Voltar para a casa da minha mãe foi meu pior erro
Já se passaram meses desde o meu último relato e devo uma explicação. Conheci uma leitora, acabamos nos vendo pessoalmente, e aquilo me abalou mais do que eu esperava. Depois veio o silêncio. Não foi covardia, foi não saber por onde começar. Hoje volto para falar do tempo em que me senti um estranho em todas as casas em que entrava. Se esperavam um relato de vingança ou redenção, este não é. É a confissão de um homem que ficou sem lugar.
O divórcio com Renata não foi uma guerra. Foi algo pior: uma despedida silenciosa, fria, com a assinatura dos papéis em um escritório com cheiro de café aguado. Quando saí dali, não senti alívio, senti vazio. Mudei-me para a casa do meu irmão Mateo. Ele e a esposa me abriram as portas sem fazer muitas perguntas. Don Hernán, meu chefe naquela época, me deu alguns dias de folga e, para ser sincero, eu precisava deles como se fossem oxigênio.
Os primeiros dias foram uma paz enganosa. Acordava tarde, falava pouco, comia o que me colocavam na frente. Mas a calma nunca dura. Quando voltei ao trabalho, o ambiente era irrespirável. Eu tinha recorrido aos advogados da empresa para tratar do divórcio e, como não poderia deixar de ser, todo mundo acabou ficando sabendo. Os olhares de compaixão pesavam mais do que qualquer reprovação.
Iván, um colega de quem eu nunca fui com a cara, soltava indiretas com um sorriso amável e me ganhou uma fama que eu já não conseguia limpar. Ninguém dizia isso abertamente, não precisava. Os gestos bastavam para entender o que pensavam.
Na casa de Mateo, enquanto isso, a felicidade alheia ia me corroendo. Os filhos dele correndo pelos corredores, as brincadeiras com a mulher durante o jantar, aquela forma de se tocarem nas mãos enquanto falavam do próximo verão. Eu olhava tudo aquilo e me perguntava em que momento tinha perdido o que eles tinham.
Renunciei sem grande cerimônia. Don Hernán me pediu calma, disse que não era hora de tomar decisões bruscas. Não dei ouvidos. Não foi impulso, foi cansaço.
Sem trabalho e com as economias agonizando, alugar um apartamento próprio em Quito estava muito além das minhas possibilidades. A única saída foi voltar para a casa da minha mãe. Se algo de positivo Renata me deixou, além dos meus filhos, foi eu ter me reconciliado com ela nos últimos anos de casamento.
—Claro que sim, filho —ela me disse quando liguei, com aquela voz que misturava ternura e resignação—. Deixa eu falar com Rubén.
Meu irmão me olhou preocupado quando contei o plano.
—Tem certeza? Você sabe como ela é.
—Sei. Mas assim vou ficar mais perto das crianças —respondi.
Não lhe disse a outra metade: que eu estava fugindo da felicidade deles.
Voltar para a casa da minha mãe foi como voltar vinte anos no tempo. Sem trabalho, sem rumo, me sentindo um completo fracasso. Rubén, seu companheiro havia algum tempo, me recebeu com uma cordialidade distante. Colega de colégio da minha irmã mais velha, era apenas alguns anos mais velho do que eu. Com minha mãe, tinham uma história intermitente: namoro, separação, reencontro. Um passado familiar que nunca terminou de se encaixar.
A casa era pequena. As paredes, finas. Poucos dias depois aconteceu o inevitável. Eu os ouvi. Primeiro foram gemidos abafados, palavras ditas em voz baixa contra o travesseiro, o ranger repetido das molas marcando um compasso lento. Depois o ritmo acelerou e já não houve como fingir que eu não estava ouvindo nada. As molas rangiam a cada investida e, entre o ranger da madeira, se infiltrava o som úmido, inconfundível, de um pau entrando e saindo de uma buceta encharcada. Minha mãe ofegava curto, contida, como se tentasse engolir cada gemido antes que escapasse. Rubén respirava forte, soltando grunhidos secos que se chocavam contra a parede. Em algum momento eu a ouvi murmurar um «assim, mais fundo, não para» que atravessou a divisória como uma lâmina, seguido de um «me fode com força» que me gelou o sangue. A cadência ficou brutal, a cabeceira batia na parede comum, e por baixo se infiltrava o barulho molhado, gorduroso, de dois corpos suados se esfregando. Cobri a cabeça com o travesseiro e as lembranças da infância me invadiram sem pedir licença.
Era a casa dele, a mulher dele, a cama dele. Eu, ali, era apenas um hóspede que tinha esquecido que a vida alheia continuava seu curso.
***
No primeiro fim de semana depois de me instalar, fui ver meus filhos. O reencontro foi água fresca. Sofía, a mais velha, me observou com aquele olhar que as crianças têm quando sabem mais do que dizem.
—Tem coisas de adulto que com o tempo você vai entender, filha —eu disse, sem saber o que mais responder.
Depois de passear com eles pelo parque, deixei-os na porta da que tinha sido minha casa e me convenci, no caminho de volta, de que precisava arrumar trabalho o quanto antes. Se eu queria vê-los com frequência, não havia alternativa.
Naquela mesma noite, na casa da minha mãe, os gritos me acordaram. Não os gemidos contidos da primeira vez, mas gritos de verdade acompanhados de tapas secos contra a pele. Eles tinham se soltado por completo. Eu a ouvi uivando «me dá toda a pica, Rubén, até o fundo» com uma voz que eu jamais teria associado à minha mãe, uma voz de fêmea no cio que suplicava e ordenava ao mesmo tempo. Ele respondia quase aos gritos, com um ofego rouco: «assim você gosta, puta?, assim você quer que eu enfie?», e ela devolvia com um «sim, mais duro, me pega o cu também». O colchão batia na parede com uma regularidade de martelo. Cada tapa nas nádegas da minha mãe soava como um disparo seco, e depois vinham seus gritos entrecortados, abafados pelo próprio prazer. Em algum momento a ouvi gozar, um gemido longo, agudo, que se partiu em dois ou três solavancos, e ele a seguiu com um grunhido animal, murmurando entre os dentes que estava enchendo a buceta dela de leite. Minha presença, em vez de moderá-los, parecia dar a eles uma plateia involuntária que os excitava ainda mais.
Na tarde seguinte, enquanto minha mãe cozinhava, Rubén se sentou à minha frente no sofá. Falamos primeiro de futebol, do trânsito, de qualquer banalidade. Até que ele soltou a frase com um sorriso torto.
—Compadre, desculpa se ontem à noite incomodamos você.
Não soube o que responder.
—Você já está aqui há um tempo —continuou— e, na verdade, não foi fácil para nós também. Você sabe. Ontem completamos mais um mês e Lucía queria ir para um hotel. Mas tendo a casa, pra que gastar? Puta merda, tinha que comemorar.
Forcei uma risada que soou como vidro se quebrando.
—Não se preocupe. É temporário.
Desde aquela conversa, todas as noites foram o aniversário deles. Aquilo já não era sexo. Era marcar território.
***
Comecei a procurar trabalho desesperadamente. Don Hernán, fiel à palavra dele, fez algumas ligações por mim. Foi assim que eu aterrissei na KMR. Uma construtora de porte médio, sem grandes ambições, mas suficiente para começar do zero. O primeiro salário teve gosto de pequena vitória.
Assim que recebi, fui ver as crianças carregado de presentes: doces, algumas coisas para Tomás, uns ingressos para o cinema. Como ainda tínhamos tempo antes da sessão, levei-os de volta para casa para que se agasalhassem. O frio tinha começado.
Meus filhos entraram e cumprimentaram com entusiasmo Lucas, o filho do homem com quem Renata vivia. Esperei alguns segundos na porta. Ninguém me convidou para entrar, então entrei. Na sala só estavam as crianças diante da televisão.
—Lucas, você abriu a porta? —perguntei.
—Sim, senhor Diego.
Um déjà vu me acertou como um soco. O volume da televisão estava suspeitamente alto. Subi dois degraus da escada, o bastante para ouvir um ofego feminino. E não era qualquer ofego. Era o gemido inconfundível de Renata quando estavam comendo ela de verdade, aquele queixume curto e agudo que ela soltava toda vez que a enfiavam até o fundo. Eu conhecia de cor. Tinha arrancado aquilo dela eu mesmo mil vezes. Agora era outro quem arrancava. Também distingui a voz de Andrés, grave, respirando pesado, sussurrando coisas no ouvido dela entre uma investida e outra. «Assim, meu amor, aperta minha pica com esse conzinho», ele dizia, e ela respondia com um «continua, continua, não sai» que me queimou as entranhas. Embaixo, o ritmo pausado de uma cabeceira contra a parede, e o estalo cada vez mais úmido da carne batendo na carne. Fiquei lá embaixo, fingindo normalidade, como se não tivesse acabado de ouvir o homem com quem minha ex-mulher vivia comendo ela enquanto nossos filhos assistiam desenho animado a dois metros de distância.
Poucos minutos depois, ouvi a voz de Renata lá de cima, agitada.
—Sofia? Você está aí?
Minha filha subiu alguns degraus.
—Seu pai ainda está em casa? —insistiu Renata.
—Sim!
Renata desceu despenteada, com um robe mal fechado que deixava ver o suficiente para confirmar o óbvio: um mamilo inchado aparecendo no decote, marcas vermelhas de dedos no pescoço, a pele do peito ainda avermelhada pelo atrito, um fio brilhante descendo pela parte interna da coxa. Custava a me olhar.
—Oi, Diego —murmurou.
—Vim buscar as crianças para o cinema —respondi, sem sair do lugar.
Tomás desceu correndo com o casaco vestido.
—Papai, podemos levar o Lucas?
—Hã… —hesitei, sem encontrar jeito de negar sem parecer cruel— Não, filho.
—Por que não? —perguntou Sofia, com aquela inocência que dói.
—Porque tem que ser o pai dele a autorizar —respondi, baixando a voz—. Não podemos levá-lo assim, do nada.
Me odiei pela desculpa. Mas era a única coisa que me ocorria para não ter que levar o filho do homem que naquele momento estava lá em cima com Renata. Tomás insistiu.
—Lucas, pergunta pro seu pai se você pode ir.
Lucas olhava para a escada, esperando Andrés descer. Renata interveio com a voz entrecortada.
—Vamos lá em cima e você pergunta, tá?
Subiram e se passaram minutos eternos. Esperei alguma explicação, alguma palavra. Lucas desceu sozinho, sorrindo timidamente.
—Ele deixa sim, senhor Diego.
Não pude me negar mais. O nó no estômago apertou. Não podia deixá-lo sozinho naquela casa, com os sons se infiltrando pelo teto. O menino não tinha culpa, eu repetia para mim mesmo. Então levei o Lucas também.
Durante todo o filme, enquanto os três olhavam para a tela, eu pensava: «Como cheguei a isso? Babá involuntário enquanto eles aproveitam minha chegada para ir pra cama». Ao devolvê-los, me despedi rápido e saí quase correndo.
***
Na KMR, os primeiros projetos foram modestos. Casas particulares, calçadas, ampliações. Lá conheci Esteban, o coordenador. Prático, direto, com boa lábia. Sabia se movimentar, agradar, fechar acordos. Me deu oportunidades quando eu ainda estava me reconstruindo, e aquilo me devolveu um pouco de dignidade depois de tantos meses me sentindo sobrando.
Também conheci Camila. Uma jovem chamativa que já estava na empresa havia algum tempo, mas só começava na área administrativa. Contratos, fornecedores, agendas. Eu sempre a via com uma pilha de papéis debaixo do braço e o olhar um pouco perdido, como se parte dela estivesse em outro lugar.
Uma manhã, revisando juntos um processo, ficamos conversando um pouco mais do que o necessário.
—Já está se acostumando com as reuniões? —perguntei.
—Acho que sim. A gente se acostuma com tudo —respondeu, com uma resignação que me pareceu familiar.
Ela tinha vinte e um anos e um filho quase da idade do meu. Me contou sua história em pedaços. Que morava com a mãe, que tudo tinha ficado difícil ultimamente. Tinha perdido o companheiro em um acidente. Disse isso sem drama, como quem já chorou tudo o que tinha de chorar.
—Às vezes sinto que não estou fazendo as coisas direito —me disse outro dia, sem me olhar—. Tudo complica quando você está sozinha.
Demorei a responder. Eu também tinha perdido algo que continuava vivo.
—Todo mundo vai improvisando —respondi—. Ninguém sabe de verdade o que está fazendo.
Ela assentiu, como se aquela frase lhe trouxesse algum alívio.
—Está tudo bem? —insisti.
Ela ergueu o olhar e sorriu, mas foi um sorriso breve, desses que não chegam aos olhos.
—Sim. Só estou um pouco cansada.
Comecei a notar detalhes que antes tinham passado despercebidos. A forma como chegava antes de todo mundo e ficava até depois do fechamento. Seus silêncios calculados, suas pausas. Me parecia que as pressões em casa a levavam a querer dar duzentos por cento no trabalho, não importava o quê.
Eu não vi uma mulher frágil. Vi alguém carregando peso demais para a idade que tinha.
***
Uma sexta-feira, don Ramiro, o responsável pela filial de Quito, organizou um almoço de equipe. Restaurante modesto, pratos compartilhados, copos que eram reabastecidos mais por costume do que por celebração. Não era um evento importante para a empresa, mas para mim significava alguma coisa: voltar a me sentar em uma mesa onde eu não sobrava.
Esteban conduzia a conversa com naturalidade. Brincava sobre clientes difíceis e prazos impossíveis, misturando histórias que mantinham o clima leve. Camila estava sentada um pouco mais adiante, falando baixo, esperando sua vez de intervir. Não interrompia ninguém.
Carolina, a contadora, já bastante solta por causa do vinho, inclinou-se em direção a ela com um sorriso que não era mau, mas também não era inocente.
—Você tem que se soltar mais, garota —disse ela, quase em confidência—. Aqui, se você não se faz notar, passam por cima de você.
Alguns riram. Não era deboche, era um lema não oficial. Camila assentiu devagar, como quem já aprendeu quando não convém reagir.
—Sim, acho que sim.
Ela não explicou que chegava antes de todo mundo. Não defendeu seu trabalho. Simplesmente baixou os olhos e tomou um gole da taça. Camila não se submetia a ninguém. Simplesmente não sabia como se colocar à altura de um ambiente que premiava quem falava mais alto, não quem fazia melhor as coisas. E nisso me vi refletido mais do que eu gostaria de admitir.
Com os copos já mais avançados, a mesa se fragmentou em pequenos grupos. Foi então que vi o que muitos já consideravam certo: a proximidade entre Esteban e Carolina. A forma como ela se inclinava para ele, a mão dele apoiada no encosto da cadeira, perto demais para ser descuido, natural demais para ser erro.
Don Ramiro via tudo e, ao mesmo tempo, não via nada. Em teoria, a empresa proibia relações entre funcionários. Na prática, enquanto houvesse resultado, ninguém questionava os custos.
Olhei para Camila. Ela também tinha percebido. Baixou os olhos para o copo, como quem confirma algo que já suspeitava.
Quando o almoço terminou, ela foi das primeiras a ir embora. Olhou para mim por um instante, sorriu aquele sorriso breve que não chegava aos olhos e se despediu com um gesto.
Nada extraordinário tinha acontecido. E, ainda assim, algo se mexeu dentro de mim. Pela primeira vez em muito tempo pensei que talvez eu não estivesse completamente sozinho. Não porque alguém me oferecesse algo, mas porque tinha encontrado outra pessoa tentando se manter de pé sem saber muito bem como.
***
Naquela noite cheguei em casa com a cabeça mais leve do que vinha tendo há meses. Abri a porta e, ao entrar, o quadro à minha frente me paralisou. No sofá da sala, minha mãe, completamente nua, montada sobre Rubén, abraçando-o pelo pescoço. O corpo maduro dela, ainda firme, subia e descia com um ritmo claro sobre a pica dele, que a tinha enfiada até a base. O cabelo desgrenhado caía sobre os ombros e o rosto avermelhado brilhava de suor. Os seios grandes, pesados, balançavam a cada descida, os mamilos escuros eretos apontando para a frente, sacudindo no compasso do quadril.
Consegui ver, no instante congelado antes de perceberem minha presença, a pica de Rubén brilhando de umidade, entrando e saindo da buceta aberta da minha mãe. Cada vez que ela descia, o pau desaparecia inteiro dentro dela com um estalo úmido, e quando subia, via-se o eixo encharcado e grosso reluzindo sob a luz da sala. As coxas da minha mãe, apertadas contra os quadris dele, estavam escorregadias pelos próprios fluidos, que desciam pela parte interna das pernas até encharcar a calça de Rubén, caída em volta dos tornozelos.
Rubén tinha as mãos cravadas nas nádegas dela, apertando a carne com força, deixando marcas vermelhas na pele, afastando o cu dela com os polegares para ver melhor a pica enterrada nela. O corpo mais jovem dele contrastava com o da minha mãe. Ele a empurrava de baixo com golpes secos de quadril cada vez que ela descia, e ela respondia com um gemido gutural que saía do peito.
—Assim, papi, me dá toda essa pica, não para —ofegava ela, sem ainda ter me visto—, enfia a pica até o fundo, goza dentro…
Foi então que ela virou o rosto e me viu parado na porta.
Os dois congelaram. Mais do que susto, o que vi nos olhos deles foi irritação. O intruso que estragava o momento era eu.
—Para, Rubén, um momento —disse minha mãe, ainda ofegante, com a respiração cortada.
Rubén não soltou as nádegas. Continuou se movendo sutilmente debaixo dela, enfiando a pica com pequenas investidas contidas, como se não quisesse ceder totalmente. Os quadris dele continuavam buscando a dela por baixo, empurrando para cima, arrancando da minha mãe um ofego involuntário que ela tentou engolir mordendo o lábio.
—Desculpem… eu volto depois —murmurei, dando meia-volta.
—Porra, Rubén, para!
Minha mãe se desprendeu de um movimento brusco. A pica dele saiu dela com um som úmido, pesada, brilhante, ainda dura, apontando para o teto, encharcada de fluidos e pingando um fio branco que lhe escorria sobre o ventre. Os seios dela quicaram uma última vez quando ela se pôs de pé. Pegou a blusa no chão, cobriu o torso como pôde e, com a umidade brilhando entre as coxas e um rego espesso descendo até o joelho, entrou no quarto com passos rápidos.
Rubén ficou sentado onde estava, com a ereção ainda firme e pulsante contra o ventre, respirando agitado, os olhos fixos na televisão apagada. A pica dele saltava sozinha a cada poucos segundos, ainda coberta pelo leite da minha mãe. Ele não disse nada. Mas o ódio no olhar quando me cruzou era tão claro quanto uma palavra escrita na parede.
Fechei a porta da rua atrás de mim e me apoiei nela. Naquela noite, entendi algo que vinha adiando havia tempo. Não havia espaço para mim naquela casa. Também não havia na casa de Mateo, nem na minha própria desde que assinei o divórcio. Eu não podia continuar me reconstruindo em lugares onde eu atrapalhava.
Com o salário da KMR, eu podia começar a procurar algo meu. Um lugar pequeno, sem luxo, onde eu não fosse um intruso. Ainda não era liberdade. Era um começo.
Às vezes, se afastar não é fugir. É aprender a respirar.
Ainda não sei se o que senti naquela noite foi força ou resignação. Acho que um dia vou entender. Por enquanto, me basta saber que não quero mais ser o intruso eterno na vida de ninguém.