Quando ele voltou da viagem, eu já tinha um plano
Andrés chegou da viagem de caça numa quinta-feira à tarde, com a caminhonete suja de barro e aquele sorriso de homem que estava há cinco dias sem ver a mulher. Eu o esperei na sala, apoiada no batente da porta, usando só um conjunto de renda preta e o copo de uísque com gelo que sei que ele gosta. Vi ele frear de repente antes de entrar. Ele me olhou de cima a baixo, devagar, e quase deixou a sacola cair da mão.
—O que é isso? —perguntou.
—Bem-vindo a casa —disse, e lhe entreguei o copo.
Nessa noite transamos três vezes. A primeira foi quase imediata, contra a parede do corredor antes mesmo de chegarmos ao quarto. Ele me ergueu pelas coxas, me apertou contra o reboco frio e afastou o fio da renda com a urgência de um animal que já não queria perder tempo. Desci o zíper da calça dele, tirei com a mão a rola dura e quente, e ele me meteu dois dedos antes de empurrar com a cabeça, me abrindo devagar para depois se enfiar de uma vez, com um gemido abafado que sacudiu meu corpo inteiro. A segunda foi mais lenta, na cama, com as luzes acesas porque os dois gostam de se olhar. Ele abriu minhas pernas, comeu minha xota até me deixar tremendo, deslizando a língua pelo clitóris com precisão suja, e quando me pediu para virar eu mostrei a bunda e deixei ele entrar por trás, firme, fundo, me segurando pela cintura enquanto me metia com aquela cadência que me fazia apertar os lençóis com os dedos. A terceira foi de madrugada, quando ele acordou e me encontrou lendo, e simplesmente tirou o livro das minhas mãos sem dizer nada. Me colocou de costas sobre o travesseiro, separou minhas pernas com os joelhos e me fodeu devagar no começo, até o ritmo ficar mais duro, mais desesperado, e acabou dentro com uma porra quente que me encheu por dentro enquanto me beijava a boca, engolindo meus gemidos.
Mas eu tinha um plano que ia muito além daquela noite.
***
Andrés tem uma fantasia que a gente vem rondando há anos sem nunca terminar de concretizar: a de nos encontrarmos como desconhecidos, fingir que não nos conhecemos, começar do zero. Às vezes fazemos isso em bares, às vezes no lobby de algum hotel quando viajamos. Gosto desse jogo porque o vejo com outros olhos, porque sinto algo parecido com os nervos da primeira vez, aquela mistura de desejo e incerteza que a gente pensou que não fosse sentir outra vez.
Naquela semana decidi mantê-lo nesse estado de tensão permanente. Não por crueldade, mas porque eu sabia o que queria pedir no final, e precisava que ele chegasse lá com o desejo acumulado, sem defesas.
Na sexta me apresentei no escritório dele sem avisar. Entrei como se fosse deixar um documento, me inclinei sobre a mesa dele para assinar, e quando ninguém olhava deslizei minha calcinha na mão dele e fui embora sem dizer nada. Ele me mandou uma mensagem dez minutos depois. Só dizia: Você vai pagar por isso.
No sábado lhe mandei fotos do banheiro enquanto ele cortava a grama no jardim. Tirei com calma, escolhendo os ângulos, buscando o que eu sabia que ele gostava de ver. Ele demorou exatamente quatro minutos para entrar em casa.
No domingo fiz uma videochamada com ele desde o quarto. Me masturbei devagar diante da câmera, olhando nos olhos dele, sem apressar nada, sem deixar que terminasse em nada. Enfiei dois dedos na minha xota enquanto mostrava como minha vulva brilhava de umidade, como o clitóris inchava sob a pressão do meu polegar, e deixei ele ver o momento exato em que eu me tensionava sem gozar, só mantendo-o na beirada. Quando ele desligou a chamada, me mandou um áudio que não dizia palavras, só dois segundos de silêncio e depois o barulho de uma porta se fechando.
Na segunda contei a ele uma fantasia que eu guardava fazia tempo, com detalhes concretos, com nomes inventados, com uma situação que eu sabia que o deixaria louco. Na terça pedi que me contasse algo que nunca tinha me contado. Ele ficou uma hora me falando.
Tudo tinha um propósito.
Eu queria que ele aceitasse algo que eu havia proposto antes e ele tinha contornado: transar com outro casal. Não com estranhos da internet nem com desconhecidos, mas com gente de confiança, com alguém com quem pudéssemos compartilhar algo sem que isso virasse um problema no dia seguinte.
No sábado anterior, enquanto Andrés estava viajando, eu já tinha tido uma primeira sessão com Sebastián e Valentina. Só os dois, um ensaio do que eu queria que virasse algo maior. Sebastián me pediu que eu fosse submissa, que deixasse ele ditar o ritmo, e eu descobri que isso me excitava mais do que eu esperava. Fiquei de joelhos, chupei a rola dele com vontade, engolindo a cabeça úmida e pesada enquanto Valentina segurava meu cabelo e sussurrava no meu ouvido para eu abrir mais a boca. Depois Sebastián me virou, segurou minha bunda com as duas mãos e me fodeu com um ritmo cruel, enfiando o pau até me arrancar lágrimas de prazer, enquanto Valentina me tocava os peitos e enfiava os dedos entre os lábios inchados da xota. Mas o que eu queria era que Andrés estivesse lá. Queria vê-lo, que ele me visse, que os dois fôssemos parte daquilo ao mesmo tempo.
***
Marcos trabalhava no mesmo prédio que meu marido. Os dois se conheciam de vista, daquele tipo de cumprimento de elevador que nunca termina em nada. A parceira dele se chamava Lorena, tinha o cabelo curto e um jeito de olhar nos olhos quando falava que fazia a gente querer saber exatamente no que ela estava pensando.
Numa segunda-feira de manhã, Marcos se aproximou da mesa de Andrés e convidou os dois para um jantar pequeno de aniversário dele. Seria na terça seguinte, no apartamento dele, algo sem pretensão: uns drinks, alguma coisa para comer, a desculpa para se conhecerem melhor.
Fomos.
Quando chegamos havia mais gente do que esperávamos: família de Marcos, um casal de amigos de infância, duas colegas de trabalho de Lorena. A conversa girou pelos assuntos de sempre, tudo normal no começo. Mas eu fui percebendo como Andrés começava a relaxar, como encontrava ritmo com Marcos e, sobretudo, como os olhos dele se demoravam alguns segundos a mais do que o necessário em Lorena toda vez que ela falava ou ria.
Vi aquilo e pensei: ótimo.
Lorena me caiu bem de cara. Era direta sem se esforçar para isso, tinha senso de humor sem precisar que ninguém risse das piadas dela, e em algum momento da noite me fez perguntas que uma pessoa normal não faz num primeiro jantar. Não de forma incômoda, mas com uma franqueza que eu entendi perfeitamente, porque eu fazia exatamente a mesma coisa quando queria conhecer alguém de verdade.
Antes de irmos embora, Lorena e Andrés trocaram números. Ela sugeriu montar um grupo dos quatro para combinar uma saída. Criou o grupo ainda dentro do elevador, descendo do andar dela, com o telefone na mão, sem perguntar a ninguém se estava tudo bem.
Quando fechamos as portas do carro e ficamos sozinhos, Andrés me olhou.
—Posso te pedir uma coisa? —disse.
—Pode —respondi, embora já soubesse o que vinha.
Ele nem chegou a terminar. Fui eu que me aproximei primeiro. Apaguei a luz do teto do carro e me inclinei na direção dele. Fiz isso devagar, sem pressa, no estacionamento escuro com os vidros embaçando lentamente. Desabotoei a calça dele, tirei a rola da cueca e passei a língua na ponta enquanto ele soltava um gemido rouco, com as mãos enterradas no meu cabelo. Depois ele me ajeitou sobre si e me sentou no banco, se enterrando na minha xota molhada em puxões curtos, respirando forte contra meu pescoço enquanto eu me movia por cima até sentir ele me preenchendo por completo. Ele gozou com as mãos enroscadas no meu cabelo e a respiração cortada. Quando chegamos em casa ele me levou para o quarto sem soltar minha mão, e aquela noite foi diferente, mais intensa, como se alguma coisa tivesse se aberto entre nós sem que nenhum dos dois ainda desse nome a isso.
***
No dia seguinte eu estava no trabalho quando o grupo começou a se movimentar. A primeira mensagem foi de Lorena, algo inocente sobre um filme que eles tinham mencionado no jantar. Depois a conversa continuou naturalmente ao longo da manhã.
No meio da manhã recebi uma mensagem separada, só dela.
Ela me dizia que o carro tinha ficado perto do escritório de Andrés, que não pegava, que se ele podia passar para ver o que acontecia. Ao mesmo tempo, ela escreveu diretamente para ele.
Andrés foi. Tentou resolver o problema do carro e não conseguiu. Ofereceu levá-la, e ela disse que era melhor esperarem juntos o guincho. Entraram no carro dele e ficaram um tempo conversando. Lorena me mandou um clipe curto, sem áudio, só para eu saber que eles estavam lá.
Depois me ligou com ele presente.
Me perguntou diretamente, com Andrés ouvindo, se eu queria que os quatro nos encontrássemos. Não para um jantar. Outra coisa.
Disse que, se ele quisesse, eu também queria.
Houve um silêncio na linha.
Lorena disse para ele ir embora, para pensar. Andrés desceu do carro confuso, ou pelo menos foi o que me contou depois, embora quando chegou em casa eu não tenha visto confusão no rosto dele, e sim outra coisa que reconheci bem: era a mesma expressão que ele fazia quando me mandava as fotos de sábado, quando me chamava do banheiro e eu me masturbava diante da câmera.
Era desejo misturado com algo que ele ainda não sabia nomear.
Naquela tarde conversamos por muito tempo. Sem rodeios, sem jogos, sentados na cozinha com o café esfriando sobre a mesa. Perguntei o que ele queria. Ele disse que queria ir à casa deles no sábado seguinte, se eu tivesse certeza.
Eu disse que fazia semanas que eu tinha certeza.
***
Passaram-se cinco dias.
Eu estava mais calma do que esperava. Não senti ciúme nem aquela angústia que às vezes aparece quando a gente se aproxima de uma linha nova. O que senti foi algo parecido com a antecipação de quando você vai ao aeroporto buscar alguém de quem sentia saudade: nervosismo, sim, mas do tipo que a gente escolhe.
Na quarta-feira à noite, enquanto jantávamos, Andrés me perguntou se eu estava com medo.
—Não —respondi.
—E você? —perguntei.
Ele demorou um pouco. Deixou o garfo sobre o prato e me olhou.
—Um pouco —admitiu—. Mas do bom tipo.
Entendi perfeitamente. Era o mesmo medo que eu tinha sentido da primeira vez que propus algo assim, quando ainda não sabia se era algo que poderíamos compartilhar sem mudar o que tínhamos. E o que descobri, com o tempo, foi que isso não só não mudava: abria.
Na quinta falei com Lorena sozinha, sem Andrés nem Marcos no meio. Não sobre logística nem sobre regras. Só conversamos, como conversam duas pessoas que estão decidindo se confiam o bastante uma na outra para algo sem volta. Ela me contou coisas dela, de como tinham chegado até ali com Marcos, o que aprenderam no caminho, o que os aproximou e o que os pôs à prova. Eu contei coisas minhas. No fim da ligação, ela me disse que estava feliz por sermos nós.
Eu senti o mesmo.
Na sexta Andrés chegou cedo em casa. Trouxe vinho, preparou o jantar, colocamos música e não falamos do sábado a noite toda. Foi uma daquelas noites tranquilas em que a gente está completamente presente, sem pensar no que vem nem no que foi.
No sábado tomamos banho juntos de manhã. Andrés lavou meu cabelo, eu passei a esponja nas costas dele. Foi um momento quieto, daqueles que depois a gente lembra não pelo que aconteceu, mas pelo jeito como o ar estava, pela calma que havia entre nós.
Às oito da noite saímos de casa.
Eu estava usando o mesmo conjunto preto com o qual o esperei na quinta da semana anterior, quando ele voltou da viagem de caça com a caminhonete suja e quase deixou cair a sacola da mão ao me ver na porta.
Ele percebeu assim que eu saí do quarto.
—É o mesmo? —perguntou.
—É —respondi.
Não disse mais nada. Segurou minha mão enquanto dirigia e a manteve o caminho inteiro, sem soltar, até chegarmos.