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Relatos Ardientes

A professora que fui calar me beijou

Ela nascera em Ambato, mas vivia em Quito desde antes de conhecer Andrés, seu marido, pai devotado de seus dois filhos pequenos, Tomás e Renata. Apesar de duas gravidezes seguidas em apenas três anos, Carolina mantivera uma figura que suas amigas invejavam e que os desconhecidos olhavam na rua por mais tempo do que seria decente. Era doce, às vezes quase infantil, mas vaidosa na medida certa, e reservava para o marido e para os dias marcados a única cota de sensualidade que se permitia mostrar.

Andrés nunca havia sentido a sombra do ciúme. Eram um casal católico praticante, e sua Caro militava com convicção em pequenas associações de corte tradicionalista, distribuindo folhetos contra o aborto e dando palestras sobre o valor da família heterossexual. Além disso, na cama as coisas funcionavam. Estavam juntos havia quase dez anos e ainda riam quando se despiam. A ideia de uma traição por parte dela lhe parecia, simplesmente, absurda.

Tinham reservado um quarto de hotel para a noite de vinte e dois de setembro, seu aniversário. A tarde seria dedicada às crianças, depois Carolina passaria pela escola para uma reunião inevitável e, ao anoitecer, se encontrariam no quarto para apagar um no corpo do outro a vontade acumulada da semana. Isso, ao menos, era o que Andrés tinha planejado. A noite, contudo, não transcorreu como ele gostaria.

Carolina se vestiu com cuidado. Um vestido amarelo justo, que terminava um dedo acima do joelho e deixava à mostra o músculo firme das coxas. O decote, generoso mas sem cair no vulgar, descobria apenas a curva superior do peito. De pé, diante do espelho, girou o corpo, e a silhueta desenhou aquela forma de violão que tanto agradava ao marido: cintura curta, quadris largos, costas retas. Era impossível olhar para ela e não desejá-la.

Almoçaram os quatro em um restaurante do centro. Depois, ela beijou os filhos, despediu-se de Andrés com uma piscadela e entrou no carro rumo ao colégio. Não ia por interesse sincero, mas por compromisso ideológico: a direção havia proposto incluir palestras sobre gênero e diversidade no plano do ano, e Carolina pensava deixar claro, junto com outras mães do comitê, que aquilo não cabia na escola de seus filhos.

Entrou na sala e sentou-se na frente, recatada, com um cachecol fino cobrindo-lhe o decote. A sala cheirava a giz velho e café requentado. Esperou que aparecesse a pessoa responsável pela proposta e, quando finalmente entrou, sentiu um golpe no estômago. Era uma mulher alta, de traços finos, com o cabelo tingido de um azul elétrico que lhe caía até os ombros. Vestia calça larga, camisa abotoada até o topo e umas botas de couro gastas.

Que era feminista soube em cinco segundos. Ela cravou o olhar nela com um ódio frio e não o desviou durante uma hora inteira. Enquanto a outra falava — de respeito, de identidades, de prevenção ao assédio —, Carolina a examinava de cima a baixo. Sem pensar direito, em algum momento cruzou a perna direita sobre a esquerda, devagar, e um pouco depois deixou o cachecol cair sobre a mesa, como por descuido. As duas se olhavam. A professora falava sem deixar de fitá-la. No fim, Carolina explodiu.

A discussão foi áspera. As outras mães concordavam, se calavam ou olhavam o celular. Quando ficou claro que não havia acordo possível, a professora dispensou o grupo e pediu a Carolina que ficasse, que preferia terminar a conversa em particular. Carolina aceitou com a mandíbula cerrada e permaneceu sentada, vermelha, esperando a sala esvaziar.

Quando já não havia ninguém, a professora — chamava-se Valeria — retomou a conversa com a voz baixa, quase paciente. Carolina respondia com monossílabos. A tensão continuava, mas algo da raiva tinha baixado de temperatura. Não chegaram a nada concreto. Carolina se levantou, vestiu a jaqueta e foi embora sem se despedir.

***

Naquela noite não houve aniversário. No hotel, Andrés esperou com uma garrafa de vinho que acabou bebendo sozinho. Carolina chegou tarde, disse que estava com dor de cabeça, deitou-se vestida e dormiu de costas para ele. Ou fingiu dormir. Na verdade passou horas revendo a discussão, as palavras de Valeria, o modo como ela a havia encarado ao dispensar o grupo, o azul violento do cabelo.

Os dias seguintes pioraram. Ela não conseguia tirar aquela mulher da cabeça. Detestava-a, repetia para si mesma, detestava-a com todas as forças. Uma manhã, sem pensar muito, ligou para a secretaria da escola e pediu o contato particular da professora. Disseram-lhe que não passavam dados pessoais, mas lhe deixaram um recado. Naquela mesma tarde, já tinha o número.

Começaram a se escrever. Valeria, com um tom que Carolina não soube decifrar por completo, propôs que se encontrassem depois das aulas, em uma sala vazia, para revisar juntas os materiais do programa. Uma espécie de seminário particular, ofereceu, para que as duas conversassem «sem público». Carolina aceitou.

Coisa estranha: para esse primeiro encontro, vestiu um vestido parecido com o amarelo, mas um pouco mais folgado e um dedo mais curto, desta vez em vermelho escuro. Olhou-se no espelho pelo tempo necessário e um pouco mais. Pintou os lábios e desabotoou o segundo botão. Não quis se perguntar por quê.

Encontraram-se. Valeria espalhou papéis sobre a mesa, falou com calma, citou autores, ofereceu leituras. Carolina anotava, fingia concentração, sentia o coração na garganta. Antes de se despedirem, a professora, quase do nada, comentou que o vestido caía lindamente nela. Só isso. Um elogio. Carolina sentiu o rosto queimar até as orelhas.

Poucos dias depois, escreveu pedindo outra aula. Não entendia bem alguns conceitos, mentiu. Valeria aceitou: mesma hora, mesma sala. Era quinta-feira, ela tinha planos com Andrés. Cancelou-os sem dar explicações. Desta vez foi de azul, um vestido justo que marcava tudo. Valeria, naquela tarde, não se conteve: disse que ela tinha umas pernas que distraíam, que era uma pena escondê-las sob aquelas saias de matrona.

As semanas se passaram. As aulas se multiplicaram. Viam-se duas, três vezes por semana. Falavam de teoria, de política, da infância de cada uma, dos casamentos fracassados de Valeria, do tédio surdo de Carolina. Às vezes, sem que nenhuma apontasse isso, as mãos se roçavam sobre a mesa e ninguém as afastava.

***

Num domingo à tarde, Carolina escreveu primeiro. Estava sozinha em casa — as crianças com os avós, Andrés em uma reunião de trabalho — e pediu a Valeria que se vissem naquele mesmo dia. A professora respondeu em um minuto com o endereço do seu apartamento.

Carolina vestiu o vestido vermelho da primeira vez. Mas desta vez, por baixo, escolheu uma calcinha minúscula, quase inexistente. Cobriu-se toda com um casaco longo, olhou-se no espelho, não quis pensar no que estava fazendo e saiu antes de se arrepender.

O apartamento de Valeria ficava em um prédio antigo do centro, cheio de plantas, livros e discos. Cheirava a sândalo e café. Conversaram no sofá por uma hora longa, em voz baixa, quase em sussurros. Valeria, mais ousada do que nunca, acariciou-lhe a mão, depois o antebraço, depois o joelho. Cada vez que dizia alguma coisa, seus olhos desciam por um segundo até a boca de Carolina antes de subir de novo.

Carolina, por fim, se levantou e propôs que descansassem um momento. Valeria se acomodou no sofá. Carolina foi ao banheiro, olhou-se demoradamente no espelho, molhou a nuca com água fria. Quando saiu, encontrou a outra estirada, esperando por ela. Sustentou-lhe o olhar, afrouxou o casaco, deixou-o cair no chão e ergueu um pouco o vestido sobre os quadris.

Valeria entendeu. Levantou-se, aproximou-se com um movimento brusco, segurou-lhe o queixo com a mão e a beijou. Beijou-a como se estivesse pensando nisso havia semanas. Talvez estivesse.

Beijaram-se como duas mulheres que há tempo continham a mesma coisa. Valeria ergueu o vestido até a cintura, apertou as nádegas nuas com as duas mãos e soltou uma pequena risada contra a boca dela.

— Você se vestiu assim pra mim? — murmurou.

Carolina assentiu sem falar.

Os seios ficaram à mostra logo em seguida. Valeria os beijou devagar, mordeu-os com cuidado, lambeu-os até fazê-la tremer. Carolina mal se reconhecia. Era uma mulher nova, assustada e feliz, que se ouvia gemer de longe.

Foram para o quarto. O celular de Carolina vibrou algumas vezes sobre o criado-mudo — provavelmente Andrés — e ela o atirou no chão sem olhar. Valeria a deitou com cuidado, beijou-lhe o pescoço, o ventre, o osso do quadril, a parte interna das coxas. Quando baixou a cabeça entre as pernas dela e a língua se enterrou onde ninguém a havia buscado assim, Carolina levou as duas mãos à boca para não gritar.

— Faz meses que sonho com isso — disse, quando conseguiu falar.

Valeria sorriu e se ergueu. Abriu uma gaveta baixa da cômoda e tirou um arnês com um consolador grosso. Ajustou-o com a naturalidade de quem já o fazia muitas vezes. Carolina, sem que ninguém lhe pedisse, acomodou-se de bruços, a bunda erguida, o rosto enterrado no travesseiro.

Ela a penetrou devagar no começo, depois com força. Uma e outra vez. Os quadris se chocavam com um som surdo, os lençóis se amassaram, a cabeceira bateu duas vezes na parede. Carolina ouvia sua própria voz pedir mais. Andrés nunca a havia tomado assim. Nem de perto.

Depois foi ela quem se virou de barriga para cima, abriu as pernas e atraiu Valeria sobre si. Queria olhá-la nos olhos. Beijava-a com desespero cada vez que conseguia prender-lhe a boca. As duas terminaram encharcadas, abraçadas, rindo baixinho como adolescentes. Dormiram assim, uma sobre a outra, até o frio da madrugada despertá-las.

***

Nas semanas seguintes, Carolina mal estava em casa. A «amizade» com Valeria — era assim que a chamava diante de Andrés — ocupava todas as tardes e muitas noites. Faziam amor com uma urgência que Carolina nunca se permitira. Seu jeito de se vestir mudou. Suas opiniões também. Deixou de ir às reuniões do comitê, passou a usar calças largas, camisas sem abotoar até o fim, tênis de lona.

Andrés demorou mais do que o razoável para desconfiar. Quando desconfiou, já era tarde. Numa noite qualquer, sem escândalo, Carolina deixou duas malas prontas junto à porta, explicou o indispensável, beijou os filhos dormindo e foi morar com Valeria. Não voltou a pôr os pés numa reunião católica. Meses depois, os filhos a visitavam nos fins de semana no apartamento de plantas, livros e discos, e aprenderam a chamar de Vale a mulher do cabelo azul que morava com a mãe.

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