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Relatos Ardientes

A viúva voltou a me agradecer ao cair da tarde

O calor entrava pelas frestas do telhado de zinco e ficava dentro da clínica como um animal cansado. Mateo tinha as mangas da camisa arregaçadas até os cotovelos e um suor seco repuxava sua pele. Fazia duas noites que ele não dormia mais de três horas seguidas, e isso se notava na palidez do rosto, na barba de vários dias, na maneira distraída com que passava a mão pelo cabelo desalinhado.

Na maca, o menino respirava por fim num ritmo constante. Beni tinha seis anos e, até aquela madrugada, estivera à beira de apagar, ardendo de febre, com os pulmões cheios. Mateo lutara contra a pneumonia com o pouco que tinha: antibióticos contados, oxigênio improvisado, paciência. E vencera. O peito do garoto subia e descia, tranquilo. Isso bastava para que todo o resto importasse menos.

A porta se abriu com um rangido suave. Mateo não precisou se virar para saber quem era.

Amara entrou devagar, como se pisasse num lugar sagrado. Era a mãe do menino, uma mulher de pele escura e profunda, com o cabelo comprido preso em tranças grossas que lhe caíam sobre os ombros. Passava dos quarenta e os carregava sem disfarce, com um corpo amplo e farto que o vestido simples não dava conta de esconder: os quadris largos, o peito pesado, uma presença que preenchia a pequena sala assim que cruzava a soleira.

Ela se aproximou da maca sem dizer nada. Olhou longamente para o filho dormindo. Depois se voltou para Mateo e tomou a mão dele com os dedos ásperos, apertando-a com uma força que dizia mais que qualquer discurso.

— Doutor — murmurou. Tinha a voz grave, quase musical —. O senhor devolveu a vida a ele.

Mateo se sentiu desconfortável, como sempre que alguém o agradecia demais. Baixou os olhos.

— Eu só fiz meu trabalho, Amara. Ele está estável, mas é preciso vigiá-lo por alguns dias.

Ela não soltou a mão dele. Fitava seus olhos, firme, sem pudor.

— Meu agradecimento não cabe em palavras — disse —. Vá para casa. Descanse. Amanhã, quando a tarde cair, eu lhe mostrarei o quanto lhe devemos.

Mateo assentiu sem entender completamente. Pensou que ela traria comida, ou algum daqueles presentes desajeitados e bonitos com que o povo da cidade pagava o que não podia pagar. Não deu mais importância. Estava cansado demais para imaginar outra coisa.

***

A casa onde ele morava era pouco mais que um quarto com uma cama, uma mesa e um ventilador que distribuía o calor em vez de espantá-lo. No dia seguinte, quando o sol começou a descer e tingiu as paredes de um laranja espesso, ele ouviu passos na terra e depois uma batida na porta.

Era Amara. Não trazia nada nas mãos. Vinha só ela, com um vestido limpo que lhe marcava as formas, o cabelo outra vez trançado, os olhos acesos por algo que Mateo não conseguiu ler de imediato.

— Entre — disse, afastando-se.

Ela entrou e fechou a porta atrás de si com uma calma deliberada. Ficou um instante no centro do quarto, ocupando tudo.

— Hoje eu não vim falar do meu filho — disse.

O ar se carregou de algo novo, uma tensão que Mateo sentiu na nuca antes de compreendê-la. Engoliu em seco.

— Amara, não é preciso que… — começou, mas se deteve. A determinação no rosto dela não permitia que ele terminasse a frase.

— Para nós, é preciso sim — respondeu, aproximando-se um passo —. A vida se dá e a vida se agradece. Do jeito mais fundo que conhecemos.

Antes que Mateo conseguisse responder, ela tomou a mão dele outra vez. Mas não a apertou como na clínica. Guiou-a devagar até apoiá-la sobre o peito, sobre a roupa quente do vestido. A palma dele afundou na plenitude daquela carne, sentindo o peso, o calor, o lento pulsar por baixo. Um arrepio lhe subiu pelo braço. Ele havia tocado centenas de corpos como médico, mas nunca um assim, oferecido dessa forma.

— O senhor nos deu vida — sussurrou Amara, aproximando o rosto do dele —. Deixe-me lhe dar um pouco da mesma. Do jeito mais antigo que existe.

Isso não deveria estar acontecendo, pensou ele. E não se moveu.

Ela começou a desabotoar o vestido com uma naturalidade que o desarmou. Botão por botão, sem pressa, sem vergonha, até que o tecido cedeu e revelou um corpo marcado pelos anos e pelos partos, cheio de uma sensualidade crua que não pedia licença. Mateo a olhou como hipnotizado, preso entre o sobressalto, a curiosidade e uma excitação que nascia de um lugar que ele nem sabia que possuía.

A resistência que ainda lhe restava se desfez como um suspiro. Não era só o corpo de Amara que o vencia. Era a certeza absoluta em seus olhos, a oferta que não deixava espaço para recusa, uma linguagem mais antiga que qualquer juramento que ele tivesse feito ao receber seu diploma.

Ele fechou a distância e a beijou. Não foi um beijo delicado. Foi fome pura, a boca se abrindo contra a dela, a língua buscando sem pudor. Amara se enrijeceu por meio segundo, surpreendida pela ferocidade do médico tão calado e sereno. Depois se derreteu, e lhe devolveu o beijo com a mesma intensidade. As mãos fortes dela desceram pelo torso de Mateo e se fecharam sobre o volume que crescia contra o tecido da calça, apertando-o com uma pressão segura que lhe arrancou um gemido rouco.

Separaram-se ofegantes. Entre eles passou um entendimento que não precisava de palavras.

***

Sem dizer nada, Amara se deixou cair de joelhos diante dele sobre o chão de terra batida. Fez isso com uma simplicidade que cortou a respiração de Mateo. Vê-la ali, poderosa e rendida ao mesmo tempo, fez com que ele sentisse por um instante algo que jamais sentira: não como médico, mas como um homem diante de quem tudo se entrega.

Os dedos ágeis dela soltaram a calça dele. Quando a peça cedeu, ele ficou exposto diante do olhar dela, e algo nos olhos de Amara brilhou com uma curiosidade lenta, apreciativa, diferente de tudo o que ela conhecia.

— Diferente — murmurou, quase para si mesma —. Tem seu próprio encanto.

E então se inclinou. Não com urgência, mas com uma espécie de ritual. Seus lábios carnudos o percorreram devagar, beijando-o, explorando-o com uma devoção que fez as pernas de Mateo tremerem. Cada carícia da boca dela parecia um ato de gratidão concentrado, como se todo o agradecimento pela vida do filho tivesse se reunido naquele gesto. Ele apoiou uma mão entre as tranças suaves, fechou os olhos e se entregou a uma sensação que, em todos os anos de estudo e plantões, jamais imaginara.

Amara riu baixo, um som profundo que vibrou nas paredes do quarto. Mas a risada lhe faltou quando Mateo, levado por um impulso que não controlava, a virou e se encaixou contra ela.

O mundo se reduziu a calor e a um aroma limpo e selvagem ao mesmo tempo, a sabão rústico e a ervas. Ela se preparara para aquele momento; o pressentira e se perfumara com cuidado, e agora esse cheiro lhe invadia os sentidos de um modo que o embriagava.

Amara gemeu, longo e trêmulo, enquanto a boca e as mãos dele percorriam cada curva daquele corpo monumental. As marcas que os anos haviam deixado em sua pele, longe de parecerem um defeito, eram sentidas sob os lábios dele como o mapa de uma vida inteira. Em seu êxtase, pareciam tão belas quanto o resto dela.

Logo as carícias não bastaram. Um dedo, untado com a própria umidade dela, encontrou o centro de seu prazer e depois desceu mais, até o lugar mais estreito e proibido. Amara prendeu o fôlego ao sentir a pressão, e um gemido rouco lhe escapou quando ele venceu a resistência com uma firmeza que a fez arquear-se.

— Isso, doutor… assim — ofegou, agarrando-se aos lençóis ásperos.

Não demorou a chegar um segundo dedo, preparando-a com uma crueza que a incendiava ainda mais. Seus gemidos se tornaram agudos, quase súplicas.

— Por favor… não mais dedos — pediu, voltando o rosto para ele, os olhos turvos —. Me preencha, doutor. Preciso senti-lo inteiro.

Essas palavras foram a faísca final. Mateo, cegado por um desejo que jamais conhecera, subiu na cama com movimentos bruscos e se acomodou contra a entrada que os dedos haviam aberto.

***

Entrou devagar no começo, dominado entre a prudência que ainda lhe restava e a urgência que o arrastava. Amara deixou escapar um som longo, metade dor, metade prazer, quando ele avançou, implacável, dentro daquele espaço tão apertado. Ele não queria machucá-la. Queria posse, uma afirmação brutal daquilo que lhe estava sendo oferecido.

Ela gritou, uma mistura de sobressalto e gozo agônico, enquanto o corpo se adaptava à invasão. As unhas se cravaram no tecido. E então Mateo começou a se mover, marcando um ritmo profundo e selvagem que fazia a cama de madeira ranger em protesto.

Já não era o médico compassivo da clínica. Era um homem tomando o que lhe entregavam, perdido em um ato primitivo que os deixava aos dois ofegantes e encharcados na penumbra.

O quarto era um eco de respirações ásperas, do rangido surdo da cama, do choque úmido da pele contra a pele. Ele se retirava quase por completo e voltava a se enterrar de um só impulso, até o fundo, até bater contra os quadris largos dela, que tremiam a cada impacto.

— Meu Deus, doutor! — gritava Amara entre gemidos quebrados, os dedos amassando os lençóis com força desesperada.

Para ela, era uma revelação dolorosa e gloriosa. Fazia anos, tempo demais, desde que um homem a tocara assim, e nunca com essa intensidade. A sensação de plenitude beirava o insuportável, abria-a de novo, reclamava um território que há muito permanecia em silêncio.

Mateo, surdo a tudo exceto ao prazer que o invadia, sentiu o corpo se tensionar em direção a um ponto sem volta. O calor, a pressão, os gemidos abafados dela: tudo se juntava numa tempestade que subia pelo baixo-ventre.

— Vou… — conseguiu rosnar, o ritmo perdendo toda a coordenação, tornando-se espasmódico.

Amara percebeu. Conhecia a linguagem dos corpos e soube, pela forma como ele pulsava dentro dela, que estava à beira. E, num gesto de pura avidez sensual, querendo ficar com tudo o que ele lhe daria, apertou. Retesou cada músculo com uma força quase sobre-humana, uma contração deliberada que tentou retê-lo, não deixar escapar nada.

O efeito foi imediato. Um grito rouco escapou do peito de Mateo. Seu corpo sacudiu e, com o último impulso profundo, parou, cravado no mais fundo dela, liberando-se em ondas quentes que a inundaram por dentro.

Amara gemeu longamente, sentindo aquele calor se espalhar em seu interior mais recôndito, marcando-a, preenchendo-a. Seu corpo inteiro tremia com as sacudidas dele, apertando-o ainda mais a cada espasmo.

Quando Mateo desabou sobre as costas dela, exausto e sem fôlego, ainda unido a ela, Amara sorriu de leve contra o travesseiro. O médico que salvara seu filho agora levava consigo algo dela. Uma memória de fogo que nenhum dos dois esqueceria.

Lá fora, o sol terminou de cair e o quarto afundou numa penumbra morna. Nenhum dos dois falou por um longo tempo. Não havia necessidade. O que haviam dito com palavras na clínica ficara pequeno diante do que acabavam de dizer sem nenhuma.

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