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Relatos Ardientes

O que o pátio inteiro viu quando chegou a sua vez

A crueldade do magistrado Bruno Alcázar nunca era simples. Era uma construção cuidadosa, um palácio de espelhos onde a luxúria se vestia de justiça e o poder absoluto se fazia passar por penitência. Damián Rey, sua sombra e seu fornecedor de favores sujos, havia alimentado durante meses essa escuridão. Apresentara Renata a ele não como uma mulher, mas como um troféu dócil: uma esposa desesperada para salvar o marido, uma alma pronta para ser moldada em qualquer forma que a suposta «redenção» exigisse.

A nova ideia do magistrado nasceu durante uma de suas sessões privadas, enquanto a observava ajoelhar-se com a vontade quebrada, mas com uma beleza intacta, glacial em seu núcleo. O prazer, descobriu, não estava apenas em possuir o que era belo, mas em obrigar o belo a se rebaixar ao que ele julgava indigno. E, em seu mundo, nada lhe parecia mais indigno do que seu secretário e escrivão, Aurelio Brenes.

Aurelio era um homem apagado, de ombros caídos e ternos marrons que cheiravam a naftalina e solidão. Vivia para sua mãe idosa e inválida e para os processos, que organizava com uma meticulosidade quase doentia. Era o contraponto perfeito: a insignificância feita pessoa, um ser sem desejo aparente, ou com um desejo enterrado tão fundo sob o dever e a timidez que se tornara invisível.

— Sua próxima prova de humildade, Renata — sussurrou o magistrado, acariciando-lhe a face com o mesmo dedo que horas antes havia empunhado a vara — será um ato de caridade. Uma esmola de carne. Aurelio é um servo fiel. Merece um pequeno consolo. E você merece aprender que a entrega, para ser absoluta, deve ser indiscriminada.

Damián, informado de imediato, aprovou a ideia com uma mensagem seca. O escárnio com o insignificante humilha mais do que com o poderoso. Siga o roteiro.

A cena foi montada no gabinete privativo, depois do horário de fechamento. Chamaram Aurelio sob o pretexto de uma ditado urgente. Ao entrar, encontrou seu chefe atrás da mesa, com uma taça de conhaque, e Renata de pé junto à janela, recortada pela luz oblíqua da tarde. Ela usava um vestido simples de algodão, justo na cintura.

— Aurelio — começou o magistrado com voz paternal —, sua devoção não passa despercebida. Sua mãe, Deus a guarde, deve estar orgulhosa de um filho tão sacrificado. Hoje quero premiar essa fidelidade.

Aurelio piscou, confuso, os olhos pequenos e cansados indo do juiz à mulher triste e bela que não conhecia.

— A senhora Salgado — continuou Alcázar — está em um processo de expiação. Parte do seu caminho implica atos de generosidade extrema. Ela concordou em lhe oferecer um momento de consolo.

Renata sentiu o chão ceder sob os pés. Aproximou-se com movimentos fluidos, automáticos, como uma sonâmbula. Pegou a mão úmida e trêmula de Aurelio. O homem soltou um leve gritinho, um som de surpresa quase animal. Seus dedos frios e finos se enredaram com desajeitamento nos dela.

— Calma — murmurou Renata, com uma voz que não parecia sua. Guiou a mão dele com uma lentidão que era uma tortura para ambos e a pousou sobre seu peito, sobre o tecido do vestido. A palma de Aurelio suou na hora. Ele a encarou buscando uma zombaria, uma armadilha, e só encontrou um abismo de resignação.

Foi como se uma represa se rompesse. O que veio depois não foi paixão, mas o transbordamento desajeitado de uma fome reprimida durante décadas. Aurelio se atirou sobre ela, não com arrogância, mas com o desespero de um náufrago. Seus lábios finos se esmagaram contra os de Renata; sua língua, tímida primeiro e depois insistente, entrou em sua boca com uma desajeitada torpeza que a fazia se sentir tocada por uma criança grande e assustada. Ele cheirava a café barato e ansiedade.

Com mãos nervosas, abriu os botões superiores do vestido e apalpou os seios em círculos bruscos, como se sovasse pão. Ofegava contra seu pescoço, murmurando incoerências entrecortadas que tanto podiam ser «obrigado» quanto «me desculpe». Renata permaneceu imóvel, a mente a quilômetros dali, ancorada no rosto sereno do magistrado, que aproveitava o espetáculo com o sorriso de um diretor de cena.

O ato, caótico e patético, não durou nem cinco minutos. De repente, os gemidos de Aurelio mudaram de tom, tornaram-se agudos, convulsivos. Seu corpo se retesou e um tremor o percorreu dos pés à cabeça. Uma mancha úmida e escura se espalhou pela virilha da calça de poliéster. Ele tinha gozado sem sequer abrir o cinto, apenas com o atrito e a apalpação.

Afastou-se num salto, como se tivesse tocado um cabo de alta tensão. O rosto estava lívido, coberto de suor frio, os olhos esbugalhados de pânico e culpa. Olhou a mancha, depois para o magistrado, depois para Renata, com o vestido aberto e a pele marcada pelos dedos ansiosos dele.

— Desculpe... Vossa Excelência... eu... minha mãe... — gaguejou, e fugiu da sala tropeçando numa cadeira.

Alcázar deixou escapar uma risada baixa, satisfeita.

— A gratidão dos humildes é tão efusiva, não é, Renata? Você fez uma obra de caridade notável.

Ela abotoou o vestido com dedos que não tremiam. Só sentia um frio interno, mais profundo que qualquer vergonha. Havia chegado ao fundo do poço, e o fundo tinha o rosto babão e assustado de Aurelio Brenes.

***

Como recompensa por sua docilidade, Damián e o magistrado lhe concederam um «benefício» para Marco. Uma visita conjugal, sim, mas não numa cela privada: no pátio da prisão, durante uma daquelas horas de recreio conjugal que, segundo Renata descobriu, eram uma prática sadicamente normalizada naquele complexo.

O cartão que lhe entregaram na guarita era grosseiro, com a tinta borrada: TURNO 8 — PÁTIO B — 30 MIN. Ela o segurava como se queimasse.

O Pátio B era um retângulo de cimento cinza, cercado por muros altos com arame farpado e vigiado das torres e dos corredores do segundo andar, cujas janelas gradeadas se enchiam de rostos de guardas. No centro, separadas por uma distância apenas simbólica, havia camas improvisadas: colchonetes finos ou simples cobertores militares estendidos sobre o cimento, com alguma peça de roupa dobrada como travesseiro. Não havia intimidade alguma. Era um mercado a céu aberto da necessidade, um zoológico humano onde o ato mais privado se tornava espetáculo.

O barulho era ensurdecedor. Uns cinquenta presos, cada um com sua visitante — esposas, namoradas, alguma profissional paga —, ocupavam as camas ou esperavam em pé. Não havia sussurros, e sim gritos para se fazer ouvir acima da algazarra. Risadas grosseiras, incentivos zombeteiros, comentários obscenos dos guardas lá de cima, que nem se davam ao trabalho de disfarçar. Alguns apostavam cigarros ou dinheiro: «Aposto que o magrelo da quatro não aguenta cinco minutos!», «A morena da doze tá ganhando, vejam como se mexe!».

Renata, com Marco de mão dada — uma garra fria e úmida —, observava de um canto, colada à parede gelada. Sua beleza, mesmo com o vestido simples de uma peça só, já atraía olhares lascivos e murmúrios. Mas o que a fazia gelar era a normalidade grotesca da cena.

Viu o casal do turno três: uma mulher robusta, de vestido estampado berrante, que cavalgava o homem com a energia de uma lavadeira esfregando roupa, suando e dando ordens. O turno cinco: uma jovem muito maquiada e trêmula, deitada imóvel sob um homem que se movia como um pistão, o rosto virado para o céu cinzento e os olhos vazios. O turno sete: um casal mais velho que apenas se abraçava e chorava em silêncio, alheio ao caos, um oásis de desolação no meio do circo.

Eram corpos que eram usados, que buscavam consolo ou fuga, tudo envolto numa vulgaridade festiva e violenta. A intimidade havia sido extraída, dissecada e exibida como uma raridade de feira.

Então um guarda com megafone gritou:

— Turno oito! Salgado!

As risadas e as conversas continuaram por mais um instante e depois, como um corte limpo na fita do ruído, o silêncio caiu sobre o pátio. Todas as cabeças — presos, visitantes, guardas nas alturas — se viraram para eles. O caminhar de Renata, levando pela mão um Marco que parecia um autômato, ecoou no cimento. Sua beleza não pertencia àquele lugar. Era um esplendor alheio, uma flor de estufa jogada num lixo, que iluminava a feiura ao redor e, ao fazê-lo, a tornava mais obscena.

Os olhares já não eram só lascivos; eram de pura inveja, de desejo raivoso, de espanto diante de uma mercadoria que jamais poderiam pagar. A tensão no ar era palpável, um zumbido coletivo.

Renata estendeu o cobertor sobre o cimento e se ajoelhou. Guiou Marco com uma ternura mecânica, despiu-o da cintura para baixo e o montou devagar, arqueando as costas. O silêncio era tão absoluto que se ouvia o roçar da lã contra a pele, o ofegar perdido de Marco e o bater acelerado de cem corações que não eram os deles.

Não era só sua figura que hipnotizava, mas a exibição metódica de um catálogo de perfeição que nenhum dos presentes, acostumados à rudeza e ao desgaste, jamais tinha visto em carne viva. Quando se erguia para conduzi-lo dentro de si, seus seios se tencionavam firmes, coroados por mamilos de um rosa pálido, túrgidos não por desejo, mas pelo frio. A cada balanço lento dos quadris, eles saltavam com um movimento suave e elástico que capturava a escassa luz da tarde.

Ao inclinar-se para sussurrar algo inaudível a Marco, a coluna lhe marcava sob a pele como um rosário de pérolas afundadas. Dos ombros, a linha se estreitava numa cintura impossível antes de se abrir na curva generosa dos quadris. Era a clássica silhueta de ampulheta, mas ali, na aspereza do cimento, adquiria um caráter quase mítico, obsceno em sua perfeição.

Sua pele era uniforme, sem uma única marca do mundo: nem tatuagens, nem cicatrizes, nem estrias. Uma tela imaculada que fazia os corpos castigados pela vida ao redor parecerem grosseiros e sujos. A luz acinzentada parecia aderir a ela e criar uma aura leitosa que contrastava brutalmente com o suor e a sujeira do entorno.

Quando se abria sobre Marco, o triângulo escuro e bem cuidado de seus pelos se tornava o centro de todos os olhares, separando-se apenas o suficiente para revelar, no instante crucial, o brilho úmido da união. Era uma intimidade violada e, ao mesmo tempo, exibida com uma clareza quase cinematográfica; muitos prenderam a respiração. E, quando ela se movia, o contorno firme das nádegas se retesava e relaxava a cada impulso, suas coxas longas abrindo-se e fechando-se com a graça de uma bailarina, mostrando e ocultando a união num jogo que aumentava a tensão no ar.

Eram um quebra-cabeça de perfeição carnal que se montava diante deles, cada peça uma provocação, cada visão um agravo à própria realidade miserável deles.

Contudo, naquela multidão hipnotizada, dois homens não viram apenas um espetáculo. Viram uma possibilidade. Um desejo que deixava para trás a contemplação e se convertia em vontade de posse.

O carcereiro Robles, de sua torre, não ergueu os binóculos; deixou-os sobre a mesa. Seus olhos velhos, cercados por rugas de desconfiança, gravavam a cena com calma profissional. Robles havia ascendido não por mérito, mas por saber mover peças no tabuleiro escuro do poder carcerário: a quem olhar, a quem não ver, a quem entregar um pacote, a quem negar um favor. Estava a dois anos de uma aposentadoria dourada, comprada com silêncios. A beleza de Renata não lhe provocou excitação imediata, mas uma avaliação fria de seu valor. Um objeto tão requintado num lugar tão sórdido só podia significar uma coisa: alguém muito poderoso a estava colocando em cena. E se pudesse desviá-la? Reivindicá-la? Sua imaginação, treinada na corrupção, não via uma mulher fazendo amor, mas um ativo de luxo, e calculava o custo, o risco e o benefício de uma «sessão privada» com uma peça daquelas.

O outro homem era o Cuervo, líder não oficial da galeria onde mantinham Marco preso. Não era o maior, mas sim o mais astuto: o que tecia alianças, controlava o contrabando e decidia quem sofria e quem gozava de pequenos privilégios. Do círculo de presos que observava, seus olhos negros não se detiveram nos seios nem na pele de Renata. Cravaram-se em sua expressão. Viu a determinação, a dor, a dissociação. Viu uma leoa enjaulada atuando para salvar sua cria moribunda.

E, naquele instante, não desejou seu corpo da maneira simples e brutal dos demais. Desejou sua vontade. Imaginou-se não a tomando no pátio, mas quebrando-a devagar na privacidade de seu domínio, nos cantos cegos da galeria; transformar aquela beleza orgulhosa e trágica em um troféu exclusivo que provasse seu poder não só sobre os homens, mas sobre o que era belo e alheio àquele inferno. A excitação do Cuervo foi mais profunda e mais perigosa: a luxúria do poder absoluto sobre algo puro. Para ele, Renata já não era a mulher do turno oito. Era a presa definitiva, e sua mente começou a tecer ali mesmo os primeiros fios de um plano para reivindicá-la.

Enquanto Renata continuava sua dança lenta e desesperada sobre Marco, alheia às tormentas que despertava naquelas duas mentes, o feitiço coletivo se mantinha. Mas as sementes de um perigo novo, mais pessoal e predatório, já estavam plantadas. O pátio se calara para admirar a beleza; e, em seu silêncio, dois homens haviam decidido que admirar não lhes bastava.

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