Minha amiga de infância me esperou vinte anos
No primário, ela me queria mais do que eu era capaz de retribuir. Vinte anos depois, a voz dela no telefone era a mesma, e minhas mãos tremeram.
No primário, ela me queria mais do que eu era capaz de retribuir. Vinte anos depois, a voz dela no telefone era a mesma, e minhas mãos tremeram.
Era a primeira vez que eu a via pessoalmente. Eu ia contar sobre a piscina e o salva-vidas, mas a mão dela na minha coxa mudou a conversa antes que eu terminasse a frase.
Quando entrei na sala vazia para trocar de roupa, a porta se abriu atrás de mim. Era ela, a presidente do centro de estudantes, e não vinha só com palavras.
Eu vinha redigindo o anúncio mentalmente havia meses; levei doze minutos para escrevê-lo, e meia hora depois já tinha sete respostas. A dele foi a quinta.
Por baixo daquela roupa larga e discreta havia uma fêmea com o desejo intacto. Eu só precisava esperar que ela parasse de fingir diante do marido.
Subi na árvore atrás do internato para confirmar o que já sabia. Não imaginei que vê-la com ele no balcão despertaria algo entre a raiva e o desejo que nunca tinha sentido.
Tranquei a porta e apaguei as luzes da sala de estudo. Tudo o que eu queria naquela tarde era consolá-la; tudo o que ela queria era esquecer o namorado.
Faltava uma hora para o jantar, as crianças viam desenho na sala e eu atravessei o jardim procurando minha mulher. A porta da lavanderia estava entreaberta.
Quando me olhei no espelho do hotel, com o rímel borrado e as marcas no pescoço, soube que nenhuma mentira bastaria quando chegasse em casa.
Passei meses deixando-a dançar sozinha, esperando que algum insistisse o suficiente. Nessa noite, um homem mais alto que eu conseguiu.
As iniciais do amante não estavam escritas por extenso, mas coincidiam com as do homem que naquele momento fumava na minha varanda.
Somos idênticas, repetiu enquanto pintava os lábios dela. E era quase verdade: só um detalhe separava as gêmeas, e era justamente o que Carla nunca havia confessado ao namorado.
A saia vinha rasgada, os lábios inchados e ela cheirava a um homem que não era eu. O pior não foi vê-la assim: foi o que ela mandou eu fazer depois.
Eu nunca tinha pagado por sexo, muito menos com uma trans. Mas naquela madrugada, com o carro abastecido e a cabeça cheia de tesão, dei uma volta a mais.
Entrei com a chave que ele deixou no vaso. O que eu não esperava era encontrá-la me esperando, de braços cruzados e a mandíbula travada.
Quando me abaixei para acomodar a caixa no depósito, Adela se virou devagar e me deixou ver o rendado branco sob a blusa. Naquela noite soube que a rota tinha mudado para sempre.
Quando entrei na cozinha, ela já tinha a lasanha no forno e duas taças servidas. Encostei-a no mármore antes que pudesse colocar a travessa no lugar.
Marina deixou a lista aberta na letra C. Eu só ia falar do meu bloqueio na cama, mas aquela primeira consulta não terminou como qualquer um imaginaria.
Cheguei à casa dela uma hora antes da minha namorada. Minha sogra abriu a porta com camisola curta, uísque servido e um sorriso nada inocente.
Atravessei aquela porta convencida de que mulheres não eram a minha praia. Saí duas horas depois sabendo que aquela frase era a maior mentira que eu já tinha contado.