem para jantar e não fugir quando a conversa ficava interessante. A lembrar a mim mesma que ser mãe não significa abrir mão de ser mulher. A me deixar foder sem buscar desculpa quando o corpo pedia, e a pedir também, com as palavras cruas que aprendi a dizer naquela noite.

Sebastián continua sendo o mais importante da minha vida. Isso não mudou.

Mas eu mudei. E, embora o caminho até aqui tenha sido o que eu menos teria escolhido, não posso fingir que me arrependo de tudo. Eu me arrependo de ter demorado tanto. Me arrependo de ter precisado de uma crise para perceber que eu vinha me apagando havia anos. Me arrependo de ter entregado aquele momento a alguém que não merecia.

Mas o que despertou naquela noite era meu. E ficou comigo quando saí daquela suíte.

Ninguém pode me tirar isso.

Ver todos os contos de Confissões

Avalie este conto

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Entrar ou criar conta

Escolha como quer continuar.