O homem que me pediu para eu quebrá-lo
O relógio digital do controle marcou 00:00 com uma frieza elétrica e inaugurou a madrugada. O último vestígio da jornada se desvanecia no décimo quinto andar da Torre Mediterrânea, depois de três horas de programa ao vivo. Pelos monitores vazava a sintonia asséptica do boletim da meia-noite, enquanto ali dentro o tempo parecia ter parado.
A redação era um esqueleto de cadeiras vazias e telas em modo de economia de energia. Só o zumbido dos servidores e o eco de algum carro descendo pela Avenida del Puerto rompiam a quietude. Cervera, com sua energia de vendaval, já teria atravessado o estacionamento. No controle só restavam Bruno e seu técnico, dois sobreviventes de plantão em um prédio que já dormia.
Bruno Vidal estava apoiado na borda da mesa de som, com a camisa arregaçada e o cansaço pesando nas pálpebras. Iván Soler terminava de subir os áudios do programa com uma lentidão impropria para ele. Iván era eficiência pura, um homem de cabos e precisão, mas aquela noite seus movimentos eram lentos, quase deliberados. Seus olhos, de um castanho morno, buscavam os de Bruno com uma honestidade desarmante: o olhar do técnico era um porto seguro; o dele, afiado e carregado de sombras, parecia naufragar naquela paz que não se sentia capaz de reivindicar.
—Já está tudo no servidor, Bruno —disse Iván, quebrando o silêncio. Sua voz soava mais grave do que o normal.
—Obrigado, Iván. Você é um salva-vidas. Não sei o que teria feito hoje sem você.
Bruno se virou para pegar a mochila, mas Iván não se moveu. Estava a apenas alguns centímetros. A luz dos VU meters desenhava sombras verdes e vermelhas em seus rostos. Ele estendeu a mão, supostamente para alcançar um conector, mas os dedos roçaram os de Bruno sobre a superfície fria da mesa. Não foi um acidente. Foi um ponto de apoio que ele procurava havia meses.
Bruno sentiu o contato e, pela primeira vez em muito tempo, não se afastou. Nos olhos de Iván não havia segredos nem cláusulas de confidencialidade; só um homem que queria cuidar dele.
—Bruno… —sussurrou Iván, encurtando a distância que restava.
Bruno fechou os olhos. O vazio que o outro havia deixado em seu peito era um buraco negro que doía cada vez que ele via uma foto sua nos jornais. Precisava de barulho, que alguém ocupasse aquele espaço nem que fosse por um instante, para parar de ouvir o eco de um telefone que nunca tocava.
Quando Iván se inclinou e o beijou, Bruno se deixou levar numa rendição desesperada. Foi um beijo quente, real, sem as arestas cortantes dos outros encontros nem aquela urgência clandestina que sempre lhe deixara um gosto amargo. Iván o beijava como se ele fosse alguém valioso, não um perigo a ser escondido. Lambia seu lábio inferior, mordia-o de leve, e a língua se aprofundava na boca de Bruno buscando a dele com uma fome paciente. Bruno correspondeu por reflexo, deixando-se invadir, sentindo como a saliva do técnico se misturava à sua e aquecia seu paladar.
Mas então Iván colou o corpo ao dele e buscou com a mão a pele sob a camisa. Seus dedos, quentes e seguros, desceram pelo pescoço em direção aos botões. Quando a ponta dos dedos roçou a pele nua, bem acima do esterno, aconteceu o curto-circuito.
Bruno congelou. Não foi uma rejeição física, porque o corpo de Iván era jovem, firme e cheirava a sabonete limpo, e ele sentia perfeitamente o volume duro da rola do técnico se apertando contra seu quadril por dentro da calça. Foi uma invasão da memória. Nesse microssegundo, o fantasma do outro homem emergiu das sombras da cabine, reivindicando seu lugar com uma força violenta. Bruno lembrou a pressão de outras mãos, muito mais bruscas e possessivas, e o peso de um segredo que o impedia de se entregar a qualquer coisa que não fosse aquela dor conhecida.
—Espera… Iván, espera —murmurou, afastando-se com suavidade, mas com uma firmeza que não admitia réplica.
Apoiou a testa no ombro do técnico e fechou os olhos para conter a maré de culpa que subia pela garganta. Iván ficou imóvel, com as mãos suspensas no ar.
—Fiz algo errado? —perguntou, com a voz carregada de vulnerabilidade.
Bruno negou com a cabeça sem sair do ombro dele. Sentia-se um impostor. Tinha tentado usar Iván como escudo contra a própria solidão, e aquele homem não merecia ser o escudo de ninguém.
—Não… você não fez nada que não fosse perfeito —disse, erguendo-se, os olhos marejados—. Mas é melhor a gente não passar daqui. Eu não consigo. Não é por você. É que eu não estou sozinho aqui dentro.
Levou um dedo à têmpora.
—Há uma interferência que não me deixa ouvir você. E não seria justo te beijar enquanto tem outra pessoa ocupando toda a largura de banda.
O relógio marcou 00:05 e funcionou como um detonador. Porra, que esse dia acabe. Que nunca mais volte a ser dez de novembro. Era exatamente há quatro anos. Uma velha voz de barítono, com seu tom metido, ecoava na cabeça dele: uma efeméride privada, oculta, só para sua lembrança e, quem sabe, para a daquele homem que lhe invadia a mente.
***
De repente, o zumbido dos servidores se transformou no silêncio pressurizado de uma mansão em Rocafort. O cheiro de café requentado foi substituído pelo aroma de madeira cara, couro e aquele perfume cítrico que sempre emanava da pele de Darío Beltrán.
Lembrou da tensão na mandíbula do capitão, da forma como ele dominava o espaço como se a sala fosse seu território, expulsando Bruno a cada resposta monossilábica, a cada gesto de desprezo pela gravadora. Mas lembrou, sobretudo, do momento em que a máscara caiu. Isso aconteceu quando a gravação parou e Darío ficou de pé ao lado da janela, de costas para ele. A luz da cidade recortava a silhueta daquele gigante que parecia ter o mundo aos pés, mas cujos ombros afundavam sob um peso invisível. Ele não se virou para expulsá-lo. E Bruno, em vez de ir embora, deu um passo rumo ao abismo.
—Faz —instou Darío, com a voz quebrada—. Faz o que você veio fazer, Vidal.
Então surgiu aquele olhar azul, elétrico e ferido, que Bruno jamais tinha visto numa coletiva de imprensa. Não viu a estrela do time; viu um homem gritando em silêncio, precisando que outro fosse corajoso o bastante para atravessar sua armadura e lembrá-lo de que ainda era de carne e osso.
Bruno cruzou os três metros que os separavam com as mãos trêmulas. Quando chegou até ele, Darío já tinha se virado. Estava com a camisa para fora da calça, meio desabotoada, e o volume duro de uma rola enorme marcava a braguilha. Ele agarrou a nuca de Bruno com uma mão e esmagou sua boca contra a dele num beijo que tinha gosto de whisky e raiva. Mordia seus lábios até fazê-los sangrar de leve, e enfiava a língua até o fundo do seu paladar enquanto a outra mão procurava sua bunda por cima do jeans.
—De joelhos, Vidal —rosnou no ouvido dele, com aquela voz de barítono que vinha o obcecando havia meses—. Você passou a entrevista inteira olhando pra minha braguilha. Chupa.
Bruno caiu de joelhos no tapete caro da sala sem hesitar. Desabotoou o cinto com dedos desajeitados e baixou a calça até as coxas. A rola do capitão saltou dura, grossa, pesada, com a glande avermelhada e uma gota espessa de líquido pré-gozo pendurada na ponta. Cheirava a homem limpo e suor. Bruno a segurou com a mão, surpreso com o calibre, e passou a língua da base dos testículos até a cabeça, lambendo aquela gota transparente que grudou em seu paladar com um sabor levemente salgado e amargo.
—Porra… —gemeu Darío, segurando-se na cortina—. Mete tudo na boca, jornalista de merda. Cala essa boca uma vez na vida.
Bruno abriu os lábios e engoliu a rola inteira, deixando que ela roçasse o fundo da garganta até fazê-lo lacrimejar. Começou a chupar com fome, subindo e descendo, sugando a glande com força quando chegava à ponta, enfiando o nariz nos pelos pubianos escuros quando descia até o fundo. Lambia a veia saliente por baixo com a língua achatada, e acariciava os testículos com a outra mão, pesados e tensos. Darío agarrou seus cabelos com as duas mãos e começou a foder sua boca sem cerimônia, empurrando os quadris contra seu rosto, obrigando-o a engolir mais e mais.
—Assim, porra… assim… merda, Vidal, você chupa como se sua vida dependesse disso —sibilou o capitão, arqueando-se—. Ninguém… ninguém nunca me chupou assim.
Bruno gemeu com a boca cheia, e aquela vibração percorreu a rola de Darío como um chicote. Sentiu-a inchar ainda mais contra a língua, pulsar, sentiu o capitão puxar seus cabelos para tirá-la de sua boca justamente antes de gozar. Ele o ergueu de uma vez, arrancou os botões da camisa e o atirou de costas no sofá de couro.
Rasgou-lhe a calça e a cueca num puxão seco. A própria rola de Bruno também estava dura como pedra, pingando contra o ventre. Darío lhe abriu as pernas com os joelhos, cuspiu na mão e lambuzou a rola com aquela saliva e com o pré-gozo que não parava de brotar. Depois cuspiu outra vez e enfiou dois dedos grossos no cu de Bruno de uma só vez.
—Ah, porra… —gemeu Bruno, arqueando-se contra os dedos do capitão, que já procuravam lá dentro o ponto que o fazia tremer.
—Olha pra mim, Darío —devolveu Bruno, com a voz partida—. Não tem câmeras. Só nós dois. Solta tudo.
—Você vai me destruir —ofegou ele, sua respiração queimando a pele enquanto abria o cu com os dedos, girando-os, alargando-o—. Se alguém ver como você me tem…
—Ou talvez você me destrua. Não para, porra. Mete logo.
Darío retirou os dedos e colocou a cabeça grossa da rola contra o buraquinho apertado de Bruno. Empurrou de uma vez, sem piedade, e se enterrou inteiro numa única investida que arrancou de Bruno um grito rouco. Ficou quieto por um segundo, respirando colado ao pescoço dele, e então começou a fodê-lo devagar, afundando até o fundo a cada vez, com aqueles quadris de jogador de futebol que tinham a força de um bate-estacas.
—Eu não sei quem sou sem o muro, Bruno —procurou-o com uma urgência violenta, os lábios batendo desajeitadamente contra os dele entre uma estocada e outra—. Só… não me deixa.
—Eu tô com você, Darío. Tô com você. Me fode mais forte, porra, mais.
O capitão obedeceu como se aquilo o desencadeasse. Agarrou as pernas dele por trás dos joelhos, jogou-as sobre os ombros e começou a metê-la com estocadas brutais que faziam o sofá ranger. Cada golpe de seus quadris contra a bunda de Bruno soava como um tapa. A rola de Bruno ricocheteava entre os dois ventres, jorrando líquido pré-gozo por todo o estômago dele.
—Você é… porra, Vidal… você me deixa duro —sussurrou, e por um segundo Bruno sentiu uma lágrima, ou talvez só suor, roçando sua bochecha—. Ninguém me toca assim. Ninguém me deixa meter tão forte.
—Era isso que você queria, não era? —Bruno mordeu o lóbulo da orelha dele e sentiu o espasmo do capitão, um tremor que percorreu sua rola dentro do seu cu—. Que alguém ousasse te quebrar.
—Sim… —Darío cerrou os dentes, o corpo arqueando sob o de Bruno, ou melhor, sobre ele, entrando e saindo com uma cadência cada vez mais violenta—. Me quebra de uma vez, porra. Me faz esquecer quem eu sou.
Bruno cravou as unhas nas costas dele enquanto o capitão fodía seu cu com força de estádio, apertando as coxas ao redor da cintura dele. Darío agarrou a rola pingando e começou a punhetá-la no ritmo das próprias estocadas, com a palma áspera e firme. Bruno gozou primeiro, disparando jatos espessos de sêmen entre seus ventres, apertando o cu em torno da rola do capitão com espasmos que o esmagavam. Darío aguentou mais três investidas, gemeu um “porra, Vidal, porra” rouco entre os dentes, e gozou dentro dele com uma descarga longa que Bruno sentiu pulsar quente em seu ponto mais fundo.
Ficaram colados, encharcados de suor e gozo, Darío ainda dentro, sem querer tirar a rola, com a testa enterrada no pescoço dele e respirando como se tivesse acabado de correr uma prorrogação inteira. Naquela noite fria e clara, Bruno descobriu que o “Muro” era, na verdade, um homem morto de frio. E descobriu que ele, um jovem jornalista que só buscava uma entrevista, estava disposto a se incendiar para dar calor àquele gigante.
***
Bruno piscou e voltou ao presente com um solavanco. A mão de Iván continuava ali, quente e segura, mas para ele era uma interferência insuportável, um ruído branco que não conseguia sintonizar com a frequência do seu coração.
—É ele, não é? —perguntou Iván com suavidade—. O da interferência. O que faz você se desconectar no meio de uma frase quando acha que ninguém está olhando.
O peso dos últimos quatro anos caiu de uma vez sobre seus ombros. Bruno buscou apoio na parede de vidro da cabine e deixou as costas deslizarem por ela até acabar sentado no chão, com os joelhos dobrados e a cabeça entre as mãos. Iván, sem dizer uma palavra, imitou-o: sentou-se diante dele, cruzando as pernas, criando um espaço de confissão no canto mais escuro do estúdio.
—Você não me deve explicação nenhuma —disse, pousando uma mão em seu joelho—. A gente pode ficar assim, em silêncio, se isso ajudar.
Bruno ergueu o olhar. Seus olhos verdes brilhavam, úmidos, sob a luz vermelha do relógio.
—Eu cometi um erro —disse enfim, com uma voz que parecia vir de muito fundo—. E eu não posso cometer outro agora me envolvendo com você, Iván. Somos colegas. Amanhã a gente tem que voltar para lá.
—Você não seria o primeiro. Às vezes acho que este andar é um ímã de desastre amoroso —Iván soltou uma risada quente que aliviou a tensão—. Seja quem for a pessoa que te deixou assim, espero que saiba o quanto é sortuda. Ter você esperando em silêncio entre um boletim e outro não tem preço. Desde que te conheci, em setembro do ano passado, eu sei pelo seu olhar que existe alguém. Aquele homem.
Bruno sentiu o mundo parar. A palavra ficou flutuando na cabine, batendo contra os microfones desligados.
—Aquele homem… —sussurrou, admitindo pela primeira vez em voz alta, na frente de alguém da rádio que não fosse Olga ou Cervera—. Eu encontrei.
—E você diz que foi um erro, porque claramente ele te partiu o coração.
Bruno não respondeu. Ficou em silêncio, uma estátua de sal sob a luz vermelha. O silêncio foi sua resposta mais eloquente.
—E não leva ao pé da letra —acrescentou Iván—, mas esse canalha que te quebrou provavelmente não te merece. Bruno Vidal não se jogaria em ninguém que não fosse seu igual, mesmo que esse cara seja um idiota.
Bruno sentiu um arrepio. Seu igual. Iván não sabia que falava do capitão do time, de um ídolo, mas tinha acertado em cheio: para Bruno, Darío não era o busto de mármore das coletivas de imprensa, e sim o homem que vibrava na mesma frequência de solidão e excelência que ele.
—Ele é… ou era… alguém que me desafiava —confessou, olhando para as próprias mãos, que ainda tremiam—. Alguém que eu odiei e amei ao mesmo tempo, com a mesma intensidade.
—Você sabe o que dizem —comentou Iván com meio sorriso—: do amor ao ódio é só um passo. E quem briga, deseja.
Bruno pensou na montagem que circulava pelas redes, aquela paródia da briga eterna entre o jornalista incisivo e o muro inexpugnável nas zonas mistas. O mundo via um conflito profissional; ele sentia uma queimadura por dentro.
—A gente brigou muito. Agora só restou o silêncio.
—Às vezes o silêncio cura —disse Iván, se acomodando contra a parede—. Mesmo que seja só para abrir espaço para o luto. E para soltar.
—Antes disso… esse homem, o que ele poderia ter sido para você? Se não houvesse muros.
Um longo silêncio se instalou. Bruno fechou os olhos e, pela primeira vez em toda a noite, se sentiu em paz.
—Ele poderia ter sido minha casa. Sabe aquela sensação de chegar a um lugar e saber que não precisa fingir? Era o único que me obrigava a ser melhor e, ao mesmo tempo, o único que me permitia ser fraco. Dois polos opostos: ele, a ordem, e eu, o caos; ele, o silêncio, e eu, a voz. Juntos, poderíamos ter sido invencíveis.
—Um espelho que me devolvia uma imagem de mim mesmo da qual eu tinha medo e paz em partes iguais. Mas agora ele é o homem que me quebrou. E o pior é que, mesmo tendo me despedaçado, sinto que os pedaços dele ainda se encaixam nos meus. Ainda assim… chegou a hora de deixá-lo ir, antes que o silêncio me apague também.
Iván assentiu, apertou-lhe o ombro pela última vez e se levantou.
—É uma pena, Vidal. Um amor assim só acontece uma vez, mas sobreviver também é uma vitória —estendeu a mão para ajudá-lo a se erguer—. Só espero que, se algum dia esse homem sair do bunker dele, ainda reste algo de você que não tenha sido carbonizado. Você vale demais para ser só o segredo de alguém.
Desligou a mesa de som com um clique definitivo, e o silêncio da cabine se tornou absoluto. Saíram da redação deixando para trás os microfones que guardavam o segredo de sua confissão. Ao cruzar o limiar da Torre Mediterrânea, o ar gélido da Avenida del Puerto lhe lembrou que já era, oficialmente, dez de novembro.
—Boa noite, Iván —disse Bruno com uma voz que, pela primeira vez em muito tempo, soava como a dele mesmo.
—Boa noite, chefe. Cuide-se.
***
Nessa mesma madrugada, o apartamento no Cabañal estava mergulhado numa penumbra rompida apenas pela luz azulada do notebook sobre a mesa de jantar. Bruno tinha tirado a roupa da rádio assim que chegou; com olheiras marcadas por um cansaço que ia além do físico, parecia mais jovem e, ao mesmo tempo, muito mais velho.
Ele sabia onde estava aquele arquivo. Guardava-o numa pasta criptografada, fora dos servidores da rádio, como quem guarda um tesouro ou a prova de um crime. O cursor tremeu antes de dar dois cliques em um arquivo intitulado BELTRAN_ROCAFORT_RAW_101114.mp3.
A sala se encheu de um chiado digital e, de repente, a voz de um Darío de vinte e sete anos inundou o ambiente, mais áspera que a atual, carregada de uma tensão que Bruno agora identificava como um pedido de socorro.
—Vamos falar desta sala, Darío —ouvia-se a si mesmo, recém-completados vinte e quatro anos—. Você tem uma das melhores vistas da cidade, mas parece que as janelas só servem para que o mundo olhe para dentro. Como se administra o silêncio numa casa tão grande quando as luzes do estádio se apagam?
—O silêncio é a coisa mais difícil. No campo, o barulho te guia: se te vaiam, você incomoda o rival; se te aplaudem, está no caminho certo. Mas aqui isso não dá pista nenhuma. Ninguém te explica que a braçadeira é um lembrete de que você não pode se dar ao luxo de estar cansado. Nem triste. Nem sozinho.
—Você se sente sozinho, capitão?
—Me sinto observado, o que não é a mesma coisa que acompanhado. O verdadeiro medo não é perder uma partida. É que um dia o espelho me devolva a imagem de alguém que eu não reconheço, porque passei a vida sendo o que o clube precisava que eu fosse.
—Quem é Darío Beltrán quando não precisa salvar ninguém?
—Alguém que ainda busca a resposta. Alguém que tem pavor de que, se um dia deixar outra pessoa entrar de verdade, descubra que o muro tem rachaduras. E que, se me tocarem no lugar certo, eu posso me quebrar como qualquer um.
A gravação então entrou no ponto em que ambos começaram a perder o controle, o material que foi separado do restante da entrevista e que, editado, deu a Bruno seu primeiro grande sucesso.
—As pessoas veem o capitão. Veem o carro, o salário, os gols… —na gravação, a respiração dele ficava mais rouca; Bruno lembrou como naquela noite estendeu a mão e roçou o dorso da dele, a que segurava a caneta—. Ninguém fica para ver o que tem quando os holofotes se apagam. Ninguém, até hoje, teve a coragem de me dizer na cara que eu sou um imbecil e, em seguida, me dar o próprio trabalho por pura compaixão.
—Eu só fiz o que achei certo.
—É… o certo. —Uma risada rouca—. Mas agora mesmo não estamos fazendo o certo, não é? Você está na minha casa, no meio da noite, gravando uma entrevista que já não me importa mais. Desliga.
—A gravadora?
—A gravadora, o jornalismo e essa sua cabecinha que não para de girar. Desliga tudo, Bruno.
Mais alguns segundos e o silêncio perpétuo do arquivo. Tudo parou. Bruno sabia o que vinha depois daquele corte, porque o próprio corpo lembrava melhor do que a cabeça: lembrava das mãos de Darío arrancando sua camisa enquanto a gravadora ficava muda sobre a mesa; lembrava de como o capitão o virou contra a janela de vidro, a cidade inteira aos seus pés, e baixou sua calça até os joelhos antes de cuspir na sua bunda e enfiá-la sem dizer mais uma palavra; lembrava do frio do vidro contra sua bochecha e da rola grossa do capitão abrindo-o por trás enquanto ele ofegava “vou te foder até você esquecer como se faz pergunta”; lembrava da mão calejada de Darío tapando sua boca quando ele gemia alto demais, e do próprio sêmen manchando a janela em grossos fios brancos que escorreram sobre as luzes de Valência; lembrava, sobretudo, do gozo quente do capitão enchendo seu cu por dentro enquanto ele mordia sua nuca sussurrando seu sobrenome como uma condenação. Lembrava de ter adormecido depois com a cabeça encostada naquele peito enorme, sentindo como um homem acostumado a não se deixar tocar por ninguém tremia, enfim, em seus braços.
—Era você, Darío —sussurrou Bruno para o vazio da sala—. Era você quem me pedia para eu te quebrar.
Ficou olhando para a tela, onde o player havia parado no fim do arquivo, como se congelasse o tempo. Iván tinha razão: Bruno Vidal não se jogaria em ninguém que não fosse seu igual. O problema era que esse igual o tinha deixado no escuro.
O cursor pairou por vários segundos sobre o ícone da lixeira. Sentiu uma necessidade quase violenta de clicar e ver aqueles megabytes de confissão desaparecerem para sempre, calando a interferência de uma vez. Mas, no último instante, sua mão ficou imóvel. Apagar o arquivo seria apagar a única prova de que aquele gigante de gelo alguma vez se partira em suas mãos. Não conseguiu. Com um suspiro de derrota, arrastou o cursor para longe do perigo e escolheu, simplesmente, parar de olhar para ele.
Fechou o notebook lentamente. O silêncio que se seguiu era mais denso do que antes, mas já não era uma interferência. Era um luto. Caminhou até a janela que dava para as ruas adormecidas e apoiou a testa no vidro frio.
Faltavam poucas horas para amanhecer dez de novembro. Quatro anos de um amor que parecia segredo de Estado, e uma vida inteira pela frente para que aquele áudio, enfim, deixasse de ser sua única trilha sonora.
Deixar ir, sussurrou Bruno para si mesmo, antes de baixar a persiana.