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Relatos Ardientes

Minha mulher, minha amante e a noite em que fomos três

O ar da serra entrava frio e limpo pela janela, com cheiro de algarrobo e de terra molhada. Eu, Renata, sentia aquele frio entranhado nos ossos. O plantão tinha me deixado vazia, um recipiente esvaziado por doze horas de centro cirúrgico e partos. Três crianças novas em uma única noite. Três vezes o peso enorme de pôr alguém no mundo. E agora, nesta casa grande demais, o eco dos meus próprios passos me lembrava que Mateo estava viajando.

A ausência dele era quase física: um vazio frio do lado esquerdo da cama, um silêncio onde deveria estar o ruído da respiração dele. Subi as escadas devagar, cada degrau rangendo sob o meu peso. Mas eu não estava sozinha, e soube disso antes de vê-la. Eu a senti.

Celeste. Minha advogada loira, minha calma, a outra metade de uma verdade que ninguém de fora entenderia. A porta do quarto estava entreaberta e a luz morna do abajur escapava para o corredor como um convite. Lá estava ela, lendo, com uma camisola de seda colada ao corpo como uma segunda pele. Ergueu os olhos e sorriu para mim. Entre nós nunca houve perguntas, só essa sintonia que não precisa de explicações.

Tirei a blusa, e com ela o cheiro de desinfetante e a couraça de médica. Me aproximei como quem volta para casa. As mãos dela, mornas e firmes, me receberam. Ela cheirava a livros e à própria pele, e esse cheiro me ancorou no presente. O beijo dela foi suave primeiro, depois faminto, um jeito silencioso de me dizer que naquela noite eu era dela.

Ela me despiu sem pressa, os dedos percorrendo minhas costas como se lessem um mapa. A boca dela desceu pelo meu pescoço, pelas clavículas, até os seios. Fechou os lábios sobre um mamilo e uma pulsação de prazer desceu até o meu ventre. Não era a urgência de Mateo; era outra coisa, uma paciência deliberada que me deixava à beira sem me tocar ainda onde eu mais pedia.

Ela me deitou e continuou descendo. Quando a língua dela finalmente chegou ao meu sexo, já úmido e tenso, gemi sem me conter. Era lenta, exata, conhecia cada dobra. Os dedos dela entraram e se curvaram, buscando aquele ponto que só ela sabia encontrar no escuro. O orgasmo não veio de uma vez; foi uma maré que subiu até me cobrir inteira e me devolveu à cama tremendo, repetindo o nome dela em voz baixa.

Depois, abraçada às costas dela, pensei na geometria estranha da nossa vida. Mateo, a minha tempestade. Celeste, o meu refúgio. Três pessoas sustentando algo que o mundo insistiria em chamar de impossível.

— Somos um desastre — murmurei contra o cabelo dela.

— O melhor de todos — ela respondeu, e a mão dela deslizou pela minha cintura com a promessa de continuar por mais um tempo.

***

O motor do carro rugia na curva. Eu, Mateo, sentia como cada quilômetro ia apagando o medo que o voo tinha me deixado. O avião é a única fenda na minha armadura: lá em cima eu não controlo nada, e eu preciso controlar. Mas sempre existe o retorno. Sempre está Renata.

Encontrei-a junto ao fogo da sala, uma sombra dourada na penumbra. Ela não precisou se virar para saber que era eu.

—Você sempre volta cansado — disse, e a voz dela foi o antídoto exato.

Sentei atrás dela, a envolvi com os braços e enfiei o nariz no pescoço dela. Ali, naquele círculo de calor e pele, as reuniões da semana viravam pó.

—Fiquei pensando em como isso é estranho — eu disse —. Me sentir tão forte e tão frágil ao mesmo tempo.

—Não é estranho, é humano — respondeu, se deixando cair contra o meu peito —. Você é o homem que fecha negócios e o que treme num avião. O que manda numa reunião e o que se rende aos meus pés.

—E a Celeste? — perguntei, porque era a pergunta que sempre ficava no ar —. Onde ela entra nisso tudo?

Ela se virou nos meus braços, os olhos verdes brilhando com aquela inteligência que me desmonta. — Celeste é o terceiro vértice. Ela te quer do jeito dela, lutando contra as próprias regras por nós. É a prova de que isso não é uma fórmula. É um ato de fé.

Um ato de fé. Era isso a minha vida com ela: confiar que amar não é possuir, e sim ampliar o espaço. Endureci contra a cintura dela sem querer.

— Parece que uma parte sua já esqueceu o medo — ela sussurrou, movendo só um pouco os quadris.

— Você é o antídoto de todos os meus medos — eu respondi, buscando o pescoço dela com os lábios.

Fui com ela até o quarto. Sob a luz da lua, ela se despiu devagar, me mostrando aquele corpo que eu conheço de memória e que, mesmo assim, continua me deixando sem ar. Peguei-a nos braços, beijei-a com aquela mistura de fome e posse que só me sai com ela. Deitei-a e percorri cada centímetro da pele dela com a boca, sem pular nada, até que ela arqueou o corpo e gozou contra a minha língua com um grito sufocado.

Depois me acomodei entre as pernas dela e entrei de uma vez, fundo. Estar dentro de Renata é sempre como voltar para casa. Me movi devagar no começo, depois com mais força, as mãos cravadas nos quadris dela, as pernas dela sobre os meus ombros para eu chegar mais fundo. Levei-a à beira uma e outra vez, até que um segundo orgasmo sacudiu o corpo dela inteiro.

Mas eu ainda não tinha terminado. Virei-a e a pus de quatro. Ela sabia o que vinha a seguir. Com calma e cuidado, a preparei, e depois empurrei devagar até preenchê-la por inteiro por trás. Comecei a me mover, primeiro só um pouco, depois com mais ritmo, enquanto uma das minhas mãos procurava o clitóris dela. A sensação dupla a desfez: ela gritou, os músculos se fecharam ao redor de mim, e isso me arrastou até o fim. Me esvaziei dentro dela com um rugido surdo.

Caímos os dois, exaustos, suados, sem nada a dizer.

—Somos perfeitos porque estamos um pouco quebrados — eu disse depois —. Porque inventamos as nossas próprias regras.

—E qual é a verdade, Mateo? — ela perguntou, a voz frouxa de sono.

—A verdade é isso — respondi —. Que eu amo você, que eu amo ela, que eu amo essa nossa vida tão estranha e tão perfeita justamente por ser imperfeita.

Beijei-a demoradamente, um beijo que tinha gosto de verdade. Não se trata de rótulos, pensei. Trata-se de ser fiel a si mesmo. Eu sou Mateo, e nos braços de Renata eu estou completo.

***

O silêncio do meu escritório era a minha religião. Eu, Celeste, precisava da ordem dos livros e da lógica das leis para sustentar o caos que carregava dentro de mim. Advogada. Feminista. Lésbica. Rótulos que ergui como muralhas para proteger um coração que batia com medo de trair a si mesmo. Renata era a minha casa, a minha certeza. Com ela, o sexo era um diálogo. Minha boca no sexo dela, os dedos dela no meu cabelo, os gemidos dela: naqueles momentos não havia contradição nenhuma.

Mas depois havia ele. Mateo. A variável que quebrava todas as minhas equações. Às vezes eu o observava da janela, um exemplar perfeito daquilo que eu dizia não desejar, e uma parte minha — aquela parte que eu tentava calar com princípios — respondia do mesmo jeito. Não é desejo, eu repetia para mim mesma. É apreciação. E então eu me lembrava dele dentro de mim, e a mentira desmoronava sozinha.

Naquela noite ele voltou. Renata veio me buscar no escritório. — Mateo quer te ver.

Encontrei-o junto ao fogo. Os olhos verdes dele pareciam atravessar as minhas defesas.

— Estivemos conversando, Renata e eu — disse ele —. E chegamos a uma conclusão: que você pensa demais. Que deixa seus princípios impedirem você de sentir.

— Meus princípios são o que eu sou — respondi, com uma firmeza que soou vazia até para mim.

— E se seus princípios e seus desejos não se contradisserem? — perguntou, a voz suave, paciente —. E se forem duas faces da mesma moeda? Não há traição, Celeste. Só existe verdade.

As palavras dele me desmontavam tijolo por tijolo. Renata me beijou e me roubou o ar. Depois Mateo se aproximou e me beijou também, de um jeito diferente, firme, com uma mão descendo até me apertar. Uma onda de calor percorreu meu corpo inteiro.

Levaram-me para o quarto. Renata me despiu com os olhos acesos. Mateo observava. Quando as mãos dele substituíram as dela, senti a pele áspera, os lábios vorazes nos meus seios, uma mordida leve no mamilo que misturou a dor com um prazer que me fez gemer.

— Viu? — Renata sussurrou no meu ouvido —. O teu corpo sabe a verdade.

Mateo me deitou e se posicionou entre as minhas pernas. Olhei para Renata, que sorriu para mim e assentiu. Era a permissão dela. Era o desejo dela. Não consegui negar, nem a eles nem a mim.

Ele entrou devagar, me preenchendo, me abrindo aos poucos. Era uma entrega total. Moveu-se com força medida e cada investida derrubava mais um pedaço do meu muro. Renata se aproximou, me beijou, a mão dela encontrou o meu clitóris e o esfregou no ritmo dele. Foi demais. O orgasmo me atingiu como uma onda que me deixou trêmula.

Mas ele ainda não tinha terminado. Me virou, me pôs de quatro. Eu sabia o que vinha. Sabia que a minha última muralha estava prestes a cair.

— Relaxa. Confia em mim — ele murmurou.

— Respira comigo — disse Renata, segurando a minha mão.

Respirei. Com uma investida lenta, ele entrou por trás. Gritei, uma mistura de dor e de um prazer tão intenso que quase me partiu em dois. Ele avançou devagar até me preencher por inteiro. Começou a se mover, suave no começo, depois mais fundo, e eu me deixei levar, empurrando contra ele, a dor virando prazer cru. A mão dele voltou ao meu clitóris e a sensação dupla me arrastou ao orgasmo mais forte da minha vida. Um grito selvagem escapou de mim enquanto meu corpo se fechava ao redor dele, e isso o levou ao fim: ele se esvaziou em mim com um rugido.

Caímos sobre a cama, exaustos, os três enlaçados. Mateo me envolveu com um braço, Renata se aninhou do outro lado e me tomou a mão. Presa entre os dois, entre o meu amor por ela e a minha rendição a ele, me senti completa.

— Agora você está toda você — sussurrou Mateo.

E era verdade. Naquela entrega total, finalmente eu me entendi. Não era uma lésbica que às vezes dormia com um homem. Eu era Celeste. Uma mulher complicada, com desejos complicados. E tudo bem.

— Eu amo vocês — sussurrei, e não sabia para quem estava dizendo isso. Para ele, para ela, para os dois. Para mim mesma.

— Nós também — respondeu Renata, e na voz dela cabia tudo.

***

O sol da manhã entrou pela janela e caiu como ouro sobre os três corpos enredados na cama. Não havia ordem nem estrutura, só um nó de pernas e braços, respirações sincronizadas no sono. Eu, Renata, abri os olhos e olhei: Mateo de um lado, o peito dele subindo e descendo, a base de tudo; Celeste do outro, o hálito morno na minha nuca. O amor não tinha sido escolher entre dois, mas crescer para caber nos dois.

Mas ali, com o sono ainda pesando sobre nós, uma pergunta começou a germinar dentro de mim. Seria possível sustentar para sempre esse triângulo? Ou era um equilíbrio frágil, condenado a desabar?

Mateo acordou, como sempre, antes de nós. Os olhos verdes dele me encontraram no mesmo instante.

— Bom dia, senhorita — disse.

— Bom dia, senhor — respondi, com a voz rouca de sono e da noite anterior.

Ele se inclinou e me beijou demoradamente. A mão dele subiu até o meu peito, o polegar roçando o mamilo que endureceu na hora. Uma onda conhecida começou a crescer dentro de mim.

— E a Celeste? — sussurrei contra os lábios dele —. Ela está bem?

Ele se virou para olhá-la. — Está em paz. Pela primeira vez desde que voltou, acho que ela dorme de verdade. Ontem à noite ela se rendeu, Renata. Você ajudou ela a fazer isso.

A frase me atingiu. Eu a ajudei a se render, ou a entreguei? A dúvida começou a girar dentro de mim. Eu amava Celeste com uma ferocidade que me assustava: na convicção dela, na firmeza dela. E ao empurrá-la na direção de Mateo eu não estaria traindo justamente aquilo que eu amava nela?

Celeste despertou, os olhos azuis piscando contra a luz. Ela nos viu, a mim beijando Mateo, e por um segundo uma sombra passou pelo rosto dela. Mas foi embora tão rápido quanto veio, substituída por um sorriso tranquilo.

— Bom dia, amantes — disse, a voz segura.

Mateo se levantou e foi para o banheiro, e nós ficamos sozinhas no silêncio da manhã.

— Você está bem, meu amor? — perguntei, buscando a mão dela.

— Eu me sinto... completa — disse ela, e havia uma clareza nova na voz dela —. Ontem à noite eu entendi. Eu não sou um rótulo, Renata. Sou uma mulher que ama você. E que, à sua maneira, quer ele. Não há contradição. Sou eu, só isso.

As palavras dela me aliviaram e me assustaram ao mesmo tempo. Eu a amava pela força dela, pela maneira como se redefinia. Mas uma parte minha, egoísta, sentia falta da Celeste de antes, a que era só minha. Eu era o problema? Era o meu desejo de vê-los juntos o que estava mudando as regras?

Mateo voltou e o ar do quarto mudou de novo. Sentou-se na beira da cama e nos olhou com ambas, com algo sério no rosto, raro nele.

— Precisamos conversar — disse.

Meu coração se apertou. Era isso, pensei. O momento da verdade.

— Sobre o quê? — perguntou Celeste, sem nenhum traço da dúvida de antes.

— Sobre nós — disse ele —. Sobre o que somos e o que queremos ser.

Fez-se um silêncio denso. Então Celeste o quebrou:

— Eu sei o que sou. Uma advogada. Uma feminista. Uma mulher que ama outra mulher. E uma mulher que, de vez em quando, gosta de um homem. Não há traição aí. Só uma verdade mais complicada. Mas verdade, no fim das contas.

Olhei para Mateo e vi um sorriso de orgulho. Depois ele me olhou e o rosto dele amoleceu.

— E eu sei o que sou — disse —. Um homem que ama você, Renata, com uma loucura que me define. E um homem que quer Celeste com um respeito que me torna melhor. Minha vida não é uma linha reta. É um triângulo. E eu não trocaria isso por nada.

Todas as minhas dúvidas se dissolveram de uma vez. Não havia traição nem ruína. Havia uma verdade maior e mais corajosa do que eu tinha ousado imaginar.

— E eu — eu disse, com a voz tremendo um pouco — sou uma médica que traz vida ao mundo. Uma mulher que ama um homem com cada fibra do corpo. E uma mulher que ama outra com cada batida do coração. Não sou a soma de partes. Sou todas ao mesmo tempo. E a mais afortunada que conheço.

Mateo se inclinou e me beijou. Depois se virou e beijou Celeste. E então Celeste e eu nos beijamos. Não havia conflito. Só amor, tão grande e tão complexo que parecia desafiar qualquer lei.

— Então — disse Mateo, a voz rouca — acho que está na hora de comemorar a nossa verdade.

A mão dele subiu pela minha coxa enquanto a outra se entrelaçava com a de Celeste. Ela me olhou com os olhos brilhando de desejo e amor, e eu me inclinei para beijá-la, um beijo lento que tinha gosto de promessa.

A cama virou o nosso universo, um lugar onde as regras de fora não entravam. Mateo se deitou entre as duas, uma ponte que nos unia. As mãos dele percorriam o meu corpo enquanto as minhas percorriam o de Celeste. Os lábios dele buscavam o pescoço dela enquanto os meus beijavam o peito dela.

Era uma dança de três em perfeita sintonia. Mateo se acomodou sobre Celeste e eu olhei, fascinada, enquanto ele entrava nela. Celeste gemeu, puro prazer, pura entrega. Me aproximei e tomei a boca dela com a minha, engolindo os gemidos dela, enquanto minhas mãos encontravam os seios dela.

— Renata... — ela gemeu, e meu nome na boca dela foi a música mais doce.

Ele acelerou, as investidas mais fundas. Celeste arqueou o corpo, buscando o fim. Minha mão desceu até o clitóris dela e o esfreguei em círculos no ritmo dele, até que o orgasmo a deixou sem ar, um grito rouco saindo da garganta dela.

Mas Mateo não tinha terminado. Saiu de dentro dela e se virou para mim, os olhos verdes acesos. Subi sobre ele, deslizando devagar, tomando-o no meu ritmo. Celeste se aproximou e me beijou, as mãos percorrendo o meu corpo, e depois desceu a boca aos meus seios. A sensação tripla foi demais: gozei como uma onda que me percorreu inteira e me deixou tremendo.

E ainda faltava. Mateo me pôs de quatro. Celeste se acomodou diante de mim, abrindo as pernas, se oferecendo. Desci a boca ao sexo dela enquanto sentia a pressão dele atrás de mim.

— Relaxa — murmurou Mateo —. Deixa a gente cuidar de você.

Ele entrou devagar, me preenchendo inteira, enquanto minha boca devorava Celeste. Era um redemoinho, um caos perfeito. O último orgasmo me deixou cega, surda, completamente entregue. Senti Mateo se tensionar dentro de mim e o rugido dele se misturou aos gemidos dela. Pela primeira vez nós três chegamos ao fim juntos.

Caímos sobre a cama, suados, enredados, em um silêncio cheio de paz. Mateo me envolveu com um braço, Celeste com o outro. Presa entre os dois, me senti livre.

— Nós somos a verdade — sussurrei, e não era uma pergunta.

— Nós somos a verdade — repetiu Mateo.

— Nós somos a verdade — confirmou Celeste.

E nessa certeza estava todo o nosso jeito de entender a vida. Não se tratava de ser bons ou maus, de ser uma coisa ou três. Tratava-se de ser fiéis aos nossos próprios desejos, de amar sem medo e sem fronteiras. Somos Renata, Mateo e Celeste. Uma médica, um consultor, uma advogada. Amantes, amigos, família. Um desastre glorioso. E nesta casa, nesta cama, sob o céu da serra, estávamos completos.

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