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Relatos Ardientes

A manhã em que me defendeu diante da irmã dela

O sol das nove entrava pela persiana quando senti seus lábios nas minhas costas. Não era um beijo de bom-dia nem uma carícia casual: eram os lábios de Camila com tudo o que isso implicava, lentos e precisos, seguindo a curva da minha coluna vertebral dos ombros para baixo. Não sei há quanto tempo eu estava assim. Tinha passado de dormir para não dormir sem perceber o momento exato.

Me virei para olhá-la. Ela estava com o cabelo preto solto sobre os ombros e os olhos com aquela expressão concentrada que assumia quando estava gostando de alguma coisa de verdade. Passei os braços em volta dela e nos beijamos longamente, sem pressa. Suas mãos encontraram meus seios de imediato, apertando-os com firmeza, roçando os mamilos com os polegares, como se soubessem exatamente aonde ir, e meu corpo respondeu antes que eu conseguisse pensar sequer.

Ela beijou meu pescoço. As clavículas. Desceu pelo esterno com aquela paciência dela que me tirava do sério da melhor maneira possível. Quando chegou aos meus mamilos, me arqueei sem querer e ela ficou ali, lambendo, chupando, mordiscando de leve, saboreando a reação, sabendo exatamente o efeito que me causava. Entre minhas pernas comecei a me molhar, sentindo como a excitação abria meu corpo, como minha respiração se cortava toda vez que sua língua roçava minha pele.

Segurei seu cabelo e a conduzi para baixo. Ela não ofereceu a menor resistência.

Ela se acomodou entre minhas pernas e eu me abri para ela. Me segurou pelas coxas com as duas mãos e enterrou o rosto na minha xana com uma segurança que me desarmou na hora. Primeiro me lambeu devagar, provando, percorrendo os lábios da minha boceta com a ponta da língua, e depois começou a me comer como se estivesse realmente com fome. Senti sua língua se mover no mais fundo, alternando pressão e pausa, subindo para buscar meu clitóris, voltando a descer, me abrindo com a boca e com a língua como se quisesse conhecer cada dobra por dentro. Eu gemia sem conseguir evitar, me agarrava ao travesseiro, abria e fechava os punhos sobre os lençóis, e toda vez que ela sugava meu clitóris com um pouco mais de força eu me retorcia inteira. Quando enfiou dois dedos na minha boceta ao mesmo tempo em que continuava me lambendo, fui ficando sem ar. Sentia o calor da sua boca, o vai e vem dos seus dedos entrando e saindo, o formigamento brutal no centro do meu corpo, e quando gozei foi com um grito que tive de abafar me enfiando no travesseiro, tremendo dos pés à cabeça enquanto ela continuava me segurando como se não pensasse em me soltar até me deixar vazia.

Depois a abracei, ainda sem fôlego. Ela apoiou a bochecha na minha barriga e ficou em silêncio, respirando devagar, com os lábios ainda úmidos.

—Eu te amo —eu disse. Era a única coisa que me ocorreu.

—Eu também, Val —respondeu sem se mexer.

Fiz carinho no cabelo dela. O apartamento estava em silêncio. Era um domingo perfeito, sem plano nem obrigação, sem ninguém nos esperando em lugar nenhum.

Então a campainha tocou.

***

Nos olhamos. Camila franziu a testa.

—Não estou esperando ninguém —disse.

Tocou de novo. Insistente.

Nos levantamos às pressas, procurando a roupa jogada pelo chão. Ela saiu primeiro com um robe, eu vesti a primeira coisa que encontrei: uma calça e a camiseta que tinha deixado na cadeira na noite anterior. Ouvi vozes vindas do corredor. Quando saí do quarto, havia uma mulher parada no batente da sala.

Ela tinha os olhos escuros de Camila e o mesmo jeito de cruzar os braços sobre o peito. Era mais velha, talvez cinco ou seis anos. Me olhou com a expressão de alguém processando uma informação que não esperava encontrar.

—Bom dia —eu disse.

—Bom dia —ela respondeu.

Camila se colocou ao meu lado. Passou um braço por cima do meu ombro, me puxou para perto com uma naturalidade que me surpreendeu, e disse:

—Ela é Valeria, minha namorada.

Senti algo quente se expandir no peito. Encostei a mão na cintura dela.

—E ela é Lucía —acrescentou Camila—, minha irmã mais velha.

Lucía nos olhava sem dizer nada. Não foi hostil, mas também não foi calorosa. Era o silêncio de alguém que tem muita coisa a dizer e está escolhendo as palavras com cuidado.

***

—Cami —começou Lucía—, a mamãe está preocupada. Todo mundo em casa...

—Todo mundo em casa o quê? —interrompeu Camila. Não era uma pergunta. Era um aviso.

—Não é que não apoiem você —disse Lucía, devagar—. É que foi muito de repente. Ninguém sabia de nada e, de repente...

—De repente eu tenho uma vida —disse Camila—. Esse é o problema?

Lucía não respondeu.

Camila respirou fundo. Quando voltou a falar, fez isso com aquela calma que eu começava a reconhecer: a que ela usava quando algo importava demais para que perdesse o controle.

—Lucía, você sabe melhor do que ninguém como foram meus relacionamentos anteriores. Você sabe o que eu passei. —Fez uma pausa breve—. Eu não vou sacrificar este relacionamento por medo do que a família vá dizer ou do que os vizinhos pensem. Valeria e eu somos um casal. Isso não vai mudar. Então, ou vocês aceitam, ou não, mas eu não vou pedir permissão a ninguém.

Apertei a mão dela na cintura. Ela não me olhou, mas senti como apertava meu braço com o qual me envolvia, como se eu fosse o ponto de apoio.

Lucía assentiu lentamente. Algo em sua expressão mudou, de leve, como se tivesse chegado a alguma conclusão interna que ainda não estava disposta a verbalizar.

—Está bem —disse.

—Se não há mais nada, foi um prazer te ver —disse Camila.

A porta se fechou. O eco no corredor durou um segundo e depois tudo ficou em silêncio.

***

Me virei para Camila. A mandíbula dela estava tensa e os olhos brilhantes.

Pus as mãos no rosto dela, dos lados.

—Ei —disse em voz baixa—. Você foi incrível.

—Eu estava morrendo de medo —admitiu.

—Não deu para perceber absolutamente nada.

Ela se deixou abraçar. Segurei-a assim por bastante tempo, sentindo-a respirar, até que a tensão foi deixando o corpo dela aos poucos. Quando se afastou para me olhar, estava com os olhos úmidos, mas não chorava.

—O que Lucía quis dizer com seus relacionamentos anteriores? —perguntei—. Você nunca me contou muito.

Camila me olhou por um momento. Depois olhou para frente, para a janela.

—Você quer saber de verdade?

—Só se você quiser me contar.

Ela assentiu. Pegou minha mão e me levou até o sofá.

***

—Tive dois relacionamentos antes de estar com você —começou—. O primeiro foi quando eu tinha dezenove anos, não durou nada, terminamos sem drama. O segundo foi diferente.

Esperei em silêncio.

—No começo parecia perfeito. Era atencioso, divertido, me fazia sentir especial. Eu tinha vinte e três anos e não sabia distinguir a diferença entre alguém que te ama e alguém que precisa de você para alguma coisa. —Fez uma pausa—. Em poucos meses começaram os comentários. Pequenos no início. Que eu me vestia mal, que minhas amigas não eram uma boa influência, que se eu o amasse de verdade faria tal coisa ou tal outra. Os comentários viraram exigências. As exigências viraram outra coisa.

As lágrimas corriam no meu rosto. Só percebi quando as senti no queixo.

—Você não precisa continuar se não quiser —eu disse.

—Eu já superei isso. —Apertou minha mão—. Um dia ele me pediu que eu fizesse uma coisa que eu não queria. Quando eu disse não, ele me deu um tapa. —Disse sem nenhum drama especial, com a voz plana de quem contou essa parte da história muitas vezes na cabeça até tirar o veneno—. Não foi o último. Mas foi o primeiro de que me lembro com clareza porque eu fiquei em choque, pensando que talvez tivesse sido um erro, que não ia se repetir. Sempre se repete.

Levantei e me sentei ao lado dela, colada nela, passando o braço por seus ombros.

—Como você saiu? —perguntei.

—Os próprios amigos dele denunciaram. Eu consegui fugir. —Pausa—. Não sei o que foi feito dele depois e não quero saber.

Ficamos assim por um momento. Eu não dizia nada porque não havia palavras para isso.

—Por isso Lucía mencionou meus relacionamentos anteriores —disse Camila por fim—. Ela sabe o que eu passei. Acho que, no fundo, foi por isso que veio: para verificar se eu estava bem. Que isso era diferente.

—E você está bem?

Ela se afastou para me olhar. Abriu um sorriso pequeno, mas genuíno.

—Com você eu estou melhor do que bem. Pela primeira vez em muito tempo me sinto segura. Isso eu devo a você, Val.

Limpei as lágrimas dela com o polegar. Ela fez o mesmo com as minhas.

—Escuta —eu disse—. Se alguma coisa que fizermos juntas alguma vez te deixar desconfortável, você me fala. Sem explicar nada. Só me fala e eu paro.

—Eu sei. —Ela me beijou na testa—. Com você não tem nada que me traga coisa ruim. Pelo contrário.

Nos beijamos devagar. Um daqueles beijos sem pressa que não levam a lugar nenhum específico e, ao mesmo tempo, levam a todos os lugares.

—Vamos tomar café da manhã? —propus, porque se continuássemos assim eu ia acabar chorando de novo e não queria isso.

—Sim —disse ela—. Mas antes...

Ela me olhou com aquele sorriso que eu já conhecia de memória.

***

Nos despimos devagar desta vez, sem o caos de antes. Era diferente: sem urgência, sem a campainha à espreita, sem nada nos esperando. Só nós duas e o domingo longo pela frente.

Camila foi até o quarto e voltou com o harness na mão. Tínhamos comprado aquilo juntas alguns meses antes, numa tarde de sábado em que rimos muito na loja e muito mais quando chegamos em casa. Era composto de duas peças: um dildo externo de tamanho natural e um encaixe interno menor para quem o usava. Ela me ajudou a colocar, ajustando as tiras com cuidado, sem pressa, conferindo com os dedos que nada me incomodava antes de me dar um beijo na borda da boca.

Quando estava bem colocado, eu a olhei.

—Ainda quer? —perguntei.

—Mais do que antes —respondeu.

Ajoelhei-me diante dela. Afastei suas pernas e a beijei onde ela mais precisava. Ela estava muito excitada: tinha a boceta inchada, molhada, aberta para mim, e quando mergulhei a língua entre seus lábios, um gemido longo lhe escapou, fazendo-me sorrir contra sua pele. Primeiro a lambi devagar, recolhendo sua umidade, desenhando círculos lentos sobre o clitóris, e depois comecei a comê-la com vontade, insistente, alternando sucção e pressão, enfiando dois dedos dentro dela enquanto continuava lambendo por cima. Senti as coxas dela se tensionarem dos lados do meu rosto, senti-a empurrar minha cabeça com as duas mãos, senti-a me pedir mais sem palavras. Eu a ouvia respirar com mais força, ouvia os pequenos sons que ela fazia quando se aproximava, e quando a deixei à beira, levantei o rosto.

—Por favor —disse ela. Um sussurro quebrado, úmido.

Fiquei de pé. Apoiei a ponta do dildo na entrada do sexo dela e parei por um segundo, olhando nos olhos dela.

—Pronta?

—Sim. Devagar.

Entrei devagar. Ela fechou os olhos e abriu a boca sem emitir som, aquela reação dela que eu adorava porque significava que ela estava sentindo de verdade. O encaixe interno me pressionava a cada movimento: o que eu dava a ela eu também recebia, ainda que de outra forma, como um pulso constante no ventre. Fui empurrando até senti-la cheia, até o corpo dela ceder ao redor e se acomodar à grossura do dildo, e então comecei a me mover. Devagar no começo, seguindo o ritmo da respiração dela, medindo a profundidade de cada investida, acelerando quando os quadris dela começaram a responder aos meus sem que eu pedisse. O quarto cheirava às duas, a pele quente e a sexo recém-aberto. Lá fora o domingo seguia seu curso, indiferente e alheio a tudo.

—Assim —disse ela—. Assim, Val, não para.

Não parei.

Levei-a até o limite com movimentos cada vez mais precisos, mudando o ângulo de entrada para roçar o ponto exato dentro da boceta que a fazia tremer. Ela me agarrou pela cintura, apertando com força, e eu desci uma mão para esfregar o clitóris dela com os dedos úmidos enquanto continuava empurrando. A combinação a desmontou por completo. Soltou um gemido grave, cravou as unhas nas minhas costas e gozou com um estremecimento que percorreu seu corpo de cima a baixo, me apertando por dentro de um jeito que quase me fez perder o ritmo. Não foi um final limpo nem bonito: foi selvagem, urgente, com sua respiração quebrada e meus quadris ainda se movendo por puro reflexo até que as duas ficamos imóveis, suadas, tremendo, com o coração batendo contra as costelas.

Nos deitamos de barriga para cima na cama, olhando para o teto. O harness ainda estava posto. Agarrei-o com uma mão e o movi levemente, por curiosidade.

—É esquisito —admiti.

—Esquisito ruim ou esquisito interessante?

—Esquisito interessante.

Ela riu. Uma risada limpa, fácil, sem nada de sombrio por trás.

—Posso te perguntar uma coisa? —disse.

—O que você quiser.

—Você alguma vez quis experimentar... por trás?

Houve uma breve pausa.

—Uma vez —disse ela—. Foi há muito tempo, com alguém que não sabia o que estava fazendo e não se importava muito se eu estava me divertindo. Foi uma experiência horrível. Então não, na verdade nunca experimentei direito.

—Se um dia você quiser tentar comigo, a gente tenta —eu disse—. Sem pressa, quando você quiser, como você quiser. E se não quiser, também não tem problema.

Ela pegou minha mão entre os lençóis e entrelaçou os dedos nos meus.

—Com você eu topo tudo —disse—. Isso é completamente novo para mim.

—Ótimo —disse eu—. Que continue novo.

Sentei-me para ir ao banheiro limpar o harness. Antes de sair, me virei no batente.

—Sabe que horas são?

—Nenhuma ideia —disse ela—. Importa?

—Não. Só queria saber se isso era café da manhã ou almoço.

Ela riu de novo.

—Volta logo —disse—. Já estou com saudade.

Antes de sair, nos beijamos.

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