A descida de Lía pela escada branca
Nunca tinha descido mais de três degraus vestido de Lía. Naquela tarde, com a renda branca roçando minhas coxas, decidi que chegaria até a rua.
Nunca tinha descido mais de três degraus vestido de Lía. Naquela tarde, com a renda branca roçando minhas coxas, decidi que chegaria até a rua.
Eu me barbeava, colocava a peruca e os saltos, e falava com a câmera como se alguém fosse aparecer de verdade. Numa noite, alguém apareceu.
Subi esses degraus com o coração a mil, sem imaginar que sairia do apartamento convertido em outra pessoa e com um nome de mulher nos lábios.
Tranquei o vestiário, abri a maleta e deixei de ser Tomás. Nessa noite, no clube, eu não imaginava que meu próprio chefe ia abrir a porta.
Meu dono plantou a ideia como uma semente: dinheiro pelo meu corpo e um desconhecido observando cada detalhe. Numa terça-feira, saí para cumprir isso sem saber como terminaria.
Sabia que ele andava sem sutiã pela casa. O que eu não sabia era que ele contava cada vez e guardava uma prova molhada debaixo do travesseiro.
Ela me disse que, se eu quisesse o cu dela, teria de merecer. O que eu não esperava era que aparecesse no meu prédio na noite de Ano-Novo, com uma maleta e uma ordem.
Durante quatro dias, o papelzinho com seu número queimou no meu bolso. Toda noite eu lembrava daquela umidade escorrendo e soube que ia ligar.
O assento ao lado era ocupado por ela, com aquelas pernas cruzadas na penumbra. Ela disse que era melhor falar comigo do que com desconhecidos. Eu não sabia aonde aquilo iria nos levar.
Ajoelhei-me no centro do salão enquanto elas decidiam, frase por frase, como iriam me transformar. E eu só conseguia desejar que começassem logo.
Concedi a ele trinta dias para me provar que servia para alguma coisa. Na primeira noite, não o deixei se tocar: apenas acender uma vela, obedecer e esperar meu castigo.
Quando entrei na cabana, havia apenas trinta homens de terno e uma taça me esperando. Demorei pouco para entender para que me haviam pago tanto.
Eu usava sua calcinha preta por baixo da calça justa, caminhando pela avenida mais escura da cidade, esperando que alguém tivesse coragem de parar ao meu lado.
Aproximei um pouco mais o corpo, fingindo não entender o gráfico, e vi as mãos dela tremerem sobre os papéis.
Maquiei-me, escolhi o vestido preto mais justo e desci para o restaurante sabendo que aquela noite com o outro casal não terminaria à mesa.
Toda quinta-feira ela inventava uma desculpa tosca e eu fingia acreditar. Eu sabia exatamente aonde ela ia, com quem, e o que fariam durante aquelas três horas roubadas.
Pratiquei diante do espelho durante semanas. Na noite em que coloquei o vestido na mochila, soube que não havia mais volta: daquela vez seria de verdade.
Ela me deixou a calcinha na mesinha de cabeceira como todas as noites. Mas dessa vez entrei no quarto dela sem avisar e encontrei algo que mudou tudo entre nós.
Pedi uma única coisa para a última noite: dançar. O que aconteceu depois, na cabine no fim do corredor, eu não contei a ninguém.
Cruzei a porta da suíte esperando encontrar uma mulher assustada. Não imaginei o que ela escondia sob aquela saia longa, nem a vontade com que pensava me mostrar.