Ela achou que eu não perceberia, mas eu soube
Com Laura, levávamos quase um ano nessa coisa estranha que não tem nome fácil. Não éramos namorados para o mundo, mas também não éramos amigos com benefícios. Éramos aquilo que as pessoas não sabem como apresentar numa reunião: a pessoa com quem você falava todos os dias, com quem planejava a semana, com quem compartilhava as fotos de segunda-feira e as mensagens de voz tarde da noite.
Os dois tínhamos filhos de relacionamentos anteriores. Isso complicava os horários e simplificava as expectativas. Sabíamos que não podíamos aparecer e desaparecer quando quiséssemos, então montávamos a agenda com cuidado: uma terça aqui, uma quinta ali, sempre que as crianças não precisassem dos pais ao mesmo tempo. Era uma logística estranha, mas funcionava.
Quando não nos víamos, mandávamos de tudo. Fotos dela de lingerie mordendo o lábio, vídeos curtos em que enfiava dois dedos no cu diante do espelho do banheiro, áudios roucos em que me contava como gozava pensando na minha rola. Eu guardava tudo isso numa pasta com senha e me masturbava olhando quando a semana se alongava. Aquela semana anterior tinha sido ruim nesse sentido: tínhamos nos cruzado só por mensagens, sem nos ver, e o corpo começa a acusar esse tipo de ausência.
Então chegou a segunda-feira.
Eram quase nove da noite quando eu escrevi para ela. Não havia nada planejado para aquele dia, mas eu estava livre e me pesava a semana sem vê-la. Perguntei se podia ir até lá. Ela respondeu que sim, que ajeitava com a cunhada para ficar com o filho dela um pouco, e que em meia hora passava para me buscar. Cumpriu em vinte e cinco minutos.
Quando desceu do carro para me cumprimentar, percebi o quanto tinha sentido falta dela. Nos abraçamos como se estivéssemos separados há mais tempo. Ela cheirava bem, como sempre. Entramos e fomos dirigindo até um mirante que tínhamos descoberto juntos meses antes, longe do bairro, longe da chance de esbarrar com alguém conhecido. Aquilo era nosso e de mais ninguém.
No começo tomamos café de uma garrafa térmica que ela trazia e falamos de coisas cotidianas. As atualizações da semana: o trabalho, as crianças, um mal-entendido com uma amiga dela. Era isso que eu mais gostava de estar com ela: podíamos falar de qualquer coisa antes de o corpo tomar o controle. Havia uma intimidade real ali, não só física. Era a parte que eu mais valorizava, embora nem sempre dissesse isso.
Depois veio o resto.
Nos beijamos no começo devagar, como se os dois precisássemos lembrar como nos encaixávamos. Ela tinha aquele jeito de pôr as mãos no meu rosto que me desmontava. Recuamos os bancos, inclinamos os encostos. No carro, havíamos aprendido a nos mover com uma precisão que dava até graça quando eu pensava nisso, mas no momento era tudo menos ridículo.
Enfiei a língua na boca dela e ela chupou como se estivesse com sede. Agarrei um seio por cima da camiseta e o mamilo endureceu na hora. Ergui a blusa junto com o sutiã e passei a língua por cima, primeiro um, depois o outro, mordiscando até ela começar a gemer baixinho e apertar minha nuca para que eu não parasse. Enfiei a mão dentro da calça e a encontrei encharcada, o cu quente, escorregadio, latejando contra meus dedos.
— Você tá toda molhada — eu disse no ouvido dela.
— Faz dias que eu tô assim, porra — ela respondeu, com aquela voz rouca que saía quando estava excitada—. Mete logo.
Mas foi ela quem começou naquela noite. Tirou meu cinto, abriu meu jeans e veio para mim com aquela calma dela que nunca deixava de me surpreender. Puxou minha cueca de uma vez e tirou minha rola já dura. Olhou por um segundo, sorriu e cuspiu lentamente nela, vendo o fio de saliva cair na ponta. Depois a envolveu com a boca até o fundo, sem engasgar, engolindo-a inteira até eu sentir os lábios apertando a base e o nariz contra meu púbis.
Ficou assim um bom tempo, subindo e descendo a cabeça na minha pica, chupando com aquela técnica que só ela tinha, a língua girando em volta da glande toda vez que subia, a mão apertando meus ovos, me olhando de vez em quando com um olhar que misturava ternura e algo muito mais obscuro. Tirava a rola da boca só para cuspir mais saliva por cima e voltar a enfiá-la, batendo no próprio rosto com ela, passando-a pelo pescoço, sussurrando que adorava minha rola, que adorava sentir ela enchendo a garganta.
— Fode minha boca — ela pediu, com os lábios brilhando—. Vai, me puxa pelo cabelo e me fode.
Eu obedeci. Agarrei a cabeça dela com as duas mãos e comecei a enfiar até o fundo, metendo na boca dela no meu ritmo enquanto ela me olhava de baixo com os olhos marejados, a baba escorrendo pelo queixo até os peitos. Tive que pará-la antes que fosse tarde demais. Fazia dias que não estávamos juntos e senti que eu estava a duas investidas de esvaziar a garganta dela.
Troquei de posição. Agora era eu quem descia até ela. Arranquei a calça e a calcinha de uma vez só. Ela se recostou na porta do passageiro, abriu as pernas e me deu o espaço que eu já conhecia bem. Tinha o cu depilado, inchado, os lábios brilhando de tão molhada que estava, o clitóris aparecendo sob o capuz. Me dei um segundo, como sempre fazia. Um momento para olhá-la, para registrar que era ela, que era real, que o que eu sentia por ela ia além do desejo puro.
Baixei o rosto e passei a língua inteira, de baixo para cima, devagar, parando no clitóris para chupá-lo. Ela arqueou as costas e cravou os dedos no meu cabelo.
E então eu senti.
Não foi algo vago nem ambíguo. Foi direto e imediato: um gosto que não era de Laura. Um cheiro que não pertencia àquele momento nem àquele carro. Algo sintético, aquele gosto de látex misturado com lubrificante barato, inconfundível para qualquer um que já tenha encontrado isso antes. Procurei de novo, enterrando a língua entre os lábios, devagar, sem que ela percebesse. Confirmei. Estava ali, escondido nos vincos, aquele resto químico que nenhuma higiene apressada tinha conseguido apagar por completo. Não havia como se enganar.
Um preservativo. Alguém tinha estado ali antes de mim, naquela mesma noite ou poucas horas antes de ela passar para me buscar.
Nesse instante, o tempo fez algo estranho. Por fora, tudo continuou igual: ela respirava devagar, com os olhos fechados, movendo a pelve contra meu rosto, pedindo sem palavras que eu não parasse. O carro, o mirante, as luzes da cidade ao longe. Mas por dentro alguma coisa se apagou. Não de repente, não com barulho. Como quando um fusível cede em silêncio e o quarto fica no escuro sem que ninguém se mova.
Continuei.
Não sei por que fiz isso. Ou sei, mas não é fácil explicar sem parecer mal. Eu a amava. Eu a desejava. E também, em algum canto covarde da minha cabeça, eu pensava que arrumar uma briga ali, naquele carro, com aquele gosto ainda na boca, não ia levar a nada. Só iria me fazer ouvir negações, perguntas devolvendo a bola, lágrimas que me fariam duvidar do que eu tinha acabado de sentir com tanta clareza. Eu não estava em condições para aquela conversa.
Então continuei. Chupei o clitóris como se nada tivesse acontecido, enfiei dois dedos no cu dela e os curvei procurando aquele ponto que a fazia se contorcer, enquanto com a língua fazia círculos rápidos até senti-la tremer inteira e gozar na minha cara com um gemido longo, apertando minha cabeça entre as coxas.
Quando passei a penetrá-la, algo tinha mudado em mim sem que ela soubesse. Deitei-a de costas, enganchei as pernas dela sobre meus ombros e enfiei a rola de uma só estocada até o fundo. Ela gritou e cravou as unhas nos meus braços. Comecei a foder com força, sem cuidado, ouvindo o barulho molhado da minha pica entrando e saindo do cu dela, vendo os seios dela baterem a cada investida contra o encosto reclinado.
Já não era mais o mesmo de antes. Eu a via, a sentia, mas uma parte de mim tinha se desconectado e olhava tudo de fora, como uma testemunha. Segui os movimentos que conhecia, disse as coisas que a gente diz nesses momentos — que cu gostoso você tem, assim, vai, aperta minha pica com isso —, mas eu estava em outro lugar. Pensava em quem seria. Pensava se o outro tinha comido ela naquela mesma posição, se tinha chupado os mesmos mamilos que eu mordia agora, se tinha ouvido os mesmos gemidos que ela soltava contra meu pescoço.
Virei-a de bruços. Coloquei-a de quatro sobre o banco, com a bunda contra mim e o rosto contra a porta do passageiro. Agarrei os quadris dela com as duas mãos e voltei a enfiá-la de uma vez. Dali, eu a fodia até o fundo, vendo a bunda redonda bater contra minha pélvis, vendo minha rola entrar e sair brilhando de suas secreções. Dei um tapa na nádega dela e ela gemeu mais alto.
— Mais forte — ela pediu, com a bochecha esmagada contra o vidro—. Me fode mais forte.
Eu obedeci, metendo com toda a raiva que eu não sabia onde colocar. Agarrei o cabelo dela e puxei para trás, arqueando suas costas, afundando-a até sentir a bunda dela bater contra minhas coxas a cada estocada. Eu pensava na semana anterior, nos áudios que ela me mandava à noite dizendo que sentia minha falta. Em como soavam convincentes. E a fodia mais forte, como se com a rola eu pudesse arrancar o outro de dentro dela.
Em algum momento, eu não aguentei.
— Você esteve com alguém essa semana? — perguntei, no meio de tudo, sem parar de meter a pica nela.
Ela abriu os olhos e virou um pouco a cabeça para mim.
— O quê? Por que você tá me perguntando isso agora?
— Não sei. Perguntando. — Dei outra estocada, mais funda.
— Não — disse, com uma firmeza que soou preparada demais—. Não estive com ninguém. De onde você tirou isso? — Fez uma breve pausa, entre dois suspiros—. Ou tá me perguntando porque, na verdade, foi você que andou com alguém?
Lá estava. A resposta exata de quem tem algo a esconder: devolver a acusação antes que o outro tenha tempo de insistir. Eu já tinha visto antes. Já tinha usado antes, em outra vida. Você sabe exatamente como soa quando vem do outro lado.
— Não — respondi—. Só perguntei.
E seguimos. Agarrei os quadris dela e a fodi sem freio até sentir que ia explodir. Tirei a rola no último segundo e gozei na bunda dela, longos jatos de sêmen caindo na lombar, entre as nádegas, escorrendo até o cu aberto. Olhei para ela ali, com minha porra em cima dela, respirando ofegante, e pensei que era a última vez que eu a veria assim.
Até o fim.
***
Nos vestimos no silêncio confortável que vinha depois. Ela se limpou com alguns guardanapos do café, eu olhei as luzes do mirante sem ver nada. Falamos de outras coisas: um plano para o fim de semana que não era certo que acontecesse, uma série que ela tinha começado a ver. Tudo soava normal. Tudo era mentira, pelo menos do meu lado, e provavelmente também do dela.
Ela dirigiu de volta para minha casa. Antes de eu descer, me disse que me amava. Que a gente se via amanhã, que era um dos dias que tínhamos marcado no calendário.
— Claro — eu disse.
Entrei em casa sabendo que não a veria no dia seguinte.
Fiquei sentado na escuridão da sala por um bom tempo, sem acender a luz. Eu não estava com raiva, ou não só isso. Eu estava triste com aquela tristeza específica que vem de confirmar algo que uma parte de você já sabia, mas não queria admitir. Não é a mesma coisa suspeitar e saber. Suspeitar deixa a dúvida, que dói à sua maneira, mas também deixa uma saída. Saber não deixa nada. Saber pesa de outro jeito e se instala num lugar de onde não sai facilmente.
O que mais me doía não era ela ter estado com alguém. As pessoas fazem o que fazem, e eu não sou ingênuo. O que me doía era tudo o resto: as mensagens de todos os dias, os planos para o futuro que havíamos falado em voz alta, a ideia de que nossos filhos já se conheciam e se davam bem, de que talvez em algum momento pudéssemos construir algo real e estável. Tudo isso tinha existido ao mesmo tempo que outra coisa que eu não sabia. Dois mundos paralelos, e eu vivendo no errado.
E o pior: ela achou que eu não perceberia.
Era isso que mais me custava processar. Não a traição em si, mas o cálculo por trás dela. Que alguém que te conhece, que compartilha seu tempo e seus planos e seus medos noturnos, te olhe nos olhos e pense: isso ele não vai notar. Que te subestime dessa maneira tão concreta e tão fria. Que te ofereça o cu recém-usado por outro e confie que a língua não distingue.
No dia seguinte, eu escrevi que tinha o menino em casa por uma questão de última hora. Ela respondeu com um «que pena, então nos vemos na quinta». Na quinta eu disse que não podia, por causa do trabalho. Na sexta não escrevi. No sábado ela me mandou um áudio perguntando se estava tudo bem.
Eu disse que sim, que tinha sido uma semana pesada.
Era verdade. Só que o pesado não era o trabalho.
***
Depois disso, as mensagens foram se espaçando. Às vezes passavam dois dias, depois três. Ela também começou a me escrever menos. Talvez tenha entendido alguma coisa sem que eu dissesse. Talvez o outro — quem quer que fosse — tenha começado a ocupar mais espaço na agenda dela, e no cu dela. Não sei e já não me importa descobrir.
Com o tempo, cheguei a uma conclusão que não me faz sentir melhor, mas me deixa mais tranquilo: as pessoas não mudam o que lhes sai natural. Se alguém precisa manter duas frentes abertas para se sentir completo, vai mantê-las, com você ou com o seguinte. Não é um julgamento, é só um padrão. E eu, depois de certa idade, já não tenho energia para ficar decodificando padrões alheios.
O que aprendi, sim, foi isto: sinceridade não é uma virtude que todo mundo valorize da mesma forma. Há pessoas para quem dizer a verdade custa caro demais e que preferem o silêncio ou a mentira bem administrada. E há pessoas para quem a verdade, por mais que doa, é a única moeda que vale. Eu sou do segundo tipo. Por isso me doeu tanto o caso da Laura. Não porque ela tinha estado com outra pessoa. Mas porque escolheu não me contar, e acreditou que poderia fazer isso sem consequências.
Se ela tivesse me dito, teríamos tido uma conversa difícil. Talvez tivéssemos terminado de qualquer maneira, talvez não. Mas, ao menos, teria sido real. E o que é real, mesmo doendo, é a única coisa que deixa algo de pé quando todo o resto desmorona.
Em vez disso, o que restou foi só isso: o gosto de látex na boca, as negativas no carro e a certeza silenciosa de que algumas coisas terminam antes de alguém dizê-las em voz alta. Ela também soube, do jeito dela. Eu soube. E nenhum dos dois nunca disse isso.