Descobri a dupla vida da minha mulher toda quinta-feira
Tomás observava o vapor do seu café se desfazer no ar carregado da cozinha. Eram sete da manhã. Carolina, envolta num robe de seda grená que acentuava a curva larga dos quadris, preparava as mochilas das crianças com uma eficiência mecânica, quase de cirurgiã. Aos trinta e nove anos, conservava aquela beleza imponente que não precisa de maquiagem; a pele ainda morna do sono, os olhos castanhos tão escuros que pareciam absorver a luz, evitando os dele mais do que o estritamente necessário.
Aos quarenta e dois, ele se sentia um espectador da própria vida. O trabalho como consultor financeiro lhe dera a casa nos arredores, o colégio particular dos meninos e a possibilidade de ela deixar aquela diretoria na empresa, onde tantos homens a seguiam com o olhar. Achou que a protegia do mundo. Talvez só a estivesse sepultando nele.
—Você volta tarde hoje? —perguntou ela sem se virar. Sua voz era um ronronar baixo, o mesmo que usara na noite anterior enquanto ele cumpria seu dever de marido, convencido de que aquele suspiro final era de plenitude e não de mera cortesia.
—Fechamento do trimestre com os sócios. Não me espere para o jantar —mentiu ele.
A mentira lhe pesava na língua como um pedaço de chumbo. A suspeita não havia nascido de um perfume estranho nem de uma mancha de batom, mas de um detalhe minúsculo: o hodômetro do carro. O trajeto até a academia e o colégio não explicava os oitenta quilômetros a mais que apareciam toda quinta-feira. Eram, exatamente, a ida e a volta para a casa de campo, aquele refúgio de pedra que compraram para os verões e que agora, Tomás suspeitava, servia de cenário para uma encenação privada.
A quinta-feira amanheceu cinzenta. Ele estacionou a um quarteirão do colégio, escondido atrás de uma van de entregas, e viu Carolina deixar os pequenos de seis e oito anos. Beijou-os na testa com uma ternura que, pela primeira vez, lhe pareceu uma máscara. Depois seguiu para a academia. Ele esperou. O ponteiro dos segundos do relógio se esticava como borracha.
Às dez em ponto ela saiu. Não ia sozinha.
Ao seu lado caminhava um sujeito que parecia talhado numa pedreira. Bruno. Tomás o reconheceu na hora: o instrutor que sempre rondava a área dos aparelhos, um rapaz de pouco mais de vinte anos com costas que tapavam o sol e braços que esticavam as costuras da camiseta técnica. Carolina abriu a porta do carona com uma familiaridade que doía. Tomás sentiu uma ânsia de bile, mas não deu partida. Algo dentro dele queria ver o fim do filme.
***
Seguiu o utilitário a distância até a estrada de terra. Desligou o motor entre os arbustos que ladeavam a entrada da propriedade e se converteu numa extensão metálica da paisagem. O carro de Carolina levantou uma nuvem de poeira fina que ficou suspensa como um véu. Ele a viu descer com uma elasticidade que nunca mostrava quando voltava para casa, uma urgência que ele não conhecia. Atrás, saltou Bruno, largo, depilado, caminhando com a segurança de quem se sabe dono de um território alheio.
Ela lhe lançou um olhar que Tomás não soube reconhecer. Não era o de mãe dedicada nem o de esposa amável. Antes de atravessar a soleira, a mão do rapaz desceu com força sobre o traseiro de Carolina, uma palmada seca que ecoou no silêncio do campo. Ela arqueou as costas e soltou uma gargalhada rouca, elétrica, antes de desaparecer atrás da porta de carvalho.
Tomás arrancou em silêncio. Não precisava ver mais naquele dia. O vazio no estômago se misturava a uma pulsação surda nas têmporas. Durante toda a volta, a imagem daquela mão sobre a carne de sua mulher se repetiu em loop. E, ainda assim, não lhe dava vontade de matar ninguém, mas uma curiosidade doente, uma fome de detalhes que só a tecnologia poderia saciar.
Na sexta-feira, enquanto Carolina levava as crianças para um aniversário, ele voltou à casa de campo com uma caixa de ferramentas que continha muito mais do que chaves de fenda. Instalou as câmeras com a precisão de um relojoeiro: uma na sala, camuflada na moldura de um quadro; outra no quarto, dentro do detector de fumaça, oferecendo um plano zenital da cama. Configurou o servidor criptografado e testou os microfones. Depois vieram seis dias de purgatório: jantou com ela, beijou seus lábios com gosto de chá, ajudou os meninos com as contas da escola, e na cabeça só corria um relógio em direção à próxima quinta-feira.
***
No dia marcado, trancou-se no escritório da cidade com a desculpa de uma videochamada interminável. Passou a chave na porta. Serviu-se de um uísque de malte, um âmbar escuro que parecia o combustível necessário para o que estava prestes a presenciar. Às dez e quinze, a imagem da sala rústica ganhou vida na tela.
Entraram como um redemoinho de roupa esportiva. Carolina nem tirou os óculos escuros antes de Bruno encostá-la na parede de pedra. O impacto chegou nítido nos fones de ouvido.
—Você foi uma boa esposa esta semana? —A voz do rapaz era uma lixa carregada de arrogância.
Ela ergueu o rosto para ele, com os olhos incendiados por uma urgência que deformava seus traços. Não restava vestígio da mãe do colégio nem da mulher do consultor.
—Fui uma chata contando os minutos para te ver —respondeu, e a voz dela foi um chicote de sinceridade brutal—. Aguentei as carícias do meu marido imaginando que eram suas mãos. Não fale mais.
Tomás sentiu um arrepio percorrer-lhe as costas. Aquela não era sua mulher; era uma desconhecida habitando o corpo dela. Bruno tirou a camiseta e revelou um tronco de manual de anatomia, os ombros redondos fruto de anos de ferro. Da poltrona de couro, Tomás contemplou a desproporção do outro e, quando o rapaz baixou a calça, precisou largar o copo sobre a mesa. A natureza tinha sido insultantemente generosa com ele, e sua própria virilidade lhe pareceu de repente algo anedótico.
—De joelhos —ordenou Bruno com uma voz que não admitia réplica—. E olha para mim direito enquanto tira esse disfarce de esposa perfeita.
Carolina obedeceu sem hesitar. Seus dedos, os mesmos que naquela manhã haviam amarrado os cadarços dos filhos, se fecharam com avidez. Tomás via o contraste na tela: a pele morena e macia dela, a dureza do outro. O rapaz agarrou seu cabelo e guiou sua cabeça com um desprezo quase profissional.
—Ele não sabe de nada disso, sabe? —zombou Bruno—. Acha que tem uma santa em casa.
—Não sabe de nada —ofegou ela, com a voz partida por uma excitação que lhe tremia nas mãos—. Não precisa saber.
Tomás, longe de pensar na polícia ou em invadir a casa, sentiu sua própria mão descer até a braguilha. O tesão era um veneno doce. Ver a mulher que todas invejavam nas reuniões do colégio, rebaixada daquela forma tão crua, lhe provocava uma tensão dolorosa, quase violenta.
Em que momento eu deixei de conhecê-la?
Na tela, a cena saltou para o quarto. A câmera zenital oferecia uma perspectiva de mapa. Bruno a jogou sobre a colcha de linho, a mesma que haviam escolhido juntos numa viagem a Praga. Sem um átomo de ternura, abriu-lhe as pernas com uma brusquidão que a fez tremer.
—Você vai gritar tanto que vão ouvir da estrada —disse, antes de afundar nela de uma só estocada.
Carolina soltou um grito que não era de dor, mas de uma libertação selvagem. As unhas se cravaram nas costas do rapaz em busca de onde se segurar. Tomás começou a se tocar no compasso das investidas que via na tela. Sentia-se um voyeur vulgar, cúmplice silencioso da própria desonra, mas a visão de sua mulher tomada por aquele estranho lhe produzia um êxtase que nunca havia alcançado na cama de verdade.
***
O ritmo mudou quando ela, movida por uma fome que ele desconhecia, se desvencilhou do peso do rapaz e o deitou de costas. Montou em cima, o cabelo caindo em cascata sobre o rosto transfigurado, e começou a se mover. Não eram golpes grosseiros, mas um balanço hipnótico, os quadris desenhando oitavos perfeitos no ar enquanto absorvia cada centímetro. Bruno mantinha as mãos atrás da nuca, exibindo os braços, desfrutando do espetáculo.
—Olha para você —rosnou ele—. Você adora isso. Ninguém diria ao te ver na porta do colégio.
—Cala a boca —respondeu ela, acelerando, os olhos castanhos fixos no ponto onde os corpos se encontravam, como se nada mais existisse no mundo.
Sem aviso, o rapaz a agarrou pelos ombros e a virou com força, deixando-a na beira da cama, os joelhos afundados no colchão e o tronco vencido para a frente. Pôs-se de pé, uma estátua de músculo e tensão. Tomás viu quando ele cuspiu sobre ela e a preparou com dois dedos, uma brutalidade que arrancou de Carolina um gemido agudo, mistura de dor e de uma expectativa elétrica.
Com um impulso seco, ele se enterrou até o fundo.
Ela soltou um berro que ecoou nas paredes de pedra. Agarrou-se à cabeceira enquanto ele a golpeava por trás com uma cadência quase militar. A cada investida, o choque de pele soava como um estalo. Bruno não tinha piedade; com a mão aberta, começou a lhe bater nas nádegas, marcas vermelhas instantâneas que Tomás contemplava com uma tensão já beirando o limiar da dor.
—Diz quem manda! —rugiu o rapaz, acelerando até transformá-los num borrão.
—Você! Só você! —gritou ela, entregue por completo.
Chegaram juntos à beira do abismo. Bruno se esvaziou no mais fundo dela enquanto Carolina convulsionava, tremendo como uma folha. Depois o silêncio voltou, quebrado apenas pelas respirações pesadas. Ela ficou deitada, a bochecha contra a colcha; ele, longe de demonstrar cansaço, permaneceu de pé ao lado dela, intacto, como uma máquina que não conhece descanso.
Foi naquele instante que Tomás, na solidão do escritório, não aguentou mais. Abafou um grito contra as paredes com isolamento acústico, um uivo de marido humilhado e, ao mesmo tempo, estranhamente vivo. Deixou-se cair na poltrona, o peito subindo e descendo, o suor frio encharcando-lhe a testa. Fechou a janela do navegador. O cinema da própria degradação tinha terminado por hoje.
***
A noite de quinta-feira caiu sobre a casa com uma pesadez sufocante. O ar da sala, saturado pelo aroma de lavanda do amaciante e de crianças recém-banhos, parecia a Tomás uma farsa insuportável. Ele estava sentado na poltrona, um livro aberto sobre os joelhos que não havia avançado uma única página em uma hora. Os olhos não saíam de Carolina.
Ela estava a três metros dali, ajoelhada sobre o tapete, ajudando o pequeno de seis anos a encaixar as peças de um quebra-cabeça. Usava legging preta e moletom cinza, o uniforme da mãe de bairro, confortável e sem artifício. O rosto lavado, sem vestígio da maquiagem da manhã, irradiava uma calma quase angelical.
Tomás a dissecava com o olhar. Analisava a curva das costas, a mesma que horas antes se arqueava sob o peso do outro. Observava as mãos, as que agora afagavam o cabelo do menino, e não conseguia evitar vê-las fechadas na nuca de Bruno.
—Está tudo bem, amor? —perguntou ela sem erguer os olhos—. Você está muito quieto.
—Cansaço. O fechamento foi exaustivo —mentiu ele, saboreando o metal amargo da vida dupla.
Carolina se levantou com uma agilidade que lhe doeu. Aproximou-se e pousou uma mão no ombro dele. Tomás sentiu um choque. Será que ela ainda carrega o rastro do outro dentro de si? Suas perguntas vinham em rajadas. Em que momento a mãe modelo se tornara aquela mulher insaciável? Era a rotina, como ele suspeitava, ou havia algo mais obscuro na capacidade de partir a própria vida em dois compartimentos tão estanques? E, o mais perturbador: não seria ele, com seu respeito excessivo, com sua forma de amá-la sempre com cuidado, a prisão que a empurrou a buscar o oposto em um desconhecido?
—Vou colocar as crianças na cama —anunciou ela, dando-lhe um beijo rápido na bochecha—. Depois, se quiser, a gente vê alguma coisa. Ou o que você quiser.
Esse “o que você quiser” soou em seus ouvidos como um desafio. Ficou sozinho, rodeado pelas fotos de família: a neve, o batizado do mais velho. Tudo lhe parecia agora um cenário de papelão. O tesão, longe de se dissipar com a proximidade da realidade, crescia. Ele não era um corno qualquer; era o diretor de uma peça em que ela era a atriz e ele, o único espectador com direito à primeira fila.
***
Quando entrou no quarto, o ar estava carregado pelo vapor do banho. Carolina escorregava entre os lençóis. Ele se despiu devagar, olhando sua própria pele, a de um homem de quarenta e dois anos que se cuidava, mas carecia da rotundidade insultante do rapaz da academia. Deitou-se na cama. O silêncio era um muro de concreto.
—Tem certeza de que não está acontecendo nada? —murmurou ela, buscando seu calor com uma naturalidade que lhe pareceu a obra-prima do cinismo—. Você está tenso.
Encostou a cabeça no peito dele. Tomás percebeu o aroma do xampu de amêndoas dela, mas sua mente, infectada pelos pixels da tela, só evocava o suor e o rastro alheio. Seus dedos desceram pelas costas de Carolina, percorrendo a coluna, imaginando as marcas invisíveis dos dedos do outro afundados em sua carne.
—Nada —respondeu, com uma voz plana, sem julgamento—. Estava pensando no trabalho. Em como as estruturas mais sólidas escondem rachaduras que ninguém se atreve a olhar... e em como é fascinante descobrir o que há dentro.
Ela soltou uma risada relaxada, acreditando que o marido se perdia em suas metáforas, e voltou a apoiar a cabeça. Tomás sorriu na penumbra. A devassidão dela não estava só no que fazia às quintas-feiras, mas na perfeição da máscara. Era uma arquiteta da mentira tão habilidosa quanto ele era dos números.
Compreendeu que não queria denunciá-la. Não queria o divórcio, nem mesmo enfrentá-la. O que queria era continuar alimentando o monstro recém-nascido dentro de si. Agarrou-a pela nuca, não com a suavidade do marido devoto, mas com uma brusquidão nova, uma imitação consciente da violência que havia visto na tela. Carolina soltou um suspiro de surpresa que logo se transformou em algo mais profundo, uma resposta instintiva à mudança de energia.
Na escuridão do quarto, o casamento já não era uma união de afeto, mas um pacto de sombras. Enquanto começava a possuí-la, buscando em seu corpo o eco do outro, Tomás soube que na próxima quinta-feira estaria outra vez diante da tela, esperando sua dose de veneno, convertido no autor secreto de sua própria e excitante desonra. A vida tinha sido sovina com seu físico, mas lhe reservara o papel mais mórbido de todos: o do homem que sabe de tudo e, justamente por isso, goza como jamais imaginara.





