O que vi nos olhos da amante do meu pai
Há coisas que uma não escolhe. Eu não escolhi esse dom, nem escolhi as verdades que ele me obriga a ver. Desde que me entendo por gente, basta olhar alguém nos olhos para saber quem essa pessoa realmente é. Eu não leio pensamentos, não é isso. É algo mais sutil, mais profundo: uma voz interior que me diz se aquela pessoa mente, se sofre, se esconde algo. Minha avó Lucía já tinha isso antes de mim. Dizia que era uma bênção. Eu, aos vinte e três anos, ainda não tinha certeza disso.
Tudo começou no verão em que meu pai alugou aquele apartamento na costa. Depois que mamãe foi embora com aquele cara do trabalho dela, papai ficou arrasado. Levou anos para se recompor, e quando finalmente parecia que estava voltando a sorrir, apareceu Lorena.
Lorena era a esposa de Martín, um homem que tínhamos conhecido no condomínio. Martín era engenheiro, tranquilo, daqueles tipos que abrem a porta e perguntam com interesse genuíno como foi o seu dia. Tinha os olhos mais transparentes que eu já tinha visto. Quando o olhei pela primeira vez, senti algo que raramente sentia: paz. Não havia falsidade nele, nem escuridão, nem cálculo. Era exatamente o que parecia ser: um homem bom.
Lorena, por outro lado, me causou um arrepio imediato.
A primeira vez que cruzei o olhar com ela foi na piscina do condomínio. Usava um maiô preto que marcava cada curva do corpo e se movia com aquela segurança estudada de quem sabe que está sendo observada. Sorriu para mim, e eu retribuí por educação. Mas, quando nossos olhos se encontraram, a voz interior falou com clareza: mentirosa, calculista, faminta.
Não faminta por comida. Faminta por picas.
Meu pai, Sergio, caiu nas redes dela como um adolescente. E isso apesar de ter cinquenta e dois anos e um divórcio brutal nas costas. Mas Lorena sabia exatamente quais botões apertar. Esbarrava nele ao passar, servia o vinho se inclinando um pouco mais do que o necessário para deixar o decote chegar até os seios, fazia perguntas sobre o trabalho dele com aquele olhar de falsa admiração que eu detectava a quilômetros.
— Ela é simpática, não é? — me disse papai uma tarde, enquanto secava a louça.
— Não gosto dela — respondi sem rodeios.
— Sempre tão intensa, Renata.
Papai não entendia. Nunca entendeu meu dom por completo. Atribuía aquilo à intuição feminina, à minha faculdade de psicologia, a qualquer coisa que lhe parecesse racional. E eu não insistia, porque as poucas vezes em que disse a verdade sobre alguém, acabamos discutindo.
***
A situação se precipitou numa sexta-feira à noite. Papai me pediu para sair, para não voltar tarde. Disse que precisava do apartamento, que ia “conversar umas coisas” com Lorena. Que Martín sabia. Que estava tudo acertado.
Mentira.
Percebi na hora, porque o olhar dele fugiu do meu. E meu pai nunca fugia do meu olhar.
Saí do prédio com um nó no estômago. Caminhei até a orla, sentei num banco e fiquei olhando o mar. A brisa bagunçava meu cabelo e o som das ondas deveria ter me acalmado, mas eu não conseguia parar de pensar em Martín. Em seus olhos limpos. Em como o estavam traindo sem que ele suspeitasse de nada. Enquanto eu olhava o horizonte, sabia perfeitamente o que estava acontecendo naquele apartamento: Lorena montada no meu pai, gemendo como uma cadela no cio, com a boceta encharcada engolindo a rola de um homem que não era o marido dela. A imagem me dava náusea, e ainda assim eu não conseguia afastá-la.
Voltei às duas da manhã. Subi as escadas devagar, com o coração martelando nas têmporas. Abri a porta com cuidado. O apartamento estava em silêncio, mas cheirava a perfume alheio e a outra coisa. Algo denso, animal, inconfundível: cheirava a sexo, a porra, a boceta usada. Papai dormia no quarto com a porta entreaberta. Sozinho, com os lençóis bagunçados e uma mancha escura no meio do colchão.
Espiei a sala. Sobre a mesa havia duas taças de vinho, uma com a marca do batom de Lorena. A outra, com as impressões do meu pai. Eu não precisava de mais provas, mas, ainda assim, elas estavam lá: um lenço esquecido no sofá, uma presilha de cabelo debaixo de uma almofada e, sobre o tapete, uma calcinha preta embolada. Peguei-a com dois dedos, como quem levanta um animal morto. Ainda estava úmida. Me arrepiei de nojo.
Sentei no escuro da varanda e chorei. Não por mim. Por Martín.
***
Os dias seguintes foram um inferno silencioso. Papai agia normalmente diante de Martín, dava tapinhas nas costas dele, oferecia cerveja, perguntava dos projetos de engenharia. E eu os observava da minha espreguiçadeira, com os óculos escuros como escudo, sentindo uma raiva fria que me apertava o peito.
Lorena, por sua vez, circulava entre os dois homens como se estivesse regendo uma orquestra. Um toque aqui, uma risada ali. Diante de Martín, era a esposa devotada. Diante do meu pai, quando Martín não via, era outra coisa. Algo voraz, felino, obscuro. Uma tarde, vi ela enfiar a mão por baixo do short de banho do meu pai enquanto Martín estava a três metros, virando os chouriços. Agarrou a rola dele, apertou por cima do tecido e sussurrou algo no ouvido dele. Papai ficou vermelho até as orelhas, e ela se afastou rindo baixinho, rebolando com uma insolência que me queimou os olhos.
Num meio-dia, enquanto Martín e meu pai assavam carne na varanda, fiquei sozinha com Lorena na cozinha. Ela lavava uma alface e eu cortava tomates. O silêncio entre nós era denso, carregado.
— Seu pai é um homem encantador — disse ela sem me olhar.
— É. Tão quanto Martín — respondi, medindo cada palavra.
Ela virou o rosto. Nossos olhos se cruzaram. E a voz interior gritou: desprezo, tédio, fome, nenhum remorso. Lorena não amava Martín. Provavelmente nunca o amou. Usava-o como uma base segura da qual podia se jogar para transar com qualquer outro que acendesse sua boceta.
— Martín é um bom homem — disse eu, sustentando o olhar dela.
— Bom demais, às vezes — respondeu com um meio sorriso que me embrulhou o estômago —. Um homem bom demais nem sempre sabe como tratar uma mulher na cama, entendeu? Às vezes a gente precisa de algo mais… bruto.
Passou a ponta da língua no lábio inferior e continuou lavando a alface como se tivesse comentado sobre o clima.
***
Nessa mesma noite, tomei uma decisão. Eu não ia permitir que isso continuasse.
Procurei Martín no dia seguinte. Encontrei-o na piscina, nadando voltas com aquela disciplina metódica tão dele. Esperei ele sair da água e me sentei ao seu lado na beira. Ele me sorriu com a inocência de sempre, sacudindo o cabelo molhado.
— Está tudo bem, Renata?
— Preciso falar com você. Mas não aqui.
Algo no meu tom o alertou. O sorriso dele se apagou e ele assentiu sem perguntar mais. Marcamos no café da esquina, uma hora depois.
Quando cheguei, ele já estava sentado numa mesa do fundo, com um café intocado à sua frente. Ele me olhou com aqueles olhos transparentes e eu soube que, no fundo, já pressentia alguma coisa. Pessoas boas sentem a traição antes de confirmá-la. O ar dói nelas antes da tempestade.
— É sobre Lorena e meu pai — disse sem rodeios.
Martín não se moveu. Não piscou. Só apertou os lábios e assentiu uma vez, devagar, como se estivesse confirmando algo que o próprio corpo já sabia.
Contei tudo. Os olhares que eu tinha flagrado, o perfume, as taças, a presilha, a calcinha no tapete. Não contei sobre meu dom. Não era necessário. Os fatos falavam por si.
Quando terminei, o silêncio entre nós era tão denso que parecia possível tocá-lo. Martín olhava para o café com os olhos úmidos, mas não chorava. Tinha aquela contenção dos homens que processam a dor para dentro, comprimindo-a até transformá-la em algo duro e silencioso.
— Obrigado — disse enfim, com a voz rouca —. Não sei por que estou te agradecendo, mas obrigado.
Segurei a mão dele sobre a mesa. Foi um gesto instintivo, sem cálculo. E, quando nossa pele se tocou, senti algo que não esperava. Um calor subindo dos dedos ao peito, uma corrente suave e firme que me deixou sem fôlego. Um puxão lá embaixo, entre as pernas, que me fez cerrar as coxas sob a mesa.
Não agora, pensei. Não assim.
Mas o dom não entende de oportunidades nem de decência. E o que ele me dizia, com uma clareza brutal, era que aquele homem à minha frente era feito de algo extraordinário.
***
As semanas seguintes foram um caos controlado. Martín confrontou Lorena. Ela negou tudo no começo, chorou depois, implorou por fim. Martín a ouviu com uma paciência que me espantou e, então, pediu que ela fosse embora. Sem gritos, sem insultos. Só uma frase: “Já não acredito em você, e, sem isso, não sobra nada”.
Meu pai, por sua vez, teve a decência de se envergonhar quando o confrontei. Disse o que pensava sem poupar palavras. Lembrei a ele do que tinha sofrido quando mamãe o traiu. Perguntei como podia fazer exatamente a mesma coisa com outro homem. Ele não teve resposta. Só baixou a cabeça e murmurou que tinha se deixado levar, que Lorena o procurava, que ele estava sozinho.
— Estar sozinho não te dá o direito de destruir outra pessoa, papai.
Ele não falou comigo durante três dias. Depois, numa manhã, me encontrou na cozinha e me abraçou sem dizer nada. Senti naquele abraço algo que não sentia havia anos: arrependimento genuíno.
***
Com Martín, a relação cresceu devagar. No início, era só apoio mútuo: eu o ouvia processar sua dor, ele me ouvia falar da minha carreira, dos meus medos, das coisas que eu via nos outros e que às vezes pesavam demais em mim. Nos encontrávamos naquele café que virou nosso refúgio, e as conversas se estendiam até o garçom começar a varrer ao redor da nossa mesa.
Numa noite de setembro, caminhando pela orla, Martín parou e me olhou. A lua iluminava metade do rosto dele e o vento bagunçava seu cabelo. Pegou minha mão, exatamente como eu tinha feito com ele naquela vez no café, e disse:
— Renata, vou te beijar. Mas preciso que você saiba que não é por despeito, nem por solidão, nem por vingança. É porque, desde aquela tarde no café, não consigo parar de pensar em você.
Olhei nos olhos dele. A voz interior, aquela que nunca mente, me disse: verdade, desejo, medo, ternura. Tudo misturado, tudo autêntico.
— Então me beija — falei.
E ele me beijou. Devagar no começo, como quem prova algo frágil. Os lábios dele eram suaves, com gosto de sal por causa da brisa. Cercou minha cintura com as mãos e me puxou contra o corpo dele. Senti o calor dele através da roupa, a batida do coração contra meu peito, a firmeza dos braços que não apertavam, mas sustentavam. E senti também, duro e pesado contra meu ventre, o formato inconfundível da rola dele pressionando o tecido da calça. Me pressionei contra ele, roçando o quadril devagar, e ele soltou um gemido baixo dentro da minha boca.
Nos separamos só quando o ar faltou. Ele me olhou com aqueles olhos transparentes que agora tinham algo novo: um brilho, uma fome limpa, uma permissão.
— Vamos para o meu apartamento — murmurei.
***
Não acendemos as luzes. A claridade da lua entrava pela janela do quarto e banhava a cama com uma luz azulada. Martín me beijava o pescoço enquanto eu desabotoava a camisa dele com dedos trêmulos. Não de nervoso. De antecipação. Da certeza de que o que estava prestes a acontecer ia me marcar.
Ele tirou minha blusa com uma lentidão que me desesperava e me fascinava ao mesmo tempo. Os dedos dele percorreram meus ombros, minhas clavículas, a borda do sutiã. Ele me olhava como se estivesse me memorizando.
— Você é linda — disse ele, e a voz interior confirmou: ele diz isso de verdade.
Desabotoei o cinto dele e baixei o zíper com as duas mãos. O tecido da cueca estava tenso, marcado pelo volume duro da rola dele. Toquei por cima, apertando com a palma, e senti ela pulsar contra meus dedos. Martín fechou os olhos e respirou fundo.
— Se você me tocar assim, não vou durar nada — murmurou, com um meio sorriso.
— Então é melhor eu tirar logo.
Baixei a calça e a cueca de uma vez. A rola dele saltou para fora, grossa, dura, com a cabeça avermelhada e uma gota transparente já aparecendo. Ajoelhei diante dele sem pensar duas vezes. Olhei para cima, segurando a base com uma mão, e passei a língua dos ovos até a glande, num lambido lento e faminto. Martín gemeu e pousou uma mão na minha nuca, sem empurrar, só acompanhando.
Enfiei tudo na boca, até onde consegui, e comecei a chupar a rola com vontade, subindo e descendo, deixando a saliva escorrer pelo corpo dele. Lambi os ovos, chupei um por um, e voltei para a glande, apertando os lábios na ponta, fazendo círculos com a língua sobre o freio. Sentia a rola dele inchar ainda mais dentro da minha boca, pulsar contra o meu palato.
— Renata, para… para ou eu vou gozar agora.
Olhei para ele com a boca cheia e tirei a rola devagar, deixando um fio de saliva pendurado entre meus lábios e a glande. Limpei o canto da boca com o polegar e sorri.
Ele me ergueu do chão agarrando meus braços, me jogou contra a parede do quarto e me beijou com uma urgência nova. Arrancou minha saia e minha calcinha quase ao mesmo tempo. Fiquei nua diante dele, com as costas coladas na parede fria, enquanto ele se ajoelhava também.
Abriu minhas pernas com as mãos, olhou minha boceta de perto e soprou devagar contra os lábios já encharcados. Me arrepiei inteira. Depois enfiou o rosto e começou a me comer sem piedade. A língua entrava e saía, subia até o clitóris, fazia círculos, colava de plano e pressionava. Chupou os lábios menores, mordiscou de leve meu clitóris, enfiou dois dedos em mim e os curvou para cima enquanto continuava me lambendo.
Eu não conseguia me sustentar. Agarrei os ombros dele, depois o cabelo dele, depois a parede. Gemia sem vergonha, de boca aberta, ofegando o nome dele. Sentia minhas pernas tremendo, a boceta escorrendo dentro da boca dele, a língua quente me devorando sem me dar trégua.
— Vou gozar… Martín, vou gozar na sua boca…
Ele acelerou. Os dedos entrando e saindo, a língua cravada no clitóris, a boca sugando. O orgasmo me partiu em dois. Gritei e me arqueei contra a parede, com as pernas se fechando sobre a cabeça dele, sentindo minha boceta se contrair em espasmos ao redor dos dedos dele. Ele não parou. Continuou lambendo, engolindo tudo, até que eu o empurrei pelos ombros porque não aguentei mais.
Ele me levou para a cama em dois passos e me jogou de costas no colchão. Se acomodou entre minhas pernas, passou a rola pela fenda da minha boceta, molhando a glande com meus fluidos, e esfregou a ponta no clitóris com lentidão calculada.
— Mete logo — eu implorei —. Não aguento mais.
Ele afundou de uma só vez, até o fundo, e nós dois gememos em uníssono. A rola dele me preenchia inteira, apertada, pulsando dentro de mim. Ele ficou imóvel por um instante, respirando colado ao meu pescoço, e então começou a se mover. Devagar no começo, saindo quase inteira e voltando de uma vez seca, até que as investidas se aceleraram e o som úmido dos nossos corpos encheu o quarto.
Cravei as unhas nas costas dele. Ele levantou uma das minhas pernas, apoiou no ombro, e começou a me foder num ângulo novo, mais fundo, que fazia estrelas surgirem atrás das minhas pálpebras. Cada investida me sacudia sobre o colchão, me fazia gemer mais alto, me empurrava para outro orgasmo.
— Vira — disse ele com a voz rouca.
Virei e fiquei de quatro. Senti as mãos dele abrirem minhas nádegas, a rola encostando na entrada da boceta e, depois, a penetração profunda, brutal, até o fundo. Ele agarrou meus quadris com as duas mãos e começou a me foder com força, os ovos batendo no meu clitóris a cada golpe.
— Assim, assim, me dá mais — gemia eu, com o rosto colado no travesseiro, o cu levantado, a boceta escorrendo.
Ele puxou meu cabelo, agarrou um dos meus seios, apertou o mamilo entre os dedos. Eu podia sentir a rola dele pulsando dentro de mim, a umidade correndo pela parte interna das minhas coxas, o prazer subindo pela minha coluna como uma descarga elétrica.
— Vou gozar outra vez… não para, por favor, não para…
— Não paro, meu amor. Goza pra mim. Goza na minha rola.
O segundo orgasmo me varreu. Contraí-me com força ao redor da rola dele, gritando contra o travesseiro, com o corpo inteiro tremendo. Senti Martín acelerar, perder o ritmo, se tensionar. Ele cravou os dedos nos meus quadris e afundou até o fundo numa investida final.
— Dentro não… me diz onde — ofegou.
— Dentro. Goza dentro.
Ele gemeu meu nome contra minhas costas e se derramou dentro de mim com um tremor longo que percorreu todo o corpo dele. Senti os jatos quentes de porra me inundando, a rola pulsando a cada descarga, os quadris dele colados no meu cu enquanto esvaziava até a última gota.
Desabamos de lado sobre a cama, ainda unidos, ofegantes. Ele me abraçou por trás, beijou meu ombro, e senti a rola dele sair devagar, seguida por um filete morno que escorreu pela minha coxa. Não precisaram palavras.
Ficamos abraçados, suados, com as pernas enredadas e os lençóis bagunçados. Acariciei o braço dele e ele beijou minha testa. Lá fora, o mar continuava a fazer seu barulho.
***
Aquilo não foi só uma noite. Martín e eu construímos algo que nenhum dos dois esperava. Eu me formei em psicologia e comecei a trabalhar como terapeuta de casais. Meu dom acabou se tornando, enfim, a bênção que minha avó sempre disse que era. Eu conseguia detectar com precisão onde a confiança se quebrava num relacionamento, quem mentia e quem sofria em silêncio.
Martín retomou a carreira com uma energia renovada. Mudamo-nos juntos para um apartamento perto do centro, com uma varanda de onde se via o mar ao longe. Tivemos dois filhos. Toda manhã, antes de eles acordarem, Martín me levava café na cama e me olhava com aqueles olhos que nunca aprenderam a mentir.
Quanto ao meu pai, o que posso dizer? Aprendeu a lição. Demorou, mas aprendeu. Anos depois, quando mamãe reapareceu pedindo perdão, ele a escutou. E, com o tempo, a perdoou. Não sei se eu teria conseguido fazer o mesmo, mas essa não era minha decisão.
Lorena desapareceu de nossas vidas como o que era: uma sombra passageira que acreditou que podia apagar a luz de um homem bom. Não conseguiu. Martín era luminoso demais para isso.
Às vezes, à noite, quando as crianças dormem e a casa está em silêncio, Martín me abraça por trás enquanto eu olho o mar da varanda. Ele beija meu pescoço, morde minha orelha e desliza uma mão por baixo da minha camisola até encontrar meus seios. Pergunta no que estou pensando.
— Em como tive sorte — digo sempre.
Mas a verdade é mais complexa. Penso que a vida é um emaranhado de traições e perdões, de dor e desejo, de decisões que nos quebram e outras que nos reconstruem. Penso que meu dom me mostrou o pior de muita gente, mas também me levou até a melhor pessoa que eu conheço.
E penso que, no fim, a justiça nem sempre chega com castigo. Às vezes ela chega com amor. E com uma boa foda à beira-mar.