O que ouvi atrás da porta da minha mãe
Minha mãe acordava antes de todo mundo. Era uma certeza com a qual eu tinha crescido, parte do ritmo imutável da nossa casa: ela primeiro, sempre, sem despertador nem esforço aparente. Quando eu era pequena e descia para tomar café de pijama, ela já estava acordada havia horas. Café pronto, roupa estendida, pronta para o dia com aquela energia tranquila que levei décadas tentando imitar sem nunca conseguir completamente.
Por isso aquela manhã me causou tanto estranhamento.
Eram cinco e meia. Levantei com o celular na mão, desliguei o alarme antes que tocasse por completo e saí para o corredor escuro. Nada. Nenhum cheiro de café, nenhuma luz acesa na cozinha, nenhum som de água ou de passos. Apenas o silêncio pesado de um apartamento em que todos ainda dormiam.
Na noite anterior tínhamos tido uma reunião de família, daquelas que começam às sete com boas intenções e terminam depois da meia-noite porque ninguém tem coragem de ser o primeiro a ir embora. Minha mãe estava divorciada havia vários anos e mantinha um relacionamento com um homem que eu ainda não conhecia muito bem. O nome dele era Marcos, e ele era de poucas palavras, discreto, do tipo que não ocupa mais espaço do que precisa. Naquela noite ele dormiu lá, algo que fazia poucas vezes. Eu aceitava isso sem comentários. Não tinha nada contra ele; simplesmente ainda não havíamos construído o tipo de intimidade que permite ficar à vontade com alguém dentro de casa.
Caminhei de meias até a porta do quarto da minha mãe. Ia bater, pensando que ela tivesse dormido demais por causa da noite anterior, quando ouvi a voz dela do outro lado.
No começo não entendi as palavras. Apenas o tom: muito baixo, contido, aquele timbre específico das conversas que não querem ser ouvidas. Fiquei com a mão levantada, a alguns centímetros da madeira.
— Você não vai levantar logo? — ele perguntou.
— Vou — disse minha mãe. — Me dá um instante.
Houve uma pausa. Eu não me mexi.
— Eu queria ter certeza de que todo mundo ainda está dormindo — ela acrescentou.
E então entendi que ela não estava falando de nós. O tom deixava isso claro, e o que disse em seguida terminou de confirmar:
— Estou vendo que sim — disse minha mãe, com uma voz que eu não reconhecia completamente. Mais baixa, mais deliberada, com algo parecido com satisfação antecipada. — Olha como você está. Duro como uma pedra.
Uma risada curta. Suave.
— Como eu não estaria assim? — Marcos respondeu. — Com tudo o que você tem. Estou de pau duro desde que vi você sair do banho ontem à noite.
— Cala a boca — disse minha mãe, embora fosse evidente que não falava sério.
— Esse corpo — ele continuou. — Esses peitos. Essa bunda. Eles me deixam fora de mim desde ontem à noite. Ontem você chupou meu pau até a metade e me deixou assim, sua safada.
— Porque eu queria deixar você assim de duro esta manhã — ela murmurou. — Com o pau a ponto de explodir. Olha o que você provoca. Põe a mão na minha boceta. Toca nela agora.
Eu deveria ter ido embora. Sempre existe um instante preciso nessas situações, uma breve janela em que ainda é possível recuar sem ter ouvido nada que não possa ser desouvido. Quando reconheci esse instante, ele já tinha passado. Fiquei onde estava, com as costas apoiadas na parede fria do corredor e os pés imóveis.
— Olha como eu acordei — minha mãe murmurou. — Enfia os dedos. Abre minha boceta.
A resposta dele foi inaudível no começo, mas depois veio um gemido baixo e seco, seguido de um estalo molhado que não deixava dúvidas sobre o que estava acontecendo do outro lado da porta. O som de dois dedos entrando e saindo de uma boceta encharcada. Reconheci imediatamente e senti o sangue subir ao rosto.
— Como você está molhada — ele disse. — Está escorrendo por todo lado. Você está pingando, porra.
— Desde ontem à noite — minha mãe respondeu. — Desde que senti você duro contra a minha bunda quando se deitou. Não consegui dormir pensando nisso. Enfia outro. Enfia o terceiro. Abre bem.
Não havia o menor sinal de vergonha naquela voz. Era quase uma constatação, o mesmo tom com que ela diria que ia chover ou que precisava fazer compras. Encostei-me um pouco mais na parede e olhei para o teto do corredor. O mesmo teto de sempre. A mesma mancha de umidade no canto, que havia anos não aumentava nem desaparecia. Ouvi o ruído inconfundível dos dedos dele remexendo na boceta da minha mãe, o gotejar pegajoso, a respiração entrecortada com que ela recebia cada investida da mão.
— Assim, assim, assim — minha mãe sussurrou. — Um pouco mais fundo. Sobe. Aí. É aí. Enfia até os nós dos dedos.
— Quer que eu coma sua boceta?
Minha mãe disse que sim. Não exatamente com palavras, mas ouvi como ela abriu as pernas sobre o colchão, como mudou de posição, como a cabeceira da cama bateu secamente contra a parede quando ele se colocou entre as coxas dela. Depois veio o barulho. Um barulho específico, impossível de confundir: uma boca comendo uma boceta encharcada sem o menor comedimento. Chupadas longas, a língua trabalhando plana e rápida, os lábios dele sugando o clitóris da minha mãe com uma fome que se ouvia do corredor.
— Ai, seu filho da puta — ela murmurou. — Assim. Chupa assim. Não para de chupar.
Eu apertava os punhos contra a parede. Mantinha os olhos fixos no teto e a boca seca. Minha mãe dava instruções curtas e precisas em voz baixa, com uma autoridade que eu nunca tinha ouvido fora de uma cozinha. “Aí. Assim. A língua inteira. Enfia dentro. Agora para cima, para cima, no clitóris. Chupa. Chupa com força, porra.” Uma sequência de palavras que era um mapa exato do que acontecia do outro lado daquela porta.
— Seu clitóris está ficando duro outra vez — ele resmungou, de boca cheia. — Está inchando entre os lábios. Está enorme.
— É seu — ela gemeu. — Todo seu. Continua. Um dedo dentro enquanto você chupa. Isso. Assim. Assim, porra.
Eu a ouvi gozar. Não foi um grito, mas algo muito mais contido e, justamente por isso, mais obsceno: uma respiração cortada em pedaços, um tremor na voz, um “eu gozo, eu gozo, estou gozando” dito entre os dentes contra o travesseiro, e depois um espasmo longo que se manifestou no ranger da cama e num gemido abafado que durou vários segundos. Marcos continuou lambendo até que ela afastou a cabeça dele com uma risada nervosa.
Minha mãe tinha cinquenta e três anos. Era alta, de costas largas, com o cabelo escuro começando a clarear nas têmporas, e se recusava a tingi-lo porque dizia que para isso ainda chegaria a hora. Eu sempre a considerei bonita daquela maneira como aceitamos como dado objetivo aquilo que está perto demais para enxergar com verdadeira perspectiva. Uma beleza que existe, mas que nunca terminamos de processar porque é simplesmente parte da paisagem cotidiana.
Naquela manhã ela deixou de ser parte da paisagem.
— Vem aqui — ouvi-a dizer. — Traz esse pau. Deixa eu chupar um pouco antes.
— Porra, mulher.
— Fica de joelhos em cima de mim. Enfia na minha boca. Isso. Inteiro.
O que veio depois foi o som úmido, guloso, sem enfeites, da minha mãe mamando o pau de Marcos de boca aberta. Ouviam-se os estalos da saliva, as batidas curtas da cabeça contra a garganta, a respiração rouca dele tentando não gozar cedo demais. De vez em quando ela se afastava e falava com a voz rouca.
— Que delícia de pau. Grosso. Grosso de verdade. Olha como brilha. Todo molhado com a minha saliva.
— Se você continuar assim, vou gozar na sua boca.
— Ainda não. Ainda não. Eu quero ele dentro.
— Enfia — disse minha mãe.
A frase atravessou o corredor com uma clareza que fez meu estômago se contrair.
— Sua filha não vai ouvir a gente?
— Isso é problema meu — ela respondeu, sem um grama de dúvida. — Me vira de lado. Enfia por trás, assim. De conchinha. Assim você pode segurar um peito e tapar minha boca se for preciso.
Ouvi o colchão ranger enquanto se ajeitava, o breve atrito de dois corpos procurando o ângulo, e então o som inequívoco de um pau entrando até o fundo numa boceta molhada. Um gemido longo, apertado entre os dentes, o dela. Um suspiro grave, o dele.
— Ai, meu Deus — ela murmurou. — Inteiro. Enfia inteiro. Até as bolas. Assim.
— Você está apertadíssima.
— É que passei a noite inteira fechada, esperando por você. Se mexe. Se mexe devagar primeiro.
Começou o movimento regular da cama. Um vaivém baixo, contido, o quadril dele batendo suavemente contra a bunda dela num ritmo que eu conseguia contar. Minha mãe segurava os sons com um esforço audível na tensão de cada um: a contenção de quem sabe que precisa ficar quieta e consegue, mas só pela metade, deixando escapar o que não pode reter. Um “ah” atrás do outro, curtos, agudos, cada um coincidindo com a investida.
— Segura meu peito — ela gemeu. — Belisca meu mamilo. Forte. Mais forte. Assim.
— É assim que você gosta?
— Assim, seu puto. E agora mete mais forte com esse pau. Arrebenta comigo. Enfia até o fundo.
O ritmo mudou. As pancadas ficaram mais secas, mais profundas, e o estrado começou a ranger numa cadência que não deixava margem para interpretação. Minha mãe estava pedindo que ele metesse com força, e ele estava metendo. Ouvi o chapinhar da boceta da minha mãe recebendo cada estocada, o som úmido e grosseiro da carne molhada batendo contra a carne, e, acima de tudo, a voz dela, aquela voz que eu tinha ouvido a vida inteira dando instruções sobre coisas banais e que agora dava instruções sobre como queria ser fodida.
— Não para. Não para. Continua assim. Exatamente assim. Ai, meu Deus, continua assim, porra.
— Hoje acho que vou gritar — ela murmurou depois, com a voz quebrada.
— Morde o travesseiro.
— Já estou mordendo — minha mãe respondeu.
Havia algo estranhamente revelador em ouvi-la daquele jeito. Não perturbador no sentido de que fosse errado, mas no sentido mais literal da palavra: perturbava uma ordem que eu havia construído sem perceber que a estava construindo. Minha mãe era a pessoa que sempre sabia o que fazer, que nunca perdia o fio, que tomava decisões com uma eficiência que às vezes chegava a me cansar. E ali estava ela, mordendo o travesseiro para não gritar enquanto era fodida por trás, pensando em não me acordar mesmo naquele momento.
Havia algo naquele cuidado que era mais íntimo do que qualquer conversa direta que tivéssemos tido.
O ritmo se intensificou. Ouvi quando mudaram de posição, o roçar dos lençóis, o grunhido dele se ajeitando outra vez.
— Fica de quatro — Marcos disse, com a voz completamente rouca. — Mostra essa bunda.
— Enfia de novo. E não tira até gozar. Enfia até o fundo. Isso. Ai, assim.
As pancadas recomeçaram, desta vez sem qualquer disfarce. O estrado rangia a cada investida, a carne batia contra a carne num slap úmido e ritmado, e minha mãe gemia dentro do travesseiro com um som abafado e agudo que escapava apesar da mordaça improvisada. Eu conseguia imaginá-la sem querer: apoiada nos cotovelos, a bunda levantada, as costas arqueadas, recebendo Marcos com uma entrega que não se parecia com nada que eu tivesse imaginado nela.
— Mais forte — ela resmungou. — Mais forte, porra. Arrebenta comigo. Quero sentir esse pau o dia inteiro.
— Você vai gozar de novo.
— Sim. Sim. Quase. Enfia mais fundo. Puxa meu cabelo.
— Assim.
— Assim. Ai, assim. Estou gozando. Gozando com você dentro de mim. Não para. Não para. Não para.
E por um longo momento o mundo parou. Minha mãe soltou um som curto e muito baixo, perfeitamente controlado até o limite do que se pode controlar, um gemido apertado contra o edredom, um tremor que se transmitiu ao colchão. Marcos continuou metendo nela sem piedade, e alguns segundos depois ouvi a respiração cortada dele, um grunhido gutural, e as palavras:
— Vou gozar. Onde?
— Dentro — minha mãe gemeu. — Dentro, dentro. Esvazia tudo dentro de mim. Não tira.
O grunhido final foi longo e grave, coincidindo com uma última pancada seca dos quadris. Ouvi a respiração desfeita dos dois, o silêncio pesado que vem depois, e então, bem baixinho, a voz da minha mãe.
— Fica assim um pouco. Ainda não tira. Quero sentir você pingando dentro de mim.
— Você é louca.
— Eu sei.
Foi então que meu alarme tocou.
O som rompeu tudo. Ouvi movimento imediato do outro lado da porta, minha mãe pronunciando o nome dele em voz muito baixa, alguém se levantando, o som de roupas sendo ajeitadas. Afastei-me pelo corredor em direção ao meu quarto, com o coração mais acelerado do que eu gostaria de admitir e uma umidade pegajosa entre as coxas que não ousei nomear.
***
Esperei dez minutos antes de ir ao banheiro. Abri a torneira de água fria e passei o rosto por mais tempo do que o necessário. Depois me olhei no espelho sem saber exatamente o que estava procurando.
Quando saí para o corredor, minha mãe apareceu um instante depois. Usava uma toalha enrolada na cintura e uma camiseta fina de alças. Os mamilos apareciam sob o tecido com a naturalidade despreocupada de quem não está pensando nisso. O cabelo estava solto e levemente despenteado, e ela tinha a mesma expressão de sempre: serena, prática, concentrada na próxima coisa que precisava fazer.
— Bom dia — disse ela, abrindo o armário do corredor sem olhar para mim. — Hoje você precisa entrar cedo?
— Às oito — respondi.
Ela assentiu. Encontrou o que procurava e foi para o quarto. Fiquei parada na soleira do banheiro, com a escova de dentes na mão, ouvindo o som dos passos dela se afastando.
Ela tinha essa capacidade. A de passar entre estados completamente diferentes sem deixar transparecer a mudança. A mulher de vinte minutos antes, que implorava ao amante para gozar dentro dela, e aquela que me perguntava sobre meus horários de trabalho eram a mesma pessoa, e ela transitava entre as duas com uma fluidez que me deixou sem argumentos.
Tomei café da manhã em pé e mais rápido do que de costume. Quando saí, Marcos estava na cozinha com uma xícara de café e o celular na mão. Ele me cumprimentou com um gesto tranquilo, eu retribuí e atravessei a porta para a rua sem dizer mais nada.
***
No metrô, com os fones de ouvido colocados e os olhos voltados para o túnel escuro refletido na janela, tentei organizar o que sentia.
Não era exatamente desconforto. Era algo mais parecido com um reajuste de imagem, como ter de recalibrar algo que você acreditava conhecer bem. Eu havia vivido vinte e seis anos com uma ideia da minha mãe que era real, mas incompleta. A que acordava cedo, organizava tudo, a eficiente, a que nunca perdia o controle de nada. E aquela outra, que mordia o travesseiro enquanto era fodida por trás e pedia ao parceiro que despejasse toda a porra dentro da boceta: aquela também era real, também era ela, e as duas conviviam sem nenhuma contradição que eu pudesse apontar.
Não havia nada de errado nisso. Eu sabia disso racionalmente. E, no entanto, a distância entre entender algo com a cabeça e terminar de assimilar pode ser muito maior do que se imagina.
Pensei no cuidado com que ela havia contido cada som. Na maneira como dissera a Marcos que, se fosse gritar, usaria o travesseiro. Em como, mesmo enquanto gozava empalada no pau dele, eu estivera presente em sua cabeça: não como um obstáculo, mas como alguém que ela não queria perturbar. Havia algo naquela mistura específica de desejo e consideração que me revelou mais sobre quem minha mãe era do que qualquer conversa que tivéssemos tido nos últimos anos.
Naquela noite jantamos juntas. Marcos não estava. A conversa foi a de sempre: o trabalho, as notícias, a vizinha do segundo andar que continuava deixando o patamar imundo. Em algum momento da sobremesa, minha mãe pousou a colher e me olhou.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não — respondi. — Estou cansada.
Ela me observou por um segundo a mais do que o estritamente necessário e depois assentiu. Não insistiu. Essa era outra coisa que fazia bem: saber quando não insistir.
Depois de lavar a louça, fui para o meu quarto. Antes de fechar a porta, virei-me e a vi no sofá com um livro, os óculos de leitura postos, as pernas dobradas sob o corpo. Uma mulher tranquila em sua casa, completamente dona da própria vida, sem precisar que ninguém lhe dissesse como vivê-la.
Ela não era personagem de história alguma. Era minha mãe, com tudo o que isso implicava, e justamente por isso demorei bastante para dormir naquela noite.