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Relatos Ardientes

O juiz impecável e seu confessionário privado

A carta chegou sem remetente, datilografada em papel grosso, e Marlene a leu três vezes antes de aceitar que era real. A situação de Daniel, dizia, havia entrado em uma fase crítica. A audiência preliminar seria em vinte dias. O juiz designado era o magistrado Anselmo Cardona, conhecido por sua integridade impecável, sua fé devota e seu histórico de sentenças inflexíveis. Um homem casado, pai de três filhas, um pilar moral intocável.

Essa imagem é uma fachada. Era o que dizia a carta, com uma frieza que lhe gelou as mãos.

O tal Cardona pertencia a um círculo discreto e antigo, em que os conceitos de culpa, penitência e redenção se entrelaçavam com apetites muito mais terrenos. Ele apreciava o teatro da virtude pública enquanto, em privado, encontrava prazer em corromper o que ele mesmo chamava de pureza. A submissão ritualizada. O controle absoluto disfarçado de guia espiritual. A missão de Marlene, escrevia aquele V. que assinava ao final, era tornar-se o objeto de seu vício.

Nas noites de sexta-feira, o magistrado frequentava um clube privado chamado El Cenáculo, oculto atrás da fachada de uma livraria de teologia no centro histórico. Ali sua identidade ficava enterrada sob um pseudônimo e uma máscara de circunstâncias. A carta incluía um código de convite, um endereço e uma única instrução final: depois, só obedeça.

E, abaixo, a ameaça, sem a qual nenhuma mulher sã teria aceitado: qualquer negativa não significaria apenas vinte anos de condenação para Daniel, mas certas fotografias e certos detalhes de sua «cooperação» chegariam à imprensa, pintando-a como cúmplice e degenerada. Daniel veria tudo de sua cela.

***

O cheiro de papel velho, cera de piso e incenso suave inundava a livraria Códice. Marlene, com o terno de tweed escuro que lhe arranhava a pele como uma penitência antecipada, sentiu o código arder em sua mente. O livreiro, um idoso de olhos claros e vazios, conduziu-a sem uma palavra até uma estante giratória que revelou uma porta de carvalho maciço.

El Cenáculo era uma sala de teto alto, iluminada por velas e luminárias com cúpulas de pergaminho. Sofás de couro, mesas baixas, estantes com volumes encadernados em couro. O murmúrio era baixo, civilizado. Homens de terno e algumas mulheres elegantes conversavam em pequenos grupos. Não havia música, apenas o ranger ocasional do couro e o tilintar de uma taça.

Reconheceu Anselmo Cardona de imediato. Estava em pé junto a uma lareira apagada, segurando um volume de Santo Agostinho. Não usava toga, mas um suéter de caxemira escura sobre uma camisa impecável. Seus óculos de tartaruga refletiam a luz das velas. Tinha o rosto sereno, talhado, uma boca de linha fina e uns olhos de clareza glacial que a examinaram à distância assim que ela entrou.

Seguindo as instruções, Marlene dirigiu-se à seção de Direito Canônico. Fingiu interessar-se por um tomo de comentários. Seu coração batia com tanta força que ela temeu que fosse ouvido em toda a sala.

— Um texto severo — disse uma voz suave, educada, bem atrás dela —. Fala do poder de ligar e desligar. Interessam-lhe os fundamentos da autoridade?

Marlene se virou. Os olhos claros do magistrado a sustentaram. Não havia lascívia neles, apenas uma curiosidade intensa.

— Me interessa o abismo entre a justiça que se professa e a que se executa — respondeu, com uma voz que conseguiu manter estável.

Uma sobrancelha arqueou-se levemente.

— Um abismo povoado por fracassos humanos. Fala da teoria ou da experiência?

— Da desilusão — sussurrou ela, baixando o olhar, executando o roteiro da ferida moral que esperavam dela.

Assim começou. A conversa fluiu durante uma hora. Ele era brilhante, erudito; citava Tomás de Aquino e Beccaria com igual naturalidade. Ela mostrava argúcia, mas deixava transparecer uma dor profunda, uma sensação de injustiça pessoal. Ele se mostrou compreensivo, quase paternal no início. Depois, gradualmente, seu tom foi mudando.

— A lei — disse em certo momento, aproximando-se um pouco mais — é um espelho que devolve a imagem de nossa natureza caída. Para sermos julgados com clemência, às vezes é preciso demonstrar que reconhecemos essa queda. E que estamos dispostos a nos submeter ao processo de restauração. Por mais doloroso que seja.

O convite para passar a uma sala de estudo privada foi quase uma ordem cortês. Marlene, com um nó de gelo no estômago, assentiu.

***

A sala era um híbrido entre gabinete e oratório. Uma cruz de madeira na parede, um genuflexório, uma mesa austera e uma poltrona larga de couro que dominava o centro. Ele fechou a porta, e o ar mudou. A máscara do erudito começou a cair.

— Tire os óculos, por favor.

A voz era a mesma, mas havia nela uma vibração nova, de antecipação. Marlene obedeceu.

— Agora me diga. Até onde vai o seu desespero? Que valor tem para você a liberdade do seu marido?

Ela começou a falar. Do medo, da culpa por não ter visto os sinais a tempo, da esperança já quase quebrada. Ele a escutou imóvel, com os dedos unidos diante da boca.

— Bem — disse por fim —. A consciência do erro é o primeiro passo. Mas a redenção exige prova. Está disposta a ser julgada? A aceitar um veredicto sobre a sua pessoa, sobre a sua vontade?

— Sim — disse Marlene, e a palavra soou como rendição total.

— Desvista-se. Lentamente. Que cada peça que caia seja uma vaidade que se abandona.

Foi uma tortura de lentidão exquisita. Sob o olhar gélido e avaliador dele, ela se despojou do terno, da blusa de seda, das meias finas que ele observou com um brilho nos olhos, até ficar em pé, trêmula, na penumbra. Ele não a tocou. Apenas a contemplou, como um escultor estuda o mármore antes do primeiro golpe.

— Deite-se sobre o genuflexório. De bruços. Ofereça as mãos.

Ele pegou uma régua de madeira da mesa.

— A lei é clara, e sua aplicação, às vezes, precisa ser tangível. Você busca um milagre judicial. Os milagres, na minha experiência, exigem fé. E sacrifício.

O primeiro golpe, sobre as palmas estendidas, foi seco e preciso. Uma dor aguda lhe subiu pelos braços.

— Aceita o rigor?

— Sim — ela arfou.

O castigo continuou, alternado com perguntas insidiosas que a obrigavam a declarar-se indigna, a confessar desejos que não tinha, a agradecê-lo pela correção. Cada golpe da régua, cada roçar de uma correia de couro macio sobre as plantas dos pés e a curva das nádegas, era medido, seguido por um instante de consolo calculado: uma mão firme no ombro, um pano úmido e frio sobre a pele em brasa. O sádico e o redentor em um só homem. Ele se excitava com a submissão verbal dela, com suas lágrimas silenciosas, com o espetáculo de uma dignidade desmontada peça por peça.

Quando considerou suficiente a prova, deu a ordem final.

— Vire-se. De costas. Abra-se para mim.

Marlene, com movimentos que pareciam operados por polias alheias à sua vontade, obedeceu. A madeira rangeu sob seu peso. A pele, tensa e sensibilizada, ardia em linhas vermelhas que pulsavam no ritmo do seu coração. O ar frio da sala tocou pela primeira vez uma parte dela que nunca se sentira tão exposta. Seu corpo, num reflexo de absoluta contradição, arqueou-se apenas em direção a esse contato, buscando o alívio enganoso do frio no próprio lugar de sua maior humilhação.

Ele pegou de novo o pano, desta vez mais encharcado, e o deslizou com uma pressão deliberada, lenta, ritual, enquanto a respiração dele se tornava um pouco mais audível. Observava-a como um perito que registra cada espasmo, cada estremecimento involuntário, para uma sentença futura. Marlene fechou os olhos com força, preparando-se para o selo final de sua degradação.

Mas o empurrão não veio.

Ao abrir os olhos, ela o viu mordendo o dorso da própria mão, os nós dos dedos brancos de pressão. Os olhos dele queimavam numa luta feroz entre o desejo e a necessidade de manter o controle absoluto. Para ele, ceder sem mais à posse teria sido um ato vulgar, uma rendição a um impulso comum. Seu poder residia na contenção, em forçar a submissão por outros canais.

Ele recuou um passo. Quando falou, sua voz estava rouca, raspada pela tensão.

— Não. Assim não. O perdão não se toma. Recebe-se. De joelhos.

O alívio que Marlene sentiu por evitar o que temia foi tão agudo quanto uma nova dor. Uma misericórdia perversa. Desceu do genuflexório com as pernas fracas e ajoelhou-se sobre o tapete. Ele se colocou diante dela. A máscara de compostura havia desaparecido por completo; em seus olhos claros ardia agora uma posse libidinosa e fria.

— O veredicto — disse, desapertando o cinto com uma calma estudada — é que a clemência se conquista com a entrega total. Não só do corpo. Do fôlego, do último reduto de vontade. Você é a súplica. E eu sou a resposta.

O que se seguiu foi uma liturgia lenta e silenciosa. Marlene desprendeu-se de si mesma. Olhou por um instante a cruz de madeira sobre a cabeça, na parede, enquanto seu corpo se convertia em um instrumento de negociação legal. Ela o tomou na mão, sentindo o peso, o calor, a pulsação da pele tensa, e inclinou-se.

Foi um ato de execução técnica, vazio de toda emoção, salvo um nojo profundo e uma fria determinação. Percorreu-o primeiro com a ponta da língua, devagar, sentindo a pele se contrair sob o contato. O sabor era salino, terroso, o sabor da coerção em si. Quando enfim o recebeu na boca, fez isso com lentidão deliberada, medindo cada movimento, deixando a pressão subir e descer como uma maré. Sua garganta se fechava em espasmos involuntários de rejeição que, de um modo perverso, só o excitavam mais; ele emitiu um som abafado, perdendo por um instante o domínio que tanto lhe importava.

Sentiu-o tornar-se de uma dureza pétrea, as veias marcadas sob a língua, a respiração do magistrado entrecortada e rítmica. Quando vieram as primeiras contrações profundas, ela não o retirou. Manteve a boca selada em torno dele. O fim veio morno e espesso, mais amargo do que esperava, e ela o recebeu por inteiro, moveu-o com a língua apenas uma vez, registrando-o com aquela parte clínica do cérebro que se recusava a abandoná-la, e engoliu. Sentiu o caminho quente descer pela garganta.

Ela não se apressou. Limpou-o com a língua, devagar, como um último gesto de servilismo completo, e só então se separou.

***

O juiz recompôs-se em silêncio. Não houve palavras de triunfo, nem de agradecimento. Apenas a evidência física do ato e o ruído do tecido ao subir o zíper. Lavou as mãos numa bacia de porcelana que havia num canto. Depois se aproximou de Marlene, que continuava no chão, e a cobriu com sua própria jaqueta de tweed.

— O processo de apelação do seu marido começará na próxima semana — disse, com a voz novamente serena, profissional —. Haverá irregularidades processuais que convém assinalar. A prisão domiciliar será uma opção sobre a mesa. Sua colaboração na busca da justiça ficou registrada.

Não era uma promessa. Era um fato. Um pagamento acertado.

Marlene se vestiu em silêncio, cada peça uma laje a mais sobre o peito. Ao sair de El Cenáculo, a noite fria lhe golpeou o rosto. Não sentiu alívio, nem sequer nojo. Só um vazio enorme, a sensação de ter se tornado um canal, um objeto usado para lubrificar os engrenagens de uma justiça pervertida.

A carta tinha razão. Não a haviam entregue a um bruto, mas a um conhecedor, a um homem que encontrava o prazer supremo no sabor amargo da virtude que se dobra. O rigor já não vinha da lei. Vinha da sua perversão, e ela se tornara cúmplice necessária. As últimas palavras daquele V. brilharam em sua mente como uma verdade final: sua misericórdia tem um preço que só você pode pagar em moeda de carne e alma.

E Marlene acabava de começar a pagá-lo. Em parcelas.

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