O que aconteceu naquela noite no bosque de Paris
Volto à mesa da cozinha com um café e o caderno aberto. Prometi a mais de uma leitora que ia fechar o diário daquelas férias sem cortes, e aqui estou. Se alguém procura discrição, melhor fechar. O meu naquela temporada foi outra coisa.
Quando Ezequiel voltou ao hotel onde eu o esperava, já tinha arrumado o cabelo, tinha colocado uma camisola fina e deixado a porta entreaberta. Queria contar a ele o da noite anterior antes que me perguntasse, e queria que ele fizesse amor comigo enquanto eu contava.
—Devagar —pedi quando ele se acomodou sobre mim—, como ele fez ontem à noite.
Falei de Marcos, do jeito como ele me tinha pedido aquilo tão particular, e de como eu tinha aceitado. Ezequiel ficou em silêncio por um momento, depois sorriu contra o meu pescoço. Abriu mais a camisola com dois dedos, percorreu meu peito com a palma, beliscou um mamilo até deixá-lo duro como unha e só então me beijou na boca, devagar no começo, com fome depois. Desci a calça dele, tirei a rola dura com um puxão e senti quente, pesada, pulsando na minha mão.
—E você deixou?
—Deixei. Ele mereceu.
—Você é linda. Um dia eu quero ver. Com ele, com meu pai, com o seu. Que todos se surpreendam juntos.
—Um dia —respondi, e enquanto o beijava pensei que, na verdade, eu já estava pensando em como organizar isso.
Abri as pernas com um joelho, encaixei a ponta no meu cu molhado e deixei entrar devagar, com aquele puxão doce e brutal que sempre dá quando a carne cede. Ele se mexeu sobre mim com cuidado no começo, tirando e entrando a rola só de leve, para não cortar a história, e depois foi entrando mais fundo, mais firme, até me preencher por completo. Eu falava no ouvido dele entre gemidos, contando cada detalhe de Marcos, e ele respondia com a respiração quebrada, cravando as mãos na minha cintura.
—Me diz que você gosta —pediu, com a boca colada na minha orelha.
—Eu adoro —disse—. Mete mais fundo.
Então ele mudou o ângulo, me ergueu um pouco pelos quadris e me enfiou com uma estocada seca que arrancou de mim um gemido longo. A camisola grudou no meu corpo, molhada de saliva e de suor, e eu continuei falando como se nada estivesse acontecendo enquanto sentia como ele me abria inteira, como roçava aquela parte lá dentro que me deixava com as pernas bambas. Quando quis me virar, deixei. Ele me colocou de bruços, ergueu minha bunda e voltou a me empurrar por trás, com uma mão aberta marcando minha nádega, a outra enterrada no meu cabelo. Assim eu gostava mais: sentir a rola entrando e saindo, o som obsceno da carne, o cheiro dos dois misturado ao do hotel.
Naquela mesma tarde, Marcos veio nos buscar para falar da nova operação com o distribuidor do norte. Os números iam bem, ele me disse no carro, quase ao ouvido. Faltava muito pouco para alcançar a meta de vendas que ele mesmo tinha imposto como condição para estar comigo de forma mais estável. Um mês, no máximo dois.
No retorno à cidade, estacionou em frente a uma casa de câmbio colada a um shopping e entrou sem me dizer nada. Eu o vi através do vidro, falando com um senhor grisalho, tirando algo da carteira, assinando. Voltou dez minutos depois com uma caixinha pequena, forrada de veludo verde.
—Quero que você guarde sempre —disse.
Era uma moeda de meia onça de ouro, com um antílope gravado de um lado. Tinha um brilho que a gente não aprende a descrever até tê-lo na mão. Ele não me dava por causa do valor, explicou. Queria que eu sempre me lembrasse dele como o primeiro que me tinha dado algo daquela cor.
Beijei-o na bochecha, devagar. Deixei um pouco de batom, que ele não se deu ao trabalho de limpar.
Um homem doce, esse senhor que paga.
***
Passei dois dias na cidade, vi os clientes mais próximos e meu pai. Com ele, acertamos o que já estava pendente: o próximo encontro com Ricardo, meu cliente novo, ia ser na presença dele. Queria estar, olhar, não intervir. Perguntei se ele se sentia bem com aquilo, se depois não ia pesar.
—Aceitei isso faz tempo —me disse—. E já que você é assim, prefiro te ver em plenitude a imaginá-la do outro lado do país.
Não soube o que responder. Apertei a mão dele e mudamos de assunto.
Na quinta-feira fui sozinha para Costa Brava, uma praia longa do litoral que conheço desde criança. Queria dois dias de nada. Caminhar, não atender o telefone, tomar sol sem relógio. Coloquei um short e uma camiseta velha e desci para a área naturista na hora mais calma da tarde, quando o sol ainda esquenta mas a areia já não queima. Eu procurava um dos vendedores ambulantes que percorrem a orla com tecidos, colares e vestidos finos pendurados no braço.
Encontrei o que precisava no segundo dia.
Era alto, africano ocidental, uns quarenta anos, com a pele muito escura e mãos enormes. Comprei dois vestidos de praia mínimos, segurei o olhar dele por tempo demais e anotei mentalmente. Ele entendeu tudo sem que eu dissesse uma palavra. Antes de ir embora, perguntou meu nome.
—Da próxima —respondi.
Nessa noite Ezequiel veio me buscar. Fizemos amor com a janela aberta e o rumor do mar entrando como outra voz. Tirei a camiseta dele assim que fechou a porta, chupei sua língua com vontade, e ele baixou meu short com um puxão, enfiando dois dedos antes de me levar até a cama. Abriu meu cu com a boca, sem pressa, lambendo do clitóris para baixo, voltando de novo, fazendo com que eu agarrasse a cabeça dele e empurrasse a cara contra mim. Depois me virou, me pôs de quatro e me encheu com uma estocada atrás da outra, forte, funda, com a rola batendo no fundo toda vez que entrava. Agarrou meus peitos, apertou-os até me fazer gemer, e quando gozou dentro eu fiquei um tempo tremendo, sentindo o calor se derramar por dentro.
Na manhã seguinte, em vez de voltar direto para a cidade, pedi que parasse na mesma praia.
—Tem alguém que eu quero te apresentar —disse.
Encontramos ele onde eu tinha deixado. Apresentei-os com naturalidade, como se fossem dois sócios, e voltei a esperar no carro. Ezequiel demorou dez minutos. Quando voltou, estava sorrindo.
—Expliquei pra ele por que você tinha interesse. Ele aceitou. Quer te mostrar uma coisa antes, disse. Se você quiser.
—Se eu quiser.
Caminhamos até as dunas. O homem baixou a calça como se fosse a coisa mais natural do mundo, e nós três entendemos no mesmo segundo que o verão ia dar certo. Sentei na areia, abri as pernas e deixei que ele se aproximasse. Ezequiel ficou de lado, me olhando com aquela cara de bom moço que ele fazia quando ia perder o controle. O africano tocou primeiro minhas coxas, depois meu ventre, depois abriu meu cu com os dedos, conferindo a umidade como quem checa uma fruta madura. Não disse nada até levar minha boca ao pau, duro e escuro, e pedir que eu chupasse. Eu fiz sem vergonha, engolindo o máximo que pude, sentindo o sal do mar na pele e a respiração áspera dos dois sobre mim.
***
No domingo saímos em viagem. Cinco dias em Madri, cinco em Paris. Esse foi o plano oficial; o outro plano corria por dentro.
Em Madri não vou ficar me demorando. Caminhamos pelos museus, comemos bem até nos lugares mais simples, e saqueei duas ou três lojas de roupa atrevida que eu já conhecia da vez anterior, numa rua estreita perto da Sol. Lingerie quase impossível, vestidos que não se poderia usar em qualquer reunião, sapatos altíssimos. Ezequiel me via experimentar coisas nos provadores e ia mordendo um sorriso que eu conheço bem. Quando saía com um corpete mínimo ou uma calcinha que mal cobria minha bunda, ele me encurralava contra o espelho, enfiava a mão entre minhas pernas e dizia no meu ouvido que não pensava me deixar sair assim para lugar nenhum. Eu respondia que justamente disso se tratava, de não sair. E voltava a beijá-lo até fazê-lo perder a paciência.
—Para clientes? —ele perguntava.
—Para clientes —eu dizia—. E para você.
O que me importa contar mesmo é o de Paris.
Henri e Margaux nos convidaram a ficar no apartamento deles na rive droite. É um andar enorme, com salão duplo, biblioteca, dois banheiros e vista para o pátio interno, onde sempre tem alguém fumando. Já tinham nos recebido na visita anterior, então pareceu uma volta. Naquela primeira noite tudo foi tranquilo —tranquilo para nós, quero dizer: fomos para a cama cedo, e eles se acomodaram no sofá da sala para nos ver fazer amor através da porta entreaberta. Essa parte do voyeurismo de Henri já estava combinada desde a outra vez. Ezequiel me tomou por trás, apoiado na cama, enquanto eu apoiava as mãos na cabeceira e deixava ele me preencher devagar, com golpes profundos que faziam a colcha ranger. Margaux se masturbava no sofá sem tirar os olhos de nós, e Henri respirava pesado, como se cada estocada passasse pelo corpo dele também.
A segunda noite foi outra coisa.
Henri e Margaux já tinham nos levado a percorrer certa área do grande bosque da cidade, onde homens com dinheiro exibem suas mulheres e as entregam a motoristas de caminhões e de carros de aluguel que estacionam do outro lado da calçada. Da primeira vez eu só tinha olhado, ainda sem me decidir. Dessa vez, tinha pedido para ser eu.
Chegamos perto das onze. Outubro mal começado, o ar já frio, mas ainda suportável com um casaco leve. Debaixo do casaco eu não estava usando nada. Nem meia, nem roupa de baixo, nem nada que pudesse servir de desculpa.
Henri, Margaux, Étienne —o motorista— e Ezequiel se acomodaram junto ao carro. Fiquei a uns dois passos do para-choque, esperei passar um caminhão e abri o casaco de um único movimento.
O ar bateu primeiro no meu ventre, depois nos seios. Tive um arrepio que não foi de frio. Senti os mamilos enrijecerem, dois pontos duros no meio de toda aquela pele exposta.
Do outro lado da avenida, vários motoristas começaram a me apontar. Não soube se era porque gostavam do que viam ou porque sabiam que eu era nova. Provavelmente as duas coisas. Margaux apertou meu braço e soltou uma risadinha rouca.
—Escolhe você —disse Ezequiel atrás de mim—. Qualquer um. Eu fico aqui.
Olhei com calma. Havia um encostado na porta de um sedã preto, alto, uns cinquenta anos, cabelo cortado rente e um olhar que não se apressava. Atravessei a avenida sozinha, com o casaco aberto, e fiz um gesto com a cabeça para ele. Ele assentiu, sem me tocar ainda, e veio na minha direção com as mãos nos bolsos do paletó.
Voltamos juntos para a área das árvores. Entreguei o casaco a Ezequiel, entreguei um preservativo ao homem e, enquanto ele abaixava a calça, toquei seu rosto com a ponta dos dedos para que entendesse que não havia pressa. Encostei-me ao tronco de uma árvore e abri um pouco as pernas. A casca arranhou minhas costas e isso, não sei por quê, me agradou.
Antes de me penetrar, Ezequiel se ajoelhou e me beijou entre as coxas, uma única vez, como uma assinatura. Depois se afastou. O desconhecido empurrou sem graça, sem demora, com as mãos cravadas no meu quadril. Não gozei. Quase nunca gozo com preservativo. Mas os quatro que observavam levaram uma imagem que não vão esquecer, e era só isso que eu queria naquela noite.
Voltamos ao apartamento em silêncio. Margaux me serviu um conhaque sem perguntar. Bebi de pé, ainda com o casaco vestido, enquanto Ezequiel me olhava como se me visse pela primeira vez.
***
Dois dias depois veio o último. Três casais, os anfitriões, um senhor convidado cuja profissão eu nunca soube, e Étienne. As regras foram anunciadas por Henri no começo, com a taça na mão, como se lesse um cardápio: não se pede permissão, todos têm acesso a todos, não há relações entre os homens esta noite. Todos tínhamos exames em dia. Pela primeira vez, não seria preciso usar preservativo com ninguém.
Eu nunca tinha estado numa orgia. Tinha estado com três e com quatro homens ao mesmo tempo —isso já contei em outro lugar—, mas não em algo assim. E o novo não foi a quantidade de corpos. Foi deixar de escolher.
Passei de uma boca a outra, de umas mãos a outras. Fiz sexo oral em Margaux pela primeira vez, devagar, enquanto alguém me segurava os quadris por trás. Senti leite quente nos seios, na cintura, uma vez na bochecha. Recebi língua onde eu não imaginava que se pudesse receber. Em algum momento fiquei abraçada a uma das loiras —uma mulher muito alta, de um país do leste, com as clavículas marcadas— e rimos sem motivo, como duas colegas de escola que se encontram num banheiro. Depois ela me beijou na boca, muito séria, e entendi que a risada tinha sido uma ponte. Ezequiel me segurou pela cintura, me sentou no rosto dele, e eu apertei a cabeça dele contra meu cu até minhas pernas tremerem. Mais tarde ele me virou de lado, enfiou a rola sem paciência e me fez gritar baixinho, tapando minha boca com o pulso para que ninguém me ouvisse fora daquele quarto.
Depois me disseram que eu tinha sido a mais solicitada. Talvez por ser desconhecida, talvez porque eu não tenho nada operado. Tanto faz. O que me importa é que a fantasia antiga finalmente se cumpriu, sem susto, sem remorso, sem aquele ruído pequeno na cabeça que às vezes aparece.
Contagem final da viagem: quarenta e um homens e duas mulheres em corpo a corpo ao longo dos anos, mais outras quatro mulheres naquela noite.
***
Voltamos via Madri. Dormi quase todo o voo, apoiei a cabeça no ombro de Ezequiel e sonhei com a moeda de ouro guardada no meu cofre. Dois dias de descanso em casa, e no terceiro eu já estava no telefone.
Avisei Damián, que sabe de tudo e cala tudo, que eu tinha voltado. Ele me respondeu que justamente Ricardo —meu cliente novo— estava viajando para a cidade por causa do projeto do laboratório. Eu entendi a mensagem dele e ele entendeu a minha. No dia seguinte, Ricardo me ligou pessoalmente.
—Fazemos o que tínhamos conversado?
—Fazemos o que tínhamos conversado.
O que aconteceu naquela noite —com meu pai sentado no sofá do fundo, sem falar, sem se mexer— eu vou contar na semana que vem, quando eu estiver com o corpo mais quieto.
Prometo continuar me atualizando.